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29 dezembro 2011 às 06:00

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Os melhores filmes de 2011 por Tuna Dwek

Convidei minha amiga Tuna Dwek a fazer seu balanço dos filmes deste ano, sempre procurando ampliar o universo e a visão do que melhor se produziu e estreou  este ano. Estes são os melhores filmes de 2011 por Tuna Dwek (primeira parte).

A ordem dos filmes não obedece a um critério  de avaliação.

Entre dramas, comédias e animações, é árdua a tarefa selecionar algumas das melhores produções apresentadas na capital este ano. Ou pelo menos aquelas que permanecem em nossas retinas, corações ou simplesmente que surgem na memória sem esforço quando somos indagados. Vários deles mobilizaram públicos de todas as idades, outros gerações mais maduras, mas o fato é que todos eles são exemplos de produções que unem qualidade de roteiro, elencos coesos e alguns até superlativos, emoção, diversão e reflexão.

Meia Noite em Paris, de Woody Allen

paris Os melhores filmes de 2011 por Tuna Dwek

É a ode ao cinema por excelência. Uma homenagem a uma das características mais evidentes do cinema: a arte da evasão. Até mesmo entrar em contato com fatos reais não deixa de ocorrer na proteção de uma poltrona na sala escura e seu mistério e magia. O cinema não se explica se vive como experiência de contato consegue e com o outro. Cada qual terá sua interpretação, seu devaneio e sua conclusão. Em Paris, à meia–noite  inicia-se a pura magia do cinema como expressão dos desejos mais secretos da mente humana.

O filme remete à difícil aceitação que se tem de viver o presente de maneira plena, sem enaltecer o passado ou até mesmo fantasiar suas lacunas e limitações. Quando Gil, candidato a roteirista aventura-se por Paris, sem ainda saber que se entedia com certas futilidades da noiva e de sua família, permite-se sonhar com um tempo que não viveu catapultando-se a outro século, materializa-se a tese de Woody Allen.

Ninguém está feliz com seu próprio tempo. Personagens emblemáticos das artes e da cultura do século 20 aparecem como numa galeria sedutora e fascinante ao espectador, já totalmente transportado a um universo lúdico, mágico, envolvente como só o cinema pode proporcionar. Em meio a um  envolvente elenco que reúne  Kathy Bates, Adrien Brody, Marion Cotillard, Rachel McAdams, Owen Wilcon, Michale Sheen, Carla Bruni, Allen faz renascer o escritor Ernest Hemingway, um dos ídolos de Gil, ou a escritora Gertrude Stein e sua companheira Alice Toklas e seu grande amigo Pablo Picasso, ou Toulouse-Lautrec, o pintor do Moulin-Rouge, o pintor Salvador Dali, o casal Zelda e Scott Fitzgerald e alguns outros, de modo crível e encantador. Cada espectador, ao deslocar-se na história através do filme, faz uma viagem em seu próprio passado. Um filme encantador, com belíssima direção de arte e uma Paris estonteante.

Um Sonho de Amor, de Luca Guadagnino

sonho Os melhores filmes de 2011 por Tuna Dwek

Eis um exemplo de filme sofisticado, sóbrio e com um final arrebatador. Tilda Swinton, atriz esplêndida, em interpretação contida e milimétrica monopoliza a atenção como a russa Emma, casada com um abastado italiano, orgulhoso de suas conquistas materiais e do universo que construiu ao seu redor. Aparentemente satisfeita em sua realidade familiar burguesa, encontra-se na realidade sufocada pela aridez das normas e convenções impostas por sua posição.

Elegante e refinada cumpre seus deveres domésticos e conjugais em sua redoma milanesa. Um dos traços de sua personalidade contida são naturalmente uma fictícia frigidez e o rigor com que se relaciona com os filhos, a sogra, os empregados. É neste contexto ordenado que iminentes tragédias podem eclodir. O filho de Emma convida seu jovem sócio, um charmoso chef de cozinha a visitar sua família.

Entre receitas, códigos cifrados entre a sedução e a gastronomia, Emma não tarda a envolver-se com o jovem descobrindo própria sexualidade e apetite pela vida. É de se prever, entretanto, que a harmonia ameaçada logo adquira contornos trágicos.

Um acidente, tão estúpido quanto todos os acidentes  desencadeia a irreversível desagregação familiar. Desestruturando-se progressivamente, o mundo solidamente construído afunda sob o peso da tristeza e da dor. Em final surpreendente, Emma recusa-se a sucumbir a um fardo que beira a insuportabilidade.

A Tilda, une-se a um elenco afinado composto por Marisa Berenson, Franco Parenti, Alba Rohrwacher, Edoardo Gabriellini e um figurino digno de sua indicação ao Oscar.

Poesia, de Lee Chang-dong

poesia Os melhores filmes de 2011 por Tuna Dwek

O longa traça o painel pungente da coreana Soon-mi, a extraordinária Yun Jung-hee, avó abnegada e ao mesmo tempo anticonvencional nas vestimentos e atitudes, que cria sozinha um neto problemático em Seul. O mal de Alzheimer não tarda a se manifestar nessa futura amante de poesia, constituindo em si uma situação paradoxal e dramática e o neto envolve-se numa misteriosa situação em que uma colegial é encontrada morta, tendo-se jogado de uma ponte.

As investigações tem início, Soon-mi divide-se entre aulas de poesia, a luta contra a doença e o sacrifício para salvar o neto de uma possível condenação caso se comprove a culpa do neto de seu grupo nos motivos que levaram a moça a se suicidar.

Em determinado momento, em meio a uma aula de poesia, diz a uma colega não saber escrever poesia, mas apenas sentir, ao que ela responde “a senhora sabe sentir, então escreva o que sente”, isto é poesia. Assim como o filme, poético, belo, triste,  essencial.

A Pele que Habito, de Pedro Almodóvar

pele Os melhores filmes de 2011 por Tuna Dwek

É tão envolvente que o espectador não consegue desvendar os segredos escondidos no decorrer das ações do cirurgião plástico interpretado por Antonio Banderas. Após longo jejum, Banderas volta a filmar com seu mestre Almodóvar para deleite absoluto de seu público. Entretanto, é um filme à la ame ou odeie.

Ao perder sua única filha, com dificuldades de assimilação, em circunstancias violentas, tendo já perdido sua mulher queimada, o cirurgião dedica-se a encontrar outro rumo para sua vida.Tendo se dedicado a pesquisar um tipo de pele sintética que não se deformaria com a ação do tempo ou do fogo, ele concentra sua atenção numa bela mulher, interpretada por Elena Anaya, totalmente envolvida pela personagem acaba se apaixonando por ela, presa numa pele e numa casa da qual deseja se livrar. A volta ao passado explicará o presente e uma enigmática Marisa Paredes deterá as chaves que podem explicar certas opções do médico. Um filme sobre o qual não se pode dizer muito para que se mantenha a surpresa final, mas que garante um interesse ininterrupto sobre a ação.

Saturno em Oposição, de Ferzan Ozpetek

saturno Os melhores filmes de 2011 por Tuna Dwek

Como não poderia ser diferente, o turco Ozpetek nos brinda com um dos melhores do ano. Um filme sobre amizade, lealdade, traições, desencontros, perdas, alegrias, ou seja, a vida, de um grupo de amigos.

Um escritor hospeda seus amigos, e consequentemente suas histórias pessoais, sem imaginar que um drama irá determinar o decorrer dessa estadia. Davide Antonio casado com Angélica, amante de Laura. Neval casada com Roberto, Roberta, Sergio, ex-namorado de Davide, que por sua vez vive com Lorenzo, reúnem-se na mesma casa em meio a conversas animadas, rememorações do passado, intimidades desvendadas e em meio a pratos saborosos.

Tudo decorrendo como de praxe em encontro entre velhos amigos, com maiores ou menores afinidades. E exatamente o mais alegre e pacificador de todos, será aquele que involuntariamente trará a tragédia ao grupo.

Acometido de um mal súbito, um dos amigos vem a falecer provocando imensa dor em seu companheiro e a essa “família”, de certa forma a família escolhida.

Por ser Ozpetek, o filme jamais incorre em melodrama ou tratamento piegas. Pelo contrário, uma interpretação e uma direção maduras garantem tanto a beleza do filme como  a navalha que nos corta por dentro.

Stefano Accorsi, Margherita Buy, Filipo Timi, Luca Argentero, Pierfrancesco Favino, Serra Yilmaz, Ennio Fantastichini e Ambra Angiolini compõem um elenco coeso que transita entre a alegria e a dor com a mesma verdade e a sinceridade de quem sabe o que está dizendo.

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