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30 dezembro 2010 às 15:00

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Aparecida – O Milagre e 72 Horas

Aparecida - O Milagre. Brasil, 10. Direção de Tizuka Yamazaki.

Imagem do filme i Aparecida o Milagre i size 598 <i>Aparecida   O Milagre</i> e <i>72 Horas</i>

Foto: Divulgação

O fracasso (relativo) do filme vem confirmar o óbvio, não existe uma plateia católica como se define a espírita ou evangélica. É um público muito mais diluído, que ao menos não parece ter tempo para frequentar salas de cinema nesta época. Ou então simplesmente é mais exigente. Farejou que o filme era ruim, melodramático e antiquado, não muito diferente de alguma coisa que tivesse sido feito há cinquenta anos atrás  (na sala que assisti havia muitas senhoras  aquilo que chamávamos antigamente de beatas).

Na verdade, é uma falsa boa história.  Pense um pouco. Não há de fato um grande lance por trás da imagem, a  não ser aquela conhecida dos pescadores que a retiraram da lama do rio Parnaíba e a lenda de que o rio teria tido novamente peixe. Resultado: a sequência aparece como uma espécie de alucinação do protagonista Marcos (Murilo Rosa), muito mal encenada, com um nobre fantasma qualquer gritando que deseja peixe e o filho do herói sendo enforcado, enfim, uma sequência mal resolvida.

O único outro milagre possível é alguma coisa contemporânea e fictícia, que possa ser manipulada. E a decisão dos realizadores foi contar uma situação discutível que fosse resultar num milagre, oficial ou não. Mas por alguma razão, o elenco resulta desigual e inconvincente, as situações parecem falsas e mal resolvidas. Acho que foi correta a decisão de não se fixar nas festas de Aparecida, quando a cidade fica entupida de peregrinos e com jeito de mercado persa, ou algo ainda mais caótico, com comércio desenfreado.

Há pequenos flashes no começo mas nada que espante (isso já seria outro filme e provavelmente contra), em geral a Basílica (que por sinal não é nada bonita), aparece vazia, permitindo cenas isoladas (como o menino que perde o pai xingando a santa) onde há um esforço consciente de tentar tornar o lugar mais fotogênico, mais plácido. Quem conhece Aparecida sabe que há uma tentativa de evitar o lado mais feio da cidade (nem mostram a basílica velha e praticamente não há padres na história).

E se fixar num lugar atemporal (a casa do protagonista parece coisa dos anos 50, no meio de um parque, ou seja qualquer lugar). Mas o duro mesmo é acreditar nos personagens e em conflitos como o filho do industrial que prefere ser ator de rua, ou a coitada da Maria Fernanda Candido que tem o impossível personagem de uma secretaria assistente que é apaixonada pelo patrão (vejam que coisa nova). Colocaram na moça uma peruca ridícula (pelo jeito para deixá-la mais parecida com a Sophia Loren dos anos 60) e a obrigaram a dizer coisas como “você não deixa espaço interior para amar alguém!” que pode ser um clássico do mau diálogo nacional.

Há outras pérolas e grandes momentos de novela mexicana e nem mesmo Murilo Rosa, normalmente competente, escapa (talvez porque tenha que fazer alguém mais velho, compor um tipo totalmente fake de milionário infeliz).

Não consigo deixar passar em branco aqueles descuidos de cinema brasileiro, tipo 1) Leona Cavalli faz a primeira mulher de Murilo e não se sabe porque ainda se amam. Ela é pianista clássica e quando toca piano as mãos são dubladas por uma mulher que tem ao menos 20 anos mais (ou assim aparenta). 2) o menino que faz Murilo jovem (que até funciona), tem os olhos claros, os de Murilo são escuros.

Mas contei o santo mas não o milagre. É sobre uma família que vive em Aparecida e o filho deseja ser jogador de futebol mas o pai (Rodrigo Veronese, o melhor do elenco) não pode pagar uma chuteira. Isso o deixa revoltado e só bem mais tarde é que ele descobrirá a verdade: eles estão ali por causa de uma promessa a Nossa Senhora que teria salvado a vida do filho, quando nasceu prematuro.

Anos depois (o filme é contado em flashback), Marcos está tendo problemas com o filho rebelde, que já foi drogado (o que é passado meio por cima, sem dizer qual a droga, quando se sabe que esse é um problema que não se resolve assim tão fácil) e agora ser ator e não assumir o papel na empresa (aliás o pai tem toda razão em ficar aborrecido por ele não ter entregado um vídeo que tinha ficado de fazer! História mal contada).

Enfim, depois de uma das brigas o rapaz sofre acidente de moto e fica entre a vida e a morte num hospital. E daí obviamente vem o milagre, feito para fazer beatas e incautos chorarem. Nada contra milagre, até acredito em muitos deles. Mas não quando são mal contados num filme cujo maior mérito é que podia ter sido ainda muito pior.

72 Horas

filme 72 Horas <i>Aparecida   O Milagre</i> e <i>72 Horas</i>

Foto: Divulgação

Tudo que disse citando outros na apresentação eu concordo. Realmente é uma aula de como roubar carro, criar chave falsa, planejar fuga, ou seja, os nossos bandidos carinhosamente agradecem mais esta contribuição do cinema americano para a melhoria tecnológica da nossa criminalidade. Também acho que Elizabeth Banks não é pessoa certeza para ser a esposa. E não é digno de um cara vencedor do Oscar como o diretor Paul Haggis perder tempo num projeto tão medíocre quanto este. Por outro lado, tenho que admitir que o filme, depois de começar lentamente, mantém um clima de tensão e suspense bem interessante, fugindo do óbvio.

Dá a impressão de que o roteiro como acontece na vida real, não sabia bem para onde ir, estava num impasse com os protagonistas que compartilham com a gente. Faz uma paradinha para pensar no assunto e de repente toma um desvio optando por determinado tipo de final, até com uma reviravolta (acontece que há uma revelação feita mais ou menos a uma hora de projeção e outra no fim). Deixa a impressão de que havia uma outra conclusão menos feliz que foi descartada (na edição).

Mesmo assim há caminhos sem volta (o filme deixa a mensagem vigilante de que matar traficantes não tem problema, fazem até um serviço público). E a fita trivializa isso. Russell Crowe bem gordinho e barrigudinho ( o que é um consolo para nós que estamos no mesmo caso) esta menos apático que de costume, tem uma bela mulher num papel de nada (Olivia Wilde, aquela de Tron) e quem praticamente rouba o filme num papel pequeno é o grande, em todos os sentidos, Brian Dennehy.

Ou seja, o público sem pretensão até vai gostar do filme,  um thriller cheio de coisas discutíveis, mas que prende a atenção.

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