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17 agosto 2011 às 06:00

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Para entender A Árvore da Vida

Por Germano Pereira

Abre: Fui rever o filme A Árvore da Vida, que está sendo recebido de forma perplexa, muita gente saindo no meio, outros zombando da complexidade da narrativa e outros apenas desinteressados, principalmente mulheres (não sei por que) mexendo nos seus celulares para passar o tempo.

Realmente não é um filme fácil ainda que eu tenha me comovido até mais numa segunda visão. Acho que a melhor solução foi pedir este artigo para Germano Pereira, ator (Passione), dramaturgo e filósofo (ele não gosta que o definam assim, prefere se chamado de estudante de filosofia), que me ajudou outras vezes para dissecar temas igualmente difíceis. Acredito que ele vai ajudar a entender melhor o filme  de Terrence Malick.

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A Árvore da Vida: alguns temas e interpretações.

Palavras chaves: Complexo de Édipo, complexo de Édipo em relação à natureza, amor, compaixão, misericórdia, natureza, formação do indivíduo, desejo, relatividade espacial e temporal.

A Árvore da Vida é um filme que trata de todos esses temas. Apesar de ter uma estética cinematográfica particular que valeria uma crítica mais apurada, vamos falar apenas e também, brevemente (pois não é uma tese), dos significados desses temas listados acima.

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Numa família dos anos cinquenta, a história mostra o desenvolvimento psicológico de três meninos. O pai severo ensina as dificuldades da vida para os filhos, mas também é amoroso. A mãe definitivamente coração. Os dois filhos mais novos não têm falas no filme, mas desenvolvem habilidades como tocar violão junto com o pai ao piano. O que causa a raiva do primogênito, este sim, com muita fala, ainda que somente em pensamento, em voz off.

Este filho, um pouco mais velho, está na fase do Complexo de Édipo e tem vontade de matar o pai, literalmente. Vive o conflito de não poder fazer tal ato. Ama a mãe, mas também briga quando ela não o defende dos atos imperiosos do pai. Todas as derivações da formação do indivíduo são colocadas em cena. Repare bem isso no filme. Inclusive nas relativizações no tempo e no tempo psicológico da formação do indivíduo, no caso, este menino.

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Numa outra instância, o diretor relativiza esse complexo de Édipo para um complexo de Édipo muito maior e amplo. Isso quando a família perde um dos filhos. Este questionamento acontece neste filho primogênito e também na mãe, que perdidos com a morte, começam a questionar o sentido da vida e a se perguntar onde está o salvador, o grande pai, aquele que pode nos proteger, ou seja, Deus. A necessidade de um protetor/pai é deslocada para a busca do protetor/pai que deve estar na natureza (fato curioso, o pai, Brad Pitt, fala para o filho: “don’t call me dad, call me father/Não me chame de paizinho, no diminutivo, me chame de pai”. Father tem aí o significado de "o grande pai").

Com esta perspectiva, o diretor coloca, entrelaçando a história, a voz em off da mãe e do filho nas imagens mais instigantes, misteriosas e lindas do universo. Planetas, estrelas, explosões cósmicas, etc, num ponto de vista macroscópico. Sistemas circulatórios, células, átomos, num micro. Representando ambos a estrutura cósmica e nosso abismo em relação a ela, daí o surgimento do sentimento da busca do pai.

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Essa fusão de imagens também tem o intuito de relativizar a perspectiva do que é a vida e mostrar o sistema de árvore e que uma coisa deriva de outra na existência, que tudo está interconectado. Como o pai e o filho. Ele também brinca com imagens do passado, na época dos dinossauros e de um futuro possível. Uma relativização do tempo, como a espacial, para mostrar na essência a estrutura da vida.

Esta estrutura divide em duas: a forma e o conteúdo. Tudo no universo se divide nessas duas essências. É como se ele nos mostrasse sempre a mesma coisa, no entanto, na pluralidade infinda destas situações. Como a árvore do sistema circulatório, assim também é o complexo de Édipo da formação do indivíduo, a questão hierárquica do poder no trabalho vivido pelo pai, as relações quânticas de tamanhos estratosféricas, e assim por diante.

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A forma e o conteúdo nos mostram as estruturas da natureza universal. E esse confronto com nossos desejos e anseios. Nesse conflito, que nos choca e que distingue aquilo que é a realidade e aquilo que é nossa vontade, nasce o desejo de proteção e misericórdia. Com isso, mesmo na nossa maturidade, o complexo de Édipo não é resolvido e ressurge agora diante de algo maior.

Sentimos a necessidade de proteção e de alguém para nos dizer alguma coisa. Daí também, a necessidade das religiões. E bom relembrar o surgimento do fanatismo, quando este complexo de Édipo é usado em detrimento do outro e benefício de um ideal, que sempre diz respeito a si próprio, ao egocentrismo.

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Aquela imagem em “Black out” e que mostra uma luz como uma pequena aurora boreal é a melhor representação do “impulso” e do “móbil psicológico e universal", que já vi no cinema. É a intencionalidade de toda ação humana e não humana, transcendendo para uma intencionalidade que está no objeto e em todos os níveis, inclusive nos atômicos. Essa imagem serve de fusão como um portal entre estas duas histórias, a da família e esse universal misterioso. E mostra como, do nada, ela pode surgir.

Relembrando Shakespeare “... Do Nada fostes criado... Amor briguento... Ódio Amoroso... Luz escura... Sombra fulgurante...”. E mais uma vez, “qualquer” estrutura irá surgir no mundo. Num sentido mais profundo, nossa identidade é criticada, pois não somos, mas passamos. Isso que vemos como sendo nós, é apenas aquilo que passamos enquanto adjetivos que escolhemos para nós. A estrutura da árvore da vida faz com que surjamos e assim nos projetemos e entremos nas leis universais de representação de cada estrutura do universo. Os planetas dos planetas, as estrelas das estrelas, os dinossauros dos dinossauros, os humanos dos humanos.

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Esse viés, como nos outros, demandam muito desenvolvimento. Não irei me ater a todos os pormenores, mas a exposição rápida desses temas listados acima e suas formulações em linhas gerais. Quem quiser mais detalhes, deve procurar por fontes mais profundas como: Freud, física quântica, a formação do sujeito e a relatividade.

Contudo, como libertação dessa briga entre natureza e desejo, os sábios indicam a conformação à realidade, o amor sublime e desinteressado, a misericórdia aliada à compaixão. No caminho da evolução e da vida, nos resta nos aprofundarmos nesse mar da vida. O filme dá essa dica de modo complexo e profundo, mas não tem como ser diferente. Diante do universo deve restar em nós sempre o sentimento de magia do mistério do mundo e o de querer conhecer incessante.

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