30 setembro 2010 às 12:22
Morre outra lenda do cinema, Tony Curtis (1925-2010)
Tony Curtis, a biografia
Ser bonito pode ajudar muito uma carreira, tanto para homem quanto mulher. Foi o que aconteceu com Tony Curtis, que foi para Hollywood completamente despreparado. Era um garoto ambicioso de família de emigrantes judeus húngaros do Bronx que levava o nome de Bernard Schwartz , nascido em 3 de junho de 1925. Fazia o tipo chefe de gang, na época justamente onde surgiam os filmes sobre delinquentes juvenis.
A vida toda ele nunca perdeu um sotaque muito forte do bairro, mesmo quando fazia filmes de época. Quando foi para Hollywood, para a Universal, lhe mudaram o nome, primeiro Anthony, depois Tony Curtis, dando-lhe pontinhas que serviram como treinamento. O curioso é que foi o público, as fãs que os descobriram, enviaram cartazes para o estúdio e assim o transformaram em astro. Muita gente esqueceu, mas ele foi dos últimos heróis de filmes de capa-espada, às vezes, fazendo dupla com a ruiva Piper Laurie, desde O Príncipe Ladrão.
Por uns tempos, foi o pretty boy por excelência, de olhos claros, cílios marcantes, bom físico. O que o diferenciou de outros galãs da época é que Tony nunca foi homossexual como Rock Hudson ou suspeito, como Robert Taylor.
Metido a machão, ele transava com todas as mulheres possíveis, o que se tornou um problema quando se casou com a estrela da Metro, Janet Leigh (1927-2004) - entre 1951 a 1962, era o casamento perfeito para as revistas de fãs. Mas nem tanto. Ele a deixaria por uma alemãzinha, Christine Kaufman, que conheceu no set na Argentina de Taras Bulba, e do casamento resultaria a filha Jamie Lee Curtis (Halloween) que também virou estrela de cinema, mas que sempre teve com o pai uma relação tumultuada. Ele se casou seis vezes e a última, com Jill Vanderberg, desde 98, sua viúva.
O que não faltava a Tony era força de vontade e até mesmo disciplina. Quando se observa a filmografia dele, abaixo, observa-se que sua ascensão foi lenta, mas firme, aperfeiçoando-se na comédia (com a ajuda de mestres como Blake Edwards) e na vida social. Ele era amigo íntimo de Sinatra e seu Clã, de John Kennedy, de Kirk Douglas e Burt Lancaster, também produtores que o ajudaram quando preciso. Kirk em fitas como Spartacus, Burt dando-lhe o salto para o estrelato sério que foi Trapézio.
Chegou a desenvolver mesmo um estilo que se aproximava de Cary Grant, seu ídolo e ocasional parceiro como em Anáguas a Bordo. Tudo isso o levou a seu maior sucesso, que foi sem dúvida, a possivelmente melhor comédia de todos os tempos: Quanto mais Quente Melhor, de Billy Wilder, com Jack Lemmon e Marilyn Monroe, de quem foi amante durante anos, sem compromisso. Ele insinuou que o filho que ela esperava durante as filmagens poderia ser dele.
Como ator dramático, ele foi sempre subestimado e certamente isso o magoou. Fez ótimos trabalhos que a Academia desprezou ou ignorou, como em O Sexto Homem, onde fez um herói índio, como assassino em O Homem que Odiava as Mulheres tendo apenas uma indicação como melhor ator por Acorrentados, aliás, merecida. Mas hoje todos concordam que seu melhor momento foi no filme A Embriaguês do Sucesso, onde era um agente sem escrúpulos que trabalhava para um colunista corrupto (Lancaster).
Se teve bons momentos na carreira, o excesso no consumo de drogas e sexo tem seu preço e, na virada dos anos 70, ele foi perdendo o tipo, tornou-se um sujeito esquisito, até mesmo feio, sem o menor gosto para se vestir ou se comportar, meio cafajeste, meio cafona. Sua carreira de repente mergulha num caos de tal forma que nos últimos anos nada fez de nem ao menos suportável. Foram filmes de sobrevivência, por vezes abomináveis. Eu já o conheci neste momento, em Cannes, onde até fiquei assustado quando ele mostrava uma exposição de pintura (que virou seu hobby), aliás quadros horríveis. Ele tentou exibi-los no Brasil, mas ninguém se interessou em patrocinar a exposição e não posso culpá-los.
Veja a ironia: o rapaz bonito acabou se tornando um senhor muito feio, sem energia, vivendo das glórias passadas, com mulheres cada vez mais vulgares. Apesar disso, foi um dos maiores galãs do cinema e tem meia dúzia de filmes inesquecíveis. O bastante para enternizá-lo como uma lenda do cinema.
Tony morreu em sua casa em Las Vegas, de enfarto, depois de uma batalha longa contra uma doença pulmonar (em 2006, teve pneumonia muito grave). Tinha 85 anos.
Filmografia
Como Anthony Curtis: 1949 - How to Smuggle a Hernia Across the Border de Jerry Lewis (filme desconhecido sem confirmação). Almas Abandonadas (City Across the River, de Maxwell Shane). A Viciada (The Lady Gambles, de Michael Gordon). Baixeza (Criss Cross, de Robert Siodmak), Traficantes da Morte (Johnny Stool Pigeon de William Castle).
1950 - Entre o Amor e a Morte (Woman in Hiding, de M. Gordon. Só voz). E o Mulo Falou (Francis de Arthur Lubin). I Was a Shoplifter de Charles Lamont. Serras Sangrentas Sierra de Alfred E. Green. Winchester 73 (Idem) de Anthony Mann.
Como Tony Curtis daqui em diante: Os Cavaleiros da Bandeira Negra (Kansas Raiders, de Ray Enright).
1951 - O Príncipe Ladrão (The Prince Who Was a Thief, de Rudolf Maté).
1952 - Tormento da Carne. Flesh and Fury de Joseph Pevney). E o Noivo Voltou (No Room for the Groom de Douglas Sirk). O Filho de Ali Baba (Son of Ali Baba de Kurt Neumann).
1953 - Houdini, o Homem Miraculoso (Houdini, de Rudolph Maté). Alma Invencível. (The All American de Jesse Hibbs). Lábios que Mentem (Forbidden, de Rudolph Maté). Cabeça de Praia (Beachhead de Stuart Heisler ).
1954 - A Um Passo da Derrota (Johnny Dark, de George Sherman). O Escudo Negro de Falworth (The Black Shield of Farworth, de Douglas Sirk).
1955 - Dominado Pelo Crime (Six Bridges to Cross, de Joseph Pevney). Três Marujos em Paris (So This is Paris de Richard Quine). No Reinado da Guilhotina (The Purple Mask de Bruce Humberstone). O Vício Singra o Mississipi (The Rawhide Years de Rudolph Maté). Brutos em Fúria (The Square Jungle, de Jerry Hopper).
1956 - Trapézio (Trapeze de Carol Reed).
1957- Hienas do Pano Verde (Mister Cory, de Blake Edwards). A Embriaguez do Sucesso (Sweet Smell of Sucess, de Alexander McKendrick). Os Olhos do Padre Tomasino (The Midnight Story, de Joseph Pevney).
1958 - Vikings, Os Conquistadores (The Vikings, de Richard Fleischer). Só Ficou a Saudade (Kings Go Forth, de Delmer Daves. Acorrentados (The Defiant Ones, de Stanley Kramer). De Folga Para Amar (The Perfect Furlough, de Blake Edwards).
1959 - Quanto Mais Quente Melhor (Some Like it Hot, de Billy Wilder). Anáguas a Bordo (Operation Pettitcoat, de Blake Edwards).
1960 - Quem Era Aquela Pequena? (Who Was That Lady? de George Sidney). A Taberna das Ilusões Perdidas (The Rat Race, de Robert Mulligan). Spartacus (Idem de Stanley Kubrick). 1961 - O Grande Impostor (The Great Impostor, de Robert Mulligan). O Sexto Homem (The Outsider, de Delbert Mann).
1962 - Taras Bulba (Idem, de J. Lee Thompson). Vinte Quilos de Confusão (40 Pounds of Trouble, de Norman Jewison).
1963 - A Lista de Adrian Messenger (The List of Adrian Messenger, de John Huston). Pavilhão 7 (Captain Newman M.D. de David Miller).
1964 - Quando Paris Alucina (Paris When it Sizzles de Richard Quine, sem crédito). Monsieur Cognac (Wild and Wonderful, de Michael Anderson). Um Amor do Outro Mundo (Goodbye, Charlie, de Vincente Minnelli). Médica, Rica e Solteira (Sex and the Single Girl, de Richard Quine).
1965 - A Corrida do Século (The Great Race, de Blake Edwards). Boeing Boeing (Idem de John Rich).
1966 - A Câmara dos Horrores (Chamber of Horrors, de Hy Averback , sem crédito). Com Minha Mulher, não Senhor (Not With My Wife, You Don’t , de Norman Panama). Um Marido de Morte (Arriverdeci , Baby! ou Drop Dead Darling, de Ken Hughes).
1967 - Não Faça Ondas (Don’t Make Waves, de Alexander MacKendrick)
1968 - O Cinturão da Castidade (La Cintura di Castitá, de Pasquale Festa Campanile). O Bebê de Rosemary (Rosemary’s Baby, de Polanski, só voz). O Homem que Odiava as Mulheres (The Boston Strangler, de Richard Fleischer).
1969 - Os Intrépidos Homens e seus Calhambeques Maravilhosos (Monte Carlo or Bust, de Ken Annakin).
1970 - Corruptos e Sanguinários (You Can’t Win’em All, de Peter Collinson). Vamos Fazer a Guerra (Suppose they Gave a War and Nobody Came, de Hy Averback).
1971/72 - The Persuaders (série de TV).
1973 - A Terceira Garota da Esquerda (The Third Girl on the Left, TV, de Peter Medak).
1975 - O Conde de Monte Cristo (The Count of Monte Cristo, de David Greene, TV). Lepke, o Assassino (Lepke, de Monahem Golan).
1976 - O Último Magnata (The Last Tycoon, de Elia Kazan).
1977 - Casanova & Cia (Idem, de Franz Antel).
1978 - Sextette a Grande Estrela (Sextette, de Ken Hughes). Manitou - O Espírito do Mal (The Manitou, de William Girdler). A Garotada vai ao Japão (The Bad News Bears Go to Japan, de John Berry).
1979 - Erro Fatal (Title Shot, de Les Rose). 1980 - Tremenda Enrascada (It Rained All Night the Night I Left, de Nicolas Gessner). A Maldição do Espelho (The Mirror Crack’d, de Guy Hamilton).
1978/81 - Vegas (série de TV).
1982 - Othello, El Comando Negro, de Max Boulolis.
1983 - Where is Parsifal?, de Henri Belman. Brainwaves, de Ulli Lommel.
1985 - Malicia Atômica (Insignificance, de Nicolas Roeg).
1986 - Balboa (Idem), de James Polakof. A Princesa da Máfia (The Mafia Princess, TV, de Robert E. Collins). O Rei da Cidade (Club Life, de Norman Vane). Banter, de Hervé Achuel. Tragédia em Três Atos (Murder in Three Acts, de Gary Nelson, TV).
1987 - O Piano Mágico, de Sparky (Sparky’s Magic Piano, só voz).
1988 - Der Passagier - Welcome to Germany de Thomas Brasch.
1989 - Charlie (TV, de Jack Bender). O Fim do Planeta Marte (Lobsterman from Outer Space, de Stanley Sheff). As Aventuras de Tarzan em Nova York (Tarzan in Manhattan, TV, de Michael Schultz). Midnight, de Norman Vane. Walter & Carlo I Amerika, de Stephensen e Mikkelsen.
1990 - Thanksgiving Day (TV), de Gino Tanascecu.
1991 - Alvo Mortal (Prime Target, de Heavener e Phillip J. Roth).
1992 - Um Natal Diferente (Christmas in Connecticut, de Arnold Schwarzenegger, TV). Trama da Lei (Center of the Web, de David A. Prior).
1993 - Vingança Eterna (The Mummy Lives, de Gerry O’Hara). Nu em Nova York (Naked in New York, de Daniel Algrant).
1994 - Bandit contra o Crime Organizado (Bandit: Beauty and the Bandit, TV, de Hal Needham),
1995 - Os Imortais (The Immortals, de Brian Grant).
1997 - Brittle Glory, de Stewart Schill. Caçadores de Perigo (Hardball, de George Eschbamer).
1998 - Stargames, de Greydon Clark. Lois & Frank, de Alexander Rockwell.
1999 - Por uma Boa Briga (Play it to the Bone, de Ron Shelton).
2002 - Reflections of Evil, de Damon Packard. 2007 - The Blacksmith and the Carpenter (so voz).
2008 - David and Fatima, de Alain Zaloum.
2011 - Morella
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