24 outubro 2011 às 10:46
Elia Kazan em retrospectiva
Está em São Paulo, Jean, a viúva de Elia Kazan que esta apresentando na 35ªMostra Internacional, uma retrospectiva de nove filmes do grande e polêmico diretor. Já falamos dele duas vezes aqui no Blog, mas não custa repetir já que ele foi e é um grande cineasta e uma figura atormentada (Ano passado a Mostra apresentou um belo documentário sobre ele: Uma carta Para Elia, dirigido por Martin Scorsese).
Eu conheci pessoalmente Elia Kazan. Uma das melhores entrevistas que fiz na vida foi com ele, num Festival do Rio, trabalhando na época para a Rede Globo que apresentou a matéria num Jornal da Globo quase na íntegra. Coisa rara também na época. Ele veio ao Brasil convidado pelos Barretos e na época eu tive certa timidez de abordá-lo, por causa do mito e dos problemas lendários sobre seu passado.
Foi uma amiga minha, a Carmen Monegal, que se aproximou dele (Kazan era galante e mulherengo) e o apresentou a mim. Foi assim que nos sentamos na piscina e ele me atendeu com muita gentileza e sinceridade. Teve um momento até em que ele me disse: " não fique nervoso, tudo bem", para me acalmar.
Fiquei espantado com algumas revelações. Por exemplo, que se arrependia de ter descoberto James Dean, que achava que ele tinha causado muito mal com sua imagem de rebelde, seus excessos como ator (que foram muito imitados). Que considerava Marlon Brando, o maior de todos os atores com que tinha trabalhado. Enchendo-me de coragem, perguntei se ele se arrependia de alguma coisa, obviamente me referindo ao fato de que ele tinha denunciado os amigos na época do McCarthismo, certamente o momento decisivo de sua vida.
Ele me respondeu com veemência que não, que achava que tinha feito a coisa certa. Isso foi antes de sua autobiografia (que na época escrevia) e muito antes de ganhar aquele polêmico Oscar especial da Academia, quando metade da plateia não o aplaudia. Lembro que Jô Soares me perguntou em seu programa o que achava, se deviam premiar um delator e eu respondi: "Mas existe o perdão, não? Uma pessoa não pode ser castigada a vida inteira por ter feito uma coisa que achava certo."
Na verdade, a leitura de sua autobiografia comprova que Elia Kazan (1909-2003) não era um grande ser humano. Era egocêntrico, vaidoso, infiel e de duvidosos princípios. Mas eu sempre digo isso. Madre Teresa certamente era uma grande alma mas nunca fez grandes filmes. Caráter nada tem a ver com talento artístico. Pessoas péssimas fizeram grandes obras de arte. E Kazan era um grande artista. Seus filmes e suas montagens provam isso. Kazan era um grande diretor de teatro e cinema.
Se o Actor´s Studio se tornou um fenômeno mundial, certamente se deve a seu trabalho e suas obras seminais, particularmente sua montagem (e depois filmes) de Uma Rua Chamada Pecado ou Um Bonde Chamado Desejo (no Brasil, o filme teve o primeiro nome, mas o segundo é a tradução literal da peça de Tennessee Williams) com Marlon Brando.
Depois ele foi o descobridor de James Dean e Warren Beatty, o que também não é pouco. Sua carreira realmente é esplêndida. O Teatro e o Cinema americano na década de 50 devem muito a este diretor controvertido e que atravessou, no final dos 80, uma maré baixa de prestígio. Ele deu forma cênica às melhores peças de Tennessee Williams e Arthur Miller, criou o Actor's Studio, de onde partiu um estilo revolucionário de interpretação.
Nasceu em Istambul (Turquia), chegou a Nova York aos quatro anos, retratando a experiência do imigrante num de seus trabalhos mais envolventes (América, América), a história de seu tio. Estudou Arte Dramática e foi ator em Teatro e Cinema (dois filmes de Ralph Steiner em 1934 e mais: Dois Contra Uma Cidade Inteira e Uma Canção para Você, ambos de Litvak), dedicando-se depois exclusivamente à direção.
No Cinema, sua carreira foi fulminante e premiadíssima, só manchada pelo episódio da “Caça às Bruxas” (quando pagou um anúncio contra o comunismo e denunciando os ex-companheiros de juventude). A crítica de esquerda nunca o perdoou, e vê em Sindicato de Ladrões uma justificativa da delação. Em Suas crises de consciência, Kazan retratou em romances (América, América, 1962; The Arrangement, 1967; The Assassins, 1971), o mais autobiográfico dos quais resultou no fracasso de Movidos Pelo Ódio.
Numa tentativa de atualizar-se, em 1971, fez Os Visitantes, em 16 mm, com roteiro do filho e crítica ao Vietnã. O fracasso, em termos, da adaptação do roteiro inacabado de F. Scott Fitzgerald, O Último Magnata (com roteiro do dramaturgo inglês Harold Pinter), acabou sendo seu último trabalho para o Cinema, tornando-o apenas romancista.
Foi casado com a atriz Barbara Loden (1932-1980), que dirigiu um filme em 1970, Wanda, uma fita elogiada e muito admirada pela crítica. Preparava-se para rodar Beyond the Aegean, em 1989, com Juliette Binoche, mas o projeto não saiu. Em 1999 ganhou um polêmico Oscar Especial “em apreciação por uma carreira longa, distinguida e sem paralelo, durante a qual ele influenciou a própria natureza de fazer filmes, através de sua criação de obras primas cinematográficas”.
Há outros filmes de Kazan que estão entre os grandes (Clamor do Sexo/Splendor in the Grass, 61, com Natalie Wood e Beatty, o excelente Viva Zapata,52, com Brando e Anthony Quinn, que poucos lembram que era outro pupilo seu, os pouco lembrados Baby Doll/Boneca de Carne, 56, que lançou como estrela Carroll Baker (junto com outros dois pupilos, Karl Malden e Eli Wallach), Um Rosto na Multidão (A Face in the Crowd, 57).
Sem esquecer de Vidas Amargas (East of Éden, 54 que lançou James Dean) e os filmes de sua fase inicial (Laços humanos, 45; O Justiceiro, 47, o premiado com o Oscar A Luz é para todos, 48, Pânico nas Ruas,de 50). Ou seja, Kazan foi certamente um dos maiores diretores do cinema americano. E ponto final. Se bem que para mim será para sempre aquele senhor já cansado, que conversou comigo de forma tranquila, expulsando seus demônios. Sempre achei que dizia que não se arrependia mais por bravata ou teimosia. Provando que até os deuses tem pés de barro. Ou uma consciência.
Filmografia: 1945 – Laços Humanos (A Tree Grows in Brooklyn. Dorothy McGuire, Joan Blondell)
1947 – Mar Verde (Sea of Grass. Katharine Hepburn, Spencer Tracy) O Justiceiro (Boomerang! Dana Andrews, Jane Wyatt)
1948 – A Luz É Para Todos (Gentleman's Agreement. Gregory Peck, Doroty McGuire. Oscars de Filme e Direção)
1949 – O Que a Carne Herda (Pinky. Jeanne Crain, Ethel Waters. Substituindo John Ford, que pretextou doença para não rodá-lo)
1950 – Pânico nas Ruas (Panic in the Streets. Richard Widmark, Paul Douglas)
1951 – Uma Rua Chamada Pecado (A Streetcar Named Desire. Vivien Leigh, Marlon Brando)
1952 – Viva Zapata (Idem. Marlon Brando, Jean Peters)
1953 – Os Saltimbancos (Man on a Tightrope. Fredric March, Gloria Grahame. Kazan aceitou fazer este filme para provar a todos que não era comunista)
1954 – Sindicato de Ladrões (On the Waterfront. Marlon Brando, Eva Marie Saint. Oscar de Filme e Direção)
1955 – Vidas Amargas (East of Eden. James Dean, Julie Harris)
1956 – Boneca de Carne (Baby Doll. Carroll Baker, Karl Malden)
1957 – Um Rosto na Multidão (A Face in the Crowd. Patricia Neal, Andy Griffith)
1960 – Rio Violento (Wild River. Montgomery Clift, Jo Van Fleet)
1961 – Clamor do Sexo (Splendor in the Grass. Warren Beatty, Natalie Wood)
1963 – A Terra do Sonho Distante (America, America. Stathis Giallelis, John Marley)
1969 – Movidos Pelo Ódio (The Arrangement. Kirk Douglas, Deborah Kerr)
1972 – Os Visitantes (The Visitors. Patrick McVey, Patricia Joyce)
1976 – O Último Magnata (The Last Tycoon. Robert De Niro, Jack Nicholson)












