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14 outubro 2011 às 18:30

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Adeus a um grande amigo: Leon Cakoff

rubens31 Adeus a um grande amigo: Leon Cakoff

Quem me avisou sobre a morte foi uma repórter da Folha em busca de alguma declaração já prevenindo que era uma notícia triste. Mesmo quando um fato é esperado, temido, nem por isso o choque fica menor. Comecei a falar com ela, meio recordando, meio homenageando. Meio perdido, confesso. Quando a voz começou a falhar, veio o nó na garganta, a lágrima, o descontrole. Tentava explicar que não era uma perda comum.

 

Leon não era um simples amigo, eu o conhecia desde quando éramos dois jovens críticos de cinema, na mesma época, em jornais diferentes, ele no Diários Associados, eu no Jornal da Tarde.  Ele sempre acompanhado do amigo Renato Petri (eram duas edições que eles dividiam, se bem me lembro) que eventualmente desistiu da profissão. Eu começando a ter contato com o Rubem Biáfora, uma pessoa polêmica, dono da página do Estadão aos domingos, que era o modelo de todos nós. Mas também uma pessoa original, com ideias avançadas que não se ajustavam aos padrões da crítica da época.

 

Se bem me lembro eu e Leon nunca brigamos, crescemos meio paralelamente. Acompanhei de perto sua primeira ida ao Festival de Cannes, um sonho de nossa geração, que ele foi o primeiro a concretizar. Credo, quanto tempo faz? Começo dos anos 70 por aí, o que o tornou o decano dos jornalistas que cobriam Cannes. Mas sempre com muita dificuldade, muita batalha. Depois também estive perto na criação das primeiras mostras de Cinema ainda no Masp,  chegamos a viajar juntos para festivais no interior (acho que Teresópolis foi um deles) e mais tarde, passamos a frequentar os principais festivais no exterior, ele sempre correndo atrás dos filmes, eu das entrevistas. Certa vez, depois de Cannes, fomos com a então mulher dele,  Iara Lee,  fazer uma excursão (de velhos) até a Grécia clássica como diziam. Que por sinal foi ótima.

 

Engraçado, Leon tinha gênio forte, mas nunca brigamos, nunca tivemos um desentendimento. Para todo lugar que eu fui, como a HBO, por exemplo, eu o levei e a Mostra junto. E ele sempre reconheceu isso.  Na Mostra, quando precisava de mim, mandava um recado e eu ajudava no que fosse preciso. Sabia das dificuldades, mas também dos sucessos, na parceria com os cinemas Artplex, a luta pela distribuidora de arte Filmes da Mostra, essa vida tão insegura de tantos vai e vem.

 

Há uma certa altura depois de vinte e tantos de Cannes resolvi não ir mais, muito caro, muito filme ruim, e o melhor: podia ver por aqui mesmo que o Leon trazia.  Mas sentia mais falta não dos filmes, mas das nossas conversas, nossos jantares, minha implicância com seu amigo Manoel de Oliveira.

 

Acho que Leon teve muita sorte de encontrar a Renata como companheira, uma mulher forte, resolvida, que sabia ser compreensiva quando precisava e que desenvolveu um amor pelo cinema tão grande quanto o dele. Puxa vida... são tantas as memórias. Acho que a mais forte é mesmo a Mostra, que se tornou um marco cultural importante na história deste pais tão repleto de projetos frustrados e ideias destruídas pelos burocratas que as herdaram. Mas com o casal, a Mostra manteve-se fiel a sua linha inicial (nada contra estrelas, apenas não era essa a proposta de Leon) e mantém-se forte até hoje. Esse é um legado que poucos podem se orgulhar em deixar.

 

Agora nestes tempos amargos da doença fui visitá-lo e conversamos muito sobre os filmes que nos marcaram e o prazer que se tem em revê-los, redescobri-los. Mostrou-me também os curtas que produziu, em particular, o do Atom Egoyam, que era a história de sua família e traz ele mesmo como figura marcante. Gostei tanto de vê-los. Como tinha já gostado da carta para Kiarostami, mas era mais um passo adiante no sonho de produzir, realizar, criar. Um projeto tão bonito que eu esperava que ele sobrevivesse ao menos ate o final desta Mostra.

 

Não foi assim. As coisas nunca são bem como a gente quer ou imagina. Mas ainda não passou o choque e a perda.  Acho que não vai passar nunca. Quando se perde um amigo de tanto tempo, que nunca deixou de se preocupar com a gente (seu último telefonema há dias foi para me cobrar um conselho que tinha dado, para enfrentar um problema meu de família). A gente perde uma parte de nós mesmos. Talvez a melhor parte. Aquela que é o estofo dos sonhos, das ilusões, da fantasia e da mágica do cinema. Que nem a morte, nem a distância derrota.

 

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