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15 janeiro 2012 às 06:00

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Revisitando Amor, Sublime Amor

Amor, Sublime Amor (West Side Story).

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EUA/Brasil. Título original: West Side Story. Áudio: Inglês, espanhol. Legendas: Inglês, espanhol, francês, português. Musical clássico. Widescreen 2.20:1.  155 min. Cor. 1961.EUA. Mirisch/ United/ MGM/ Fox.

Diretor: Robert Wise e Jerome Robbins. Elenco: Natalie Wood, Richard Beymer, Russ Tamblyn, Rita Moreno, George Chakiris, Simon Oakland, John Astin, Ned Glass.

Sinopse: No fim dos anos 50, no bairro oeste de Nova York, duas gangues de jovens, de portoriquenhos - os Sharks - de poloneses e outras origens -  os Jets - lutam pelo controle do lugar. Mas Tony, um rapaz que largou a gangue dos Jets se apaixona por Maria, irmã do líder dos Sharks, provocando a tragédia.

Dados técnicos: Como foi rodado em sistema de Panavision 70 (milímetros), o resultado deste clássico em Blu-ray é impecável e irretocável. A edição americana especial contém três discos: dois em Blu-ray e um terceiro em DVD normal (com o filme e extra music machine).

No primeiro o filme remasterizado a 1080p Hi-Def com som 7.1 DTS HD! Traz como extras o comentário (legendado em inglês) do autor das letras Stephen Sondheim que comenta canção a canção e o documentário Pow! The Dances of West Side Story (os depoimentos aparecem no meio do filme, ilustrando as danças mais importantes, que depois são retomadas).

No segundo Blu-ray, temos material mais antigo: A Place for Us  - West Side Story Legacy, Creation and Innovation, A Timeless Vision, West Side Memories e Storyboard – to filme Comparisons Montage. A edição nacional você encontra por R$ 59, mas tem apenas um único disco, portanto só tem os extras mais recentes o de Sondheim falando das canções e Pow! Featurette sobre as danças.

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Comentários: A vida real, você não sai na rua cantando e dançando. Feliz ou infelizmente porque era bem capaz de ser preso como louco. Mas isso pode acontecer num palco de teatro, sem causar surpresa porque em cena aberta  tudo é estilizado, sugerido. Uma escada pode ser um castelo, uma cadeira uma casa.

No cinema tudo é mais realista e por isso quase nunca funcionam na tela grande os maiores shows da Broadway. É preciso criar o clima certo de fantasia, que torne verossímil o fato de que os personagens naquela momento não tem outra saída para se expressarem, se não cantarem ou dançarem. E por isso que muitas vezes o diretor utiliza algum truque para não causar essa estranheza (no caso de Cabaret, Bob Fosse faz com que a maior parte das canções aconteça num palco ou num jardim de cervejaria alemã ou comente algum momento dramático.

Em Chicago, tudo é visto pelo ponto de vista de alguém, em geral a heroína). Mas até aquele momento a mais bem- sucedida transposição desses shows para o cinema foi sem dúvida West Side Story. Primeiro porque sua trama é universal, uma atualização da história de Romeu e Julieta, de Shakespeare, transposta para o lado oeste de Nova York, onde havia o conflito permanente entre gangues de americanos de outras origens e portoriquenhos (numa região em decadência, onde as casas foram derrubadas e hoje existe o Lincoln Center).

Depois porque a trilha musical é das mais espetaculares, escrita pelo grande maestro e compositor Leonard Bernstein, 1918-1990 (Um Dia em Nova York), com letras do estreante Stephen Sondheim, (1930), hoje em dia uma lenda e o maior compositor da Broadway.

O filme é um caso raro de uma fita assinada por dois diretores. Robert Wise, 1914-2005 (A Noviça Rebelde, além de ter sido o montador de Cidadão Kane e dirigido outros grandes filmes) realizou a maior parte do trabalho, mas deixou a coreografia e principalmente o prólogo dançado nas mãos do mesmo artista que concebeu o espetáculo para o palco, Jerome Robbins (1918-98). O problema é que Robbins foi despedido em meio à produção, simplesmente para baratear os custos. Ele ficou magoado para o resto da vida (mas Wise não teve culpa).

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West Side Story começa de uma forma brilhante, com uma overture musical, com a tela mostrando apenas riscos e diferentes cores (uma criação genial do mestre criador de títulos Saul Bass, o mesmo que também inventou os letreiros finais brilhantes, formado por placas de transito e concluindo apenas com “end” (fim e não “o fim”). Aos poucos o espectador vai montando o quebra cabeça no que se revela ser uma reprodução do skyline, dos prédios de Nova York.

A câmera do alto, de um avião, atravessa o Rio Hudson e devagar vem se aproximando e situando a ação no lado oeste da cidade. Na trilha se houve depois apenas os assovios da gangue que chamam os companheiros. Um zoom e pronto lá estão os jovens dessas gangues. Nos primeiros dez minutos do filme não há diálogos, tudo é narrado pela dança, pelos movimentos dos atores que, claro, é uma disputa por território, pelo domínio da região. Tudo mostrado apenas através da linguagem corporal. Essas sequências foram rodadas em demolições reais e também em estúdio.

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Embora Robbins não tenha acompanhado toda a filmagem, ele teve tempo de preparar a heroína que faria Maria, a única estrela muito famosa do elenco Natalie Wood (1938-1981), que havia sido estrela infantil e depois morreria num caso mal explicado de afogamento num iate. Embora tivesse aprendido balé quando criança ela não era exatamente uma dançarina. Mas se sai muito bem, numa encantadora dança num telhado, quando Robbins lhe deu apenas alguns simples passos, que ela interpreta com graça e naturalidade. Natalie fez o filme pensando que iria cantar com sua própria voz e realmente ela chegou a ser pré-gravada.

Nesta edição apresentam duas músicas com a voz dela e fica evidente que não funcionava, não tinha o devido alcance e além de tudo era estridente. Tiveram que dublá-la posteriormente, ou seja, a dubladora teve que seguir os lábios de Natalie. A voz pertence à Marnie Nixon, que se tornou assim a mais famosa dubladora do cinema (tendo feito também o serviço para Deborah Kerr em O Rei e Eu, Audrey Hepburn em My Fair Lady, e aparecido como freira em A Noviça Rebelde e também Rita na sequência do Quinteto).

Marnie não prejudicou a presença luminosa de Natalie, ao contrário, a ajudou, porque o filme é repleto de achados visuais, como uma passagem de tempo, Natalie como Maria acabou de cantar I Feel Pretty e se exibe em seu vestido branco, dando voltas que vão saindo de foco até que de repente já estamos no salão de danças do ginásio, onde as duas gangues se enfrentam num autêntico duelo coreográfico.

A figura mais fraca do filme é Richard Beymer, que faz  o herói Tony. Uma vez perguntei a Wise porque ele tinha sido escolhido - sempre pensando que seria caso de alguém! Mas Wise justificou sua escolha dizendo que era o melhor que tinha disponível naquele momento. E é verdade. Era um rapaz bonitão que não fez grande carreira porque acabou caindo na cilada das drogas. Sua voz é dublada nas canções, inclusive a lendária música Maria por Jim Bryant.

O momento mais bonito do filme é dele e Natalie, quando o casal se vê em lados opostos do salão e do enquadramento em Widescreen. E tudo ao redor deixa de existir, some, como se apenas os dois se encontrassem e conversassem, dançando delicadamente até o primeiro beijo.

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As honras dramáticas ficaram por conta dos coadjuvantes, ambos premiados com o Oscar, o ex-corista George Chakiris e a magnífica porto-riquenha Rita Moreno, uma das poucas  pessoas em toda a história que ganhou todos os principais prêmios, o Oscar, o Tony, o Grammy e o Emmy. É ela que está num dos melhores números, o satírico América, o “show stopper”, onde se mostra que tudo está na América desde que você seja branco e rico. Rita canta com sua própria voz a não ser na música A Boy Like That, já ao final, quando teve que ser ajudada por Betty Wand (que dublou Leslie Caron em Gigi).

Mas Rita não gosta e reclama do resultado, dizendo que a interpretação dela na voz não corresponde ao que ela esta demonstrando em seu rosto. Uma curiosidade: Chakiris era o único do elenco central que tinha já feito a peça, mas em Londres e noutro papel, o de Riff. Quem fica com o papel aqui é Russ Tamblyn, ainda vivo e pai da atriz Amber Tamlyn.

Russ tinha sido ator infantil e depois juvenil na Metro em filmes de sucesso como Sete Noivas para Sete Irmãos e O Pequeno Polegar (sua voz também foi dublada na The Jet Song, por Tucker Smith, que faz o papel de Ice).

Russ não era exatamente um dançarino, mas um ginasta, e por isso sua coreografia é mais em cima de saltos mortais e sua especial simpatia (com o passar do tempo perdeu o tipo e a carreira).

Outro detalhe curioso: Natalie Wood usa um bracelete no seu pulso esquerdo por ela tinha se machucado anos antes, ainda criança quando fez o filme The Green Promise, quando caiu de uma ponte durante tempestade. Isso lhe deixou um osso sobressalente e ela usou esse bracelete em todos os seus filmes virando marca registrada.

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É importante se registrar que o filme foi o primeiro a mostrar lutas de gangues de rua e que foi o primeiro musical a tratar de temas sérios (e o primeiro ato termina com duas mortes e a conclusão não tem um final feliz). A produção original da Broadway estreou no Winter Garden Theater em 26 de  Setembro, de 1957, e durou 732 performances.

Foi indicado, mas não ganhou o prêmio Tony Award, de 58, de Melhor Musical, perdeu para The Music Man. Na verdade, só  o sucesso espetacular do filme que ficou anos em cartaz em cidades como Buenos Aires e Paris que o tornou um clássico, já várias vezes remontado. Os papéis centrais do show eram vividos por Larry Kert, Carol Lawrence e a hoje ainda famosa Chita Rivera, como Anita.

Um detalhe curioso: o plano original era fazer um Romeu e Julieta entre rapaz católico e uma garota judia e se chamar East Side Story. Mas coincidou com um boom da emigração vinda de Puerto Rico no fim dos  anos 1940 e assim mudaram de bairro. Os direitos de filmagem foram comprados pelos Irmãos Mirisch por $375 mil.

Apenas seis membros do elenco original aparecem no filme: Carole D'Andrea (Velma), David Winters (no filme A-Rab, na Broadway: Baby John), Jay Norman (filme: Pepe, peça: Juano), Tommy Abbott (Gee-Tar), Tony Mordente (filme: Action, peça: A-Rab), William Bramley (Oficial  Krupke).

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É preciso fazer menção especial ao trabalho notável de fotografia e direção de arte que justamente procurou estilizar os sets, pintando-os de cor quente, ou tornando-os mais poéticos do que a dura realidade dos bairros pobres. O fotógrafo foi Daniel L. Fapp (1904-86), que fez também A Inconquistável Molly, Fugindo do Inferno, Cupido não tem Bandeira, de Billy Wilder). O diretor de arte (ou desenhista de produção foi Boris Leven, 1908-86, que já comentamos aqui em New York, New York. Falta mencionar os figurinos são incríveis, mais quentes e com muito roxo para os latinos, branco para Maria quando é virgem, vermelho quando ela se torna mulher. A responsável é Irene Sharaf, 1910-1993, também de New York, New York.

Não há dúvida:  nunca se viu antes e mesmo depois num filme uma coreografia tão brilhante. Por exemplo, na sequencia Cool, em que a gang dança para não explodir em violência. Mas tem questões em torno disso. Quem escreveu o roteiro original foi o recém-falecido Arthur Laurents que nunca aceitou as mudanças feitas pelo roteirista Ernest Lehman (o mesmo que esteve em Noviça Rebelde, Intriga Internacional, A Embriaguez do Sucesso, todos eles já comentados aqui). Temos que admitir que o filme é melhor que a peça, dramaticamente mais ajustado e muito cinemático. (Alias a peça já montada aqui em São Paulo no Teatro Alfa por Jorge  Takla).

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As mudanças mais célebres da transposição eram rejeitadas por Laurents, mas para mim são perfeitas. Assim I Feel Pretty vem mais cedo antes da briga e trocaram de lugar, o Coolbe Gee, Officer Krupke. Cool (ou seja, eles precisam descarregar a tensão após a briga mortal) é depois da Rumble (Briga) e Gee, Officer Krupke, uma canção satírica sobre deliquência juvenil vem antes (isso também dá chance para o personagem de Riff tem outro numero, no palco quando ela é apresentada ele já morreu. O que ajuda também a participação do então astro Tamblyn).

West Side Story foi premiado com dez Oscars: de melhor filme, direção (única vez em que dois foram premiados, até o caso recente dos Irmãos Coen em 2008 por Onde os Fracos Não Tem Vez), um especial para a coreografia de Robbins, atores coadjuvantes (Rita e George), fotografia, figurinos, direção de arte, montagem, arranjos musicais (Saul Chaplin, Johnny Green, Irwin Kostal). Só não ganhou a indicação para melhor roteiro para Lehman (para se desculpar a academia lhe daria anos depois um Oscar especial pela carreira).

Foi ainda premiado pelos críticos de Nova York, Sindicato dos diretores e roteiristas e Globo de Ouro de musical, coadjuvantes (Chakiris e Rita).

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Para mim, West Side Story sempre teve uma importância muito grande e o coloquei sempre entre meus melhores filmes de todos os tempos (aliás, ainda esta na lista disputando a liderença com 2001 e Fellini Oito e Meio). Eu o assisti quando ainda era adolescente e por isso fui muito influenciado, foi a trilha sonora dos meus anos teen (junto com a bossa nova e Sylvinha Telles).

Tem problemas como o dueto entre Maria e Anita no quarto que fica operístico e Richard Beymer que é fraco como Tony (imagino o que teria acontecido se Wise tivesse conseguido sua opção inicial, Elvis Presley). Mas ainda me toca muito.

Acho que é o filme mais revi na vida. É sem dúvida um musical quase perfeito e que marcou toda uma geração, que nunca vai esquecer o primeiro encontro entre Tony e Maria. Quando os dois se veem em lados opostos do salão, de repente para eles o mundo não mais existe. Só o amor (à primeira vista dos dois). Um momento mágico do amor no cinema. Agora preservado em Blu-ray.

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