26 outubro 2011 às 06:00
Diário de Nova York: Duas peças na Broadway
1- Relatively Speaking
Era difícil não se sentir atraído por esta nova montagem de uma comédia em três atos. Eu ainda assisti as previews e atrás de mim estava justamente o diretor da montagem que vocês conhecem mais como ator, John Turturro. Ele passava suas anotações para o assistente, para consertar o que achava errado antes da estreia oficial.

Graças a seu prestígio pessoal ele conseguiu reunir três peças pequenas de autores muito famosos.
A primeira se chama Talking Cure (Falando de uma Cura) e foi escrita por Ethan Coen (Turturro é dos atores favoritos da dupla de irmãos). É mais curta e mais estranha, de um humor bem esquisito. É sobre um sujeito na prisão, em entrevistas com um psiquiatra e nas conversas vira-se o jogo, o criminoso tem mais bom senso e conhecimento da vida do que o analista. Talvez o episódio que melhor explique o título genérico, tudo é sempre muito relativo. Só que quando a gente começa a rir e se divertir, ela acaba abruptamente. E deixa a gente meio frustrado. A melhor sacada dela é quando um dos personagens se pergunta: será que esta é uma daquelas histórias do cinema em que vai haver uma reviravolta e tudo se revelar que o médico que é o criminoso maluco? Mas não, infelizmente isso não sucede. Porque a peça conclui com um flashback da família do herói, dando algumas dicas, mas sem explicar porque ele ficou daquele jeito. Mas como muitas vezes sucede com o trabalho dos Coen, eles se recusam a fazer piada ou graça. Como uma piada contada sem desfecho, sem “punch line”.
A segunda comédia chama-se George is Dead (George está Morto) e foi escrita pela outrora muito prestigiada Elaine May (ex-parceira de Mike Nichols, foi diretora do triste Ishtar, O Rapaz que Partia Corações). Basicamente é sobre uma mulher já madura (mal consegui reconhecer Marlo Thomas que foi estrela da série de teve That Girl há muitos anos e filha do comediante Danny Thomas) que bate na porta da filha de sua ex-babá dizendo que o marido morreu enquanto estava esquiando. É um retrato bem curioso e raro de alguém totalmente mimado e narcisista, incapaz de observar qualquer coisa que não se refira a ela, não necessariamente má. Ela é apenas incompetente para enfrentar a vida. Acaba procurando a moça que mal conhece porque não sabe o que fazer, nem a quem recorrer para transportar o corpo e tomar as providências do enterro. Ou seja, não é uma situação exatamente hilariante, mas um bem humorado retrato psicológico fácil de assistir.

E chegamos a peça final que é Honeymoon Hotel, de Woody Allen, uma texto simplesmente engraçado que o próprio Allen ofereceu ao diretor. Claro que acaba sendo a melhor coisa da noite, até porque houve a proposta de chamar atores que estavam acostumados a trabalhar nos primeiros filmes do autor. Entre eles, Julie Kavner (mais lembrada como a voz da mãe em Os Simpsons), Richard Libertini,Caroline Aaron, Mark Linn Baker (ainda que mais lembrado pelo filme My Favorite Year). E o papel central ficou para o agora veterano Steve Guttenberg que eu não encontrava desde os tempos de Loucademia de Polícia!
A história é pura farsa: Steve chega no motel brega em Long Island, ou seja predominante judeu, com a mulher muito mais jovem com quem acabou de fugir (ela é a bonita Ari Graynor, que está em cartaz como outra noiva em Qual seu número?). Acontece que ele é o pai do noivo que está fugindo justamente a com a noiva dele! Um escândalo que vai se complicando quando toda a família começa a aparecer no lugar inclusive o rabino (são nove atores inclusive um repeteco de Danny Hoch que fazia o criminoso da primeira peça e que depois descobri ser um famoso humorista do rádio!). E cuja moral é bem Woody: “A vida é curta e não há regras”.

Não há muito mais o que dizer a não ser isso: é engraçado, lembra os filmes do começo da carreira do diretor (todas suas declarações a imprensa na estreia foram auto depreciativas). Como se ele tivesse recolhido todas as piadas curtas (one liners, dizem os americanos) que sobraram de filmes e as aproveitasse aqui. Segundo os críticos, a peça tem em comum pintar um retrato não muito favorável das mães super mães, em particular judias. Mas este não é lugar para procurar profundidades.
2 - War Horse
Baseado em livro de Michael Morpugo adaptado por Nick Staffor. Esta tem sido uma montagem famosa e premiada do Lincoln Center que me interessava especialmente porque está para estrear a versão para o cinema que Steven Spielberg fez sobre a mesma história. Claro que as duas serão experiências inteiramente diferentes. O filme corre o risco de cair naquele sentimentalismo que, de vez em quando, ataca o diretor porque no fundo é uma história de amor entre Albert, um rapaz e Joey, um cavalo (sem escândalos pelo amor de Deus, nada de bestialismo).

Previsto para estrear no dia de Natal, traz um rapaz novo (James Irvine que fez antes apenas uma série da teve britânica) cercado de alguns atores competentes (Emily Watson, David Thewlis, Peter Mullan). É uma história real em que Albert tem um pai bêbado que compra um cavalo que não poderia (são pobres e devem a hipoteca), mas o rapaz se afeiçoa e treina o bicho muito bem.
Quando acontece a Primeira Guerra Mundial, o pai vende o animal para servir no conflito e o rapaz pouco depois vai atrás dele, mesmo sem ter ainda idade para se alistar, disposto a encontrá-lo e resgatá-lo a qualquer custo. O importante da trama seria o fato para a gente, pouco lembrado, de que a chamada Grande Guerra marcou o fim da Cavalaria e que no conflito morreram milhões de cavalos sob o fogo de metralhadoras e vítimas do arame farpado (eles iam direto contra eles). Foi uma carnificina literalmente e já dá para imaginar que o final é triste e fará muito gente chorar no cinema, assim como no teatro.

Há, porém, uma diferença fundamental e que é o que está encantando a platéia de crianças e idosas nesta montagem dirigida por Marianne Elliott e Tom Morris. Quase uma super produção porque há em cena cerca de 50 a 60 pessoas (o teatro é semi arena e as cadeiras pequenas e apertadas são muito desconfortáveis).

O charme é que os cavalos em cena não são verdadeiros, mas manipulados como se fossem bonecos, um pouco como alguns de Lion King. Ou seja, para cada cavalo há de duas a três pessoas os manipulando, com excepcional destreza e realmente os movimentos do bicho são naturais, quase realistas. Totalmente convincentes. Ou seja, novamente um recurso velho do palco volta a encantar novas gerações. Nem tanto a mim. Por que a peça é bem longa e arrastada. Depois de meia hora em que já apreciamos todas as variações possíveis de se manipular um cavalo, resta muito pouco a mostrar.
E tudo se torna tremendamente previsível. É óbvio que mesmo lendo aqui o resumo você já sacou qual é o final, qual o comportamentos dos personagens, ou seja, tudo puro clichê...
Não há destaques no elenco. Os manipuladores se vestem de roupa negra e só são identificados ao final. Por tudo isso este foi o espetáculo que menos me tocou.
Estamos quase acabando o circuito teatral, mas falta ainda comentar o melhor de todos, o musical Follies de Sondheim.
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