23 julho 2010 às 12:35
De Volta de Paulínia
Depois de mais de uma semana trabalhando intensamente no III Festival de Paulínia (2010), estou de volta à rotina. Mas para mim foi o melhor festival até agora. Por várias razões não tive tempo para fazer o registro diário dos acontecimentos, mas isso ficou a cargo do meu colega aqui do R7, o Daniel Castro. Aliás, gostaria de registrar um ponto que acho importante. Quando foi convidado para ir, Daniel me escreveu e me consultou se teria problema, se não entraria em concorrência na área. Liberei-o não sem antes admirar sua ética, coisa rara hoje em dia no mundo e na imprensa. Daniel fez um ótimo trabalho (e como disse ao final se surpreendeu como era intensa a programação) e conquistou para sempre o meu respeito.
Este ano, Paulínia foi feito por alguns momentos que julgo inesquecíveis. Todo dia por volta do meio dia eu conduzia os debates, entre imprensa e público com os realizadores do filme concorrente do dia anterior (Ivan Melo, diretor do Festival e Maria do Rosário ficavam encarregados dos curtas e documentários). Sempre confessei aqui minha admiração pelos atores e em três oportunidades deixei eles se expressarem (o que não é muito comum em coletivas onde em geral ficam de figurantes). Primeiro no filme do Luiz Alberto Pereira (Gal) , o esquisito As Doze Estrelas (que brinca com os signos do zodíaco) que reuniu um elenco feminino maravilhoso, de diversas idades , quase todas pouco conhecidas. Desde os bons tempos de Walter Hugo Khouri que eu não via tanta mulher bonita num filme e por extensão na coletiva. Todas charmosas, talentosas demonstrando que não há falta de estrelas em potêncial no cinema, em particular aqui em São Paulo. São os cineastas que raramente sabem aproveitá-las.
Depois veio a coletiva de 5x Favela : Agora por Nós Mesmos, que depois iria ganhar o Grande Prêmio do Júri de melhor filme do Festival (aliás, merecido). Foi ali que eu finalmente entendi porque sempre o público e eu reclamamos um pouco dos filmes desse subgênero. É que eram sempre feitos de dentro para fora por intelectuais que impunham sua visão até colonialista sob o assunto.
Agora com a orientação de Caca Diegues (que sempre foi o mais aberto e inventivo dos cineastas surgidos com o Cinema Novo) apareceu uma nova geração de diretores vindos dessas comunidades. E que tem talento mesmo. O filme me lembrou muito aqueles neo-realistas que Vittorio De Sica fazia com o povo, estilo Milagre em Milão. Ou seja, com tanta verdade e poesia, humor e naturalidade, que são irresistíveis. Naturalmente alguns episódios são melhores que outros, mas não importa todos tem um excelente padrão e fizeram a platéia vibrar (acho mesmo que tem chance de fazer sucesso de público).
Mas voltando a coletiva, o elenco todo se expressou, por vezes de pé e fizeram discursos apaixonados, sinceros, por três vezes (juro) me trazendo lágrimas aos olhos. Como quando Flavio Bauraqui relembrou o racismo que sofreu na sua terra natal no Rio Grande do Sul. E com a encantadora Cíntia Rosa dizendo algo que me tocou. “As pessoas acham que por morar na comunidade nós somos infelizes, mas é meu lar e lá eu sou e posso ser muito feliz”.
Dila Guerra que foi a melhor coadjuvante não estava no dia mas roubou com sua graça a entrega dos prêmios. Enfim, é um filme que vai dar ainda muito pano para manga, como dizia minha mãe. Outro momento que me comoveu foi semelhante, depoimentos na coletiva, mas desta vez com o elenco jovem e carioca, muito adolescente de Desenrola, de Rosane Svartman, que também revelaram sua visão de mundo e do filme (e já demonstravam um promissor talento).
Finalmente no último dia, a fala de Jefferson De, diretor de Bróder (prêmio da crítica), de quem já tinha editado na Coleção Aplauso o roteiro de seus curtas, é estreante em longa e um dos raros negros que conseguiram passar para a direção. Gosto muito dele e aposto que fará uma bela carreira. Foi algo que disse Jefferson que me despertou para o evidente: Paulínia é sempre o reflexo da safra do cinema nacional, do que tem de melhor no ano (todos os concorrentes eram inéditos, inclusive os curtas, embora alguns tivessem participado de festivais no exterior).
Mais do que a qualidade dos premiados, o importante é que 2010 ficará marcado pela chegada dos novos talentos, dos cineastas diversificados, quase sempre vindo de origem humilde, do povo. Uma coisa há muito ansiada e que finalmente começa a suceder. Talento graças a Deus é uma dádiva e nasce em qualquer comunidade por mais pobre que seja. Agora finalmente esses artistas estão tendo a chance de encontrar seu espaço, sua voz, seu olhar.
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