30 agosto 2011 às 06:00
O novo e o velho Planeta dos Macacos
Depois de elogiar tanto o novo Planeta dos Macacos - A Origem, acho interessante ao menos relembrar os filmes anteriores (que por sinal chegaram a sair em DVD aqui numa coleção completa Coleção Planet of the Apes – The Evolution (Complete Series), com 487 min. (aprox.). Seis discos, sendo que o último trazia um documentário exclusivo. Todos os filmes trazem trailer e filmografias.
Eles são: O Planeta dos Macacos (Planet of the Apes) EUA, 68. Direção de Franklin J. Schaffner. Com Charlton Heston, Linda Harrison, Roddy McDowall, Kim Hunter, Maurice Evans, James Whitmore. Fox.
Sinopse: Nave Terrestre sofre impacto no espaço e acaba caindo num planeta desconhecido habitado por macacos. Essa sociedade símia , usa os homens primitivos como escravos e também como caça. Eles consideram os três astronautas uma ameaça e procuram fazer uma operação para deixá-los inúteis. Mas um deles, o comandante George Taylor escapa e consegue descobrir a verdade sobre aquele planeta.
Comentário: É difícil imaginar ou relembrar o impacto que teve este filme (hoje clássico) da ficção-científica. A ideia a princípio não entusiasmou os executivos do estúdio da Fox, que só concordaram em rodá-lo depois de conferirem os testes de maquiagem, que eram extremamente elaboradas e inovadoras (na época ainda não existia o Oscar para a categoria, mas o filme ganhou um Oscar especial para o make-up de John Chambers).
Rod Serling, famoso escritor da série de TV, Além da Imaginação (The Twilight Zone), colaborou no roteiro ao lado de Michael Wilson (que havia sido uma das vítimas da Lista Negra do McCarthismo) que era inspirado em livro do francês Pierre Boulle (o mesmo autor de A Ponte do Rio Kwai). Quem ficou com a direção foi o prestigioso Franklin Schaffner (1920-89), que ganharia o Oscar por Patton, Rebelde ou Herói?, de 1970. Quem iria fazer o papel central do Dr. Zaius era o veterano Edward G. Robinso, mas na época ele já estava doente e o personagem foi para o inglês Maurice Evans (1901-89).
A grande dificuldade era a aplicação da maquiagemm que por vezes levava horas a fio, um suplício para o elenco central que incluía atores famosos (do qual vemos apenas os olhos), como Zira, a vencedora do Oscar de coadjuvante Kim Hunter (1922-2002) e como Cornelius, Roddy McDowall (1928-98). A jovem Linda Harrison, que faz o interesse romântico era ex-Miss e na época casou-se com o chefe de produção do estúdio, Richard Zanuck . Mas nunca virou estrela. Vinte por cento do orçamento do filme foi nesse processo de maquiagem. O filme foi indicado também para os Oscars de trilha musical (Jerry Goldsmith) e figurino (Morton Haack), mas não de fita ou diretor, talvez porque o gênero não tivesse ainda muito respeito ou admiração.
Mas o sucesso sem dúvida se deve muito à presença de Charlton Heston, então no auge da carreira e famoso por interpretar personagens históricos como Moisés, Michelangelo ou bíblicos como Ben-Hur e João Batista. Foi uma filmagem exaustiva para ele (que entre outros problemas se machucou com ervas venenosas quando teve que correr desnudo pela floresta do estúdio). A fita alternou locações em estúdio (a cachoeira é a mesma de O Fabuloso Doutor Dolittle, de 67) com cenas feitas no deserto do Arizona e Utah e na cena final num lugar chamado Point Dunne (o desfecho era para ser surpresa, mas foi tão marcante que hoje em dia todo mundo o conhece). Duas outras alternativas haviam sido sugeridas, mas foi o astro Heston quem optou pelo atual.
Depois do sucesso do primeiro filme, Heston concordou em fazer apenas uma participação especial, no começo e no fim de uma continuação De Volta ao Planeta dos Macacos (Beneath the Planet of the Apes, 70), de Ted Post, que começava exatamente na conclusão do primeiro, repetindo inclusive a cena da Estátua da Liberdade. Mas o herói acabou sendo um ator de TV, James Franciscus (1933-91), que depois de repetir a ação do filme anterior, acaba nos subterrâneos de Nova York, enfrentando uma misteriosa seita. Muito inferior ao original, não convenceu nem como trama ou direção de arte (são particularmente fracas as cenas interiores). Mesmo a famosa maquiagem decepcionava. Além de tudo um final apocalíptico determinaria o fim da série.
Mas o segundo fez tanto sucesso, que o produtor Arthur J. Jacobs, conseguiu um jeito de prolongar a série com uma ideia brilhante: trazendo numa viagem no tempo o casal de símios para a terra, satirizando os humanos e depois criticando a paranoia que torna vítima os heróis. E A Fuga do Planeta dos Macacos (Escape from the Planet of the Apes, 1971), de Don Taylor, foi a melhor das continuações, ainda que um pouco descaracterizada. Já mais espertos, fizeram um final deixando a porta aberta para uma nova continuação que foi Conquista do Planeta dos Macacos (Conquest of the Planet of the Apes), 1972, de J. Lee Thompson (que é justamente aquele que foi refilmado agora, abrindo a porta para nova trilogia). Foi o mais político da série. O herói é uma espécie de Che Guevara símio. O que permite crítica social, passeatas de protesto e guerrilha urbana. O roteiro é de Paul Dehn, que acompanhava a série desde o segundo.
Como ainda deu dinheiro veio mais um, A Batalha do Planeta dos Macacos (Battle for the Planet of the Apes), 73, de J. Lee Thompson. Foi o veterano ator e diretor John Huston quem fez o narrador nesta última fita da série (que teria ainda um curto seriado de TV (em 74, ainda com Roddy McDowell e que passou aqui pela Rede Globo e deu origem até o programa humorístico também do canal) e outro de animação, ambos com muito sucesso no Brasil. Começava fazendo uma retrospectiva dos capítulos anteriores, mas ficava evidente que não tem muito a contar. Parecendo óbvio e descartável, apesar de sua mensagem de boa vontade pluri-racial.
Mas como uma boa ideia nunca se perde, sempre se reaproveita em 2001 a Fox resolveu refazer O Planeta sob as ordens de um outro cineasta, Tim Burton. Este Planeta dos Macacos, de 2001, foi uma fita cheia de paradoxos. É uma refilmagem que ao mesmo tempo segue a trama central do original e não conta a mesma história. É um filme de Tim Burton, mas não tem as principais características de sua obra. É até interessante de assistir, mas não resiste à uma análise mais profunda deixando uma série de furos em sua trama. E o problema maior para quem for comentá-lo é justamente esse, não se pode discuti-lo sob pena de estragar a fita, revelar demais, detalhes que iriam arruinar as surpresas.
Não resta a menor dúvida de que o de 1968 era muito melhor, mais bem-sucedido. Mas ao menos eles não copiaram a sua famosa cena final. Em compensação mesmo que esteja sem crédito nos letreiros, há uma participação especial de Charlton Heston, astro do filme anterior, fazendo justamente o papel do patriarca, pai moribundo do General Thade e que faz uma importante revelação no seu leito de morte.
Outro detalhe: a mocinha do Planeta 1968, Linda Harrison, fazia uma pontinha descrita nos letreiros como mulher numa carreta. Esperava-se de Tim Burton uma obra mais pessoal e que tivesse um “design”, com visual mais particular, mais coerente com seus filmes anteriores. É verdade que é escuro, sombrio, mas a direção de arte é, além de medíocre, impessoal.
De qualquer forma, parece que este novo A Origem deu certo com sua tecnologia digital e teremos mais continuações em breve.
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