15 fevereiro 2011 às 06:00
Livro – Fragments
Editado por Stanley Buchtal e Bernard Comment. Farrar, Straus and Giroux. Nova York. 240 páginas
Normalmente eu não me preocupo muito com os inúmeros livros que vivem saindo sobre Marilyn Monroe, que não passam de reciclagem de velhas teorias de conspiração sobre sua morte ou assassinato. Ainda que me impressione muito a longevidade de um mito, já que Marilyn é provavelmente mais conhecida – e certamente mais respeitada – hoje do que em vida, quando muita gente a considerava uma piada. Apenas uma “bimbo”, como diziam.
Interessei-me por este livro justamente porque pretende mostrar um outro lado da estrela. Poucos sabiam que a vida inteira Marilyn escreveu. Cartas, pequenos poemas, entrevistas (preferia assim do que ao vivo), apontamentos. E que todo esse material depois de anos esquecido em velhas caixas, foi coletado e classificado por dois sujeitos o roteirista Bernard e o produtor Stanley (que é o conselheiro dos herdeiros de Marilyn, que são da família de Anna Strasberg). É verdade que há muitos erros de spelling (aquela coisa americana de soletrar errado palavras), mas há realmente algo curioso sobre os fragmentos íntimos do que ia na cabeça de Marilyn.
É curioso descobrir, por enquanto, que ao contrário do que se podia imaginar Marilyn era muito organizada, gostava de decorar suas casas e salas, anotando tudo onde devia comprar. Gostava de cozinhar e também anotava receitas favoritas. Quando preparava uma festa fazia uma lista de tudo que era necessário e como conseguir.
Como ela lutou a vida toda contra a imagem de loira burra, era sincera sua luta para adquirir a educação que nunca teve (e o livro mostra fotos dela sempre com livros na mão, inclusive o dificílimo Ulisses, de James Joyce) e chega a reproduzir as capas de alguns livros da estante dela (Tortilla Flat, de Steinbeck, The Unamable, de Samuel Beckett, Madame Bovary, The Sun Also Rises e A Farewell to Arms, de Hemingway, On the Road, de Kerouac, The Fall, de Albert Camus, etc).
Conta também que o princípio do casamento com o dramaturgo Arthur Miller começou a acabar quando ela por acaso leu um diário dele, onde este fazia várias restrições a ela (o que a deixou muito triste e decepcionada). Há também grande quantidade de poemas e pensamentos, que foram decifrados de rabiscos.
Sua última entrevista demonstra que não era nada reacionária, tinha ideias liberais e esperança no futuro, era anti-racista e feminista, era contra a bomba, defendida a psicanálise, as pessoas perseguidas e acreditava nos Irmãos Kennedy. Tudo levando a crer que não se matou, mas morreu acidetalmente por conta de dose excessiva de pílulas para dormir (que os americanos chamam de drogas prescritas por receitas). Uma frase comovente dela é quando escreve: eu sei que nunca serei feliz, mas eu posso ser alegre!
Os poemas não são nada especial, mas obviamente sinceros como este que diz, em tradução livre: “Eu acho que sempre tive medo de ser esposa de alguém porque a vida me ensinou que alguém nunca pode amar sempre outra pessoa, não realmente”.
O que ela nem ninguém poderia imaginar era sua longevidade. Serão ano que vem 50 anos de sua morte (em 1962) e Marilyn continua cada vez mais bonita e mais atual do que nunca.
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