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12 dezembro 2011 às 06:00

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Em cartaz: Filmes que viraram peças

Antigamente a norma era o oposto, os textos teatrais de sucesso eram invariavelmente adaptados para o cinema. De algum tempo para cá tem acontecido exatamente o inverso, inclusive com vários shows da Broadway (os mais recentes agora são Newsies e Ghost).

Atualmente estão em cartaz dois espetáculos que tem muito a ver com cinema: Conversando com Mamãe, no Teatro Folha, no Shopping Higienópolis (em cartaz nos finais de semana até o fim desta semana. Depois irá para Campinas e continuará carreira no Teatro do Hotel Renaissance, na Alameda Santos).

O outro é uma homenagem ao cinema, mais especificamente o filme ...E o Vento Levou. Chama-se, no original, Moonlight and Magnolias e aqui é ...E o Vento Não Levou e está em cartaz nesta terça (13) e quarta (14) apenas no Teatro dos Parlapatões na Praça Roosevelt (há planos para estrear em 11 de janeiro no Folha as quartas e quintas).

 

Conversando com Mamãe

mama Em cartaz: Filmes que viraram peças

Fui procurar a crítica do filme original. Eu tinha escrito sobre ele: Conversando com Mamãe, Argentina, 2004. Diretor: Santiago Carlos Oves. Elenco: China Zorrilla, Eduardo Blanco e Ulises Dumont.  Sinopse: Jaime pensa em vender o apartamento da mãe para pagar suas dívidas. Mas ela tem um noivo 13 anos mais novo com quem pretende se casar.

Comentários: Foi sucesso no circuito de arte este modesto filme argentino, que visivelmente foi feito com um orçamento pobre (o filme é tecnicamente falho, tem até momentos fora de foco). Escrito e dirigido por Santiago Carlos Oves (de quem eu conheço um bonito Sol de Outono, com Norma Aleandro), é muito humano, coisa que o cinema brasileiro desaprendeu de ser.

conversaciones con mama Em cartaz: Filmes que viraram peças

Conta histórias de gente comum, fácil de se gostar, se identificar, de torcer. No caso, um pai de família que fica desempregado e a mulher dele o pressiona para vender um pequeno apartamento onde está morando a velha mãe dele de 82 anos (como ele pode ter uma mãe tão idosa e porque saiu de casa só 20 anos antes, como diz um diálogo, é um mistério não explicado). Acontece que ela arranjou um namorado bem mais novo (69 anos) e se finge de boba. Enquanto isso, o herói (Eduardo Blanco) tenta se entender com a mãe, numa série sucessiva de encontros.

O filme funciona mesmo por causa da simpatia do elenco (a mãe é feita pela veterana uruguaia China Zorrilla, que tem realmente essa idade e quase cinquenta trabalhos na TV e cinema desde 1971). É simpático e o público gosta.

 

A Peça

conversando 1 Em cartaz: Filmes que viraram peças

 

Quem se encantou com o projeto foi Susana Garcia, mulher do ator Herson Capri que descobriu que já existia uma versão argentina e o trouxe para o Brasil estrelado pelo marido e Beatriz Segall, com ela mesmo dirigindo (aliás muito bem, seu trabalho é sensível, discreto e eficiente). Ficaram um ano de sucesso no Rio e dá para entender por que. Acho mesmo a montagem mais feliz do que o filme. Em parte porque tudo foi compactado, não dura mais do que uma hora (hoje em dia uma grande qualidade). Também porque o segundo ato (sem intervalo) é muito mais dramático e tocante no que no filme (que era mais disperso). Para as pessoas que como eu já perderam a mãe, a montagem é comovente (ainda que para cima).

conversando 3 Em cartaz: Filmes que viraram peças

Sempre fui admirador de Beatriz Segall, desde quando a vi há muitos anos no Teatro Oficina com Andorra. Acho que ela nem se lembra de que quando Silvio de Abreu e eu fazíamos a adaptação de Éramos Seis para a Tupi chegamos a convidá-la para fazer uma participação especial (criamos um papel para ela, que na outra versão foi para Clarisse Abujamra, quando ela não pode ou não quis, não lembro, naquele momento o papel já escrito foi podado). Por isso não foi surpresa nenhuma quando Beatriz entrou para a história da televisão como Odette Roitman.

51179 Em cartaz: Filmes que viraram peças

Mas aqui ela apresenta uma faceta mais rara, a de uma senhora doce, encantadora, ainda que de personalidade  forte (mas que esconde isso). Continua a ser uma figura bonita e nos faz a esquecer das outras vilanices de sua carreira muito bem apoiada por Herson (outro com quem trabalhei, num papel forte em Um Homem Muito Especial na Bandeirantes além de ser amigo de sua mãe Yole, jornalista, colega do Jornal da Tarde).

O sucesso da montagem é merecido. Um espetáculo muito bonito, com um momento luminoso de Beatriz.

 

...E o Vento Não Levou

e o vento 1 Em cartaz: Filmes que viraram peças

 

Embora não tenha chegado a estrear na Broadway, fez boa carreira nos Estados Unidos a peça ...E o Vento Não Levou, versão brasileira da peça americana Moonlight and Magnolias (Luar e Magnólias), escrita por Ron Hutchinson, com tradução de Isser Korik e direção de Roberto Lage. A comédia é baseada em fatos reais e conta a história de como teria sido escrito o roteiro definitivo do filme famoso ...E o Vento Levou.

No palco são quatro personagens num escritório – o lendário produtor David O. Selznick (Isser Korik), o roteirista Ben Hecht (Henrique Stroeter), o diretor Victor Fleming (Fábio Cador) e uma secretária (Luzia Meneghini).

Quase tudo é baseado em fatos reais, ainda que condensados e simplificados, mas é surpreendente como o texto toma poucas liberdades. Basicamente o que se vê em cena, só que como comédia, foi o que sucedeu. Embora o roteirista creditado e até premiado com o Oscar tenha sido Sidney Howard, o que foi filmado foi obra realmente do produtor Selznick (que é considerado o verdadeiro autor do filme, já que este teve vários diretores não creditados).

e o vento 3 Em cartaz: Filmes que viraram peças

A montagem começa quando o produtor suspendeu as filmagens, despediu o diretor original (George Cukor) e chamou o escritor Ben Hecht para fazer um tour de force de escrever o roteiro em cinco dias a partir de um famoso best-seller de 1037 páginas.

Se há algo a reclamar no texto é a ligeireza com que é colocada a figura de Hecht, quase como alivio cômico, preguiçoso e até incompetente, quando na verdade ele foi um sujeito com defeitos, mas também brilhante e sua carreira no teatro (A Primeira Pagina) e no cinema comprova isso (entre os filmes que assinou a comédia clássica Jejum de Amor com Cary Grant, Interlúdio e Quando fala o Coração de Hitchcock, O Morro dos Ventos Uivantes, embora com freqência trabalhasse sem crédito e por grana).

eo vento 2 Em cartaz: Filmes que viraram peças

O grande acerto da montagem é a presença estrelar de Isser Korik, um dos mentores do Folha e quem traduziu o texto (ultimamente ele tem mais dirigido e produzido como fez com a série Nunca se Sábado, aonde cheguei a participar). Além de ser fisicamente parecido com Selznick, Isser em momento nenhum cai em caricatura ou exagero. Tem uma presença dominante, forte e exuberante, que quase rouba o espetáculo e o confirma como um ótimo ator (e que devia interpretar com mais frequência). Só não rouba porque Hecht é feito com o brilhantismo habitual de um parlapatão que é o caso de Henrique Stroeter. Talvez seu humor seja mais brasileiro do que o Hecht teria, mas sem dúvida é um grande ator.

53642 Em cartaz: Filmes que viraram peças

Se posso sugerir algo é mexer um pouco no final porque o clímax emocional vem cinco minutos antes da conclusão ao se descrever os pontos altos do filme. Basta transferir esse grande momento para quando ele está falando ao fone com o sogro Louis B. Mayer para quem faria a descrição. Garanto que ia fazer todo mundo chorar (afinal quem não gosta do filme?)  e aplaudir ainda mais entusiasmados. Mas é detalhe. O fato é que o espetáculo é especialmente recomendado para quem gosta de cinema que, com certeza vai vibrar e mesmo rir muito. E sair para alugar ou comprar o filme.

 

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