2 setembro 2011 às 05:30
Lançamento em livro (EUA): Lady Blue Eyes/My Life with Frank, por Barbara Sinatra
Lançamento em livro (EUA): Lady Blue Eyes/My Life with Frank, por Barbara Sinatra. Com Wendy Holden. Editora Crown 2011. 390 páginas.
Não tinha muita expectativa por este livro porque havia lido antes a biografia de Sinatra, feita por sua filha Tina Sinatra, que não poupava informações (todas más) sobre sua madrasta. Segundo ela, Sinatra só continuou a cantar mesmo quando sua voz tinha ficado prejudicada (francamente já não era mais a mesma) porque dona Barbara, só tinha direitos autorais em cima de tudo que ele gravasse depois que estivesse casado com ela, nada de antes. Por esse motivo ela teria forçado ele a continuar trabalhando, mesmo que isso prejudicasse sua imagem (o coitado trabalhou até muito velho e já decadente).
Dirigia a casa e a vida do cantor com mão de ferro, que nos últimos anos de sua vida só fazia o que ela queria e permitia. Já não queria mais brigar, se afastou dos amigos. Também cortou todo e qualquer contado dele com o resto da família, em particular a primeira esposa, Nancy Barbato (nascida em 1917, ainda estava viva), e suas duas filhas Nancy e Tina.
O único filho, Frank Sinatra Jr., não entrou tanto nessa confusão familiar e é o único que é citado neste livro, assim mesmo muito pouco (quando houve o enterro de Sinatra, a viúva lhe deu de presente a bandeira que cobria o caixão e ele aceitou).
Tudo isso parece ser verdade porque nesta sua longa e recente biografia Barbara tem muita habilidade de pintar um retrato idílico de seu casamento, mostrando como ela era boa esposa, repetindo mil vezes como amava o marido e como era feliz (ainda assim quando ele foi para o hospital ela tinha saído para uma festa e chegou tarde por lá). E o mais engraçado é que chega mesmo a ser convincente.
Mesmo assim não esconde defeitos evidentes do marido que todos suspeitavam. Ele se achava o dono do mundo e quando alguém dizia ou fazia algo que o desagradava, se era conhecido partia para a briga. Se era amigo, simplesmente fechava a cara, saia do lugar e nunca mais falava com ele (Sammy Davis foi vítima desse tratamento silencioso também, o livro não esconde os problemas graves de drogas que este teve, assim como foram as drogas que acabaram com sua mulher).
Ela nega suas ligações mafiosas a não ser socialmente (mas de vez em quando ele vira sócio de lugares suspeitos), mostra que ele era vaidoso ao extremo (careca há muitos anos, não largava sua peruquinha), mas tinha enormes cuidados com sua voz.
Era um homem da noite e talvez para fazer pirraça Barbara não fala mal das outras esposas, citando Ava Gardner com simpatia (como, aliás, todo mundo que a conheceu confirmando que o marido a ajudava e pagava contas principalmente em casos de saúde, mas em momento nenhum admitindo que esta foi o grande amor de sua vida) e convidando outra ex, Mia Farrow, para as festas dele.
Só mesmo as filhas foi que ela exilou (em compensação, Barbara tinha um filho de um primeiro casamento, que segundo ela Sinatra queria adotar, mas este nunca concordou. Mas jura que eram grandes amigos e parceiros).
Esta é daquelas biografias que é preciso ler nas entrelinhas. Barbara Marx (levava antes o sobrenome de seu marido anterior, Zeppo, que era um dos Irmãos Marx, justamente o que largou a carreira para ser agente e empresário, talvez também porque era o que tinha menos talento. Durou de 59 a 73 e Sinatra era vizinho (!!) do casal, o que obviamente faz pensar num adultério que ela trata com discrição aqui).
O nome verdadeiro era Barbara Joanna Blakely e ela aparece no iMDB como roteirista (de três filmes desconhecidos). Foi corista de Las Vegas e organizou os primeiros concursos de Miss Universo em Long Island. O espantoso é que o casamento tenha durado tanto com Sinatra, de 76 até a morte dele em 14 de maio de 1998.
Nesse mar de felicidade, como faz crer o livro, eu marquei algumas indiscrições: o pedido de casamento foi num restaurante de Chicago com a amiga de Sinatra, Claudette Colbert (ela não a entrega como lésbica) e o diamante foi colocado num copo de champanhe para Barbara descobrir! Não é romântico?
Como já fazia Tina, no seu livro de 2000, My Father´s Daughter, Barbara confirma que o momento máximo da carreira, segundo o próprio Sinatra, foi sua apresentação no Rio de Janeiro no estádio do Maracanã, em 1980, quando cantou para 175 mil pessoas, o que entrou para o Guinness Book como o maior público pagante para um único artista. E reconta a história de que a chuva para exatamente no mundo em que ele começou a cantar, a primeira musica, Coffee Song... E que depois ao final Sinatra ficou com a voz embargada quando o povo todo cantou Strangers in the Night. Barbara confirma que foi um momento mágico e que certamente uma noite que não vai esquecer nunca.
Outra coisa: teria sido de Barbara a ideia de Sinatra cantar New York, New York, que não tinha dado muito certo com Liza Minnelli no filme homônimo. Ele não queria roubar uma canção dela, mas o fato é que a mãe desta, Judy, havia sido namorada dele e eram todos uma espécie de família (Liza eventualmente faria algumas turnês com Sinatra quando Dean Martin não conseguia mais segurar a bebida e o tormento pela morte do filho num acidente de avião). Mais um detalhe charmoso: cada capítulo do livro leva o nome de uma canção consagrada pelo cantor.
Enfim, dá para ver que Barbara nunca foi santa, mas sabe fingir muito bem. Confessa que raramente foi ver a campa onde ele está enterrado (o mesmo cemitério que Marilyn Monroe, outra amante constante dele), mas termina o livro com as palavras: “Durma tranquilo (na verdade ela usa "warm" - quentinho), Frank. Sua memória para sempre me manterá (warm) quente e isso eles não podem tirar de mim... (outra citação de canção dele , They Can't Take That Away From Me). Eu pergunto: há sinceridade nisso?
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