29 abril 2011 às 06:00
Lançamento nos EUA em Blu-ray: Narciso Negro
Lançamento nos Estados Unidos em Blu-ray:
Black Narcissus (Narciso Negro)
Criterion Collection
Narciso Negro *****
Áudio: Inglês. Drama. Standard: 1.33.101 min. Cor. 1947. Inglaterra. Diretor: Michael Powell e Emeric Pressburger.
Elenco: Deborah Kerr, Jean Simmons, Flora Robson, David Farrar, Sabu, Esmond Knight e Kathleen Byron.
Sinopse: Cinco freiras inglesas são mandadas para um convento no Himalaia, onde uma presença masculina faz despertar vários traumas e tensões.
Comentários: Eu afirmo que é um dos filmes mais belos que já assisti na vida e um dos meus favoritos (que por sinal custei a descobrir que existia). Agora em edição remasterizada, mas também restaurada (e que passou em Cannes em 2005), em alta definição, ficou ainda mais bela e tocante. É mais uma prova da excelência do trabalho da dupla Powell e Pressburger, que formaram a produtora Archers e marcaram época com sua excepcional fotografia a cores.
É bom explicar: o cinema colorido foi revolucionado no final dos anos 30, começo dos quarenta, com a invenção do chamado Technicolor, que usava uma câmera com três negativos, três cores básicas, que depois combinadas davam um colorido brilhante e forte, um pouco artificial. Seu uso era muito caro e Hollywood utilizava esse colorido para seus filmes musicais e os rodados em exteriores (quando a bilheteria de um filme era garantida por sua estrela ou assunto, não precisava do Technicolor, que era visto como um reforço, uma atração a mais. Só nos anos 50 com a chegada do Eastmancolor é que tudo ficou mais fácil porque estes usavam apenas um negativo e era mais fácil de manejar).
A verdadeira questão é que os inventores do processo obrigavam a contratação dos técnicos do laboratório e, principalmente, da mulher do inventor, a Sra. Natalie Kalmus -reparem como ela é creditada nos letreiros dos filmes da época. Não alugavam o material sem ela. Só que esta exigia o cumprimento de certas regras e aos poucos os cineastas foram se rebelando, exigindo conforme a necessidade um colorido mais natural, mais matizado, menos padronizado.
Para cada caso uma solução nova. E foi através do trabalho do diretor de fotografia da Archers, o britânico Jack Cardiff (1914-2009), que pondo a Sra. Kalmus pela porta afora, conseguiu um resultado excepcional que é considerado o primeiro caso de colorido psicológico (ou seja, a cor retrata a emoção de cada cena, visivelmente inspirada na iluminação criada pelos grandes pintores no caso Vermeer, Rembrant e Van Gogh).
O resultado foi esta obra-prima do cinema britânico, realizada pelos diretores de outro clássico que viria a seguir, Os Sapatinhos Vermelhos e que durante muitos anos foi esquecida (Martin Scorsese foi grande admirador e defensor de Powell que iria se casar com a montadora dele, Thelma Schoonmaker, de 84 a 90, morte dele).
Foi premiado com Oscars de fotografia (para Jack Cardiff). Também ganhou Globo de Ouro de fotografia, atriz (Deborah) pelos críticos de Nova York. Cardiff, que era um modesto gênio, foi indicado ao Oscar também como diretor (Por Filhos e Amantes, 60, que era em preto e branco e pelas fotos de Guerra e Paz, 56, Fanny, 61, e depois ganhou um Oscar especial super merecido em 2001).
É importante ressaltar que o filme também levou o Oscar de direção de arte para o alemão Alfred Junge (1886-1964), e que fez de tudo de Ivanhoé, Adeus Mr. Chips a O Homem que Sabia Demais, de Hitchcock, e até Jew Suss e Adeus as Armas. As duas categorias são excepcionais e renovadoras, e a direção de arte recriou no estúdio Pinewood, um velho palácio na Índia (que foi antes Bordel) e até as montanhas. Com apenas um dia de externa muito rápida. O monastério é uma maquete e os efeitos especiais (que são aqueles feitos com vidro pintado e sobreposto a imagem, são excepcionais e muito admirados por Lucas e Spielberg).
Há experiências com a cor psicológica (quando uma freira enlouquece e vai desmaiar, a tela toda fica vermelha e também com a câmera subjetiva). Sem falar no incrível bom gosto nos enquadramentos e composições.
O filme foi muito ousado para a época (na América, cortaram os flashbacks da Madre Superiora).Todo o filme tem um clima de sensualidade reprimida que impressiona ainda hoje, em particular, ao usar a figura de um homem que aparece seminu (faz calor na Índia e ele usa shorts e camisa entreaberta, o que deixa as freiras perturbadas).
O ator escolhido, David Farrar (1908-85), tinha essa virilidade bem marcada, ainda que ao gosto da época. Com poucos músculos. Paralelamente há o romance entre um príncipe (o famoso ator juvenil Sabu, 1924-63, de Mowgli) e uma jovem mendiga (a belíssima e muito jovem Jean Simmons, 1929-2010, um fenômeno de feminilidade, que logo depois iria começar a ser Ofélia, do Hamlet de Olivier, se casaria com Stewart Granger e teria sucesso em Hollywood). A sempre excelente Deborah Kerr, 1921-2007, faz a madre superiora com sensibilidade e sua habitual classe, mas sem esconder a sensualidade (ela já tinha iniciado sua carreira em Hollywood, onde fez enorme sucesso e esta foi a razão porque rompeu seu romance com o diretor Powell. Mas Powell a esta altura já tinha começado outro caso com uma atriz do filme que foi Kathleen Byron, 1921-2009, que faz aqui a freira que enlouquece de paixão ,de tal forma, que o marido dela quando pediu divórcio citou como causa o romance com Powell!). Byron era uma mulher de beleza incomum, com nariz grande, mas que têm grandes momentos aqui (como a cena em que coloca transgressora o batom vermelho). Ela fez já senhora papéis em filmes como O Resgate do Soldado Ryan, Emma e O Homem Elefante.

É preciso mencionar também o grande trabalho da trilha musical, composta por Brian Easdale, 1909-95. que daqui em diante, faria parte da equipe fixa da produtora. Powell queria que seus planos sempre tivessem movimento (reparem como há sempre alguém correndo, ou o vento soprando) e que a montagem seguisse as indicações de uma trilha musical pré-gravada (ou seja, o tempo da música serve de base para a edição). Não é uma trilha romântica, mas cheia de tensão e clima acentuando o lado gótico da história.
Visual e dramaticamente Narciso Negro (um perfume vendido pelos ingleses e apreciado pelos hindus e que é citado no filme) é uma obra-prima inesquecível para ser admirada e discutida. Extras: a edição traz introdução feita em vídeo pelo diretor Frances Bertrand Tavernier, amigo pessoal de Powell; Comentários em áudio de Scorsese e Powell; Vídeo chamado The Audacious Adventurer feito por Tavernier; Um documentário com a equipe do The Archers, discutindo a realização do filme, o documentário premiado Painting with Light sobre Jack Cardiff, muito bem dirigido e produzido; trailer original e um folheto.
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