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31 outubro 2010 às 06:00

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O melhor de Wim Wenders

Wim O melhor de Wim Wenders

Tivemos a presença na Mostra Internacional de São Paulo do diretor Wim Wenders, que contribuiu para o pôster e a exposição de fotos, e este parece o momento apropriado para relembrar alguns de seus melhores trabalhos.

Wim formou com Werner Herzog e Rainer Fassbinder a trinca de diretores alemães mais influentes do cinema de seu país e de sua geração (anos 70/80). Profundo admirador do cinema americano, em especial o cinema noir e o diretor Nicholas Ray, nasceu em Dusseldorf em 14 de agosto.

Largou os estudos de medicina e filosofia para dedicar-se a cursos de cinema. Estudou na Escola Superior de Cinema e Televisão em Munique e depois em Paris, onde frequentou todas as cinematecas. Entre 1968 e 72, ele escreveu crítica s para a revista Filmkritik e para o jornal Die Sueddeutsche Zeitung.

Wim Wenders 21 O melhor de Wim Wenders

Em 1971 formou a Filmverlag der Autoren, uma organização que permitiu que diversos jovens diretores alemães produzissem e dirigissem seus filmes. Em 1975, Wenders estabeleceu sua própria produtora. A admiração pelo cinema americano levou-o a fazer O Amigo Americano (um filme noir com roteiro baseado em um livro de Patrícia Highsmith) um documentário sobre Nicholas Ray, no qual chegou a filmar a sua morte uma obra de ficção sobre a vida de Dashiell Hammet, com produção de Coppola e alguns desentendimentos entre os dois e Paris, Texas (uma visão europeia do interior dos Estados Unidos, que lhe deu a Palma de Ouro em Cannes.

Em 1987, ele se casou com a atriz Solveig Dommartin, com quem fez alguns filmes (depois da separação, ela também se tornou diretora). Alternando documentários (Buena Vista Social Club, rodado em Cuba, foi o primeiro musical gravado em vídeo digital que foi bem-sucedido artisticamente) com produções mais ambiciosas (Mel Gibson depois se arrependeu de lhe ter produzido o desastroso O Hotel de Um Milhão de Dólares), fez também Asas do Desejo, um filme sobre anjos em Berlim, que virou cult no Brasil e foi refilmado pelos americanos como Cidade dos Anjos (City of Angels), por Brad Silberling, em 1998, com Meg Ryan e Nicolas Cage.

Os Melhores

No Decurso do Tempo (Im Lauf der Zeit/ King of The Road, 1976)

Preto e Branco. Com Rüdiger Vogler, Hanns Zischler e Lisa Kreuzer.

No Decurso do Tempo 2 O melhor de Wim Wenders

Um técnico que conserta projetores de cinema nas cidades do interior da Alemanha auxilia um homem que sofreu um acidente de carro e está abalado pela separação da esposa. Representa a fase inicial da carreira do diretor. Ele ficou famoso por “filmes de estrada” como esse, que tem o charme de mostrar os velhos cinemas decadentes do interior (alguns viraram pornôs). O filme é sem frescuras; apenas uma história simples e sem grandes lances de dois solitários. Tudo narrado de forma poética e impressionista, ainda que lenta. Curiosamente tem cenas de nudez e até um momento explícito raríssimo no cinema.

O Amigo Americano (Der Amerikanische Freund, 1977)

Com Dennis Hopper, Bruno Ganz, Samuel Fuller, Nicholas Ray, Gerard Blain e Lou Castel.

O Amigo Americano O melhor de Wim Wenders

Jonathan Zimmermann, que trabalha com molduras em Berlim, fica amigo de Ripley, que trabalha com quadros forjados. Jonathan é procurado por um francês que, argumentando que este tem pouco tempo de vida, lhe dará uma fortuna caso realize dois assassinatos, um no metrô de Paris, outro em um trem da cidade.

Um dos primeiros sucessos internacionais de Wenders, que aproveitou um livro da hoje ainda mais famosa Patricia Highsmith e seu personagem de Mr. Ripley, feito aqui por Dennis Hopper, com jeitão de cowboy e ainda magro, efeito das drogas. Na época o livro ainda não tinha sido publicado, era manuscrito e, para o protagonista, Wenders pensou antes em John Cassavetes.

Originalmente, a autora não gostou do filme, mas com o tempo voltou atrás. Ripley seria melhor vivido depois por Matt Damon e John Malkovich em fitas posteriores (e também por Delon em O Sol por Testemunha). Mas o filme tem jeitão de cult (antes de existir esse conceito) com uma fotografia muito elaborada, com cores predominantes e a participação e atores de diversos realizadores alemães e franceses, com destaque para dois veteranos americanos: Ray (no começo como o forjador) e Fuller (no trem).

Na verdade, foi refeito depois como Ripley's Game por Liliana Cavani, em 2002 e como O Retorno do Talentoso Ripley, com Malkovich. Ganz faz o herói com leucemia.

Asas do Desejo (Himmel uber Berlim, Der/ Wings of Desire/Les Ailes du Désir, 1986)

Com Peter Falk, Bruno Ganz, Solveig Dommartin, Otto Sander e Curt Bois.

Asas do Desejo O melhor de Wim Wenders

Em Berlim, dois anjos perambulam pela cidade tentando ajudar as pessoas, já que conseguem ouvir seus pensamentos. Mas um deles se apaixona por uma trapezista e deseja se tornar humano. Esse é o filme mais querido do diretor alemão, Wenders, talvez por coincidir com o surgimento da moda de acreditar em anjos (de todos os tipos).

Premiado em Cannes como melhor diretor, melhor filme na Mostra Internacional de São Paulo (onde virou Cult antes do resto do mundo), melhor diretor no European Film Awards, etc.

Teve uma boa e romântica refilmagem americana, com Meg Ryan (Cidade dos Anjos, 1998), e uma continuação dispensável e muito fraca do mesmo Wenders Tão Longe Tão Perto (1993).

É um bom achado misturar preto e branco e cores (até porque Berlim está mesmo quase sempre cinzenta) e, embora seja simpático, pouco tem a ver a trama paralela com o ator Falk, como ele mesmo, rodando um filme na cidade e sendo o único que pode sentir, mas não ver os anjos. Ouve-se pensamentos alheios até deflagrar a história central que é prejudicada pela péssima atriz Solveig (1961-2007), mulher do diretor na época. Imagens realmente notáveis.

Paris, Texas (Idem, 1984)

Com  Harry Dean Stanton, Nastassja Kinski, Dean Stockwell, Aurore Clément, Hunter Carson.

Paris Texas O melhor de Wim Wenders

Travis, um homem que recupera a memória, volta para encontrar o filho que ficou com os cunhados. E junto com ele, vai tentar reencontrar a mãe.

Palma de Ouro em Cannes, este é ainda o melhor e mais famoso filme dele. Embora longo e lento, foi escrito conforme ia sendo rodado, inspirado nas crônicas de motéis de Sam Shepard. Wenders mostra uma América desconhecida, revelando o kitsch e a poesia dos motéis, do fundo de quintal, das estradas, no que é basicamente um road-movie. A fotografia é tão bonita, que por vezes parece um quadro hiper-realista.

Antológica trilha musical de Ry Cooder com solos de guitarra. O menino Hunter Carson é filho da atriz Karen Black. Nastassja só aparece nos 45 minutos finais como uma garota de programa, mas tem a melhor interpretação de sua carreira. Principalmente numa longa tomada de oito minutos sem corte. Raro papel central para o eterno coadjuvante Harry Dean Stanton. O título se refere a uma cidadezinha chamada Paris, que fica no Estado do Texas.

Buena Vista Social Club (Idem, 1999)

Com Ry Cooder, Ibrahim Ferrer, Ruben Gonzalez, Eliades Ochoa, Omara Portuondo, Compay Segundo.

Buena Vista Social Club O melhor de Wim Wenders

O guitarrista Ry Cooder procura reencontrar e resgatar músicos cubanos antigos e esquecidos, fazendo-os gravar um novo disco e depois levando-os para show na Holanda e no Carnegie Hall, de Nova York. Indicado para Oscar de melhor documentário de longa-metragem (foi surpresa quando perdeu), este é o melhor filme do alemão Wenders, desde Paris, Texas (que por coincidência teve o guitarrista Ry Cooder fazendo a trilha musical).

Por insistência dele, Wenders seguiu todo o processo de gravação do disco, que usava o título de um antigo clube de dança cubano já desaparecido. Usando apenas uma câmera de vídeo Digital Betacam, conseguiu o mínimo de fala (os entrevistados se manifestam, não há narração, mas as imagens de Cuba decadente e bonita são impressionantes).

Tudo é mostrado com muita ternura e sensibilidade (a granulação da imagem a torna até mais real) além de ser musicalmente estupendo. Justificado sucesso também em CD da trilha e do disco solo de Ferrer. Há momentos inesquecíveis e singelos, que tocam realmente o espectador.

Estrela Solitária (Don't Come Knocking, 2005)

Com  Sam Shepard, Jéssica Lange, Tim Roth, Gabriel Mann, George Kennedy, Sarah Polley, Fairuza Balk, Eva Marie Saint, James Gammon.

Estrela Solitária lançamento O melhor de Wim Wenders

Veterano ator de faroestes, Howard larga uma filmagem no meio e volta para a casa da mãe. Vai procurar uma antiga namorada, Doreen, e descobre que teve um filho com ela.

Paris, Texas foi escrito justamente pelo dramaturgo e ator Sam Shepard, que recusou estrelá-la. Agora eles voltaram a se encontrar com Shepard também como ator (e trazendo ainda sua esposa Jéssica Lange), neste Estrela Solitária (título infeliz que lembra  o jogador Garrincha e o Estado do Texas, o que não tem nada a ver, já que se passa em Utah e Montana).

Melhor nem comparar com Paris Texas, apesar de algumas semelhanças também temáticas (lá um homem e uma criança procuram pela mulher e mãe desaparecida, aqui é um astro de cinema de faroestes, já meio decadente, meio Clint Eastwood). Enfim, o ponto de partida parece algum fato real que Wenders ouviu de algum veterano diretor que conheceu, tipo John Ford. E pediu para Sam expandir. Assim, o cowboy chamado Howard Spence se enche da filmagem e sai de onde está, no deserto de Utah, e vai procurar a mãe, que não encontra há muitos anos, e vive perto dali (Eva Marie).

Estrela Solitária O melhor de Wim Wenders

Ela menciona o fato de que ele deve ter um filho já adulto em Montana e ele parte para Butte, procurando a ex-namorada (Jessica), que não quer mais nada com ele. Mas o filho realmente existe (Mann), é músico e o recebe mal. Enfim, de quebra tem também uma outra moça (a ótima Sarah Polley) que pode ser sua filha (essa relação é mais bem tratada, de forma bem mais sutil). Não é melodrama e as situações são tratadas de forma discreta e por vezes até engraçadas. O filme tem seu clímax numa cena espetacular tecnicamente.

Na discussão na rua, quase ao final, passa uma nuvem e a luminosidade muda brutalmente. Em vez de refazer, Wenders resolveu deixar, mostrar a origem daquilo (o céu cor de chumbo) e ir adiante com a sequência, que coloca Sam sentando no sofá, esperando o tempo passar, ou seja, a noite chegando tudo muito bonito e poético.

Dali em diante, o filme engrena graças a algumas grandes figuras, como Tim Roth, que dá ironia ao personagem do detetive do seguro que vem atrás dele.

Ganhou melhor fotografia no European Film Award, onde teve mais três indicações.

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