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7 outubro 2011 às 09:43

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Redescobrindo os Clássicos: Blu-ray: Os Sapatinhos Vermelhos (The Red Shoes)

Inglaterra, 1948. Formato Standard. 134 min.Cor. Monaural.

sapatinho blu ray Redescobrindo os Clássicos: Blu ray: <i>Os Sapatinhos Vermelhos</i> (<i>The Red Shoes</i>)

Diretor: Michael Powell, Emeric Pressburger. Fotografia de Jack Cardiff. Roteiro de Pressburger, Powell e Keith Winter, inspirado pelo conto de Hans Christian Andersen. Música original de Brian Easdale. Montagem de Reginald Mills. Desenho de produção de Hein Heckroth. Coreógrafo de Robert Helpmann.

Elenco: Moira Shearer, Anton Walbrook, Marius Goring, Robert Helpmann, Frederick Ashton, Ludmilla Tcherina, Albert Basserman, Leonide Massine, Esmond Knight, Irene Brown.

Sinopse: Uma jovem bailarina fica dividida entre duas forças, o compositor que a ama e o empresário que está determinado a transformá-la em grande estrela. Quando interpreta o balé inspirado no conto de Hans Christian Andersen, Os Sapatinhos Vermelhos, ficção e realidade se misturam.

Não tinha idade para assistir o filme na estreia. Ouvi muito falar dele, mas só fui conhecê-lo em algum momento dos anos 80 quando ele foi finalmente reprisado nos cinemas. A cópia era ruim e fiquei decepcionado. Afinal, este é o filme que mais influência teve na formação de uma nova geração de bailarinas clássicas em todo o mundo (aqui no Brasil existe disponível uma edição duvidosa da sempre polêmica Continental, que parece aproveitar uma remasterização checada pelo fotógrafo original em technicolor, o mestre Jack Cardiff).

Mas finalmente agora podemos ter acesso na edição americana da Criterion da nova restauração feita pela firma de Martin Scorsese (que era grande amigo do diretor Michael Powell, que por sua vez era casado com a montadora Thelma Schoomaker, que foi e continua a ser montadora perpetua de Scorsese e que dá um depoimento aqui).

Esta é a cópia que foi apresentada durante o Festival de Cannes, restauração digital porque conforme Thelma explica não há mais laboratórios do sistema Technicolor (todas fecharam, mas os criadores do sistema sempre consideraram este filme como o melhor que soube usar seus recursos).

Ou seja, é o melhor possível. E Cardiff (1914-2009), como já dissemos aqui várias vezes inclusive, ao comentar Narciso Negro, ganhou Oscar especial em 2001 e revolucionou o cinema colorido. Então visualmente é deslumbrante e artisticamente inovador. Nunca houve antes um filme de e sobre balé, produzido especialmente para o cinema (depois Gene Kelly faria Convite a Dança e os próprios diretores daqui fariam Os Contos de Hoffman, 51, que não teve o mesmo sucesso por ser mais indigesto).

No caso, é bom explicar que a dupla de diretores tinha uma firma chamada The Archers, que trabalhava com independência durante o tempo da Guerra, mas depois foi obrigada a se unir a Organização J. Arthur Rank ( que era grande exibidor na Grã Bretanha e formou um estúdio a moda de Hollywood). O britânico Powell (1905-90) cuidava dos atores e da parte visual enquanto o judeu húngaro Pressburger (1902-88) que teve que fugir do Nazismo se dedicava mais a parte de história e roteiro.

Fizeram 17 filmes desse jeito. Mas este é o mais famoso, premiado com Oscars de direção de arte (hoje a parte mais discutível do filme e foi feita por um pintor Hein Heickroth, a primeira vez que isso sucedeu num filme ) e trilha musical (Easdale, outro colaborador habitual deles) e foi indicado ainda como melhor filme, montagem e roteiro. Embora tenha ganho o Globo Ouro de trilha musical, passou em Veneza sem levar nada e só foi indicado para o BAFTA britânico de melhor filme local. Hoje, na lista de melhores filmes ingleses de todos os tempos feita pela mesma organização, está em nono lugar.

A origem remota do filme foi um projeto em 1934 que o produtor Alexander Korda, que costumava fazer super produções  que rivalizavam Hollywood, pensou em realizar contando a vida do mais famoso dos bailarinos Nijinsky, mas que também servisse para promover sua mulher e estrela Merle Oberon. A ideia seria usar uma duble dela nas cenas de dança, mas os testes não deram certo enquanto Pressburger tentava desenvolver o script.

Também já era idéia de Korda utilizar como tema o conto infantil de Hans Christian Andersen, Os Sapatinhos Vermelhos (a bailarina que usa os sapatos de dança vermelhos que não param nunca e por isso acabam por matá-la).Também se pensava em emular a figura de Sergei Diaghilev, o coreÓgrafo e criador (e amante) de Nijinsky, que na verdade  inspira o personagem do mestre neste filme, que é o  Boris Lermontov (Anton Walbrook). O projeto foi arquivado quando Merle se divorciou de Korda, foi para Hollywood e veio a guerra.

Os Archers resolveram retomar o projeto deixando de lado Nijinsky e se fixando então no mentor que é obcecado pela jovem bailarina Victoria Page , que ele não quer que seja apenas uma estrela, quer também controlar sua vida exigindo que não tenha uma vida pessoal e largue do marido. Para o papel eles pensaram imediatamente no ator austríaco Adolf Wohlbruck  (1896-1967), que descendia de família de palhaços, estudou com Max Reinhardt e também teve que fugir do nazismo. Ele teve uma carreira importante com Ophuls (Lola Montes, O Prazer, La Ronde), Preminger (Joana D´Arc) e o personagem lembra um pouco o de Svengali. Mas é uma interpretação da velha guarda, pesada, composta, um pouco canastrona. (Eu particularmente não aprecio este tipo de atuação). Também inspirado no próprio Korda, ele usa quase sempre óculos escuros (coisa que não se usava na época mas que influenciou os astros de hoje) e sem dúvida um toque de pedantismo e até como dizem os ingleses, "gayness".

O filme porém, não teria dado certo se não tivessem descoberto Moira Shearer (1926-2006), uma jovem ruiva que foi indicada pelo ator Stewart Granger e que era coadjuvante na Companhia Sadler´s Wells (a estrela era a Margot Fonteyn). Muito fotogênica (reparem como evitam mostrar seus dentre frontais que são separados como os de Anna Paquin), se defendia como atriz, era leve, delicada, elegante e teria uma longa carreira até mesmo na MGM (fez Histórias de Três Amores com James Mason). Um detalhe: ela é dançarina, tem postura, anda como dançarina.

Estranho que Powell teve grande dificuldade de persuadir Moira a fazer o filme e ela resistiu durante um ano antes de aceitar. Chegaram a pensar em Ann Todd ou Hazel Court. Moira nunca gostou muito dele, descreveu a filmagem como um sacrifício dizendo que não foi dirigida,  que ele era distante e distraído e ter que dançar por horas em seguida era cansativo e faziam suas pernas incharem (ainda assim eles voltariam a trabalhar juntos outras vezes). O escritor Ludovic Kennedy (1919-2009) sempre afirmou que se apaixonou por Moira vendo o filme e teve a certeza de que se casaria com ela. O que sucedeu, ficaram juntos até a morte dela e tiveram quatro filhos!

O filme também apresenta, ainda que relativamente pouco, outra bela figura da dança que é a russa Ludmilla Tcherina (1924-2004), que se tornaria uma estrela não apenas da dança mas também do cinema (fez 24 filmes inclusive Atila, o Rei dos Hunos com Jack Palance, A Vida Intima de Sherlock Holmes de Billy Wilder, A Filha de Mata-Hari, Spartacus o de 53 com Massimo Girotti, dirigido por Riccardo Freda).

A história é contada de forma que o clímax do filme é o balé de 17 minutos e por isso para o projeto foi preciso criar de fato uma verdadeira companhia de balé, de 53 artistas, dançando de verdade, sem dublês, mas alguns truques de câmera bem engenhosos para a época (como quando ela veste os sapatinhos). Claro que isso também provocou choque de egos, porque chamaram figuras experimentadas como Leonide Massine que veio dos Balés Russos e foi também protegido de Diaghilev e Robert Helpman, que também assina a coreografia. É curioso também que o filme quando foi apresentado para os executivos do estúdio todos saíram da sala sem endereçar uma única palavra aos criadores.

Praticamente nem foi exibido na Inglaterra (nem chegaram a fazer um pôster original do filme). Reclamaram da cena final dizendo que era sangrenta demais. O filme foi salvo porque um casal que tinha um cinema de arte em Nova York se enamorou dele e o deixou em cartaz durante dois anos! Foi assim que acabou sendo descoberto e consagrado. Que não era literatura, mas cinema puro (em alguns momentos o fotógrafo aumentou a velocidade para dar a impressão de que os bailarinos flutuavam no ar).

Certos filmes “batem” no coração da gente, outros não. Eu confesso que fiquei mais impressionado em ver em HD as imagens da velha Monte Carlo, a passagem do trem, do que o próprio balé. Não gosto do estilo de interpretação da maior parte do elenco (e isso inclui Goring que faz o marido de Moira). Mas é uma sensação pessoal que não deve influir na avaliação do filme, que além de sua importância histórica, de seu incrível visual, sem dúvida criou um novo gênero, ainda pouco explorado.

Esta edição traz comentário em áudio de Moira, Goring, Cardiff e Easdale, além de Scorsese, áudio do ator Jeremy Irons lendo trechos da novelização do roteiro e também o conto de Andersen, um documentário sobre a realização do filme, raras fotos da filmagem, galeria de lembranças do filme que pertencem a Scorsese, sketchs animados com os desenhos originais de Heckroth, trailer de cinema, e um livreto com ensaio escrito por David  Ehrenstein e descrição sobre a restauração do filme.

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