12 outubro 2011 às 06:00
Diário de Nova York – Parte 3
Em princípio eu implico com shows da Broadway que são inspirados em filmes, adaptações de sucesso, talvez porque tenha visto alguns horríveis como Footloose, Saturday Night Fever e inúmeros outros que fracassaram.
Mas há exceções, e uma delas é esta versão de Sister Act, Mudança de Hábito. Houve dois, o primeiro era muito legal, o segundo mais fraco, mas ambos estrelados por Whoopi Goldberg, que aparece nos créditos como apresentadora do projeto.
O fato é que eu adorei o espetáculo, vibrei com os números musicais, gostei do roteiro e achei as canções muito superiores ao que se tem ouvido no palco recentemente, talvez porque são assinadas pelo superpremiado Alan Menken, aquele mesmo que fez os grandes clássicos musicais da Disney, como Pequena Sereia, Bela e a Fera, o recente Enrolados, Pequena Loja de Horrores e muitos outros.
Não vi o Book of Mormons, que é o único espetáculo que não tem entrada fácil e quando não encontrei na internet, nem quis me dar ao trabalho de procurar, mas já ouvi a trilha, que é satírica e previsível e, para mim, muito inferior a esta aqui. Ao menos julgando pelo CDs.
Por que achei tão legal? Na verdade, não sou minoria, a julgar pelo sucesso do espetáculo com casas lotadas e entusiasmadas, gente vibrando com tudo e todo o elenco. Acho que a grande sacada da adaptação é que não se limitou a imitar o filme, seguiu, sim, as linhas gerais, mas trabalhou no roteiro como se fosse mesmo uma história original.
Agora todos ganham suas canções, seus solilóquios (a madre superiora, por exemplo, conversa o tempo todo com Deus, pedindo conselhos, à moda de Don Camillo, com a diferença de que não se ouve a voz dele respondendo!).
Ou seja, os personagens de coadjuvantes são desenvolvidos e têm seu grande momento, inclusive o interesse romântico da heroína Deloris, que é um policial, ex-colega dela de high school, que não é levado a sério porque vive suando!
Todos têm seu momento: os três capangas do gangster (um deles é um sobrinho deficiente mental, mas nem por isso menos engraçado), o próprio vilão (era branco no filme, feito por Harvey Keitel, aqui é negro), a jovem noviça que não conhece nada na vida e, naturalmente, várias freiras que formam o coro conseguem ter sua personalidade muito clara, ainda que com algumas personalidades.
Ainda assim permanece a história central e básica: Deloris (Patina Miller, vencedora do Tony) quer ser cantora, mas seu amante, dono de boate e gângster, não permite. Por acidente, quando ela pensa em fugir, acaba sendo testemunha do assassinato de um capanga delator.
Aí que foge para servir de testemunha contra ele, escondida pela polícia num convento católico onde ela recebe a missão de ensaiar o horrível coro na paróquia tão decadente que estão para vender e fechar a Igreja.
Claro que ela muda tudo, transformando a apresentação num show de Las Vegas (o espetáculo ainda é de época e o clímax é quando o coro deve se apresentar ao Papa Paulo VI) , cada vez com mais brilho (nas roupas), mais truques de cena. Claro que é uma fantasia, uma comédia, uma diversão, que brinca com a Igreja católica, mas acaba sendo uma clara propaganda dela. Afinal brilho, canto e dança são o american way!
Acho que o show funciona principalmente porque o elenco é excelente, além de revelar uma estrela, uma negra bonita e apimentada, cheia de vida e talento, chamada Patina Miller (em seu primeiro papel importante) muito bem coadjuvada pela já consagrada Victoria Clark (ganhou o Tony por Light in the Piazza que eu não assisti, mas tem presença, voz, uma figura agradável).
Mas posso elogiar praticamente todos os outros do elenco com as mesmas palavras. É uma direção muito eficiente e luminosa do experiente diretor Jerry Zaks, que está também em cartaz com A Família Addams (que está para estrear no Brasil) e já ganhou 4 Tonys.
Um espetáculo que eu recomendo - sem exceções - para qualquer turista que venha a Nova York. Não precisa saber muito inglês para se divertir com tantas lantejoulas cintilantes e números contagiantes.
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