19 setembro 2011 às 06:00
Dois clássicos em DVD
Desencanto *****
Brief Encounter/ Noel Coward´s Brief Encounter.
Áudio: Inglês. Leg: Port. Romance. Standard. 86 min. PB. 1945. Inglaterra. Classicline. 12 anos.
Diretor: David Lean. Elenco: Celia Johnson, Trevor Howard, Stanley Holloway, Joyce Carey e Cyril Raymond.
Sinopse: O encontro casual entre um médico casado com uma dona de casa, também casada, numa estação de trens suburbanos, provoca uma paixão que o casal não consegue consumar.

Comentários: Premiado no primeiro Festival de Cannes (as regras eram outras, mas seria como um Prêmio Especial do Júri de hoje), foi indicado aos Oscars de melhor roteiro, direção e atriz (mas em 46) e melhor atriz pelos críticos de Nova York. Refilmado para a TV em 1975, com Sophia Loren e Richard Burton, foi exibido em nossos cinemas como Ligações Proibidas, dirigido por Alan Bridges.
Quem conhece David Lean, apenas como realizador de grandes espetáculos tipo Lawrence da Arábia e A Ponte do Rio Kwai (ou mesmo a bela história de amor A Filha de Ryan), precisa ver este belo e modesto filme, que ele rodou ainda na época em que seu trabalho estava ligado ao mentor e amigo Noel Coward (com quem começou co-dirigindo Nosso Barco, Nossa Alma).
Inspirado numa peça de um ato de meia hora, Still Life de Coward, emoldurado pela intensa música do russo Rachmaninov, com orquestra conduzida por Muir Matheson, passa-se em 1935 (alguns poucos detalhes do filme apenas denotam a época, inclusive no figurino dela, no chapéu, que demonstra que ela é provinciana).
É uma pequena, singela, obra-prima do cinema romântico. Com gente comum, não especialmente bonita, por isso mesmo mais humano e sensível. Principalmente porque o encontro carnal entre eles nunca é consumado. A maior parte da crítica reclama de uma falha no filme, o alívio cômico do condutor da estação com a dona do bar, que inicia o filme (enquanto o casal central está de fundo tendo seu último encontro) e o próprio Lean dizia que ficava embaraçado com essas sequências cada vez que a revia.
Logo depois, chega uma amiga da heroína muito faladora que não deixa os dois conversarem sozinhos, o que parece concluir a situação de forma desajeitada. Já no trem, ela finalmente começa um monólogo interior, prosseguido depois em sua casa, recordando como conheceu o médico, como aos poucos e timidamente os dois foram se envolvendo, indo ao cinema, passando tardes juntos, se descobrindo como refúgio de sua vida banal de esposa de homem medíocre, seguido pelas tentativas de consumar o adultério, o medo, os problemas, os embaraços e desencontros nas paradas de trem, a dor, as mentiras, o sofrimento de ter um amor proibido (tudo isso tendo o tema musical despudoramente romântico).
E finalmente, o desencontro e a necessidade da separação. Justamente aí é que temos o grande momento, é a mesma cena inicial, agora vista pelo ponto de vista da heroína, tudo altamente emocional (aliás, o filme é todo segundo o ponto de vista dela, não ficamos conhecendo a esposa do médico).

O roteiro é de Lean, Coward e do então fotógrafo depois diretor, Ronald Neame. Relançamento (saiu antes pela NBO) de uma obra-prima do cinema! Trevor Howard (1913-88) iria se tornar um grande astro dos filmes ingleses de Carol Reed (O Terceiro Homem), David Lean (A filha de Ryan, Dr. Jivago), Visconti (Ludwig) e O Grande Motim com Brando. Stanley Holloway seria o pai da My Fair Lady. E Celia Johnson (1908-82) se fixaria mais no teatro e na TV (mas esteve em A Primavera de uma Solteirona). Não perca.
Jovem no Coração ***
The Young in Heart
Áudio: Inglês. Leg: Port. Comédia romântica. 88 min. Widescreen. PB. 1938. EUA. Classicline. Livre.
Diretor: Richard Wallace. Elenco: Janet Gaynor, Douglas Fairbanks Jr, Paulette Goddard, Roland Young, Billie Burke, Richard Carlson e Minee Dupree.
Sinopse: O vigarista americano Richard está na Riviera Francesa para dar um golpe do baú se casando com uma milionária, mas é descoberto e obrigado a fugir com a família, pai, mãe e irmã. Eles vão para Inglaterra, onde se hospedam na casa de uma velha senhora, que os ajuda a se reabilitarem.
Comentários: Último filme como estrela da famosa Janet Gaynor (1906-1984), que foi a primeira ganhadora de um Oscar e ao se aposentar morou muitos anos em Anápolis, interior de Goiás, onde foi muito feliz com seu marido o figurinista Adrian.
A atriz ainda retornaria uma vez como mãe de Pat Boone em O Sonho que eu Vivi (Bernadine, 58), mas já havia se cansado de cinema e perdido seu tipo de boa moça que chegou a ser muito popular (ela fez entre outros o clássico de Murnau, Sunrise).
Uma produção originalmente de David O. Selznick que chegou a ser indicada para 3 Oscars (fotografia, trilha musical e arranjos, estes dois do grande Waxman). Inspirado num folhetim The Gay Banditi, o filme é uma comédia agradável, otimista, com bom elenco e produção (eles testaram para o papel de velha inglesa, atrizes lendárias do teatro como Maud Adams e Laurette Taylor, os testes foram preservados e hoje são raros exemplos do trabalho delas).
O script foi feito por Charles Bennett (que fez os melhores filmes britânicos de Hitchcock) e o famoso dramaturgo Paul Osborn e procura ser uma screwball comedy (maluca) típica da época (sobre as excentricidades dos ricos e a esperteza dos pobres como única arma para sobreviverem).

O desenho de produção é do mestre William Cameron Menzies (o mesmo de E o Vento Levou) com um convincente desastre de trens feito com miniaturas e um carro especial que o Coronel vende, chamado The Flying Wombat, o carro do futuro, que lembra um pouco uma mistura do Porsche e um sedan dos anos 30 (este foi um veiculo concebido por Rust Heinz, chamado Heinz Phantom Corsair, que ficou muito famoso entre os aficcionados).
Estreia no cinema do futuro diretor Richard Carlson. Boa diversão para quem curte filmes desse período!
Veja mais:
+ Curta o R7 no Facebook
+ Siga o R7 no Twitter
+ Veja os destaques do dia
+ Todos os blogs do R7













