28 outubro 2011 às 06:00
Diário de Nova York: Follies
Durante muitos anos sonhei em ver uma montagem deste Follies, lendário show musical de Stephen Sondheim, que teve originalmente no elenco as estrelas de cinema Alexis Smith e Yvonne de Carlo (isso nos anos 70) e que revelou algumas canções hoje clássicas, em particular uma espécie de hino da sobrevivência do artista, o célebre "I'm Still Here", que ilustra com humor os altos e baixos da profissão.

Foi interpretada, por exemplo, por Shirley MacLaine no filme Lembranças de Hollywood (Postacards from the Edge, 1990, onde ela basicamente vivia Debbie Reynolds). E também por Ann Miller, num montagem relativamente recente (existe o CD).
Mas é um show caro e por isso pouco produzido (sendo que a última tentativa, há poucos anos, não foi bem sucedida).
A que está novamente na Broadway, no Teatro Marquis , e fazendo sucesso foi montada originalmente no Kennedy Center de Washington como parte de um projeto onde eles encenaram toda a obra de Sondheim (comemorando também os seus 80 anos). E conta com pelo menos duas estrelas famosas do palco, Bernadette Peters (que veio de um êxito em A Little Night Music também de Sondheim) e a britânica Elaine Paige que tem participação especial (ela basicamente vem cantar o "I'm Still Here" com voz possante e um enfoque novo em vez da ironia já que ela faz tudo com muita raiva, muita garra).

Elaine é a maior estrela de musicais no West End inglês, tendo criado em outros, os shows Evita, Cats (seu maior êxito é Memories), Sunset Boulevard. Pessoalmente (porque a esperei na saída) ela é muito baixinha, lembrando um pouco Claudette Soares. Acho que mais ainda do que Bernadette que compensa a baixa estatura com um enorme cabelão (ambas foram profissionais mas um pouco frias).
Follies foi inspirado numa foto famosa de Gloria Swanson (Crepúsculo dos Deuses) nas ruínas de um teatro que estava sendo demolido. A história da reunião de um grupo de atores que trabalharam juntos em shows do estilo Follies de Florenz Ziegfeld, num teatro que será posto a baixo e que no começo só está habitado pelos fantasmas das coristas vestidas com aquelas roupas suntuosas. É basicamente sobre dois casais. As duas moças foram colegas no show mas agora estão casadas, com os antigos namorados. Phyllis (Jan Maxwell, depois falo dela) está vendo o casamento terminar porque o marido ficou rico e desinteressado. Enquanto isso Sally (Bernadette) estragou sua vida achando que se casou com o homem errado, sempre foi apaixonada pelo Ben que se casou com Phyllis (o marido dela Buddy, interpretado pelo eficiente Danny Burstein). Ou seja, estragou sua vida arrependida correndo atrás de um sonho que era uma mentira.
Esse é o enredo central, com os dois casais interpretados tanto agora maduros, quanto na época em que eram jovens. Mas o espetáculo se sustenta principalmente pelas participações pequenas e especiais de cantoras ou performers veteranos que têm apenas um número, ilustrando um tipo de ato que fazia sucesso naquele teatro-revista. Tem a opereta com a valsa (que só vem no segundo ato, One More Kiss, com Rosalind Elias, cantora de ópera que aos 80 e poucos anos estreia na Broadway ), a francesinha (Ah, Paris), a jovem judia agora matrona (Broadway Baby) e uma negra exuberante (não consegui identificar o nome, mas ela está excelente e que depois numa conversa vim a descobrir que o pai dela era da Bahia. Isso pode explicar sua simpatia e presença em cena!).

Seguem-se outras canções famosas (Could I Leave You?, e principalmente Losing my Mind) e uma emoção que não pude conter. Acho o show uma obra prima e esta montagem é certamente a melhor até hoje. Falta ainda elogiar uma atriz que me surpreendeu que é Jan Maxwell, que eu não conhecia apesar de ter sido indicada ao Tony por Lend me a Tenor e The Royal Family. Lembra um pouco Marlene Dietrich, é uma loira magra e interessante, que inova também cantando com raiva Could I Leave You e deixando uma presença muito forte. Espero que agora se torne realmente estrela.
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