31 maio 2011 às 06:00
Argentina, aqui e por lá
Já está há algum tempo em cartaz também em nosso circuito de arte, um filme argentino que é bem interessante, foi premiado em Sundance e teria sido também escolhido o melhor do ano por lá. Ainda que já um pouco antigo.
O Homem do Lado (El Hombre del Lado, 2009).
Direção de Mariano Cohn, Gaston Duprat. 110 min. Com Rafael Sprelgeburd, Daniel Araoz, Eugenia Alonso, Ines Budassi.
Em Buenos Aires, atualmente está em cartaz o novo filme da dupla, mas que eu não soube reconhecer: Querida, Voy a Comprar Cigarrillos e Vuelvo, com o mesmo Daniel, e que se passa em diferentes países e lugares, mostrando o homem comum, que fez um acordo mágico e consegue retornar à juventude e revivê-la.
Dá vontade de ver porque a dupla de realizadores demonstrou talento fora do comum (Mariano é diretor de fotografia e eles fizeram juntos mais dois longas, Yo Presidente, 06 e El Artista,08). Fora documentário e um curta.
Rodado na cidade de La Plata e com um orçamento mínimo (praticamente se passa numa única casa e um pouquinho em um parque), mostra o que seria, segundo o filme, a única casa projetado pelo célebre arquiteto francês Le Corbusier que foi construída na América.
Quem mora lá é um consagrado arquiteto também, com prêmios no exterior e uma poltrona famosa, que tem muito orgulho do lugar que é atração turística. Tem uma filha pré-adolescente problemática (que parece odiá-lo) e uma mulher professora de ioga, sempre de mau humor.
Tudo vai bem até quando acorda certa manhã para descobrir que um vizinho de trás, um certo Daniel, está abrindo uma janela que dá diretamente para a casa (a desculpa é de que ele precisa de um pouquinho de sol). O arquiteto esbraveja, ameaça processar, mas a lei é difusa e parece que fazer um acordo seria a melhor coisa.
O filme basicamente é o conflito entre os dois e que parece ganhar contornos simbólicos. É difícil se ver um protagonista tão desagradável quanto o arquiteto, que começa já pretensioso, mas com o passar do filme vai se tornando cada vez mais egoísta, autocentrado, falso, traiçoeiro (até em cima de aluna ele dá).
Se era para ser um conflito entre duas castas, a dos ricos e intelectuais e a dos pobres, do povo, fica desequilibrado porque nunca vemos direito Victor em seu ambiente. E quando aparece é sempre bem humorado, poderoso, verdadeiro (claro que muito ajudado pela excelente interpretação de Daniel, os dois atores são ótimos mas este é a figura dominante, mesmo que com menos cenas e ocasião para se explicar).
Sem dúvida, o filme é intrigante, mesmo sem evitar o excesso de metragem e algumas barrigas no meio. Comporta discussões na saída (uma sacada legal é nos letreiros finais Victor dar a sua receita do javali à sua moda!).
Agora Teatro
Para mim, Buenos Aires é também uma chance de assistir ao teatro, que sempre acho com muita qualidade e vigor. A moda atualmente por lá é adaptar filmes de sucesso, como é o caso de Harry e Sally - Feitos um Para o Outro (não fui ver, dizem que não dá certo) e A Guerra dos Roses (fiquei muito intrigado e comprei ingresso, mas, na última hora, acabei perdendo. Sem dúvida achava que o filme de que eu gosto muito daria um Virginia Woolf brilhante.
Tive uma infeliz experiência indo ver uma montagem de Um Tranvia Llamado Deseo, que é o nosso Uma Rua Chamada Pecado, o grande texto de Tennessee Williams que foi filmado de forma inesquecível com Kazan, estrelado por Marlon Brando (o maior momento de sua carreira com Stanley Kowalski) e Vivien Leigh (como Blanche Du Bois).
É um texto poético para ser feito com muita delicadeza, para não cair no pior clichê. Mas o diretor Daniel Veronese que o adaptou (reduziu) fez o pior possível. Stanley (o ator de teve Diego Peretti virou um cafajeste grosseirão, parece saído de Tropa de Elite. Mas não tão ruim quanto a Blanche desta Erica Rivas, que a faz como se fosse uma prostitutazinha moderna, malvestida, sem qualquer sensibilidade; rasteira.
Acostumado a ver muita coisa ruim, fiquei arrasado em ver um equivoco tão absurdo (a moça que faz Stella não tem pescoço e se salva apenas o Harold, de Guillermo Arengo). A Helena fotografou a cenografia para se comprovar sua pobreza!
Nacha es Tita, uma Vida En Tiempo De Tango
Conheço Nacha Guevara dos tempos de seu exílio forçado da ditadura militar, quando a Ruth Escobar a ajudava a se apresentar em São Paulo, até com bastante sucesso. Cantava, dançava, fazia shows bem legais. Chegou mesmo a se apresentar na Broadway, dirigida por Harold Prince.
Mas depois perdi de vista. Vi que ela tem trabalhado muito na televisão e filmes, inclusive um Cruzada agora de 2011. Hoje ela está com 70 anos, ainda magra e faz enorme sucesso com este espetáculo musical que ela, além de estrelar, também dirige e ilumina (aliás, a iluminação é um show à parte, ela usou todos os recursos possíveis do teatro Metropolitan, com notável bom gosto).
Outra sacada inicial: colocar a pequena orquestra de cinco pessoas, num dos lados do palco integrada, mas sem atrapalhar o espaço cênico.
Não é espetáculo barato, são 18 atores, seguindo o roteiro (também dela e mais o parceiro Alberto Negrin), que recria a vida da uma lenda do show business argentino, a grande Tita Merello (1904-2002), que comparando seria uma Anna Magnani argentina.
Mais do que cantora, ela era uma atriz que interpretava de maneira muito pessoal. Já a conhecia de LPs e adorava seu jeito malicioso de chanteuse, às vezes em tangos, ou rancheiras. Parece que Nacha era amiga dela (que morreu amargurada com muita idade), depois de ter feito 33 filmes (de 22 a 85), ser perseguida por ser amigo dos Perons e ter vivido um grande amor pelo comediante Luis Sandrini. Suas canções são muito bem encenadas, no que também é a história do Tango.
O que dizer de Nacha? Ela, como muitas mulheres, se rendeu aos perigos da plástica e hoje tem um rosto inteiramente puxado que lhe tira 30 anos de idade, mas também lhe tirou qualquer expressão e a deixou meio vesga.
Mas é uma estrela e um monstro da cena, que comanda um espetáculo arrebatador que não foge, mas também não exagera no melodrama. Eu embarquei totalmente no espetáculo e não hesito em recomendá-lo.
Quando for a Buenos Aires, não o perca ali na Velha Corrientes.
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