28 dezembro 2011 às 06:00
Revisitando Tara Maldita
AVISO IMPORTANTE: ESTE TEXTO CONTÉM SPOILER.
Fiquei muito impressionado com o filme Temos que Falar Sobre Kevin, que deve estrear no Brasil no começo do ano de 2012 e que está indicado para os prêmios principais (além de ser baseado num livro best-seller que saiu no Brasil com um capa muito marcante: um menino que tem na cabeça um saco de papel com traços rabiscados!
Estrelado por Tilda Swinton, o filme tem grande força e conta uma história que continua a ter impacto: o que fazer quando você tem um filho psicopata, seja lá qual for a causa. E como evitar um mau maior (não deixem que lhe revelam a trama do livro/filme que o fato é guardado até o fim e nunca explicitado).
Achei curioso, porém ter chegado pelo correio, justamente neste momento, um outro filme sobre tema igual, que por acaso eu tinha encomendado. E que foi justamente o primeiro a abordar o assunto, ainda realizado numa época em que não se falava na possibilidade de duplo cromossoma, ou seja, de alguém destinado a ser criminoso (até onde recordo um assunto ainda em discussão, mas o que queria chamar a atenção é que para a época, meados dos anos 50, o tema era muito ousado e atrevido.
Escandaloso mesmo. Lembro-me que eu era bem criança quando ouvi falar do filme, que me deixou de orelhas em pé e superinteressado, mas ele passou aqui no Brasil meio rapidamente (claro que não assisti por ser proibido até 18 anos). Acabei correndo atrás e o assistindo muitos anos depois em VHS americano (ele chegou a sair no Brasil, mas numa cópia meio pirata da Paragon e não por sua produtora legal, a Warner). Não sei se vocês ouviram falar nele, mas é engraçado que o íitulo nacional usa uma palavra hoje em desuso, Tara (Maldita) e ainda que não politicamente correta, reflete a intenção dos autores.
Tara Maldita /The Bad Seed (Blu-ray EUA). EUA, 1956. Preto e branco. Standard.Warner. Suspense. 129 min. Áudio: Inglês. Leg: Ingl, francês, espanhol.
Diretor: Mervyn LeRoy. Elenco: Nancy Kelly, Patty McCormack, Eileen Heckart, Henry Jones, Evelyn Varden, Joan Croyadon, Paul Fix e Jesse White.
Sinopse: Uma mãe suspeita que sua filha pequena possa ser uma perigosa psicopata e assassina.
Comentários: Continua a ser uma raridade muito curiosa este drama difícil de classificar e também de explicar. Ele foi originalmente um grande sucesso nos palcos da Broadway, com texto de Maxwell Anderson, um famoso dramaturgo de peças como Joan of Lorrraine (Joanna D´Arc), Winterset, Ana dos Mil Dias, Key Largo e também roteirista de filmes como Sem Novidade no Front, O Homem Errado de Hitchcock, A Morte Tirou Férias. Não foi ele quem fez aqui o roteiro, mas John Lee Mahin (Quo Vadis, Scarface, de 32) que por sua vez era baseado em livro de William March (que não fez mais nada de importante, aliás, este texto foi refeito depois para a televisão em 1985 com Blair Brown, Lynn Redgrave, David Carradine e como uma certa menina chamada Carrie Wells, que logo largou a carreira para ser cantora.
Não se esqueçam que na época ainda existia a toda poderosa autocensura dos estúdios, que não permitia se contar uma história como esta. Então eles optaram por duas soluções: a primeira foi rodar tudo em estúdio, com um mínimo de despesas e utilizando quase todo o elenco original do teatro, o que é uma raridade (a exceção é William Hopper que faz rapidamente o pai da criança, um militar ausente, interpretado pelo filho da influente colunista de fofocas Hedda Hopper). Logicamente no palco tudo sucedia no saguão da casa de estar da família e no filme aparece o jardim da casa, outras dependências. Mas nem por isso deixa de ser basicamente teatro filmado.
Foi dirigido pelo hoje esquecido, mas talentoso, Mervyn LeRoy, 1900-87, que apesar de ser genro do chefe da Metro, Louis B. Mayer, era um realizador talentoso de mais de 78 filmes, entre eles, o ótimo A Ponte de Waterloo, Alma no Lodo, Trinta Segundos sobre Tóquio, a Estrada Proibida, O Mágico de Oz (foi o produtor) e Quo Vadis. E tinha paixão mal resolvida pelo teatro (tanto que mais tarde faria outra versão filmada literalmente do musical Gypsy/Em Busca de um Sonho).
Para driblar a censura eles meteram os pés pelas mãos e acabaram estragando o resultado. Atenção Spoiler (quem não quiser saber o final, pule este pedaço): na montagem original, conta-se a história de uma mãe de família (Nancy Kelly) que fica horrorizada quando percebe que a filha adorável, loirinha de trancinhas e cara de inocente, Rhoda (Patty McCormack), na verdade matou um colega por um motivo trivial e que é capaz de ser manipuladora, falsa e sem qualquer traço de remorso. A mãe então resolve fazer justiça com suas próprias mãos e, tomada por fúria de tragédia grega, resolve matar a própria filha. Aqui no filme essa cena fica meio diluída porque dão a interpretação que se fez justiça divina, com trovões e tudo. Como se fosse filme de terror. Atenção, nada a ver com o diabo, O Exorcista ainda não havia sido inventado. E para culminar ainda por cima no fim fazem questão de mostrar as cortinas do palco se fechando e depois abrindo para mostrar o elenco central agradecendo (tudo para mostrar que é brincadeirinha, um jogo que não devem levar a sério). E conclui ainda por cima com Nancy pegando a menina e fingindo que lhe dá umas palmadas!!! Nada mais de época (claro que hoje era seria presa, até no Brasil!).
Tudo em nome da censura, que se recusava a liberar a história. E se fosse levado a sério dava para entender porque já que Rhoda é uma figura maligna como pouco se viu antes no cinema antes, ainda mais numa criança! Coisa inaudita. O que ela teria é uma semente maldita, uma herança de assassina vindo hereditário da família. O que é mais incrível é que na época o filme foi levado a sério e chegou mesmo a ser indicado a dois Globos de Ouro de coadjuvantes (Patty e Eileen Heckart, que ganhou e que faz a mãe do menino assassinado). Também foi indicado aos Oscars de melhor atriz Nancy Kelly (1921-95), coadjuvante (Eillen (1919-2001), outra coadjuvante ( a então menina Patty McCormack, (1945) e fotografia em preto e branco (do veteranisso Hal Rosson, ex marido de Jean Harlow).
Mas eu fico com a sensação de que a razão porque um filme tão obscuro como este saiu em Blu-ray é porque ele virou cult, ou seja, ele não é levado mais a sério e todo mundo o acha “camp”, riem dele ou com ele. É verdade que vindo do teatro todo o elenco está numa escala acima do naturalismo, tudo é meio gritado, over, exagerado (não chega a cair no ridículo, mas há algumas caras e bocas, inclusive da menina que é difícil de engolir hoje em dia).
Essa sensação se concretiza ainda mais porque os comentários em áudio que acompanham o filme são com a hoje senhora Patty entrevistada por Charles Busch, que é famosa drag queen e ator satírico, especializado em mexer com os ídolos de Hollywood como no filme Die, Mommie, Die. (há também uma entrevista de 15 minutos, com Patty gravada em 2004) e o trailer original.
Curiosamente a atriz central a esquecida, Kelly, foi atriz infantil ainda no cinema mudo, esteve casada com Edmond O´Brien, depois fez filmes importantes (Jesse James, Uma Noite nos Trópicos, com Abbot e Costello), mas só foi se consagrar mesmo na Broadway, onde ganhou o Tony por este papel. A repercussão do filme não a ajudou, desde então só fez aparições na TV. Ela tinha na época apenas 35 anos, mas já aparentava muito mais. Não voltou depois ao cinema.
O tema musical do filme executado ao piano e depois retornando é Au Clair de la Lune, canção infantil francesa.
Diz a lenda que foram rodados três finais diferentes, para que se mantivesse a surpresa. Mas pode ter sido invenção do departamento de publicidade. Rosalind Russell foi considerada para fazer o papel principal.
Vale falar do elenco. Gosto especialmente da grande atriz Eillen Heckhart, que teria participações importantes em filmes famosos como O Amor Nunca Morre, com Jane Wyman (estreia), Nunca Fui Santa, Marcado pela Sarjeta, O Clube das Desquitadas, O Destemido Senhor da Guerra, Liberdade Para as Borboletas (pelo qual ganhou o Oscar de coadjuvante!), Subindo por onde se Desce, Meus Seis Amores, com Debbie Reynolds, Jogadora Infernal, com Sophia Loren.
Também é interessante constatar que a ex-menina Patty teve uma carreira longa (tem 128 créditos) inclusive em Soda Springs (011), foi Mrs Patricia Nixon em Frost/Nixon, 08, Liz la Cerva na Família soprano, sem esquecer de filmes que ainda rodou quando criança como Em Cada Coração uma Saudade (57), como estrela em Kathy O /Uma Estrela do Barulho, 57 com Dan Dureya, As Aventuras de Huck Finn, 60 e vários filmes B de jovens (Geração Explosiva, The Young Animals, The Young Runaways,The Mini-Skirt Mob).
De qualquer forma, eu sempre digo que é mais interessante esperar pela festa do que voltar dela (a gente sempre se decepciona). Procurei pelo filme tantos anos que naturalmente não poderia corresponder. A não ser que seja agora para debochar dele. Que convenhamos é uma forma de curti-lo como outra qualquer.
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