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24 setembro 2011 às 14:39

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Cinema nacional perde Marlene França

marlenefranca Cinema nacional perde Marlene França

Fico muito triste com a decisão da nova diretoria da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo em acabar com a  Coleção Aplauso e se limitar a editar os títulos já em fase de finalização quando houve mudança de governo. Claro esse tipo de coisa não se diz a imprensa, não se mata, deixa-se morrer. Mas é prático e dá menos imprensa.

Enfim, por que a Coleção cumpria um papel importante na cultura brasileira? Porque ela justamente registrava a carreira e a importância de pessoas, de artistas como Marlene França, que foi grande estrela do cinema brasileiro, mas estava esquecida após um afastamento das telas.

Mas o livro escrito pela crítica e jornalista Maria do Rosário Caetano será o testemunho para o futuro dessa grande mulher que faleceu este fim de semana e foi enterrada neste sábado às 11 da manhã no Cemitério do Redentor, na avenida Dr. Arnaldo, em frente ao Araçá.

A noticia enviada pela amiga Nilu Lebert dizia o seguinte:

Miriam Mehler e Silvio Tendler me enviam a notícia triste, que eu repasso a todos. Morreu ontem em São Paulo, aos 68 anos, a atriz MARLENE FRANÇA. Baiana de Uauá, de uma "família de retirantes" como ela mesma dizia, Marlene tinha de 12 para 13 anos e vendia frutas nas ruas de Feira de Santana quando o cineasta e mestre Alex VIany a descobriu e a convidou para fazer o filme "Rosa dos ventos" (1957).

Depois disso ela não parou mais, trabalhando com Luiz Paulino dos Santos, Mazzaropi, Walther Hugo Khoury, Luiz Sérgio Person, Carlos Coimbra, Roberto Santos, Ozualdo Candeias, Jorge Ileli e muitos, muitos outros.

Marlene se tornou o que se pode chamar de "uma mulher do cinema" por sua trajetória nos anos de 1960 e 1970, principalmente, e depois como cineasta e documentarista. Também amava o teatro, onde desenvolveu o seu aprendizado com Zé Celso, Antunes Filho e Eugênio Kusnet. No início dos anos de 1980 presidiu o Sindicato dos Artistas, o Sated de São Paulo.

O livro de Marlene se chamava Do Sertão da Bahia ao Clá Mattarazzo e na contracapa eu escrevi:

Marlene França

Esta é uma das mais extraordinárias carreiras do cinema brasileiro. Marlene França foi descoberta pelo crítico e diretor Alex Viany quando era menina pobre, filha de retirantes, numa feira em Salvador e ganhou um papel importante no episódio Ana do filme internacional A Rosa dos Ventos (57). Foi o despertar de uma longa carreira construída com muita garra, determinação e talento, que incluem quase 50 trabalhos no cinema e na televisão.

Marlene esteve em filmes memoráveis sob a direção de Walter Hugo Khouri (Fronteiras do Inferno), Carlos Coimbra (A Morte Comanda o Cangaço, Lampião, o rei do Cangaço),Fauzi Mansur (Sinal Vermelho - Fêmeas, A Noite do Desejo, A Noite das Fêmeas), Rubem Biáfora (A Casa das Tentações), Ozualdo Candeias(Caçada Sangrenta) e Roberto Santos (Nasce uma Mulher, Quincas Borba).

Também se tornou diretora de documentários engajados em preocupações sociais (Frei Tito, Mulheres da Terra, Meninos de Rua) e na vida particular, casou-se com um herdeiro da lendária família Mattarazo.

Sua história fascinante é contada pela jornalista Maria do Rosário em mais este lançamento da Coleção Aplauso da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo no seu trabalho de resgate e preservação da memória cultural do Brasil.

Minha lembrança

Falta dizer que eu gostava muito de Marlene. Eu a conheci através do nosso amigo em comum Ney Latorraca, com quem ela filmava A Noite do Desejo. Fui na filmagem em plena Boca uma par de vezes e acabei passando por algumas divertidas aventuras.

Era uma mulher sincera, exuberante, sempre faladora e interessante, ávida por cultura. Depois disso teve uma vez até que eu fui assistir a festa do Oscar, que eu cobria para o Jornal da Tarde, bem antes de comentá-lo, porque seu apartamento na Avenida Angélica era dos primeiros a ter televisão colorida (lembro que Alfredo Sternheim estava junto e depois de tudo ainda voltei para o jornal para escrever o texto).

Também ajudei na assistência de Direção de A Casa das Tentações, que ela participou.  Não nos víamos com frequência e a última vez que a encontrei foi na festa de lançamento do livro. Demos um abraço bem apertado. Que bom que ainda tivemos a chance de homenageá-la em vida , onde conseguiu retratar uma vida extraordinária. Era retirante mesmo, muito pobre e foi o cinema que a salvou e a trouxe para São Paulo e o eventual casamento com um Mattarazzo.

Era antes de tudo um bicho cinematografia, fez TV, teatro,dirigiu documentários (aliás, engajados em retratar a miséria que conheceu tão bem), mas era na tela com seu tipo muito brasileiro que deixou  sua marca. Ali e no coração da gente.

Filmografia

1957 - Rosa dos Ventos (inédito aqui) Episódio de Alex Viany (Rosa).
59 - A Fronteira do Inferno, de Walter Hugo Khouri. Jeca Tatu (de Milton Amaral, seu primeiro marido).
1960 - A Morte Comanda o Cangaço, de Carlos Coimbra.
1961 - Mulheres e Milhões ,de Jorge Ileli. O Rapto, de Ary Fernandes. A moça do Quarto 13, de Richard Cunha. (produção americana).
1962 - O Cabeleira, de Milton Amaral. Três Cabras de Lampião de Aurélio Teixeira.
1963 - Lampião, o Rei do Cangaço, de Coimbra.
1964 - Carta para Anita, de Ken Anderson. Mulher Satânica, de Alfonz Stumman.
1968 - O Pequeno Mundo, de Marcos de Geraldo Vietri. Panca de Valente, de Luis Sergio Person.
1969 - Agente da Lei, de Ary Fernandes.
1970 - Se meu Dolar Falasse, de Carlos Coimbra .
1971 - A Herdeira Rebelde, de Nelson Teixeira. Lua de Mel e Amendoim, de Fernando de Barros. Cio, uma verdadeiro Historia de Amor, de Fauzi Mansur. Até o ultimo Mercenário, de Pena Filho e Ary Fernandes.
1972 - A Infidelidade ao Alcance de Todos, de Anibal Massaini. Janaina, a Virgem Proibida, de Olivier Perroy. Sinal Vermelho, as Fêmeas, de Fauzi Mansur.
1973 - Caçada Sangrenta, de Ozualdo Candeias.Trindade é meu Nome, de Edward Freund. Uma Nega Chamada Tereza, de Fernando Cony Campos. A Noite do Desejo, de Fauzi Mansur.
1975 - O Super Manso, de Ary Fernandes.
1976 - O Bacalhau, de Adriano Stuart.  Noite das Fêmeas/Ensaio Geral de Fauzi Mansur. A Casa das Tentações, de Rubem Biáfora. O Mulherengo, de Fauzi Mansur.
1978 - O Estripador de Mulheres, de Juan Bajon. O Bem Dotado/O Homem de Itu, de José Miziara. Crueldade Mortal, de Luis Paulino dos Santos. Mulher Desejada, de Alfred Sternheim.
1979 - A Dama da Zona, de Odyr Fraga. Paula, a História de uma Subversiva, de Francisco Ramalho Jr.
1980 - A Conquista do Paraíso, do argentino Eliseo Subiela.
1981 - Chick Fowle, o Faixa Preta do Cinema, de Roberto Santos (C M).
1983 - Nasce uma Mulher, de Roberto Santos.
1984- O Último Voo do Condor, de Emilio Fontana.
1987 - Quincas Borba, de Roberto Santos.
1990 - Desordem em Progresso (Epis. Carlos Reinchebach para o filme City Life).

Como diretora

1983 - Frei Tito (doc CM).
1985 - Mulheres da Terra (Doc. 25 min).
1988 - Meninos da Rua (Doc. 22 min).
1989/91 - O Vale da Mulheres (Video documental).

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