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31 outubro 2011 às 06:00

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Revisitando clássicos em Blu-ray: The Longest Day – O Mais Longo dos Dias

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Edição EUA 20th Century Fox. Darryl F. Zanuck´s The Longest Day.

Áudio: Inglês, espanhol, francês. Leg: Mandarim, cantonês, inglês. Drama de guerra. Widescreen 2.35: 1. 178 min. DTS. Preto e branco.  1962. EUA. G.

Diretor: Ken Annakin (cenas britânicas), Bernhard Wicki (alemãs), Andrew Marton (americanas externas) e não creditado, Darryl F. Zanuck (supervisor geral junto como co-produtor Elmo Williams). Cenas com os paraquedistas por Gerd Oswald.

Elenco: John Wayne, Robert Mitchum, Sean Connery, Richard Burton, Robert Ryan, Henry Fonda, Peter Lawford, Arletty, Irina Demich, Robert Wagner, Rod Steiger, Red Buttons, Eddie Albert, Paul Anka, Jean-Louis Barrault, Richard Beymer, Bourvil, Fabian, Mel Ferrer, Gert Froebe, Leon Genn, John Gregson, Jeffrey Hunter, Curd Jurgens, Alexander Knox, Roddy McDowall, Sal Mineo, Kenneth More, Edmond O’Brien, George Segal, Tommy Sands, Jean Servais, Richard Todd, Tom Tryon, Stuart Withman, Tom Tryon e Sean Connery.

Sinopse: O Dia D, o desembarque Aliado nas praias da Normandia, em 6 de junho de 1944, que marcou o começo do fim do domínio nazista no Continente.

Bastidores: Basicamente esta é a versão em Blu-ray da edição especial comemorativa dos 60 anos do Dia D em dois DVDs de 2006.  No primeiro, traz o filme remasterizado com um comentário histórico de Mary Corey e outro cinematográfico do diretor Ken Annakin (já falecido).

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No disco 2,  temos uma entrevista com Annakin, A Day to Remember (onde ele demonstra que dirigiu mais cenas do que foi creditado e dá uma visão bem realista das filmagens). Traz um documentário AMC Backstory do canal American Movie Classics, Longest Day: A Salute to Courage, o já conhecido documentário sobre o Dia D, apresentado pelo próprio Zanuck para comemorar os 25 anos do acontecimento, revisitando os lugares autênticos, D Day Revisited, Richard Zanuck on the Longest Day (o filho do produtor Darryl relembra os fatos), galerias de fotos de cena e trailer original.

Darryl F. Zanuck (1902-79) foi um dos maiores e mais poderosos produtores de Hollywood, fundador da 2oth Century Fox em 1935, reinou nela todo poderoso, mas no começo dos anos 50 resolveu se aposentar, fazendo filmes independentes para suas amantes, francesas, em geral. Deixou o estúdio por vontade própria e tentou impor a amante, a cantora Juliette Greco, como estrela. Ele também havia lutado na Primeira Guerra Mundial (com 14 anos) e foi coronel na Segunda. Seu sonho maior foi realizar este filme que reconstituía o desembarque aliado nas praias da Normandia, na França, o começo da derrota dos nazistas na Europa (e um dos detalhes mais curiosos é que Hitler não ficou sabendo no dia e não aparece no filme, porque tomou remédios para dormir e não podia ser acordado).

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Então esta é uma obra cujo autor verdadeiro é o produtor e não os seus diversos diretores e assistentes que estiveram apenas obedecendo a sua visão. Tudo nasceu da persistência de um escritor inglês Cornelius Ryan (1920-74), que escreveu o livro original (lançado em 59) que era inovador, não-ficção, contando a história dos fatos pelo ponto de vista do homem comum, o soldado, o anônimo. Ele entrevistou centenas de pessoas para reconstituir as horas antes e durante o desembarque, não apenas pelo lado aliado, mas também do inimigo alemão (o filme é falado em inglês, alemão e francês, cada país com sua respectiva língua, ajudado por legendas em inglês).

Ryan, que assina aqui o roteiro sozinho, faria ainda no mesmo gênero a história de uma derrota chamada Uma Ponte Longe Demais (filmada em 62) e aqui teve ainda a contribuição de cenas de outros autores famosos como James Jones (A um Passo da Eternidade), David Pursall, Jack Seddon e o francês/russo Romain Gary. Mas ele e Zanuck se detestaram desde o primeiro momento que se viram, e todo e qualquer contato era feito sempre pelo intermediário Elmo Williams.

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A intenção era ser o mais possível fiel aos fatos reais embora os roteiristas tenham tomado diversas liberdades para tornar o filme mais empolgante. Entre as liberdades ou mentiras estão: o fato dos paraquedistas se defenderem com metralhadoras, o que era impossível; a omissão que 60 por cento dos que pularam na região se perderam e morreram; o muro que tem que ser explodido no final era duplo e para acabar com ele não foi tão fácil assim (é que da maneira que está isso fornece um final mais convincente ao filme e ao primeiro dia da invasão).

Também não é verdade quando os soldados encontram o bunker nazista sem armas (mas Zanuck queria passar uma mensagem anti-guerra, pacifista e por isso também mostrou soldados americanos matando alemães que tentavam se entregar, o que a censura do exército tentou cortar, mas que o produtor insistiu em manter).

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Ele cortou uma cena final em que um soldado, ao que parece Mark Damon, aparecia na praia desolado pensando na inutilidade e futilidade da guerra. Acabou preferindo uma conclusão mais épica com Robert Mitchum levando as tropas adiante ao som da marcha militar composta pelo cantor Paul Anka, com arranjos de Mitch Miller (a trilha musical sinfonia é de Maurice Jarre). Há poucas mulheres no elenco, a francesa Arletty faz aparição rápida como freira e o único destaque é outra francesa, afilhada de Zanuck (sua amante durante muitos anos e outras produções), Irina Demich, que faz uma líder da resistência francesa que tenta explodir um trem.

Foi muito difícil conseguir realizar o filme com um orçamento relativamente pequeno de 10 milhões de dólares (sendo que dois milhões Zanuck colocou do próprio bolso como única forma de concluir o projeto). Dada as inúmeras dificuldades de conseguir material bélico antigo, convencer governos a emprestar soldados (a cena do desembarque na verdade utilizou um exercício do exército americano, um chamado War Game e tudo é muito menos realista do que desejavam, porque  a censura da época - havia ainda um código de autocensura entre os estúdios e eles especificamente proibiram que a cena fosse um banho de sangue).

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Por isso mesmo que a sequência só foi mostrada com veracidade e realismo, por Spielberg em O Resgate do Soldado Ryan (98). Aqui foi o máximo de verdade que conseguiam apresentar na época (foi escondido, por exemplo, o fato de que muitos desembarcaram em águas profundas e os que não sabiam nadar morreram afogados ou se agarraram nos que sabiam e os levaram para o fundo. Durante a filmagem quem quase morreu afogado foi Peter Lawford).

Zanuck procurou reunir o maior numero possível de atores famosos e os creditou todos juntos como o maior elenco já reunido num filme (embora nem todos fossem exatamente estrelas e alguns como o hoje esquecido Dewey Martin)

Tivessem tido suas cenas cortadas. Muitos eram contratados da Fox como Robert Wagner, Jeffrey (Jeff aqui nos créditos) e Richard Beymer (que tem um papel forte). O inglês Richard Todd faz um papel próximo de sua vida, já que realmente lutou na guerra e participou da ação como paraquedista. O curioso é que eram 43 astros originalmente, mas viraram 48 porque vários se tornaram famosos depois (como Sean Connery, que logo a seguir virou James Bond). O que ganhou maior salário foi John Wayne, que teria cobrado 250 mil dólares porque estava de birra com Zanuck.

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Quando este filme estreou, com grandes pompas, fez tanto sucesso de bilheteria que salvou literalmente os estúdios da Fox de uma falência provocada pelo excesso de gastos com Cleópatra, com Elizabeth Taylor. Na verdade, no meio das filmagens Zanuck foi chamado ao Board de directors e foi obrigado a colocar o filho Richard na direção do estúdio para controlar a crise com Elizabeth Taylor e cia. Mas fizeram de tal forma que tudo teve um final feliz.

Premiado com Oscars de Efeitos Especiais e Fotografia, foi também indicado como melhor filme, direção de arte e montagem. Em 1965, foi feita uma espécie de continuação como Muito Além da Praia (Up from the Beach), do diretor Robert Parrish, usando dois atores deste filme, Red Buttons (que faz o paraquedista que fica preso na igreja) e a amante de Zanuck, Irina Demick (1936-2004), também creditada em outros lugares como Demich ou Yrina Demik. E ainda como figura central Cliff Robertson.

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Rodado em preto e branco, para ficar parecido com cinejornais da época da guerra, o filme tem alguns momentos marcantes (como a sequência rodada com helicóptero, rara na época). Outra concessão foi o desembarque na praia de Omaha que teve que ser feito noutro lugar, o original estava diferente demais (foi a desculpa). As cenas foram feitas na Ile de Rey, perto de La Rochelle. Outras fontes dizem que isso foi feito numa praia da Córsega.

Uma das falhas mais vergonhosas do filme é que não mostra nenhum soldado negro! Quando no desembarque, segundo pesquisas, participaram dela 1,700 “blacks".  Há também um problema técnico nesta cópia porque as (poucas) cenas onde se usa back-projection (atores diante de tela onde projetam o background) ficaram inteiramente falsas, vendo-se o recorte dos atores (isso sucede umas três vezes  e sempre na parte alemã). E o fato de usarem atores famosos em cameos como diziam (a tradução literal é camafeu, mas foi assim que foram batizadas as pontas de astros em pontinhas desde quando isso foi criado para A Volta ao Mundo em 80, dias em 56).

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Faz com que a gente fique sempre na expectativa de reconhecer alguém (e frustrado quando é um desconhecido, um sósia como no caso do Eisenhower, feito por um novato que depois continuou trabalhando Henry Grace). Além do fato de que a maioria deles hoje não é mais lembrado ou importante. Outra coisa estranha: nenhum dos atores se sobressai ou tem uma interpretação mais notável.

O que eu mais gostei foi da edição muito boa e que traz no seu principal documentário (aliás, narrado por Burt Reynolds) uma visão autocrítica apontando e assumindo todas as falhas e licenças tomadas com os fatos (todos dizem que é coisa de cinema). Algumas coisas curiosas são reais (como a tropa americana cruzar com a alemã e nenhum dos dois notar o outro, o escocês que tocava realmente a gaita de fole em combate, um tanque autêntico que foi desenterrado da areia em Pont de Hoc e usado no filme), outras erros de Ryan (como o cassino que na época da invasão ainda não existia), muitas outras ignoradas (como as terras e fazendas que foram inundadas e provocaram muitas mortes, o fato de que o major alemão Pluskat não estava no bunker na hora porque estava em um bordel).

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Zanuck teve sob suas ordens tropas maiores do que qualquer general de verdade nos fatos reais (cerca de 23 mil fornecidas pelos EUA e França) e  na época o filme cumpriu seus diversos papéis: salvou o estúdio, o moral de Zanuck confirmando sua reputação de líder, agradou o público e deixou marcado para a sempre a data de 6 de junho como a do Dia D (aliás, nome de outro filme da Fox anterior, de 56,  com Robert Taylor e Richard Todd). Hoje ficou um pouco datado e superado pelo mais recente O Soldado Ryan.

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