13 agosto 2010 às 06:00
O sonho e o pesadelo da Dreamworks
Livros: The Men Who would Be King - An Almost Epic Tale of Moguls, Movies and a Company Called Dreamworks, de Nicole La Porte. Houghton Mifflin Harcourt 2010. (Os Homens que iriam ser Rei - Um Conto Quase Épico de Chefões, Filmes e uma Companhia Chamada Dreamworks)
Já faz tempo que não apenas os atores e diretores são astros e estrelas, merecendo manchetes, biografias, escândalos e livros. Hoje em dia, os altos executivos de grandes empresas também merecem essa honra ou desonra se preferirem. O que nos leva a pensar que basta fazer muito dinheiro para ser invejado e imitado, merecer a análise de sua obra, vida e estratégias. Sejam elas bem sucedidas ou não.
Este foi o livro de business da indústria do cinema que mais provocou furor nos Estados Unidos este ano porque ousou mexer num assunto ainda muito recente e sério: a tentativa de se criar um novo estúdio em Hollywood, coisa que não acontecia desde 1935, quando surgiu a 20th Century Fox.
E a prova da atualidade é ver esta semana as manchetes que já previnem a falência da MGM no próximo mês. Essa é a segunda vez que isso acontece. Na primeira, em 1968, a empresa cometeu o erro de vender todo seu acervo. Hoje quando se fala em MGM estamos nos referindo à antiga UA, United Artists. O que vem provar que ao contrário das estrelas de verdade, que não morrem nunca (ao menos enquanto sobreviver o celulóide), os estúdios nascem e morrem. Ou se recusam a dar certo como foi o caso da Dreamworks.
Antes de tudo é bom deixar claro que, em 490 páginas, o livro é uma decepção. A autora, ex-repórter do Variety (outro que está falindo), demonstra que não teve acesso a nenhum dos três moguls (o termo usado pelos americanos para se referir aos donos de estúdio, que eu traduzi como Chefão, porque da uma ideia aproximada do poder que eles têm).
Assim, o mais interessante deles, até por ser briguento e homossexual, é David Geffen, que o livro garante ser mega-milionário, não chega a coadjuvante, é mero figurante com meia dúzia de intervenções distantes (fiquei com a impressão de que ele havia ameaçado processar).
De Steven Spielberg, a toda hora ela lembra os defeitos (exige respeito, gosta de tratar os colegas artistas com deferência, não aprecia conflitos e, principalmente, zela por sua fama e prestígio).
Então, o livro acaba se concentrando mais em Jeffrey Katzenberg, que ficou responsável pela parte de animação do estúdio (o livro repete várias vezes que é baixinho, teimoso, vaidoso, o mais pobre do trio e que errou muito produzindo fracassos como A Estrada Para Eldorado, Spirit e Simbad).
Ou seja, a obra não é uma narrativa de um “insider”, mas de alguém que cobriu apenas os fatos públicos desde quando resolveram criar um estúdio chamado Dreamworks, que fosse favorável aos criadores e não aos comerciantes. A Dreamworks nasceu em outubro de 1994 (e prestem atenção que depois do nome tem que vir sempre as iniciais SKG, referente aos três donos). Spielberg não precisa de introdução, mas Geffen era grande produtor de disco e cinema, e Katzenberg era o executivo desempregado que foi mandado embora da Disney (depois ganhou o processo que moveu contra o estúdio!).
De fontes diversas conseguiram levantar U$ 2 bilhões de capital. Mas os erros foram se sucedendo (que no final das contas demonstram que Spielberg pode ser um diretor genial, mas não tem a mesma luz como produtor. A margem de erros dele é muito alta). O primeiro filme que produziram foi a aventura de ação e espionagem, O Pacificador (The Peacemaker), de Mimi Leder (quem mesmo? Era afilhada de Spielberg e já voltou para a TV), com Nicole Kidman e George Clooney. O próprio Spielberg fez para eles seu pior filme Amistad (também seu maior fracasso). Erraram ainda na primeira fornada com Paulie (papagaio falante), o divertido Pequenos Soldados, de Joe Dante, Impacto Profundo (novamente Mimi), Um Ratinho Encrenqueiro, de GoreVerbinski, com Nathan Lane (uma comédia esquisita), e o primeiro desenho que foi uma vergonhosa imitação de outro que a Disney estava fazendo que era Formiguinhaz (98), em vez de Vida de Inseto, da Pixar. O erro maior foi, porém, insistir no velho método de fazer desenho, quadro a quadro, em vez da animação por computadores, digital que foi desenvolvida pela Pixar.
A verdade é que errando nesse primeiro ataque, a Dreamworks demonstrou que era comum, mortal, fazia filminhos e não tinha grandes ambições. Condenou-se a eventual morte. E dali em diante, nada deu certo. Nunca conseguiram montar os estúdios em Playa Vista, e todos os filmes seguintes tiveram de ser em co-produção com alguém. Houve um instante mesmo em que eles se animaram quando conseguiram ganhar Oscars de melhor filme (Beleza Americana, 1999, Gladiador, 2000), animação (Shrek, 2001) e melhor diretor (Spielberg por O Resgate do Soldado Ryan, 1998).
A magia, porém, havia se perdido, o sonho trincado. Querem a prova? Hoje vocês não vão procurar um filme da Dreamworks como se fosse algo especial, garantia de qualidade. E quando percebeu isso, o próprio Spielberg ficou discreto para que o naufrágio não o atingisse pessoalmente.
Em dezembro de 2005, a Dreamworks foi comprada pela Paramount (e não a Universal, que Spielberg sempre considerou sua alma mater). O que significou o fim dela como estúdio independente. Nunca conseguiu produzir filmes suficientes e com lucro que fosse capaz de cobrir seus altos custos de manutenção. Se perceberem, hoje estão deixando-a morrer aos poucos discretamente, sem alardear o fracasso.
Nesse meio tempo houve até outro estúdio que abriu (Revolution Studios, ligado a Sony de Joe Roth) e que já fechou também e fez alguns dos piores filmes dos últimos anos. Ou seja, o negócio de cinema é difícil e por isso mesmo que é fascinante. A história da Dreamworks daria um livro incrível, cheio de conspiração e traições, sonhos frustrados. Mas esta ainda não é a obra.
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