13 dezembro 2011 às 06:00
Revisitando Clássicos – Da Terra Nascem os Homens
(The Big Country). EUA/Brasil. MGM/Fox (Originalmente United). 165 min. Cor. 1958. Faroeste. Widescreen 2.33.
Áudio: Inglês. Leg: Português, ingl, francês, esp.
Diretor: William Wyler (1902-81). Elenco: Gregory Peck (1916-03), Jean Simmons (1929-2010), Charlton Heston 1923-2008), Carroll Baker, Burl Ives (1909-85), Chuck Connors (1921-92), Charles Bickford, Alfonso Bedoya e ponta de Roddy McDowall.
Sinopse: O capitão de navios James MacKay chega ao Oeste para se casar com Patrícia, que conheceu em Baltimore, filha de um rancheiro rico, mas tem problemas porque recusa lutar ou usar armas. Mas é obrigado a enfrentar um rival e até enfrentar o sogro quando este resolve invadir a terra dos vizinhos.
Comentários: Um título nacional épico dá uma dimensão grandiosa a este faroeste classe A que foi produzido pelo diretor Wyler junto com o astro Gregory Peck. Mas Wyler devia estar de mau humor e em uma fase ruim quando fez o filme porque brigou feio com Peck (destruindo uma antiga amizade – fizeram juntos A Princesa e o Plebeu- que não foi restabelecida nem até sua morte. A mesma coisa com Jean Simmons - que iria fazer justamente o papel de a princesa antes que fosse descoberta Audrey Hepburn, que se recusava falar em Wyler, de tanto ódio que ficou). Ele também obrigou Heston a fazer um papel secundário, ingrato, e meio vilão, só para testá-lo e depois finalmente lhe dar o papel de Ben-Hur (que foi feito logo a seguir).
É interessante antes de falarmos do filme, relembrar um pouco quem foi Wyler.
Wyler, William
(1902-1981). Possivelmente foi o melhor diretor que Hollywood já teve. Wyler nunca foi, nem pretendeu ser, um autor (e por isso era desprezado pela turma francesa do Cahiers du Cinéma). Trabalhava por encomenda sim, muitas vezes para produtores independentes (como Samuel Goldwyn). Não é possível se detectar um estilo de narrativa, um tipo de fotografia, ou sequer um ângulo favorito. A única identidade comum entre seus filmes era a excelência. Nenhum deles é ruim, alguns são excelentes. E quase todos encomendados por veículos para algum astro.
Famoso pela quantidade de vezes que repetia uma cena (ás vezes, sem sequer explicar para o ator o que estava errado). Nascido em 1º de julho na Alsácia, de pai suíço e mãe alemã, foi educado em Lausanne e Paris. Foi para a América em 1920 cuidar do departamento de publicidade da Universal, que era de seu tio Carl Laemmle (1867-1939). Teve vários trabalhos menores no estúdio até passar para a direção em faroestes classe C.
A partir de 1936, passou a dirigir para Samuel Goldwyn. A não ser por uma interrupção durante a guerra, sua carreira foi um desfilar notável de sucessos e prêmios (principalmente para os atores que ele dirigiu). De 1934-36 foi casado com a atriz Margaret Sullavan (1911-1960). Morreu em 27 de julho depois de ter se aposentado para viajar pelo mundo.
Dir.: 1925-27 – Vinte faroestes da série Mustang na Universal. Entre eles, Um Preguiçoso de Mérito (Lazy Lightning. Fay Wray) e A Fazenda Roubada (The Stolen Ranch. Fred Humes).
1926-27 – Cinco faroestes da série Blue Streak. Entre eles, Lá No Oeste (Blazing Days. F. Humes), Pó no Deserto (Desert Dust. Ted Wells), O Remido (Hard Fist. Art Acord) e Reto como Dever (Straight Shootin. T. Wells). Três faroestes da série Aventure.
1928 – À Procura de um Marido (Anybody Here Seen Kelly? Tom Moore, Bessie Love). O Trapaceiro (The Shakedown. James Murray, Barbara Kent) e A Prova de Coragem (Thunder Riders). T.Wells).
1929 – Cilada Amorosa (The Love Trap. Laura La Plante, Neil Hamilton).
1930 – Heróis do Inferno (Hell’s Heroes. Charles Bickford, Raymond Hatton) e A Invernada (The Storm. Lupe Velez, William Boyd)
1931 – A Casa da Discórdia (A House Divided. Walter Huston, Helen Chandler)
1932 – Cadetes de Honra (Tom Brown of Culver. Tom Moore, Ben Alexander)
1933 – Piloto de Água Doce (Her First Mate. ZaSu Pitts, Slim Summerville) e O Conselheiro (Counsellor at Law. John Barrymore, Bebe Daniels)
1934 – Fascinação (Glamour. Constance Cummings, Paul Lukas)
1935 – A Boa Fada (The Good Fairy. Margaret Sullavan, Herbert Marshall) e Sua Alteza, o Garçom (The Gay Deception. Francis Lederer, Frances Dee)
1936 – Meu Filho É Meu Rival (Come and Get It. Co-d. Hawks. Frances Farmer, Walter Brennan). Fogo de Outono (Dodsworth. Walter Huston, Ruth Chatterton) e Infâmia (These Three. Merle Oberon, Miriam Hopkins)
1937 – Beco sem Saída (Dead End. Sylvia Sidney, Humphrey Bogart)
1938 – Jezebel (Idem. Bette Davis. Henry Fonda)
1939 – O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights. Laurence Olivier, Merle Oberon)
1940 – A Carta (The Letter. Bette Davis, Herbert Marshall) e O Galante Aventureiro (The Westerner. Gary Cooper, Walter Brennan)
1941 – Pérfida (The Little Foxes. Bette Davis, Herbert Marshall)
1942 – Rosa de Esperança (Mrs. Miniver. Greer Garson, Walter Pidgeon, Oscar de direção)
1943 – Memphis Belle (Doc.)
1944 – Thunderbold (Doc.)
1945 – Os Melhores Anos de Nossas Vidas (The Best Years of Our Lives. Fredric March, Myrna Loy. Oscar de Direção)
1949 – Tarde Demais (The Heiress. Montgomery Clift, Olivia de Havilland)
1951 – Chaga de Fogo (Detective Story. Kirk Douglas, Eleanor Parker)
1952 – Perdição por Amor (Carrie. Jennifer Jones, Laurence Olivier)
1953 – A Princesa e o Plebeu (Roman Holiday. Audrey Hepburn, Gregory Peck)
1955 – Horas de Desespero (The Desperate Hours. Humphrey Bogart, Fredric March)
1956 – Sublime Tentação (Friendly Persuasion. Gary Cooper, Anthony Perkins)
1958 – Da Terra Nascem os Homens (The Big Country. Gregory Peck, Charlton Heston)
1959 – Ben-Hur (Idem. Charlton Heston, Stepohen Boyd. Oscar de Direção)
1962 – Infâmia (The Children’s Hour. Audrey Hepburn, Shirley MacLaine)
1965 – O Colecionador (The Collector. Samantha Eggar, Terence Stamp)
1966 – Como Roubar Um Milhão de Dólares (How to Steal a Millon Dollars. Audrey Hepburn, Peter O’Toole)
1968 – Funny Girl – A Garota Genial (Funny Girl. Barbra Streisand, Omar Sharif)
1969 – A Libertação de L. B. Jones (The Liberation of L. B. Jones. Lee J. Cobb, Barbara Hershey)
Uma pena que este western não esteja entre os grandes momentos de sua carreira. Inteiramente rodado em locações (Canyon de Chelly Monument, no Arizona e o resto na Califórnia, Farmington, Marysville, Deserto do Majove, Red Rock Canyon e Stockton) mostra paisagens exuberantes (por vezes, ela é mais importante do que os personagens, que ficam reduzidos a meras silhuetas à distância). Isso ajuda muito nesta versão em blu-ray onde tudo fica com muita nitidez porque ele foi rodado pelo processo Technirama, uma alternativa melhorada do Cinemascope.
Foi desenvolvida pelo laboratório Technicolor, usando fotograma com 8 perfurações, correndo horizontalmente na projeção, e com o dobro do tamanho normal, dando a mesma qualidade de imagem do Vistavision (ou seja, muito menos granulado do que o Cinemascope). Por isso é tão boa esta cópia restaurada (com dinheiro da Academia de Artes e Ciências). Tão nítida que às vezes incomoda (como quando vemos os rostos dos figurantes nas cenas de baile ou de rua, nem sempre convincentes).
Ainda assim o filme é pesadão, com ritmo lento. Começa com uma trilha musical forte e indicada ao Oscar de Jerome Moross que trabalhava mais para o produtor Samuel Goldwyn em filmes como Hans Christian Andersen e Um Anjo Caiu do Céu que depois ficou muito famosa (vocês a reconhecerão ao ouvi-la) e os letreiros (não especialmente marcantes são assinados pelo mestre do gênero Saul Bass).
É baseada em conto (Ambush at Blanco Canyon) de Donald Hamilton (que fez Um Pecado em Cada Alma e os livros do espião Matt Helm) e adaptada por Jessamyn West (Sublime Tentação de Wyler). Mas o mal estar nas filmagens se transfere para tela onde tudo hoje em dia ficou previsível. Peck chega ao velho oeste numa cidadezinha mínima no meio do deserto todo vestido de última moda (o que dificilmente ele faria!) e logo é ridicularizado como almofadinha e o capataz do rancho (Heston) logo o trata como inimigo (na verdade, ele quer ficar com a filha do seu patrão, a Carroll Baker de quem falarei mais adiante, ou seja, é rivalidade).
Peck não quer entrar em briga e não reage quando é atacado e humilhado por quatro cowboys bêbados (que são filhos do maior inimigo do seu futuro sogro). Isso o deixa então com fama de covarde. Mas a gente logicamente sabe que não porque ele na moita, irá domar o cavalo selvagem do rancho (quando não tem ninguém por perto) e irá enfrentar a socos Heston (mas novamente na obscuridade e quando não há testemunhas, que logicamente o passa a respeitar).
Fica evidente que o filme tem essa moral duvidosa de que é preciso dar socos e tiros para ser machão e homem de verdade (ainda que não seja preciso mostrar para todos isso). Ainda mais porque a trama principal acaba não sendo essa, mas uma antiquada briga pelos direitos de usar a água de um rio, onde se envolve também uma professora e dona de rancho vizinho, a sempre encantadora e suave Jean Simmons. Embora Peck tenha vindo para se casar com a jovem Carroll (que conheceu na zona Leste) esta é muito influenciada pelo pai coronel de terras (o já veterano Charles Bickford especialista neste tipo de personagem de durão antipático) e passa a achar que o noivo é mesmo covarde.
Enquanto isso ele se interessa por Jean, que por sua vez é cortejada a força por Chuck Connors, filho transviado do fazendeiro rival da família e que está disputando a água para seu gado. Nesse papel está uma figura marcante que é Burl Ives, que por sua participação ganhou um injusto Oscar de coadjuvante. Foi uma daquelas besteiras da Academia, quando ele, na verdade, merecia o prêmio por outro trabalho do mesmo ano, que foi o papel de Big Daddy em Gata em Teto de Zinco Quente.
O curioso é que Ives era um cantor (bom) de músicas folclóricas e foi assim que estreou no cinema como o “trovador cantante” em Smoky (46) sua continuação Verdes Campos do Wyoming e se tornando depois coadjuvante em filmes importantes como Jornada Tétrica, de Nicholas Ray, Vidas Amargas, de Elia Kazan, Desejo com Sophia Loren e até com Disney em Meu Querido Carneirinho.
O ponto mais fraco do filme é que Wyler, habitualmente um diretor superexigente que não soube controlar o vilão mais forte do filme que é Chuck Connors, que cai em histerismo e caretas (um choque para quem era fã dele no seriado O Homem do Rifle). E, na verdade, um duelo de tiros a moda antiga entre ele e Peck parece fora de lugar neste tipo de filme.
A outra figura mais discutível é justamente Carroll Baker, que chegou a ter uma carreira longa (começou fazendo ponta em Fácil de Amar de Esther Williams- ela confessaria depois que se tornou amante de produtor para conseguir a chance. Depois se arrependeu e foi estudar no Actor´s Studio onde encantou Kazan que a usou como Baby Doll, no filme polêmico. Teve muitas chances no cinema (até com John Ford e mesmo Hector Babenco) e tentou mesmo ser a nova Marilyn Monroe, quando viveu o papel de Jean Harlow no cinema (e depois foi para a Itália onde rodou vários filmes). Cheguei a conhecê-la pessoalmente (ainda está viva), mas não era especialmente bonita (neste filme aqui ela esta com o rosto maquiado de forma a deixá-la não glamorosa, mas com aparência de americana comum e chata). É mais estranho ainda porque seu personagem fica ausente da luta final.
O filme teve indicação ao Sindicato dos Realizadores para Wyler e Globo de Ouro para Ives, mas mesmo a trilha musical tem coisas esquisitas como uma música forte em cima de uma cena de conversa de Jean e Peck, quando cada um deles tenta contar uma história cheia de sangue.
A narrativa vai a passos de elefante, mas Peck procura falar baixo e manter a dignidade. É surpreendente a declaração posterior dele dizendo que o personagem vivido por Bickford supostamente representaria a figura do então presidente americano Dwight E. Eisenhower (com quem Wyler trabalhou durante a guerra) e que o filme pretendia ser uma alegoria da Guerra Fria da época (o que francamente nos escapa). Ainda que seja creditado como tendo dando início a uma leva de faroestes pacifistas (porque foi sucesso de bilheteria no lançamento). Quem prestar muita atenção verá pontas dos filhos de Peck, Jonathan, Carey e Stephen.
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