22 outubro 2011 às 15:10
Peça A Man and a Boy, direto de Nova York
Foi uma boa experiência assistir ainda em preview, antes da estreia oficial, esta montagem de um texto do escritor inglês Terence Rattigan, que já foi o mais importante de sua geração até ser destronado pela chegada do movimento chamado Angry Young Men, liderado por John Osborne e sua peça Look Back in Anger, no começo dos anos 60.

Este seu texto foi vítima, justamente, de sua queda de prestígio, sendo que a princípio foi rejeitada por Rex Harrison e Laurence Olivier (que já pedia para Osborne escrever para ele The Entertainer) para só ter repercussão novamente em 2006, quando foi estrelada com êxito por David Suchet. Houve também uma montagem na Broadway com Charles Boyer, mas parece que o astro de cinema, acostumado a fazer papéis simpáticos, exigiu mudanças que transfiguraram o resultado.
Acho muito intrigante a figura do escritor Rattigan (1911; 77) que foi sucesso durante anos no West End, a partir do êxito de sua peça French without Tears. Homossexual não assumido, filho de família rica de diplomata, que teve muitas aventuras amorosas héteros em sua vida.
Ele teve uma bela carreira que inclui Profundo Mar Azul com Vivien Leigh (recentemente refilmado, nunca consegui ver o original e ainda não conheço a nova versão), Vidas Separadas (Separate Tables que resultou em filme com Deborah Kerr, David Niven (que levou o Oscar), Burt Lancaster, Rita Hayworth e Wendy Hiller (que também levou o Oscar), O príncipe Encantado com Marilyn Monroe e Laurence Olivier (que também dirigiu), Nunca te Amei (The Browning Version, com Michael Redgrave), O Cadete Winslow (filmado em 69), roteiros originais dos filmes Rolls Royce Amarelo (66), Gente Muito Importante (63) com Elizabeth Taylor, e etc.
Esta montagem é feita pela companhia (de fins não lucrativos) Roundabout (o que permitiu que ao final houvesse um debate com os atores coadjuvantes, parte da tradição do que grupo que contou por exemplo que o final não havia sido decidido direito, que estavam experimentando para encontrar um ideal e contou que a historia foi inspirada num fato real, um empresário e homem de negócios sueco chamado Ivar Kruger, um magnata que se matou depois que descobriram várias falcatruas).
Embora a montagem seja correta e interessante, a principal razão para eu querer assistir o espetáculo é que eu sou fã do protagonista Frank Langella, que já ganhou três Tonys (Seascape, 75, Fortune’s Fool, 2002, Frost/Nixon em 2007) e é considerado insuperável (hoje em dia) para fazer um homem mau.
Vocês devem ter o visto no cinema (entre as aparições recentes estão A Caixa, Wall Street 2, Entre Segredos e Mentiras e Superman, o Retorno) desde que estrelou uma versão para a tela de Drácula, o personagem que ele tinha ressuscitado com tanto sucesso na Broadway. Mas seria na Broadway que ele teria seu espaço (entre outras coisas ele viveu muito tempo com Whoopi Goldberg) que confirma agora nesta encenação que vai ficar pouco tempo em cartaz (porque é essa a praxe do grupo).
Bem alto (perto de um metro e noventa), quase sem cabelo, muito sóbrio, Langella é daquelas figuras de grande presença, perfeita enunciação, total domínio de cena. E que não tem medo de fazer um vilão. Seu personagem aqui explora o que a critica chama a patologia do poder.
Chama-se Gregor Antonescu e vem se refugiar no apartamento pequeno do único filho (com quem está brigado) quando está ameaçado de falência e quando é descoberta uma irregularidade numa possível fusão de empresas. Mesmo assim, ele não tem o menor pudor de usar o filho músico com isca para virar o jogo fazendo-se passar por homossexual (como se o filho fosse seu casinho) para assim atrair a atenção e boa vontade do rival (que se interessa pelo rapaz!).
Isso já dá uma ideia da falta de pudor do personagem. Ele é egocêntrico e manipulador, sempre acompanhado por um secretário (que procura livrar sua própria cara) e por uma mulher troféu (um personagem bem curioso: uma falsa condessa que pula fora quando há ameaça de doença, dizendo que não tem jeito para esse tipo de coisas e que odeia enfermidades).

Tudo isso é conduzido num cenário discreto pela diretora Maria Aitken, como se fosse um filme dos anos 40/50, com uso de sobretudos, chapéus (fedora, como dizem os americanos), muita gente fumando e tomando uísque.
Há um tom trágico, pessimista, em todo o processo (talvez anunciando a morte do próprio autor que não sabia ainda, mas já sofria na época de leucemia). Dizem que Rattigan se especializava no chamado vício-inglês, que não era a pederastia, mas a inabilidade de expressar emoções. Era basicamente essa a base para toda sua dramaturgia.
Como esse chamado vício não é privilégio só dos britânicos, é fácil se identificar com a história, a negação do pai em aceitar o amor do filho, mas que não o impede usá-lo para salvar sua pele.
Naturalmente brasileiro quando vai aos teatros da Broadway se fixa em musicais, certamente ou ao menos em parte, porque não domina a língua. É uma pena porque perdem assim outro soberba interpretação do mestre Langella.
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