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26 abril 2011 às 06:00

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A Malvada – Lançamento em Blu-ray no Brasil

Acho que é inevitável que o fã de cinema aos poucos vá trocando os seus filmes favoritos por edições em Blu-ray, já que eles trazem o filme em alta definição (que veio para ficar e a coisa boa que é isso obriga os estúdios a restaurarem seus arquivos para que tenham a melhor qualidade de imagem e som possível!).

O fato de ser em preto e branco não atrapalha nada, porque a nitidez de detalhes permanece (ainda não me acostumei direito em distinguir as faces dos figurantes e perceber detalhes de roupa ou pele das pessoas). Esta edição da Fox foi presente do Ricardinho Domeneghetti, que lembrou que este está entre os dez melhores filmes que já assisti! Ela contem vários extras (listados lá embaixo) e a dublagem em português original da televisão.

A Malvada (All About Eve, 1950), de Joseph L. Mankiewicz.

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Bette Davis

Audio: Port, Ingl, Esp. Leg: Português, Espanhol, Inglês. Formato: Standard 1.33. 138 min. PB. 1950. EUA. Fox. Livre.

Diretor e roteirista: Joseph L. Mankiewicz.

Elenco: Bette Davis (1908-89), Anne Baxter (1923-85), George Sanders (1906-72), Celeste Holm, Thelma Ritter (1915-90), Gary Merrill (1915-90), Hugh Marlowe (1911-82), Marilyn Monroe (1926-62), Barbara Bates ( 1925-69), Gregory Ratoff. Fotografia de Milton Krasner. Música de Alfred Newman. Montagem de Barbara McLean. Direção de Arte de Lyle Wheeler e George Davis

Sinopse: Numa festa de entrega de prêmios teatrais, vários personagens recordam como conheceram e se envolveram na vida da premiada, a atriz Eve Harrington, que começou carreira passando-se por fã, depois secretária e stand in (eventual substituta) de outra estrela teatral, Margo Channing.

Bastidores: O filme ganhou dimensões tão míticas que mereceu em 2000 um livro inteiro sobre suas filmagens e bastidores. A versão mais famosa é de que a história teria sido inspirada num caso parecido que teria acontecido com Tallullah Bankhead e Lizabeth Scott (mas com um veneno a mais, ambas eram lésbicas!). Mas o fato é que existiram outros casos semelhantes e parecidos (alguns citam a atriz inglês Peg Woffington).

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Gary Merrill, Thelma Ritter, Bette Davis e Anne Baxter

Nesta edição uma das matérias chama-se A Verdadeira Eve Harrington e revela que o fato teria sucedido com a estrela de teatro alemã Elisabeth Bergner e uma certa Martina Lawrence, que sempre jurou inocência. E que a história foi registrada por amigo de Bergner e seu marido, o diretor Paul Czinner, Mary Orr, que escreveu o texto que inspirou o filme: The Wisdom of Eve (A Sabedoria de Eve).

Quem ia fazer o papel central de Margo era Claudette Colbert, que foi obrigada a largá-lo quando machucou as costas, uma ruptura de disco durante o filme anterior, Feras que Foram Homens (Three Came Home, 50), também da Fox. Bette foi chamada às pressas e como tinha saído do seu estúdio, a Warner, esta foi a chance que ela necessitava (ela rodou tudo em apenas 16 dias).

Durante as filmagens, ela iniciou um romance com seu parceiro Gary Merrill (que faz o namorado diretor na fita), que resultaria num tumultuado casamento, principalmente por causa de seu alcoolismo que provocava cenas violentas). Sua voz rouca teria sido causada por “stress emocional” pelo fato de estar se divorciando na época de William G. Sherry (mas muitos acham que fez isso para ficar com a voz mais parecida com a de Tallullah, por essa razão também usou os cabelos soltos). Segundo Anne que diz isso num extra da edição; Bette achava que Gary tinha se casado com o personagem Margo e não com ela, e que isso também tinha sucedido com Bette!

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Gary Merrill, Anne Baxter e Bette Davis

O filme deu uma das primeiras oportunidades para Marilyn Monroe, naquele momento em ascensão para o estrelato. Anne Baxter reclamou muito da interação com George Sanders (que ela achava que só acordava depois da sétima vez que fazia uma tomada).

Em 1970, foi feita uma bem sucedida versão teatral e musical do filme, na Broadway, chamada Applause, de Charles Strouse e Lee Adams, inicialmente estrelada por Lauren Bacall (que ganhou o Tony por ele e também fez a versão de TV em 73), depois sucedida por Anne Baxter, Arlene Dahl.

O começo do filme Tudo sobre minha Mãe (1999), do espanhol Pedro Almodóvar, inicia com os protagonistas mãe e filho assistindo ao filme na TV e reclamando de seu nome espanhol. Mais tarde, essa mulher irá substituir às pressas uma atriz drogada (um pouco como na fita). Segundo Celeste Holm (a única viva do elenco central), no primeiro dia de filmagem ela chegou e deu bom dia para os colegas e Bette resmungou: Pombas, boas maneiras! Celeste disse que no resto do filme nunca mais dirigiu a palavra a Bette.

Comentários: Não deixa de ser curioso de que o melhor filme já feito sobre os bastidores do mundo do teatro tenha surgido exatamente no mesmo ano em que foi feito também o melhor filme sobre os bastidores do cinema, Crepúsculo dos Deuses. Mais interessante ainda é o fato de que o autor de A Malvada não fosse um homem de teatro como seria fácil supor mas inteiramente hollywoodiano (onde, aliás, fez toda sua carreira), Joseph L. Mankiewicz (1909-93). O que demonstra, ao menos, que os dois universos têm realmente muito em comum.

No Brasil, o filme ficou conhecido por um nome que dá uma impressão errada. A Malvada faz pensar imediatamente em Margo Channing/Bette Davis (e quando ela morreu jornais puseram “morreu a grande malvada do cinema”) quando na verdade o título se refere ao personagem de Eve/Anne Baxter. O filme por sinal se chama literalmente Tudo sobre Eve (All About Eve)- recordando que Eve, Eva seria também a primeira mulher, ou seja, “toda mulher”- e se a fita fica equilibrada entre Bette e Anne, se deve basicamente ao carisma de Miss Davis (cujo personagem desaparece no terço final).

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Bette Davis, Marilyn Monroe e George Sanders

Embora haja divergências quanto ao incidente que teria inspirado o roteiro, é fato que o mundo artístico está repleto de Eves que se aproximam de celebridades para subirem na vida (e em muitos casos, mesmo lhe roubarem marido e fortuna, além da fama). Para qualquer artista, A Malvada deveria ser um filme de cabeceira. Para saber o que se deve evitar.

Mankiewicz é admirado por seu brilhante texto e este filme confirma a inteligência de seus diálogos , sendo que alguns passaram a história do cinema, em particular, a frase de Margo quando decide beber durante sua festa (“apertem os cintos, esta vai ser uma noite agitada”)  e quando o crítico George Sanders apresenta Marilyn Monroe como formada na "Escola Copacabana de Arte Dramática” (uma brincadeira se referindo ao nightclub da época “Copacabana”).

É uma pena que as legendas brasileiras, ou todas em geral, tenham que resumir e cortem o mais saboroso de certas frases. Entre as mais célebres do filme estão (um pouco adaptadas, já que estão fora de contexto):

Se não há mais nada, sempre existe o aplauso.são como ondas de amor transbordam da plateia.

Bill tem 32 anos e aparenta isso. E vai continuar aparentando isso daqui a 20 anos. Eu odeio os homens.

Você estava sentimental e cheia de auto piedade. Estava magnífica.

Admito que já tive melhores dias mas você não pode me comprar pelo preço de um coquetel ou amendoins salgados

Que tal nos despedirmos? R- Assim que diz que é dramaturgo. Uma noite grávida de possibilidades e tudo que pensa é em dormir?

Margo descrita pelo crítico: Margo é uma estrela do teatro. Fez sua primeira aparição num palco quando tinha 4 anos em Sonho de uma noite de Verão fazendo uma das fadinhas. E entrou em cena, inesperadamente toda nua. Tem sido uma estrela desde então, uma verdadeira estrela. Nunca foi e nunca será nada menos e nada fora isso.

Bill - Você não tem nenhuma consideração humana! Margo- Me Mostra alguém humano que posso considerar a possibilidade.

Enquanto espera pode ler minha coluna, ela faz minutos passarem como horas...

Que pena que vamos perder o terceiro ato. Eles vão representá-lo fora de cena.

Eles fazem testes para a televisão? R- Querida, televisão não passa de meros testes...

E assim por diante.

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Anne Baxter e Bette Davis

A Malvada começa numa festa de entrega de prêmios, o Sarah Gibbons Award (nome fictício, mas que depois foi adotado por uma premiação do gênero, há uma longa matéria a respeito nesta edição.  Sarah realmente existiu e foi uma famosa atriz inglesa. O prêmio Tony, o Oscar do teatro só foi criado em 49, tarde mais para entrar no filme) que está sendo entregue para Eve. À moda de Cidadão Kane, cada um dos personagens centrais, começando com a mulher do dramaturgo, depois o crítico e assim por diante.

Sempre recordando a participação de Eve, sua vida e na ascensão de uma mulher, de inegável talento, mas que também pode ser ingênua a ponto de cair na chantagem do crítico e na cilada da ardorosa fã feita por Barbara Bates (um dos charmes do filme é concluir com um círculo que se fecha, mostrando que a vida é uma ronda permanente de traições).

Foi muito discutido o fato de Bette ter caracterizado sua Margo muito parecida com a da atriz teatral Tallullah Bankhead e hoje não parece haver dúvidas que isso foi proposital e muito bem sucedido (a carreira de Bette obteve novo impulso com o filme, mas na vida real sempre manteve uma amizade com a Eve, Anne Baxter. Eventualmente Anne até substituiria Bette na série de TV Hotel, quando está ficou muito doente).

Tallulah era o que se tinha de mais claro como um “monstro sagrado” e o impacto é imediato. Margo pode ser egoísta e difícil, mas é sempre uma figura humana e carente. Aliás, todos os personagens, por menores que sejam, deixam sua marca. Até Thelma Ritter, com suas poucas aparições como a camareira que nunca perde o bom senso (na versão teatral, esse personagem virou um homossexual com função mais humorística).

Todos estão no topo de sua forma e nunca melhores, em particular George Sanders, cujo personagem é quintessência de sua “persona” cínica (ele eventualmente se suicidaria deixando um bilhete dizendo que “estava por demais entediado com a vida”). A única restrição que se possa fazer é que Anne Baxter, ou seja Eve, por mais talentosa e jovem que fosse, não é páreo para Bette (mas melhor que a prevista Jeanne Crain, que não tinha nenhuma garra).

Embora já tenha mais de 60 anos, A Malvada é uma fita que não envelheceu porque os estereótipos que descreve nunca mudam, nem irão mudar. Em vez de criticá-los ou celebrá-los como poderiam fazer outros, Mankiewicz os mostra com humanidade, muito senso de humor e uma inegável paixão pelo teatro. Que qualquer espectador acaba por compartilhar.

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Thelma Ritter e Anne Baxter

Ainda é de A Malvada o recorde de indicações em toda a história do Oscar. Foram 14 indicações, recordem mantido empatado com Titanic, nada mal para uma fita em preto e branco (não esqueçam que na época havia divisão para filmes coloridos e preto e branco) sem efeitos especiais e mais  notável por suas interpretações. Tanto que cinco delas foram para os atores, fato raro hoje em dia.

Bette Davis e Anne Baxter dividiram os votos na categoria de protagonista e Celeste Holm e Thelma Ritter como atriz coadjuvante. O único vencedor foi George Sanders (melhor ator coadjuvante). Ganhou ainda como melhor figurino (em p&b), direção, roteiro, som e filme. Foi indicado ainda para montagem, trilha musical, fotografia PB e direção de arte PB.

Merece comentar o fato de que A Malvada foi o primeiro filme que indiciou duas atrizes centrais pelo mesmo filme (foi exigência de Anne, que não quis ser coadjuvante de novo, ela já tinha um Oscar nessa categoria por O Fio da Navalha). Isso acabou lhes custando o prêmio, já que as duas dividiram os votos e a estatueta foi para Judy Holliday por Nascida Ontem!

Hoje em dia A Malvada é considerado o melhor filme sobre teatro já produzido por Hollywood.

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Gary Merrill, Bette Davis, George Sanders, Anne Baxter, Hugh Marlowe e Celeste Holm

Extras desta edição: Comentários com Celeste Holm. Chris Mankiewicz (filho do diretor), Ken Gertz e outro com um autor/biógrafo, AMC Backstory (matéria do canal a cabo American Movie Classics sobre o filme). O Segredo de Sarah Gibbons (sobre o prêmio), A Verdadeira Eve, Mankiewicz - Uma Jornada Pessoal (excelente e longa biografia visual), Faixa única com a trilha musical, trailer, os prêmios, honras e conquistas do Oscar, vários cinejornais da época (premiação do Oscar, da revista Holiday, de look, pre-estreia), item de colecionador (entrevistas filmadas sobre o filme com Anne e Bette).

ps* Um detalhe que só agora percebi: o filme termina com a atriz Barbara Bates diante do espelho, numa excelente oportunidade para ela, que depois teria algum destaque em filmes como O Inspetor Geral, com Danny Kaye, Papai Batuta e A Família do Gênio, com Clifton Webb, Rapsódia, com Elizabeth Taylor, The Caddy/Sofrendo da Bola, com Jerry Lewis. Mas era vítima de uma tremenda timidez e insegurança, que a levaram a depressão chegando a ser despedida no meio de dois filmes. Foi depois tentar a carreira na Inglaterra na Rank, mas também não deu certo.

Barbara Bates actress <i>A Malvada</i>   Lançamento em Blu ray no Brasil

Barbara Bates

A atriz abandonou tudo e voltou para Denver, no Colorado, sua cidade natal, onde tentou empregos normais (assistente de dentista, secretária, enfermeira). Chegou a casar com namorado de infância, um locutor esportivo, mas seus problemas foram crescendo a ponto de se matar se fechando num carro ligado na garagem de sua mãe. Outra vítima de Hollywood, provando que o estrelato não é para os fracos.

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