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15 julho 2011 às 06:00

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Livros EUA: I Thought We Were Making Movies, Not History

Livros EUA: I Thought We Were Making Movies not History (Achei Que Estávamos Fazendo Filmes, Não História). Walter Mirisch.

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Editora University of Wisconsin Press. 2008. Apresentação escrita por Sidney Poitier e Elmore Leonard. 450 páginas.

Quando eu era pequeno, e comecei a notar os filmes americanos de maior qualidade, fui descobrindo os nomes de alguns diretores que pareciam ser certeza de qualidade. Gente como Billy Wilder, William Wyler, Robert Wise . E curiosamente passei a achar que todos eles de alguma forma trabalhavam para a velha United Artists (que havia sido fundada por Chaplin e Mary Pickford) .

O que custei a entender é que a United, já naquela época, era apenas uma financiadora de filmes, que pegava emprestado dos bancos para produzir filmes alheios. E como não tinha estúdios, nem funcionários para pagar, o custo da produção era mais barato. E para os realizadores oferecia uma coisa que não tinha preço, a liberdade de trabalhar, o chamado corte final (final cut).

Só que entre a United e o diretor havia um intermediário, um produtor. E era esse sujeito que escreveu este livro, que fez justamente os melhores filmes que a United apenas ajudou a financiar e distribuir. Era Walter Mirisch, da produtora Mirisch Brothers. Um homem brilhante que já foi até presidente da Academia do Oscar, mas que cometeu uma burrice tremenda. Nos anos 70, vendeu os direitos dos filmes que fez para a United, ou seja, não lucra nada em residuais quando eles continuamente passam na TV ou saem em Blu-ray.

Vou fazer um resumo da carreira de Walter Mirisch através de alguns dos títulos que produziu: De Billy Wilder (Irma La Douce, Se meu Apartamento Falasse, Beija me Idiota, Quanto mais Quente Melhor), William Wyler (Infâmia, Sublime Tentação), Blake Edwards (A Pantera Cor de Rosa, Um Tiro no Escuro e a série de desenhos da Pantera), John Sturges (Fugindo do Inferno, Sete Homens e um Destino e outros), Norman Jewison (Crown, o Magnífico, Os Russos Estão Chegando, o vencedor do Oscar No Calor da Noite, Violonista no Telhado), John Huston (Moby Dick), Wise (West Side Story, Dois na Gangorra). E muitos outros.

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É uma esplêndida carreira narrada em detalhes neste livro cheio de informação, mas também mal escrito. Explico: nos EUA existe a função do editor, que não é quem publica o livro, mas que o corrige, fica junto com o autor, cortando, simplificando e evitando que, como aqui, ele repita várias vezes a mesma informação ou opinião. Ou fique se elogiando demais. São problemas desculpáveis, porém, para um senhor de certa idade (ele nasceu em 1921 e já perdeu os irmãos que ele forçou entrar no negócio junto com ele, Marvin Mirisch (1918-2002) e Harold Mirisch (1907-68).

O fato é que Walter Mirisch nasceu para a função de produtor, porque mereceu a confiança dos maiores realizadores de Hollywood sem nunca deixar de ser também uma pessoa criativa. No livro conta algumas coisas curiosas sobre esses clássicos:

a) Billy Wilder teve seus pais mortos em campos de concentração e, por isso, naturalmente odiava os alemães e nunca os perdoou. Por esta razão fez vários filmes zombando deles (Inferno n° 17, A Mundana, Cupido Não Tem Bandeira). Billy não quis que Irma La Douce fosse musical porque havia já feito um filme do gênero (A Valsa do Imperador) que não tinha dado certo. E insistia em fazer filmes em preto e branco quando já imperava o colorido.

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b) Quem ia fazer o papel do primeiro Pantera Cor de Rosa, ou seja o Inspetor Clouseau era Peter Ustinov, então com muito prestígio (levou dois Oscars de coadjuvante). Estava tudo certo e Ava Gardner era escalada para ser mulher dele. Mas quando Ava desistiu foi substituída por Capucine. Ustinov não gostou da ideia e preferiu largar o filme. Foi substituído por Peter Sellers e o resto é história (os Mirisch, porém, processaram Ustinov).

c) Sellers era um famoso criador de encrencas e muita gente o considerava caso de hospício. O segundo filme da série Pantera, Um Tiro No Escuro ele detestou tanto que quando viu a cópia final se ofereceu para comprá-lo e destruí-lo (faria o pagamento em prestações!). Claro que o filme foi sucesso e ele acabou esquecendo dessa crise.

d) Steve McQueen era muito inseguro e competitivo. Durante a filmagem de Sete Homens e um Destino ficava implicando com o ator alemão Horst Buccholz com medo de que este roubasse o filme.

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e) Quem iria fazer originalmente Fugindo do Inferno era Burt Lancaster e Kirk Douglas, que juntos iriam levar US$1 milhão de salário. Mas a UA não queria liberar esse orçamento e a solução do Mirisch foi chamar dois atores mais baratos, James Garner e Steve McQueen, com quem tinham contratos dos tempos em que eles ainda não eram famosos! Assim o filme conseguiu ser feito. Quem ajudou muito no roteiro foi o australiano James Clavell (futuro autor de Shogun), que havia sido prisioneiro de guerra dos japoneses e não tinha uma das pernas. Mas quem resolveu um impasse sério foi o escritor Ivan Moffat. McQueen estava infeliz com seu personagem, mas Moffat veio com a ideia de que pegou emprestado de A Ponte do Rio Kwai, o personagem de McQueen acabou tendo uma função parecida com a de William Holden naquele filme (um prisioneiro que foge e depois volta para ajudar os outros a escaparem).

f) Sublime Tentação, que Wyler fez ainda para a Allied Artists, foi um grande fracasso de bilheteria, mas teve muita prestígio (ganhou Palma de Ouro em Cannes). Mas ele nunca gostou e sempre reclamou da estrela desse filme, Dorothy McGuire.  Quando Wyler fez Infâmia (porque queria trabalhar de novo com Audrey Hepburn) cismou que tinha errado em chamar Shirley MacLaine. Mirisch não concorda com nenhum dos dois casos e afirma que o erro foi fazer o filme com o tema de lesbianismo, que não causou qualquer escândalo ou celeuma. Já era antiquado.

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g) Anne Bancroft foi a primeira escolha para o papel de Goldie no filme Violinista no Telhado, mas recusou. Lee Grant foi quem disputou o personagem, que ficou para Norma Crane. Foi Mirisch quem foi contra a escalação do criador do papel de Tevye na Broadway Zero Mostel com a teoria de que ele era “grande demais para a tela”, parecia que representava para o balcão, sempre over, sempre exagerado. E procuraram alternativas (muitos críticos foram contra e não perdoaram porque Zero havia sido um imenso sucesso no palco e era praticamente dono do personagem). Danny Kaye e Walter Matthau foram considerados, mas preferiram o israelense Haym Topol que fazia o papel em Londres (as negociações foram prolongadas porque o ator insistiu em ter participação na bilheteria e Mirisch só lhe deu o mínimo, metade de 1% dos lucros, e assim mesmo para fechar negócio). Outra curiosidade: John Williams, já famoso maestro e compositor, se ofereceu para fazer os arranjos do filme.

h) Nunca entendi a razão de Jerome Robbins ser dispensado no meio da filmagem de West Side  Story (Amor Sublime Amor). Ele havia tido desentendimentos com o produtor quando Robbins insistiu que as danças do começo fossem feitas todas em estúdio. Mas teve que aceitar que a maior parte delas fosse gravada em Nova York, em casas destruídas no lugar, onde hoje está o Lincoln Center. Mas o que sucedeu é que o filme ultrapassou seu orçamento por causa da dificuldade de produção (era muito lento ter dois diretores que ficavam se consultando mutuamente). Para poupar grana dispensaram Robbins e ficaram apenas com um. O coreógrafo naturalmente ficou louco da vida e nunca vi antes esta informação revelada). O compositor Leonard Bernstein, a primeira vez que ouviu os arranjos musicais de John Green, o arrasou dizendo: "Com quem diabos conseguiu fazer algo tão ruim assim?” O tempo provou que era apenas ciúme de Bernstein.

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