23 outubro 2011 às 18:09
Diário de Nova York: crítica do musical Anything Goes
Não há nada mais desagradável para um espectador do que chegar a um teatro da Broadway e descobrir que justamente os atores centrais não estão representando naquele dia. É praxe sempre anunciar e, se for o caso, você pode ir na bilheteria e conseguir seu ingresso de volta. Mas na prática isso não funciona porque você não mora em Nova York , vai ter que retornar e não tem dias disponíveis para cancelar tudo na última hora e retornar em outro dia (o bom e também o ruim da cidade é que há sempre um milhão de coisas para se fazer no mesmo horário e dia, cada escolha significa que você está perdendo alguma coisa).
Para evitar surpresas chatas, em geral, eu evito ir em matinês porque é mais fácil atores famosos fugirem delas (não é mole interpretar na Broadway porque o ator tem que fazer espetáculos diários, de terça a domingo e ainda duas matinêss, uma na quarta outra no sábado. Pensem que no Brasil hoje em dia as peças ficam em cartaz só de sexta a domingo, por isso nunca se pagam direito).
Enfim, fiquei muito irritado quando cheguei a recém reconstruído teatro batizado de Stephen Sondheim (sobraram apenas algumas portas antigas que foram usadas de decoração) e fiz algumas descobertas.
1) Descobri que Joel Grey, o ilustre e premiado com o Oscar apresentador de Cabaret, já tinha saído do elenco faz tempo. E deixaram seu nome nos cartazes! O substituto nem é preciso dizer é um imitador de Jack Black e muito fraco.
2) A estrela oficial do espetáculo embora não seja famosa por aqui no Brasil, na Broadway é uma das poucas estrelas dos anos recentes, que é o caso de Sutton Foster, que vi brilhando em Positivamente Millie, depois Little Women, mas que o cinema até agora não descobriu mesmo porque é boa atriz, mas não especialmente bonita.
Pois neste dia Sutton não estava e foi substituída por uma stand in, uma já veterana sósia de Joan Rivers (melhorada) que não comprometeu, mas também não acrescentou nada. Ou seja, sem o brilho de estrela o espetáculo fica banal e nem sei se eu teria a vontade de assisti-lo.

Até porque já conheço por demais o espetáculo original de Cole Porter. Já vi a versão para a TV dos anos 50 com Frank Sinatra, Ethel Merman e Sheree North (quer mais elenco que isso!?), depois o filme de 56 com Bing Crosby, Mitzi Gaynor, Donald O’Connor e Zizi Jeanmaire chamado Maravilhas em Desfile (as canções eram as mesmas, mas o filme era mediano) e também o revival anterior no comecinho dos anos 80 com Leslie Uggams (teve mais uma mais recente, em 86, com Patti LuPone, mas dessa escapei).
Não é preciso se fazer mais o elogio de Cole Porter, da elegância e charme de suas canções e principalmente suas letras. Aqui ouvimos Blow Gabriel Blow (como se fosse hino de Igreja), Easy to Love, It’s Delovely, You’re the Top, Claro que Anything Goes e ainda I Get a Kick out of You. Todo passado num transatlântico, com uma histÓria muito tênue sobre desencontros amorosos (basicamente um jovem financista é apaixonado por uma moça muito rica, debutante que deve se casar com um nobre inglês. Enquanto isso, uma dona de boate é apaixonada por esse mesmo rapaz e todos se encontram a bordo, junto com dois inimigos públicos, celebridades que são bajulados pelo capitão do navio).

É uma produção do Roundabout que foi dirigida e coreografada por Kathleen Marshall (Irma de Rob Marshall) com todos os sinais do profissionalismo. Não faltam dois ou três grandes números musicais onde todo o elenco sai sapateando que nem louco ( e o publico adora!), uma ou outra piada mais afiada (afinal, o roteiro já passou por inúmeras mãos e versões ). Não convencem nada as tentativas de se reproduzir danças de salão a la Astaire e Rogers. Francamente sem Sutton, ou estrela equivalente (que hoje são poucas) não vale a pena assistir este revival bem comportada.
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