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27 setembro 2011 às 16:48

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Descobertas: Fish Tank, de Andrea Arnold

Deve ter sido exibido nos Festivais do Rio e Mostra de São Paulo (o IMDb até dá um título brasileiro de Festival como "Aquário"), mas eu nunca tive a chance de assistir porque nunca saiu comercialmente aqui, nem em DVD. Mas falavam tanto desse filme que resolvi arriscar e o comprei pela Amazon, na sua edição da Criterion (não Blu Ray). Há outra razão para o filme ficar famoso agora que seu ator principal, Michael Fassbender acabou de ganhar o premio de melhor ator no Festival de Veneza (por sua interpretação frequentemente nua em Shame). Já falei no rapaz várias vezes aqui, inclusive por causa de X Men: Primeira Classe e Bastardos Inglórios (antes que alguém faça a pergunta fatal, não ele não tem nada a ver com o alemão Werner Fassbinder, que é com "i").

postrubens fish tank Descobertas: <i>Fish Tank</i>, de Andrea Arnold
Quem dirigiu o filme foi uma mulher e como gosto de fazer prefiro antes apresentá-la:

Arnold, Andrea (1961 -    ). Atriz, roteirista e diretora inglesa. Nasceu em Dartford, Kent, num dia 5 de abril. Despontou em sua terra natal num programa de tevê infantil. Entre 1984 e 1990, foi atriz de programas de tevê como On Safari, No 73 e 7TE. Neste último ano, estreou como roteirista na série A Beetle Called Derek. Dirigiu seu primeiro filme oito anos depois, aos trinta e nove anos de idade: o curta Milk. Dois anos depois realizou mais um curta, Dog. Em 2003 foi diretora de um episódio do seriado de tevê Coming Up. Consagrou-se no mesmo ano com outro curta-metragem, Wasp, vencedor do Oscar da categoria. O filme ainda venceu outros vinte prêmios ao redor do mundo, incluindo o Festival de Sundance. Seu primeiro longa foi Marcas da Vida, primeiro de uma trilogia (cada produção com um diretor diferente) sobre a periferia de Glasgow, na Escócia, em que as três histórias mostram os mesmos nove personagens. Produzido pelo cineasta Lars Von Trier, o longa foi premiado vinte vezes. Entre elas, um BAFTA e o prêmio do júri em Cannes. Seu projeto seguinte, Fish Tank, ganhou outro prêmio do júri em Cannes 2009 e teve grande repercussão internacional.

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Andrea Arnold, a diretora de Fish Tank

Ela tem um estilo realista, capturando performances extraordinárias, por vezes trabalhando sem roteiro, mas conseguindo fazer retratos autênticos e humanos da classe operaria britânica. Seu novo filme exibido em Veneza 2011 é uma nova versão de O Morro dos Ventos Uivantes de Charlotte Bronté. Ou seja, uma inovação em sua carreira, um filme de época.

Dir.: 1998 – Milk (CM. Stephen McGann, Lee Oakes). 2001 – Dog (CM. Joanne Hill, Freddie Cunliffe). 2003 – Wasp (CM. Nathalie Press, Danny Dyer). 2006 – Marcas da Vida (Red Road. Kate Dickie, Tony Curran). 2008 - Cinema16: World Short Films (CM). 2009 - Fish Tank (Michael Fassbender, Katie Jarvis). 2011- Wuthering Heights (Katia Scodelario, James Howson).

Fish Tank

Não há uma explicação explícita no filme do que seria o título. A julgar por uma sequência no meio da história, ela se refere não a um aquário mas àquelas lagoas que são feitas, em geral artificialmente, para criar peixes que depois servirão para os pescadores amadores usarem em pescarias de fim de semana. Nessa cena, a heroína chamada Mia (a eficiente Katie Jarvis, que ainda continua desconhecida) vai com o namorado da mãe Connor (Fassbender) até esse lago onde ele captura um peixe com as mãos e depois o mata enfiando um pedaço de pau (segundo ele, a melhor maneira de liquidar com piedade o peixe). Achei que, alegoricamente, esse Mia era o próprio peixe, presa num lugar sem saída (ela vive num daqueles prédios populares tipo BNH britânico, que o Mike Leigh gosta muito de mostrar).

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É engraçado como os ingleses têm sabido retratar essa classe operária (working class), menos favorecida,  em seus hábitos e infelicidades, com notável perspicácia e humanidade. Começando pelo pioneiro nisso que foi Ken Loach. Mas não é fácil gostar ou empatizar com Mia. Ela é mal criada (nos dois sentidos), rebelde, violenta, grosseira e esconde seus sentimentos com perfeição. Vive num apartamento de dois quartos com sua mãe e irmã mais nova. Reclama da mãe Joanne e deve ter razão mas não chegamos a ter um retrato muito preciso do porquê. Essa Joanne é feita pela atriz mais conhecida do elenco que é Kierston Waring (há entrevista com ela na edição), veterana de mais de 20 trabalhos inclusive It's a Free World de Loach.

Além de brigar com a família e os amigos, vizinhos e tentar libertar um cavalo (ao que parece velho e que pertence a ciganos que estão por ali) e de tentar ser dançarina (tenta fazer teste para boate, mas desiste) pouco sucede mais, a não ser o fato da mãe ter esse novo namorado, que é bondoso com as meninas. Bom demais. Cria-se um clima de tensão sexual entre eles, Mia e Connor, que só pode terminar num momento de sedução. Aparentemente não planejado porque ela só tem 15 anos e isso pode ser um problema.

A diretora Andrea usa aquele estilo que esta na moda de perseguir o personagem com a câmera na mão, seguindo-o implacavelmente. Assim Mia vai atrás de Connor (que terminou o namoro com a mãe ) o que a leva a descobertas não muito surpreendentes e a decisão de tentar escapar daquele aquário. Naturalmente em vão. O comportamento da garota não é muito diferente das meninas brasileiras do mesmo status social. Talvez um pouco menos perua, mas não quer estudar, suas ambições são imediatas e os sonhos precários. Com certeza vai terminar como a mãe naquele circulo vicioso tradicional (as brasileiras contaminadas por novelas acreditam que irão encontrar um bom homem rico e irão engravidar, para depois sustentar seu homem preguiçoso como todos pelo resto da vida).

Uma das coisas boas desta edição é trazer os três curtas com que a diretora se iniciou. Milk (98) é sobre mulher casada que perdeu o filho recém nascido e traumatizada. Inicia transa com rapazinho mais novo que conclui com ele mamando como um bebê e ela toda feliz em ser mãe de alguma forma. Dog (2001) é sobre adolescente que não se dá com a mãe, mas sai com o namoradinho para transar em lugar ermo até quando a presença de um cachorro (que  ele mata gratuitamente) revela sua verdadeira personalidade. A moça vai embora largando-o. O terceiro ganhou um Oscar de curta-metragem  que é Wasp (03), a história de uma mãe solteira,  que vive em Dartford e tem quarto filhas e não tem dinheiro para comprar comidas para elas. As crianças são lindas e ótimas atrizes e o filme sem nada de sentimental. Sua tentativa de ter um namorado e sair com ele não é bem sucedida!

fishtank post Descobertas: <i>Fish Tank</i>, de Andrea Arnold
Fiz questão de contar as histórias inclusive com a conclusão porque certamente vocês não terão acesso a esses curtas e eles ja dão uma ideia bem precisa de quem é essa diretora e o que pretende. Logicamente Fish tank não é comercial, mas um representante de um filme cru e social que muitas vezes o brasileiro tenta imitar sem sucesso.

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