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28 março 2011 às 06:00

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Violência e Paixão: últimos dias no Cine SESC

violencia paixao2 <i>Violência e Paixão</i>: últimos dias no Cine SESC

Título original: Gruppo di Famiglia in um Interno/Conversation Piece
Drama. Widescreen 2.35:1. 121 min. Cor.1974. Itália. Diretor: Luchino Visconti (1906-76). Elenco: Burt Lancaster, Silvana Mangano, Helmut Berger, Dominique Sanda, Claudia Cardinale, Claudia Marzani, Stefano Patrizi, Elvira Cortese, Philipe Hersent, Romolo Valli, Giu Trejean, Enzo Fiermonte.

Sinopse: Professor de meia-idade, intelectual e colecionador de arte (Burt 1913-94), vive sozinho rodeado de quadros e tem sua paz perturbada quando uma família nobre mundana e turbulenta aluga o apartamento de cima. Mas aos poucos, despertam nele novos sentimentos.

Foi uma boa ideia do Cine Sesc importar  uma cópia de 35 mm deste mal lembrado clássico de Luchino Visconti (que chegou a sair em VHS e depois em DVD pela Versátil ) e que já esta passando há algum tempo numa única sessão às 19h. Engraçado que só agora me dei conta de que, desde sua estreia, não revia o filme (quando passou, houve cortes pequenos da censura, tirando dois ou três instantes de nudez de Helmut Berger).

A versão é falada em inglês por causa de Burt Lancaster, seu astro principal. Não se esqueçam de que, naquela época, todo o cinema italiano era dublado, não havia som direto por lá – hoje em dia já sucede isso – e, então, era comum atores de diferentes nacionalidades falarem sua própria língua e a dublagem posterior igualava tudo. Por isso havia tantas co-produções e a presença frequente de astros de Hollywood em decadência e em busca de trabalho.

Este foi o penúltimo filme de Visconti, que já estava muito doente (ele rodou mais um que foi O Inocente, 76, em cadeira de rodas, mas morreu antes de completar a montagem). Por isso que optou por esta história intimista, que rodou toda em interiores - em estúdio, o que fica muito claro aqui, parece peça de teatro - e basicamente em dois ou três cenários. Foi rodada uma única versão falada em inglês, como uma compensação para o amigo de Visconti, Burt Lancaster, por este ter sido dublado em italiano em O Leopardo/Il Gattopardo, 1963. Por causa disso é que esta que foi restaurada.

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É um bonito drama sobre a solidão e as relações humanas, sobre o contraste entre a intelectualidade vazia e a mundanidade efervescente de vida. Há também um sutil subtexto político, bem ao gosto de Visconti, em que discute abertamente a política da época (indústrias de Direita lutando contra comunistas e intelectuais, que afirmam ser de Esquerda, mas nada fazem para demonstrar isso). Lancaster tem uma excepcional interpretação, muito sutil, controlada como o professor anti-social, que foge das pessoas, substituindo-as pelas pinturas de grupo que o rodeiam (do gênero típico da pintura inglesa do século XVIII “conversation pieces”, daí o título em inglês, e o italiano se refere à mesma coisa), cujo conteúdo pode também servir como uma metáfora do grupo familiar em que ele acaba sendo inserido à força. Mas todo o elenco está muito bem, em especial Silvana Mangano (1930-89), que tem uma participação muito forte e bastante longa, como uma nobre mulher de industrial e que sustenta um gigolô jovem feito por Helmut Berger (o “muso” e companheiro do diretor na época, mais contido do que de hábito e cuja ambiguidade e mistério enriquecem bastante o papel).

É muito curioso ver o embate dos inspiradores de Visconti que ele procurou reunir num mesmo filme. La Mangano era sua velha amiga e cúmplice - uma mulher difícil, depressiva, morreu cedo de câncer no pulmão, abalada pela morte de um filho, único varão, em desastre de avião, que teve com o marido Dino de Laurentiis, que a tornou estrela, mas se divorciou dela. Ficaram casados desde 1949 a 88 e tiveram oito filhos. Foi Dino quem a transformou em estrela, inclusive com seu filme de marca, Arroz Amargo, 49. A neta de Silvana hoje é a grande estrela da culinária italiana nos EUA, Giada de Laurentiis, com o programa no Food Network.

Helmut Berger (1944-), que voltou recentemente muito envelhecido, marcado pela bebida e drogas, a trabalhar no cinema europeu, é austríaco e foi descoberto por Visconti quando era garçon num restaurante e foi selecionado como figurante para Vagas Estrelas da Ursa, que depois o colocou numa ponta em As Bruxas. Não era pobre, mas vinha de uma família de Salzburg que lidava com hotelaria. Ficaram juntos 12 anos, e Visconti fez para ele filmes como Os Deuses Malditos e Ludwig, onde se saiu muito bem. Mas a relação dos dois era conturbada, sendo que Berger era muito cruel com o mentor, só lhe dando o valor depois de morto. Publicou uma autobiografia Ich (Eu), em 98, onde trata a relação como casamento e se diz a viúva de Visconti. Em 94, casou-se com Francesca Guidato (de quem está separado hoje). Claudia Marsani (1973-), que faz a filha de Silvana, Lietta, havia sido Miss Teen Age Italy no ano anterior, nasceu no Quênia e fez só mais quatro filmes para então sumir. Stefano Patrizi (1950-), que interpreta Stefano, fez outros 19 filmes (alguns famosos como Esposamante, Leão do Deserto, A Travessia de Cassandra), mas preferiu se tornar produtor de importante e bem sucedida produtora de filmes publicitários, New Ways de Milão.Voltou a representar em 2006 com Quale Amore e 2008, com Chi Nasce Tondo (1973).

O filme tem ainda duas participações especiais não creditadas bem marcantes. Primeiro de Claudia Cardinale (1938- ), que faz a mulher de Lancaster. Ela trabalhou com Visconti em Rocco e seus Irmãos, Vagas Estrelas da Ursa e, naturalmente, em O Leopardo. Continua trabalhando e ativa. A outra é Dominique Sanda (1948- ), que foi descoberta por Robert Bresson, mas se tornou estrela nas mãos de Bernardo Bertolucci (que a usou em O Conformista, 1900) e De Sica (O Jardim dos Finzio Contini). Embora linda e comparada com Garbo, era apenas fotogênica e péssima atriz, o que demonstrou no resto da carreira que durou até 2001. Retornou ao cinema em 2007 com Suster N, um filme da Indonésia! Possivelmente, foi chamada para a ponta pelo produtor deste filme Giuseppe Bertolucci (1940-2005), que fez O Conformista e era primo de Bernardo.

Um detalhe curioso é que em momento nenhum no filme Helmut disfarça sua condição de homossexual efeminado, o que espanta o espectador menos avisado. Aliá, bem antes de A Gaiola das Loucas, ele diz a frase “Eu sou o que eu sou”.

Eis um caso raro no cinema, só houve antes um precedente semelhante, foi com Jean Marais (1913- 1998), que era ainda mais assumido na época em que foi o grande amor da vida do diretor e poeta Jean Cocteau (1889- 1963), o que também revelou em autobiografia. Só que o público na época do apogeu deles era mais ingênuo e não percebia muito. De qualquer forma, as duas duplas tiveram importância na história do movimento gay nas artes.

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Conclusão: numa revisão, o roteiro por vezes parece meio antiquado, em particular na discussão após o jantar, mas nos deixa a certeza de ser muito autobiográfico (história de Enrico Medioli, script dele, Visconti e a habitual parceira dele, Suso Cecchi D Amico), o que não deixa de ser estranho porque no DVD brasileiro saiu um featurette sobre Mario Praz (1896-1992), um professor na vida real que teria inspirado o protagonista (o que é assumido pelo próprio Praz).

A fama de Visconti de ser detalhista e um grande conhecedor de cenografia e arte se confirma na decoração espetacular do apartamento - Visconti na verdade era filho do Duque de Modrone e descendente da família real dos Visconti, que eram os príncipes da região de Milão (não esqueçam de que eles só perderam o poder na reunificação da Itália que sucedeu há apenas 150 anos atrás, antes era um monte de principados). Ou nos figurinos extremamente cuidados dos homens e mulheres, já com marcas famosas. E na trilha musical, com muito Mozart, Sinfonia Concertante k 364 e Vorrei SpiegarVi, Oh Dio!, cantada por Emilia Ravaglia. Uma curiosidade espantosa: de repente, na cena da orgia sexual, está tocando uma música de Roberto Carlos em versão italiana! (creditada como Testarda/La Mia Solitudine, cantada por Iva Zannichi).

Conclusão filosófica (colaboração de Germano Pereira): O anti-social representado pelo professor é o ponto de vista privilegiado, aquele que pode se distanciar das confusões imperantes do modo político e econômico que as pessoas viviam naquela época. E por que não dizer, ainda nos dias de hoje?

Através da perspectiva da arte, como um transeunte que perpassa no museu de quadros da vida, o professor, como aquele que nos ensina, apresenta ao público a dicotomia das extremidades – a luta interna do indivíduo ou dos coletivos querendo cada um a sua maneira defender o seu desejo, status político sem, no entanto, enxergar o Outro. A luta eterna entre intolerâncias de esquerdistas e burgueses reacionários. Ou dos desejos e repressões.

Outro tema do filme: o surgimento da libido adormecida deste velho intelectual que se encontrava refugiado em suas obras de arte e lembranças do passado idealizado que faz renascer uma esperança da libertação desse velho e, de certa forma, de nós mesmos.

O que ele vive é um fenômeno particular do processo da morte que acontece, justamente, em seu próprio reconhecimento de estar próximo da morte, reconhecer as limitações do processo da vida e dizer sim a sua velhice, a sua finitude, ao seu desfalecer. Isso mostra um lado positivo no filme quando reconhece neste intelectual esta possibilidade de devir. O filme reconhece na obra de arte, pois tudo, na verdade, enquanto símbolo, só existe na cabeça deste professor, além do caminho para a descoberta de todo tipo de conhecimento, seja ele intelectual, apreciativo, de afecção, sexual, familiar, problemático e por último, estético.

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