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8 janeiro 2012 às 06:00

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O mestre das tragédias: Michael Cacoyannis

Por coincidência, estão disponíveis em DVD legal no Brasil as três maiores e melhores tentativas de adaptar para o cinema as tragédias gregas de Eurípides.

Foram lançados por distribuidoras alternativas em cópias decentes e confirmam o talento do diretor grego Cacoyannis, que perdemos  justamente no ano passado.


Cacoyannis, Michael

kakogiannis O mestre das tragédias: Michael Cacoyannis

(1922- 2011). O maior diretor do cinema grego (embora tenha nascido em Limassol, Chipre, em 11 de junho), responsável pelo lançamento de  duas grandes estrelas locais: Irene Papas e Melina Mercouri, e pelo interesse internacional por seu país, depois do êxito em Zorba, o Grego (junto com Nunca aos Domingos, do americano Jules Dassin, que se casaria com Melina e se radicaria na Grécia).

Filho de um advogado, Michael foi para Londres estudar direito, mas como era época da guerra, foi trabalhar como produtor de rádio para os programas da resistência grega, na BBC. Aos poucos se interessou por teatro e cinema, fazendo algumas pontas. O cinema grego praticamente nasceu com seu retorno a Atenas.

zorba 1 O mestre das tragédias: Michael Cacoyannis

Sua obra-prima ainda é Electra, a Vingadora, uma telúrica tragédia grega, que ele fez para sua musa, Irene Papas. Nos anos 70, a decadência pareceu explicável pelos problemas políticos da época, que o obrigaram a se afastar de seu país. Dirigiu ocasionalmente para o teatro. Seu nome também é grafado como Mihalis Kakogiannis.

Foi indicado ao Oscar três vezes pelo roteiro, filme e direção de Zorba, o Grego, participou na competição de Cannes por sete vezes, ganhando prêmio especial por Electra (62). Na verdade, ninguém como ele soube transpor para o cinema as grandes tragédias clássicas gregas.

zorba 2 O mestre das tragédias: Michael Cacoyannis

Zorba foi um caso à parte: baseado em livro de Nikos Kazantazakis (A Última Tentação de Cristo, Aquele que Deve Morrer), sempre com Irene Papas no elenco, é sobre um velho grego que tem uma incrível filosofia de vida e influencia um jovem engenheiro inglês (Alan Bates).

Foi o melhor papel de toda a ilustre carreira de Anthony Quinn, que concorreu ao Oscar naquele ano, mas não venceu. Ele repetiria o papel depois também em show musical da Broadway. E no resto da vida interpretou basicamente variações desse personagem. Zorba ganhou também os Oscars de Fotografia e Direção de Arte. Michael faleceu no dia 25 de julho em Atenas.

Anthony Quinn O mestre das tragédias: Michael Cacoyannis

Dir.:

1953 – Windfall in Athens – Kiriakatiko Xypnima (Elli Lamberti, Georges Papas)

1955 – Stella (Idem. Melina Mercouri, Georges Foundas)

1956 – A Mulher de Negro (To Koristsi Me Ta Mavra. Elli Lamberti, Dimitri Horn)

1957 – Uma Questão de Dignidade (A Matter of Dignity ou To Telefteo Psemma. Elli Lamberti, Georges Papas)

1960 – Eroica/ Our Last Spring (Alexander Manatir, Panos Goumas) e Náufragos da Vida (Il Relitto. Na Itália. Van Heflin, Elli Lamberti)

1961 – Electra, a Vingadora (Electra. Irene Papas, Aleka Catselli)

1965 – Zorba, o Grego (Zorba, the Greek. Anthony Quinn, Irene Papas)

1967 – O Dia em que os Peixes Saíram d’Água (The Day the Fish Came out. Candice Bergen, Tom Courtenay)

1971 – As Troianas (The Trojan Women. Katharine Hepburn, Vanessa Redgrave)

1974 – A História de José e Jacó (The Story of Joseph and Jacob. Herschell Bernardi, Tony Lo Bianco. TV) e Atilla (Doc.)

1976 –Ifigênia (Iphigenia. Irene Papas, Costa Kasakos)

1986 – Sweet Country (Irene Papas, Jane Alexander)

1992 – Caminhos Cruzados (Pano Kato Ke Plagios. Irene Papas, Stratos Tzortzogiou)

1999 – O Jardim das Cerejeiras (O Vyssinokipos ou The Cherry Orchard. Charlotte Rampling, Alan Bates)

Eu tive a oportunidade de assistir a uma montagem na Broadway justamente de uma tragédia grega dirigida por Cacoyannis com Irene e, anos depois, conversar com a estrela, que não é uma pessoa fácil, ainda conserva a beleza rústica (aquelas sobrancelhas espessas são marcantes) e é mesmo uma força da natureza. Eles não eram amantes, Cacoyannis era homossexual, era mesmo um caso de criador e musa. Os dois brilham na trilogia descrita abaixo:

papas 2 O mestre das tragédias: Michael Cacoyannis

Electra ****

Ilektra

elektra O mestre das tragédias: Michael Cacoyannis

Áudio: grego. Leg: franc, port, ingl, esp. Tragédia. 110 min. PB. 1962. Grécia. 14 anos. Cult Classic.

Diretor: Michael Cacoyannis.  Elenco: Irene Papas, Yannis Fertis, Aleka Kateselli, Manos Katrakis, Nuttis Peralis e Phoebus Rhazis.

Sinopse: depois da Guerra de 10 anos contra Troia, o general  Agamenon retorna para seu reino, mas a mulher, Cliemnestra, une-se ao amante para matá-lo. A filha mais velha, Electra, se refugia no interior esperando que o irmão mais novo, Orestes, cresça para juntos arquitetarem a vingança.

Comentários: esta foi a primeira de uma trilogia de adaptações para o cinema de tragédias gregas, feitas com brilhantismo pelo diretor Michael Cacoyannis (Mihalis Kakogiannis 1922-julho de 2011), recém-falecido, sempre com sua musa a esplendida Irene Papas (ainda viva).

elektra 2 O mestre das tragédias: Michael Cacoyannis

Usando com talento e inspiração a força das imagens em preto e branco (fotografadas pelo alemão Walter Lassally, que também fez com ele Zorba, o Grego que lhe deu o Oscar, e ainda filmou As Aventuras de Tom Jones, Joanna, Um Gosto de Mel) e a excepcional trilha musical de Mikis Theodorakis (Serpico, Zorba, Z, Efigenia), o filme é uma lição de como adaptar uma tragédia grega em termos visuais, sem perder sua essência.

Mantém a utilização parcial do Coro Grego de mulheres (que comenta os fatos e passa informações), reduzindo o texto ao essencial, passando o que importa para termos visuais (por exemplo, todo o começo é mostrado sem diálogos, ilustrando uma peça anterior da trilogia de Eurípides, que assim ajuda na compreensão da trama).

elektra 41 O mestre das tragédias: Michael Cacoyannis

É impressionante a força de Irene (que naquela altura já era estrela internacional graças à sua passagem por Hollywood com Os Canhões de Navarone e Honra a um Homem Mau) que não cai nunca no exagero ao retratar a fúria de uma filha em busca de vingança contra a mãe (Aleka Katselli de Nunca aos Domingos).

Gianni Fertis, que faz Orestes, depois se tornaria grande astro teatral em seu país. Foi indicado ao Oscar de filme estrangeiro, ganhou prêmio de adaptação cinematográfica e prêmio técnico no Festival de Cannes. Tudo estilizado, mas de fácil entendimento, sem ser aborrecido, uma obra-prima. Teve nos cinemas o nome de Electra, a Vingadora.

elektra 5 O mestre das tragédias: Michael Cacoyannis

As Troianas **

The Trojan Women

The Trojan Women O mestre das tragédias: Michael Cacoyannis

Áudio: ing. Leg: port. Drama. Widescreen. 106 min. Cor. 1971. Grécia/Ingl. Cult Cassic.

Diretor: Michael Cacoyannis. Elenco: Katharine Hepburn, Vanessa Redgrave, Irene Papas, Geneviéve Bujold, Brian Blessed, Patrick Magee e Alberto Sanz.

Sinopse: depois da derrota de Troia perante os gregos, as mulheres lamentam o seu destino.

The Trojan Women 22 O mestre das tragédias: Michael Cacoyannis

Comentários: este foi a segunda de uma trilogia do diretor grego Michael Cacoyannis (Zorba, o Grego) na tentativa de transpor para o cinema tragédias gregas sem concessões ou atualizações. A primeira foi uma obra-prima em preto e branco, despojada e forte, Electra, a Vingadora, 1961, com sua musa Irene Papas, que está também aqui e voltaria na terceira que foi o bonito Iphigenia (1977).

Mas esta tentativa vale mais pelo elenco estrelar absolutamente inusitado, com estrelas de diferentes origens, todas  notáveis, mas nenhuma em seu melhor momento. Inspirado na Tragédia de Eurípides, baseado na tradução de Edith Hamilton, adaptada pelo diretor. E talvez aí esteja o problema, ao contrário das outras duas, não foi falado no original grego, mas em inglês para ajudar as atrizes. O que acaba lhe roubando autenticidade, parando o filme para o show das atrizes, não na melhor forma.

The Trojan Women 3 O mestre das tragédias: Michael Cacoyannis

Rodado na Castilla e La Mancha, na Espanha. Katharine faz Hécuba, Vanessa faz Andrômaca, Irene Papas é Helena e Geneviéve Bujold (que estava na moda na época depois de ter sido indicada ao Oscar por Ana dos Mil Dias) é a pitonisa Cassandra.

Das figuras masculinas, apenas Melenau é visto tentando recuperar sua mulher Helena. Mas o resultado não funciona tanto dramaticamente, como nem tem o impacto visual dos outros da trilogia. Música sempre de Mikis Theodorakis.

The Trojan Women 4 O mestre das tragédias: Michael Cacoyannis

Iphigenia ***

Ifigenia

iphi 2 O mestre das tragédias: Michael Cacoyannis

Áudio: grego. Leg: franc, port, ingl, esp. Tragédia.127 min. Cor. 1977. Grécia. 12 anos. New Line.

Diretor: Michael Cacoyannis.  Elenco: Irene Papas, Kosta Karas, Kostas Kazakos, Tatiana Papamoschou, Christos Tsagas e Angelos Yannoulis.

Sinopse: quando o exército grego está prestes a navegar para a Grande Guerra de Troia e resgatar a raptada Helena, há uma calmaria e, sem ventos, não podem partir. O líder Agamenon, em busca de comida, mata por engano o animal sagrado do tempo de Artemis. Como punição de Deus, ele deve sacrificar a própria jovem filha Iphigenia. Para desgosto de sua mãe Clitiminestra.

iphi 1 O mestre das tragédias: Michael Cacoyannis

Comentários: este foi o terceiro e último de uma trilogia de adaptações para o cinema de tragédias gregas feitas com brilhantismo pelo diretor Michael Cacoyannis (Mihalis Kakogiannis 1922-julho de 2011), recém-falecido, sempre com sua musa, a esplendida Irene Papas (ainda viva).

Aqui ele faz uso impressionante do colorido (mais que em As Troianas) e, embora não chega a ter a criação ou liberdade de Electra, ainda faz um bom trabalho (é curioso que aqui novamente adapta uma tragédia de Eurípides que, na verdade, vem a explicar o porquê da raiva que a esposa Clitiministra tem de Agamenon e por que o mata com a ajuda de um amante naquele filme).

iphigenia O mestre das tragédias: Michael Cacoyannis

Ela nunca perdoou a morte inútil e causada por descaso de um animal sagrado. Só não é melhor que Electra porque a obra original já é inferior. Este concorreu em Cannes e foi também indicado ao Oscar de filme estrangeiro. De qualidade, só que é mais fraco do que o original (a trilha é do mesmo Theodorakis).

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