4 abril 2011 às 06:00
Lançamento em DVD EUA – The Boys: The Sherman Brothers’ Story
Lançamento em DVD/ EUA - The Boys: The Sherman Brothers' Story (2009).
Direção de Jeffrey C. Sherman e Gregory V. Sherman. Disney DVD. 102 min.
Nos últimos tempos, a Disney tem feito um trabalho de pesquisa histórica, que tem servido também para consolidar o seu prestígio, com uma série de documentários sobre a história do estúdio que não chegam ao Brasil (isto é, não são lançados comercialmente por aqui).
São quase como institucionais, mas sem o ranço do proselitismo. O melhor da série até agora é este The Boys, que conta a história da dupla de compositores mais importante de Hollywood (equivalente a Lennon & McCartney na música pop ou ainda Rodgers & Hammerstein no teatro), os Irmãos Robert (Morton Sherman - 1925) e Richard (M. Sherman - 1928).
E, por incrível que pareça, os dois guardaram um segredo que só foi revelado quando este documentário estreou nas salas americanas (saiu agora lá, em excelente edição cheia de extras em DVD). Só os amigos mais próximos sabiam que há mais de 20 anos os irmãos estavam brigados, não se falavam fora do trabalho a ponto de suas famílias não conviverem em festas ou cerimônias (cada uma sentando em lados opostos do recinto).
Os respectivos filhos resolveram fazer este filme sobre os pais, na esperança de que eles se reconciliassem (o mais velho T Bob mudou-se para Londres, onde exerce seu hobby de pintar e onde ajudou a transpor para o palco dois dos sucessos da dupla, Mary Poppins e Chitty Chitty Bang Bang). Eles orquestraram tudo de forma que o reencontro acontecesse quando os dois estivessem juntos na estreia de Mary Poppins na Broadway. Mas nem isso deu certo, os dois apertaram-se as mãos, um chamou o outro de Bro, foi chamado de Kid, mas ficou por isso mesmo.
O filme não chega a revelar direito as causas dessa mágoa profunda (Richard, ou Dick, chega a chorar com o poema do irmão), nascida de anos de rivalidade e fricção (há a teoria de que as boas canções nasciam dos conflitos entre os dois até o dia em que isso se torna insuportável. Um outake de uma entrevista chega a mostrar um detalhe de uma discussão).
Nesse sentido, este documentário não se parece com nenhum outro e acaba sendo muito emocionante e sensível, em especial para quem tem problemas de família com irmãos (e quem não os tem? Já ouviu falar na Síndrome de Caim?).
De qualquer forma, tem o grande mérito de fazer justiça a esses compositores quase desconhecidos, porque passaram a maior parte de suas vidas escrevendo músicas para os estúdios da Disney e, por isso, eram considerados autores de canções para crianças. E ganharam Oscars apenas por Chim Chrim Chree e trilha musical por Mary Poppins.
Mas não há no mundo quem não conheça de cor canções como Supercalifragilisticexpialidocious ou It´s a Small World da Disney World, composto especialmente para o brinquedo no parque.
Tudo começa com o pai da dupla, o compositor Al Sherman (1897-1973), que era neto de um emigrante judeu russo (um dos muitos expulsos pelo Progrom russo, o mesmo mostrado em Um Violinista no Telhado) e que se tornou compositor de canções otimistas interpretadas por Eddie Cantor ou Maurice Chevalier (ele sobreviveu com Dry Cleaning, a única que eu conheço é Hinky Dinky Pinky, cantada por Jimmy Durante).
Os irmãos não queriam formar dupla, já eram diferentes desde o começo. O mais velho, Bob, serviu na Europa na Segunda Guerra Mundial e tem a triste memória de ter sido o primeiro soldado a entrar no Campo de Concentração de Dachau que o marcou para sempre.
Mesmo assim, os irmãos se uniram compondo a princípio canções (o sonho de Bob era ser escritor de romances), fazendo músicas para Annette Funicello e Hayley Mills (a música favorita de Bob é On the Front Porch, do filme Summer Magic, cantada por Burl Ives, 1963).
Finalmente são descobertos por Disney que os torna empregados fixos do estúdio e os usa para qualquer serviço (a canção favorita de Disney era de Mary Poppins, Feed the Birds). E tem seus anos de maior glória, com, além dos mencionados, as músicas dos desenhos Winnie the Pooh, Mowgli, o Menino Lobo, Se a Minha Cama Voasse, Aristogatas.
Quando Disney faleceu, sentiram-se desprezados e foram trabalhar sozinhos com O Calhambeque Mágico/Chitty Chitty Bang Bang para Cubby Broccoli (produtor da série James Bond), o desenho A Menina e O Porquinho (Debbie Reynolds que até hoje Charlotte's Web é o disco mais autografado por ela em turnês), Snoopy volte para Casa, os musicais As Aventuras de Tom Sawyer e Huck Finn, The Slipper and the Rose; The Magic of Lassie, e depois novamente em Disney, com Tigrão, o Filme.
É uma carreira notável reconstituída com cenas de época, filmes caseiros, muitas entrevistas com a dupla e gente famosa como Ben Stiller (que é coprodutor), Angela Lansbury, o diretor John Landis, o maestro John Williams, Julie Andrews, Karen Dotrice (a menina de Mary Poppins), Johnny Whitaker (Tom Sawyer), Micky Dolenz (Monkees), Samuel Goldwyn Jr (curiosamente o melhor amigo dos dois irmãos), os compositores Sheldon Harnick, Alan Menken, Stephen Schwartz, Randy Newman, Maury Yeston. E Mais Hayley Mills, Debbie, o crítico Leonard Maltin, Dick Van Dyke, Lesley Ann Warren, Kenny Loggins.
Já contei que gostei especialmente dos extras que traz a chamada Sherman Bros Jukebox (onde mostram a origem de várias das canções, às vezes com interpretações alheias) e mais vários itens: Por que eles são chamados de The Boys? Todo mundo se referia a eles dessa forma no trabalho.
Como era o Estúdio Disney nos anos 60, escolhendo o elenco para Mary Poppins (Julie só aceitou o papel quando viu que realmente não iriam usá-la em My Fair Lady), O Processo (como os dois trabalham), Parques Temáticos, Roy Williams (caricaturista), A Arte de Bob (seus quadros), Celebração (todos elogiando a dupla).
Achei The Boys indispensável para quem gosta e acompanha música de cinema. É incrível como foi possível guardar o segredo da inimizade durante tantos anos e mesmo assim eles serem capazes de escrever canções tão felizes.
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