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24 agosto 2011 às 06:00

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Coleção Stanley Kubrick em Blu-ray

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Você já encontra em edição brasileira esta coleção com os melhores filmes de Stanley Kubrick, da Warner (o preço é semelhante em várias lojas, de R$ 225 a R$ 229, o que é razoável se considerando que apresentam oito discos).

A diferença da edição americana é que esta traz também um livro souvenir de capa dura e, além disso, dois filmes a mais, a saber Spartacus (que era da Universal) e Dr. Fantástico (Dr. Strangelove), da Columbia.

A edição nacional se limita a Lolita, 2001, Barry Lyndon, O Iluminado, Nascido para Matar, Laranja Mecânica, De Olhos Bem Fechados), todos eles pertencentes a Warner. Vai ver eles não quiseram pagar os direitos de licenciamento para um produto tão especial que não deve vender muito (afinal o Blu-ray só está pegando aos poucos). Mas dá na gente aquela sensação de que somos pobres e não merecemos o melhor, ficamos com o de segunda classe (nos EUA a chamada Stanley Kubrick Limited Edition Collection, está com preço aconselhado de US$ 140 e a Amazon esta vendendo por US$ 108.

Mas quem quiser importar diretamente se arrisca a ter que pagar o imposto de importação que é bastante salgado).

Outro detalhe: existem já nos EUA em Blu-ray, outros filmes de Kubrick de sua primeira fase de carreira, no caso The Killing (O Grande Golpe, 56), Glória Feita de Sangue (Paths of Glory, 57, pela Criterion) e todos desta coleção individualmente.

Redescobrindo Clássicos: Doutor Fantástico

Dr. Strangelove or: How I learned to stop worrying and love the Bomb

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Comédia Satírica. 93 min. Preto  & Branco. Estados Unidos.1964. Originalmente da Columbia. Roteiro de Kubrick, Terry Southern e Peter George, baseado no livro Red Alert, de Peter George. Fotografia de Gilbert Taylor. Música de  Laurie Johnson. Desenho de produção de Ken Adam (Barry Lyndon). Montagem de Anthony Harvey (futuro diretor de Um Leão no Inverno)

Elenco: Peter Sellers, George C. Scott, Sterling Hayden, Keenan Wynn, Slim Pickens, James Earl Jones, Tracy Reed, Peter Bull.

Sinopse: Um general americano enlouquece e ordena um ataque atômico à URSS. O presidente americano tenta impedir a tragédia, falando com os russos pelo telefone vermelho. Entre os que o ajudam esta o cientista nuclear Dr. Strangelove ou Dr. Fantástico para aconselhá-lo.

Comentários: A prova de que Stanley Kubrick (1928-99) gostava deste filme foi que o incluiu na original “The Stanley Kubrick Collection” da Warner  feita quando ainda estava vivo.

O filme foi concebido pouco antes de  outra fita de prestígio da Columbia, que tratava do mesmo assunto a sério – Limite de Segurança – Fail Safe, de Sidney Lumet. Ele ameaçou abrir processo e conseguiu assim que o rival fosse lançado depois (e embora fosse um bom filme, seu clima pesado e trágico, acabou tornando-o um fracasso de bilheteria). Mas aqui o clima pretende ser de farsa, de sátira pura, que é um gênero também nunca muito fácil para o público, que tem que ser inteligente, ler nas entrelinhas e às vezes entender o oposto daquilo que eles estão dizendo.

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A origem do filme foi  a Columbia pedir para que Sellers estrelasse o projeto fazendo vários papéis (Sellers 1925-80), já tinha feito três papéis diferentes noutro filme do estúdio, O Rato que Ruge, e Kubrick gostava muito dele desde quando fizeram juntos Lolita, onde este fazia caracterizações diferentes, ainda que a partir de um mesmo personagem).

Sellers, por sinal, ganhou um milhão de dólares pelo trabalho, mais da metade de todo o orçamento do filme. Sellers faz e por sinal de maneira brilhante três personagens diferentes – o presidente americano, careca e lembrando Adlai Stevenson, um oficial britânico que tenta controlar o general louco e o cientista nazista do título.

Sellers ia fazer também o piloto que sai montado na bomba, mas houve problemas. As explicações diferem: o fato é que ele começou a fazer o personagem, sofreu uma queda ,machucou a perna e  resolveu abandoná-lo. Outros dizem que ele teria tido dificuldades com o sotaque texano, o que parece pouco provável já que Sellers era um mestre das imitações principalmente com vozes! Kubrick pensou em John Wayne e Dan Blocker, de Bonanza, mas resolveu chamar o ator característico Slim Pickens, que conhecia quando começou a fazer A Face Oculta, com Marlon Brando (que Kubrick abandonou). Este não precisava de caracterizações, era um cowboy para valer!

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Esta edição em Blu-ray (imagem de boa qualidade) é um maná de extras, de origens diferentes, que explicam a criação do filme de diversas formas (e trazem até entrevista com Tracy Reed, o único papel feminino, e mais lembrada como enteada do famoso diretor Carol Reed, que explica a razão de não aceitar ficar nua no filme, onde deveria aparecer na revista Playboy). Entre eles, um perfil de Sellers (Peter Sellers Remembered), Inside Dr. Strangelove, No Fighting in the War Room or Dr. Strangelove and the Nuclear Threat, The Art of Stanley Kubrick: from Short Films to Strangelove,The Cold War: Picture-in-Picture and Pop-Up Trivia Track e uma entrevista com Robert McNamara (secretário de Estado de Kennedy).

Talvez a informação mais curiosa seja a de que Sellers realmente improvisou todas suas cenas, não duas ou três vezes apenas (cada um delas diferente), mas de 12 a 15 vezes, como gostava Kubrick. Então mesmo partindo de um texto escrito, a maior parte das frases brilhantes - hoje famosas - são criação dele mesmo (o filme ficou em terceiro lugar na votação dentre as melhores comédias do cinema americano e em 26 dentre os melhores filmes de todos os tempos!). Chegaram a rodar dois dias como Sellers fazendo o presidente norte-americano resfriado e meio patético, até perceberem que estavam pegando um tom exagerado e caricato demais para o único personagem que mantém a cabeça no lugar. Voltaram atrás e o deixaram como a única pessoa sã no meio de toda aquela loucura no chamado "War Room" (sala de guerra), uma piada curiosa é que quando Ronald Reagan foi eleito presidente pediu para conhecer esse chamado "War Room" só para então descobrir que era uma invenção do filme, isso nunca existiu na Casa Branca).

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O projeto original era uma crítica a Guerra Fria e corrida armamentista a sério e iria se chamar The Delicate Balance of Terror. Mas quando o sócio habitual de Kubrick como produtor, James B. Harris, se afastou para tentar a sorte como diretor, este resolveu enveredar pela comédia, ainda assim usando o mesmo livro, Red Alert, de Peter George (que também escrevia com o nome de Peter Bryant), mas com os toques macabros de Terry Southern (famoso pelo livro Candy). Por isso muita gente o chama de metáfora, mas de fato quase tudo que mostra era verdade, inclusive o projeto de "Doomsday Bomb" (a bomba do juízo final), uma bomba atômica tão forte que destruiria por 100 anos a vida animal e humana na face da terra.

Apesar de vivermos também tempos perigosos, talvez ainda mais perigosos com ataques terroristas e ditadores instáveis que procuram criar bombas (como Coreia do Norte e Irã), é difícil observar duas coisas no filme:

1) a mudança tecnológica de lá para cá, de tal forma que o filme mostra parece ingênua e antiquado;

2) nos Estados Unidos, o clima nessa época, começo dos anos 60, era de pânico e medo pelo que parecia um confronto inevitável com a Rússia comunista e imperialista que seria basicamente uma guerra atômica de conseqüências devastadoras. Então havia treinamentos nas escolas, as pessoas construíam bunkers em seu quintal com mantimentos armazenados para se esconderam da radiação por meses, ou seja, foi nesse clima de quase histeria que Kubrick conseguir zombar do perigo de uma aniquilação total (que mesmo hoje ainda Lars Von Trier leva a sério no atual Melancolia).

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O que o filme ousa mostrar é que era muito possível que um general enlouquecesse e resolvesse por conta própria decretar um ataque unilateral à União Soviética (o filme é muito antimilitarista reflexo da Guerra do Vietnã como em Sete Dias de Maio, enquanto hoje em dia esse mesmo tipo de personagem é mais de direita, mais republicano).

Esse papel ironicamente foi feito pelo antigo astro Sterling Hayden (1916-86), que havia feito O Grande Golpe, com Kubrick, estava aposentado e arrependido de ter colaborado com o McCarthismo, confessando seus laços de comunista na juventude e denunciando pessoas. Este é possivelmente o melhor momento de toda sua carreira, quando já se nota o gosto de Kubrick por um tipo de iluminação que sempre provocava reflexos nas lentes. Uma pena não terem preservado o final rodado em que o filme concluía com uma batalha de pastelões. Por isso que se o balcão de comidas (essa sequência chegou a ser mostrada em Londres em 99, logo após a morte do diretor).

Houve alguns problemas como ter virado chanchada (já que os atores acabaram se divertindo jogando pastelão um na cara do outro, quando devia ser simbólica a imagem de pastelões voando no ar. Assim como não tinha me dado conta de que o Slim Pickens voando montado na bomba é um evidente simbólico fálico. O filme deixa claro várias vezes que aqueles que gostam de brincar com armas e bombas é porque não funcionam bem na parte sexual).

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De qualquer forma, preferiram eliminar a batalha e deixar como final o notável discurso de Sellers onde o Dr. Strangelove é incapaz de disfarçar suas origens nazistas (outra criação improvisada de Sellers, que usou mesmo a luva negra que Kubrick usava de usar). Começa então a corrida para as cavernas já que o homem  parece ser incorrigível.

Kubrick pediu a seu diretor de arte Ken Adam que transformasse o "war room" numa grande mesa de jogo de pôquer com o chão forrado de verde (outro detalhe: o subtítulo irônico do filme, Como Aprendi... é do próprio Kubrick, assim como foi ele quem desenhou e aprovou o pôster desenhado, já na época ele tinha controle absoluto de tudo que se referia ao filme).

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São usadas na trilha musical três canções famosas: Try a Little Tenderness (32), com arranjo de orquestra nos letreiros iniciais, a marcha militar que era da União durante a guerra civil americana When Johnny Comes Marching Home (1863) e a gravação original de uma famosa canção do tempo da segunda guerra Till We Meet Again, 1939, cantada por Vera Lynn (cantora britânica) e coro. Obviamente de forma irônica (foi sugerida a Sellers pelo comediante Spike Milligan).

Outra figura importante no filme é do chefe militar que é interpretado por George C. Scott (1927-97) um ator difícil, alcoólatra e naquela época ainda mais conhecido por seu trabalho no palco (depois ficaria famoso por ter recusado o Oscar de melhor ator que ganhou por Patton, dizendo que não acredita em competição entre atores). Scott afirmava que nunca mais trabalharia com Kubrick porque este o forçou a exagerar na performance (na verdade, ele pediu cada take de uma maneira, mas preferiu quando ele força a comédia, ficando propositalmente exagerado, para funcionar como alivio cômico). Mais tarde, voltou atrás e passou a considerar esta como a melhor interpretação de toda sua carreira.

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Scott foi descoberto numa montagem em Nova York, no Central Park, de O Mercador de Veneza (a cena em que ele cai ,se levanta e continua a falar foi um acidente, mas ficou tão boa que Kubrick a aproveitou). Na mesma montagem Kubrick também viu o estreante James Earl Jones, que escolheu para fazer um dos tripulantes da nave que solta a bomba (este ano James ganha o Oscar especial da Academia). Kubrick para manter Scott sob controle o engajou num jogo de xadrez sua especialidade, que deixou o ator focado todo o tempo. Seu personagem é inspirado no General Curtis LeMay, famoso anticomunista.Também a teoria de conspiração sobre a fluorização da água também corria na época espalhada pela John Birch Society.

Há outras curiosidades: a equipe que filmava as cenas aéreas na Groelândia filmou sem querer uma base secreta americana e chegaram a ser presos como espiões! Gosto especialmente do uso de câmera na mão em dois momentos do filme: a luta no exterior da base e quando o avião é atingido e sofre danos (lembra muito os filmes atuais de ação). O alvo principal do filme chama-se Laputa, não é palavrão, mas uma citação de Viagens de Gulliver, de Jonathan Swit, já que este era o lugar onde se reuniam os cientistas. E mais uma importante: o filme fez com que as regras do governo americano para ataques atômicos fossem modificadas de modo que os fatos mostrados nele nunca pudessem realmente acontecer.

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A primeira preview do filme estava marcada para o dia 22 de novembro de 1963, justamente o dia em que o Presidente Kennedy foi morto. Naturalmente tiveram também que adiar a estreia do filme, que foi atrasado para fevereiro do ano seguinte (foram também cortadas duas falas, uma delas era do piloto texano que ao ver o kit de sobrevivência dizia que era mais do que suficiente para fazer uma farra em Dallas, onde mataram Kennedy. Mudaram então para Las Vegas que era menos comprometedor. Na luta de pastelão havia também a fala, onde se dizia que “nosso galante presidente foi derrubado em seu auge”(mas de qualquer forma isso já havia sido eliminado).

O atraso  prejudicou a participação nos Oscars. Mesmo assim o filme foi  indicado para diretor, ator (Sellers), filme e roteiro (estas foram as primeiras indicações que Kubrick teve e só ganharia um Oscar, já que assinou os efeitos especiais premiados de 2001 - Uma Odisseia no Espaço). Ganhou Bafta de melhor direção de arte, melhor filme britânico, filme em geral e também críticos de Nova York.

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Não é preciso dizer que gosto muito do filme, que exerce um enorme fascínio em mim a ponto mesmo de às vezes me desapontar (da vez anterior impliquei com algumas cenas um pouco longas no começo), mas como toda história de amor, já fiz as pazes com ele. Foi o último filme em preto e branco de Kubrick e para mim começa a grande fase de sua carreira.

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