5 março 2011 às 06:00
Coluna de DVDs

Áudio: Italiano. Leg: Port. Widescreen. Drama 115 min. Cor.1962. Itália/França. Lume. 14 anos.
Diretor: Valerio Zurlini. Elenco: Marcello Mastroianni, Jacques Perrin, Sylvie, Salvo Randone, Valeria Ciangottini.
Sinopse: História autobiográfica do escritor Vasco Patrolini (1913-1991), que, na Florença dos anos 30 e 40, recorda seu relacionamento com o irmão mais novo, que foi separado dele desde criança para ser criado por um inglês rico.
Comentários: A obra-prima do diretor Zurlini (1926-82) foi baseada em Dois Irmãos, do escritor que fez entre, outras coisas, a história de Rocco e seus Irmãos, parte de Paisá, de Rosselini, Cronaca di Poveri Amanti, La Viaccia e Mettelo.
O filme sai em esplendida cópia restaurada em technicolor, confirmando-se como clássico e, provavelmente, a melhor interpretação da carreira de Marcello Mastroianni. Mantendo-se fiel ao texto do autor, que é narrado em voz off pelo herói, reconstrói o relacionamento entre Enrico, que foi criado pela avó (a grande atriz francesa Sylvie), enquanto o irmão mais novo Lorenzo fica aos cuidados de um sir inglês que afasta os irmãos. Além disso, o rapaz é acusado injustamente de ser culpado pela morte da mãe no nascimento.
Este, com muita dificuldade, vai se tornando jornalista até que, aos 20 anos, Lorenzo passa por dificuldades. O inglês morre e ele ficou sem dinheiro, sem trabalho ou educação. Não sabe fazer nada e não consegue sustentar a esposa (Valeria, a menina do final de La Dolce Vita) e o filho.
Gravemente doente, ele é levado para um hospital durante a época da Guerra, e sua situação vai ficando cada vez mais difícil (o filme já começa com a morte de Lorenzo sendo anunciada por fone). Mas, no leito de morte, os dois quase se reconciliam. Um filme muito triste humano, que faz realmente chorar, mas feito sem uma gota de melodrama.
Ganhou o Leão de Ouro do Festival de Veneza (o fotógrafo Giuseppe Rotunno conseguiu um belo e único efeito impressionista na iluminação). Quem faz Lorenzo é o ator Frances Perrin (de A Moça com a Valise e Cinema Paradiso), depois consagrado como produtor (Z) e diretor (Oceanos). Austero, melancólico, belíssimo. Fotos.
Uma Estranha Ocasião ** (Quelle Strane Occasioni)

Áudio: Italiano. Leg: Port. Widescreen. Comédia. 95 min. Cor.1976. Itália/França Lume. 14 anos.
Diretor: Nanny Loy (que assina como Anonimo), Luigi Magni, Luigi Comencini. Elenco: Paolo Villagio,Valeria Moriconi, Nino Manfredi,Olga Karlatos, Giovanella Grifeo, Alberto Sordi, Stefania Sandrelli, Beba Loncar.
Sinopse: São três episódios:
Italian Superman - Italiano que vive na Holanda para sustentar a esposa acaba fazendo sexo explicito ao vivo. O problema é que ela vem se juntar ao show.
Il Cavallucio Svedese (O cavalinho sueco) - Pai hospeda moça sueca amiga da família com quem acaba dormindo e descobrindo segredos.
L’Ascensore (O Elevador) - Padre compartilha o elevador com uma bela mulher, mas tem problemas quando o elevador quebra e fica parado.
Comentários: Passou no Brasil com cortes (parece que a censura eliminou o primeiro episódio). Na verdade, já é a decadência da comédia à la italiana, que enveredou pela pornochanchada e que influenciou muito a similar nacional. A televisão concorria já com o cinema na Itália, e o jeito era produzir temas mais fortes. Pena que a técnica que antes era brilhante se perdeu e o filme resulta hoje feio, realizado sem cuidados na fotografia (o fato da moda dos anos 70 ter envelhecido mal tampouco ajuda).
O astro italiano Villagio nunca fez sucesso no Brasil e por isso fica mais difícil achar graça nesta história feia e grotesca, pura chanchada que brinca com o sexo explícito. Mesmo os mestres da comédia, Manfredi e Sordi, também não estão em seus melhores momentos. Um lançamento desnecessário. Filmografia.
Prisão de Cristal *** (Tras El Cristal/In a Glass Cage)
Áudio: Espanhol. Leg: Port. Standard. Drama. 110 min. Cor. 1987. Espanha Cult Classic. 18 anos.
Diretor: Agustin Villalonga Elenco: Marisa Paredes, Gunter Meisner, David Sust, Gisele Echevarria, Imma Colomer.
Sinopse: Um médico nazista expatriado, que fez torturas e experiências eróticas com meninos, tenta se matar. Ele, porém, sobrevive confinado num enorme pulmão de aço. Anos depois, um garoto que se apresenta como enfermeiro começa uma estranha relação com ele.
Comentários: Inédito em nossos cinemas, esse é um filme perturbador que mexe com temas que podem desagradar. O diretor é importante e ganhou os principais Goyas em 2011, com Pa Negre.
Mas, como bom espanhol, tem predileção por temas bizarros e ambíguos. Premiado em alguns festivais, resulta, porém, difícil para um público desprevenido. Foi a estreia do diretor num filme elegante, que parece ser mais do que uma mera história de vingança. O rapaz que chega e é tacitamente aceito pelo médico, aos poucos vai tomando conta da casa, mata a esposa do médico (Paredes, estrela frequente de Almodovar) e transforma o lugar numa espécie de bunker, enquanto vai lendo os diários do médico e reconstruindo suas façanhas.
É muito inquietante porque o vingador, aos poucos, assume a identidade de seu inimigo. Por vezes, a referência à pedofilia, campo de concentração, sadismo é demais para suportar. Mas o diretor, sem dúvida, revela talento.
Os Amores de Pandora **** (Pandora and the Flying Dutchman)
Áudio: Inglês . Leg: Port. Romance. Standard. 123 min. Cor. 1951. EUA/Ingl. Classicline. 14 Anos.
Diretor: Albert Lewin. Elenco: James Mason, Ava Gardner, Nigel Patrick, Sheila Sim, Mario Cabré, Marius Goring.
Sinopse: A linda americana Pandora é o objeto da adoração dos homens em um elegante porto da Espanha. Mas seu coração só balança quando aparece um misterioso capitão holandês.
Comentário: Já havia sido lançado antes pela Platina, em 2003. Mas vale a pena conhecer essa edição porque a cópia é restaurada e de incrível beleza. O drama romântico, sofisticado e extremamente elaborado foi um dos poucos filmes dirigidos pelo erudito Albert Lewin (1894-1968), que era formado em Harvard e Columbia, professor, expert em arte antiga.
Homem de confiança de Irving Thalberg na Metro, Lewin trabalhou, em geral sem crédito, em inúmeros filmes, tanto como produtor quanto colaborando em roteiros. Ele também dirigiu uma famosa adaptação de Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray (The Picture of Dorian Gray, 1945).
Aqui não apenas dirige, mas também escreve o roteiro, baseado em duas lendas. Da mitologia grega, a de Pandora, a moça que teria recebido dos deuses uma caixa com todos os males humanos e que, por curiosidade, abriu-a, espalhando-os pelo mundo. E a do Holandês Voador, o navio-fantasma que vaga pelos mares com seu capitão amaldiçoado, até que encontre uma mulher disposta a morrer por ele.
Lewin juntou tudo numa trama romântica e sobrenatural, estrelada por Ava (1922-90) em seu primeiro filme a cores, esplendidamente fotografada em Technicolor pelo grande inglês Jack Cardiff (1914-2009).
Foi por causa desse filme que Ava se apaixonou pela Espanha (tendo caso com o toureiro de verdade, Cabré, que está no filme) e onde moraria durante anos (isso também ajudou a acabar com o casamento com Sinatra).
Ela faz a bela Pandora, que muda seu comportamento em um porto espanhol, em 1930, quando chega um misterioso navio, aparentemente ocupado apenas por um melancólico holandês (feito com o habitual carisma e competência por James Mason (1909-84).
Sempre em um clima meio onírico, visualmente arrebatador, o filme mistura magia, romance, beleza e dor. que merece ser descoberto. Não é a toa que é considerado um dos filmes mais belos do cinema e o momento maior da beleza de Ava (1922-90). Lewin chamou seu amigo, o famoso artista e fotógrafo surrealista Man Ray para fazer o pequeno retrato de Ava usado no filme. Escreveu o papel sonhando interessar Greta Garbo, aposentada desde 1942 e que nunca mais faria um filme.
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