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16 janeiro 2012 às 06:00

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Revisitando Clássicos em Blu-ray: No Tempo das Diligências

Revisitando:  No Tempo das Diligências/Criterion (EUA). Stagecoach. EUA, 1939. Branco e Preto. Formato 1.37. Áudio: Inglês Monaural. Faroeste Clássico. 97 min.

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Direção: John Ford. Elenco: John Wayne, Claire Trevor, Thomas Mitchell, George Bancroft, Andy Devine, John Carradine , Donald Meek, Berton Churchill, Tim Holt, Louise Platt, Tom Tyler, ponta de  Woody Stode e Elvira Rios.

Sinopse: Os passageiros de uma diligência que viaja pelo Velho Oeste são atacados por índios.

Comentários: Reza a lenda de que o ano de 1939 foi o maior da história do cinema de Hollywood, quando produziram uma safra inspirada com muitas obras-primas. Uma delas é esta, que é o faroeste seminal do maior diretor do gênero, John Ford.

A única edição disponível do filme (que se chama no original apenas Diligência, e que ganhou em português este belo e poético título de No Tempo das Diligências) é esta edição da famosa Criterion que sempre traz grandes extras e cópias de qualidade.

Esta aqui é anunciada como restaurada, mas não de qualidade excepcional (difícil eu entender porque não deram um banho digital na cópia, que ainda tem riscos e manchas). De qualquer forma, era uma produção independente de Walter Wanger, portanto menos conservada do que os filmes de grandes estúdios (a distribuição original era da United Artists). O que se pode dizer de John Ford?

John Ford, o maior de todos

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“Meu nome é John Ford. Eu dirijo faroestes”. Era assim, com essa falsa humildade, que ele se apresentava. Como se não soubesse que John Ford era considerado pelos próprios colegas,  o maior diretor do cinema americano, o único a ganhar 4 Oscars (O Delator, Como era Verde o Meu Vale, Depois do Vendaval e ainda Vinhas da Ira).

Uma lenda em própria vida e um dos poucos cuja reputação nunca foi abalada. Esta edição traz uma longa entrevista de quase uma hora com ele, gravada por franceses, onde se pode conferir seu lendário mau humor (muitas vezes não escuta a pergunta se passando por surdo, ao que parece não era tanto! E dando respostas curtas e até malcriadas).

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Ford (1893-1973) trabalhava como enorme simplicidade, sem nunca cair em excessos, fazendo sempre o mínimo possível e necessário. Nada de movimentos de câmera exagerados para chamar a atenção para o realizador. Nada de inventar truques ou planos complicados.

Filmava pouco, sem planos de cobertura. O plano máster era o que ia valer (cortava na câmera, era como diziam). Até para protegê-lo de produtores que ousassem pensar em mexer no seu filme. O que Ford fazia era definitivo, irretocável. Ninguém sabia como ele reconhecia o melhor o lugar para colocar a câmera. Mas Ford era bom em qualquer gênero, em qualquer situação.

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Foi graças a Ford que o faroeste ganhou status  de arte e grande aventura, não apenas diversão de matinês. Na verdade, Ford já era veterano de faroestes no cinema mudo, quando fez muitos do gênero, com seu amigo Harry Carey, que funcionavam como complemento de programas quando foi conseguindo projetos mais ambiciosos.

Foi ele quem deu status artístico aos westerns com este filme, que é considerado o primeiro faroeste adulto e psicológico (isso 11 anos do gênero gerar Matar ou Morrer). Ele criou  aqui uma mitologia que perdura até hoje. E que inclui o mais famoso dos cowboys, seu ator preferido e amigo John Wayne. E vários elementos depois imitados: a diligência atacada pelos índios, que cercam os brancos que esperam a chegada salvadora da cavalaria.

A prostituta de coração de ouro, que no fundo é uma ótima pessoa (Claire Trevor). Sem esquecer-se do médico bêbado, que tem que fazer um parto de última hora e assim por diante. O cavalheiro de passado duvidoso, jogador e meio ladrão, que veio de família boa e agora se redime cuidando da mulher grávida.

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E mesmo o herói é “o good bad man” (vejam o nome dele Ringo Kid, muitos anos depois roubado pelos faroestes spaghettis), que saiu da cadeia, procura vingança, mas nem por isso é capaz de perdoar a profissão da amada! Sem esquecer o banqueiro corrupto (um personagem odiado pelo povo naquela época de Depressão, e considerado ainda mais bandido do que hoje em dia), que carrega o tempo todo a malinha com o dinheiro que roubou enquanto posa de moralista (ou republicano). Este foi o primeiro faroeste de Ford em 13 anos.

Ford sabia que muitas vezes havia sido injusto com os índios e sentindo-se responsável por isso, se aproximou deles e fez sua defesa a partir de Forte Apache/Sangue de Heróis, 47,  quando já tem cenas mostrando-os como vitimas dos brancos que, em última análise, lhe roubaram as terras.

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E justamente seu último faroeste Crepúsculo de Uma Raça (Cheyene Autumn, 64) é como um testamento do Velho Oeste de Wyatt Earp e Doc Holliday, mas também de uma raça brava e heroica que ira morrer tragicamente.

No Tempo das Diligências foi o primeiro filme que Ford conseguiu rodar no que passaria a ser chamado “Terra de John Ford”, no meio de uma reserva Navajo que só foi ter estrada de rodagem nos anos 50. Era no meio do nada, no chamado Monument Valley, em Utah (dizem que ele gostava de rodar por lá também porque nenhum executivo de estúdio poderia encontrá-lo).

É um deserto com uma paisagem impressionante, que passaria a simbolizar justamente sua paisagem (mesmo que outros como Thelma e Louisa tenham rodado na região). Ford retornou lá depois para fazer Paixão de Fortes/My Darling Clementine, Fort  Apache/Sangue de Heróis, Legião Invencivel/She Wore a Yellow Ribbon, Caravana de Bravos/Wagon Master, Rio Bravo/Rio Grande, Rastros de Ódio/The Searchers, Audazes e Malditos/Sergeant Rutledge e seu último faroreste Crepúsculo de Uma Raça/Cheyenne Autumn.

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Foi num filme dele, O Homem que Matou o  Facínora, que um dono do jornal diz a frase que se tornou uma espécie de epitáfio para todo o gênero faroeste: “Quando a lenda se torna fato, imprima-se a lenda”. Foi o que fez  Ford imprimindo em celuloide a lenda imortal dos bandidos e mocinhos, dos pele-vermelhas e da conquista do Oeste.

Ford não mostrou um Oeste como realmente foi: feio, cruel e grosseiro, mas o Oeste como deveria ter sido: épico, generoso e justo, onde o mal sempre vencia o bem e pioneiros forjavam a ferro e sangue uma nova nação.

Hoje todo mundo concorda que a origem da história foi um famoso conto do francês Guy de Maupassant, Bola de Sebo (que foi filmada por Christian Jacque, com Micheline Presle, 45), que falava de uma mulher pobre, lavadeira, que viaja numa diligência na época da guerra franco prussiana e que é pressionada pelos colegas que a desprezavam para passar uma noite com o comandante e assim liberar a todos). Essa mesma historia foi refeita como Mademoiselle Fifi por Robert Wise, em 1944, com a francesa Simone Simon.

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Isso influenciou o roteirista Dudley Nichols (1895-1960), que era famoso e premiado (ganhou o Oscar por O Delator de Ford, mas escreveu clássicos como Levada da Breca, Por quem os Sinos Dobram e Gunga Din), baseada em conto publicado em  livro de Ernest Haycox publicado antes em revista (a edição traz o conto na íntegra), e autor de outros filmes de faroeste (Paixão Selvagem e Montana Terra Proibida).

Com certeza foi Nichols quem teve a ideia de tornar todos os passageiros estereótipos, aproveitando para seguir a sugestão de Maupassant, de fazer não apenas uma critica social e de classe, mas da própria hipocrisia humana (as puritanas da cidade expulsaram a garota de saloon Dallas, que será esnobada pela mulher do capitão que também esta na diligência. Esta grávida, mas mal percebemos isso porque a censura da época não permitia grandes barrigas. Na hora em que a criança vai nascer é graças a intervenção de Dallas que tudo dará certo, ela dará ordens, controlará tudo e abrigará a criança durante o ataque dos indígenas. Para ser depois novamente desprezada quando não precisam mais dela).

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Ford depois de dirigir filmes bem sucedidos de todos os gêneros queria ter liberdade total desta vez e procurou o produtor David Selznick. Mas este quis impor o elenco: Marlene Dietrich e Gary Cooper como Ringo. Ele não aceitou e assim foi para Wanger, que também era um independente de prestígio.

Sua ideia era dar uma nova chance ao velho amigo John Wayne (que começou como suntman, mas em 1930 teve a chance de estrelar um faroeste em 70 milímetros chamado The Big Trail/A Grande Jornada de Raoul Walsh que foi um imenso e injusto fracasso).

Depois disso foi forçado a sobreviver participando de filmes baratos, faroestes Classe C e seriados na Republic. Não tinha o menor prestígio e já estava em seu octogésimo filme. Ford lutou para Wayne entrar no elenco e só conseguiu quando o ator aceitou um salário pequeno, dos menores da produção (a mais bem paga foi Claire Trevor, 1910- 2000), que depois ganharia o Oscar de coadjuvante por Key Largo/Paixões em  Fúria, 48.

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Ford tinha um jeito estranho de tratar os atores de quem gostava, dava as dicas certas, orientava, mas também os fazia sofrer (numa espécie de “bullying”) às vezes até os humilhando. No caso de Wayne, Ford fez tudo para ele perder os defeitos e vícios dos filmes baratos, pedindo, principalmente, que ele reagisse às cenas (nas chamadas “reaction shots”). E sempre falar o menos possível. Fez algo certo porque ele, dali em diante, se tornaria uma lenda, um ícone do gênero até sua morte de câncer, 1907-79.

Uma das coisas mais interessantes que se nota numa revisão é que Ford dá para todos os personagens importantes uma verdadeira entrada de estrela, mas nenhuma mais impressionante do que a de Wayne (a câmera faz um movimento até chegar ao close, como se fosse um precursor de um zoom, lente que não existia na época).

Todos, porém, ganham um plano só deles, comparado pelos especialistas com as antigas fotos que já se tiravam na época das figuras célebres do Oeste. Onde eles praticamente encaram a câmera!

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Outra curiosidade: Orson Welles tinha paixão por Ford, que era seu diretor preferido. E para se preparar para dirigir Cidadão Kane conta que assistiu a este filme 39 vezes! Um sinal disso é que ele copiou fazer as cenas de interior com teto (ou seja, isso ele não inventou em Kane, copiou daqui).

Ford também gostava de fotografia elaborada cheia de claros/escuros (o mexicano Gabriel Figueiroa, mestre disso, trabalho com ele) e aqui com o fotógrafo Bert Glennon (que trabalhou com frequência com ele, por exemplo, em Ao Rufar dos Tambores, Rio Grande e Caravana de Bravos) chega a fazer cenas elaboradas (a mais famosa é uma caminhada de Dallas por um corredor chegando a um lugar luminoso).

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Como o título indica, o filme é basicamente uma viagem de diligência, que carrega vários passageiros, guiados por um condutor (Andy Devine, que era especialista em alívios cômicos, era um gordo simpático e que fazia o tipo meio bobo caipira). Eles param para dar carona a um cowboy saído da prisão, mas que é preso porque deseja ir a cidade próxima se vingar de um pistoleiro.

Além do jogador (John Carradine), que protege a mulher grávida (Louise Platt), a figura mais marcante é a do médico alcoólatra e desiludido interpretado por Thomas Mitchell (ele ganhou o Oscar de coadjuvante por este filme, mas também esteve no mesmo ano como o pai de Scarlett O´Hara em E o vento Levou).

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Ele é um mestre e contracena muito com um outro ator que tem um nome curioso e adequado, Donald Meek (que em inglês se traduz como meigo e dócil) e é justamente o que faz no filme, é um conciliador. A primeira parada é num local que foi atacado pelos nativos e onde estão mexicanos casados com mulheres indígenas (entre elas, a famosa cantora Elvira Rios que chega a cantar).

É quando se anuncia o ataque dos pele-vermelhas (os apaches do grupo liderado por Gerônimo) no que será a grande sequência do filme. Mas não o clímax porque depois ainda haverá um tiroteio bem clássico (as duas coisas, o ataque e o duelo seria dali em diante muitas vezes imitado, sendo que o próprio filme teria refilmagem em 66, como A Última Diligência, com Ann- Margret e Bing Crosby e ainda para a TV em 86, com Willie Nelson, John Cash e Kris Kristofferson).

O ataque dos índios foi rodado em outro lugar, no Lago Seco, com três câmeras simultâneas  e dura exatamente sete minutos e meio quase sem diálogos, sem trilha musical, apenas ruídos. Evidentemente nem tudo é perfeito e hoje se recrimina o truque de derrubar dois cavalos ao mesmo tempo (porque com frequência matava os bichos).

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Mas louva-se muito o trabalho do diretor de stunts, o célebre Yakima Canutt (o mais famoso de todos os dublês), que nesta sequência tem dois momentos clássicos: 1) quando os cavalos estão se soltando e Wayne (ou seja, Canutt) vai pulando cavalo a cavalo (são três pares) até chegar ao da frente e salvar os passageiros.

2) o outro truque é muito mais perigoso e alguns se quebraram tentando reproduzi-lo (coisa que o Indiana Jones fez citação no primeiro filme da série). Canutt está na frente com os cavalos da liderança, escorrega entre eles e cai na areia do deserto, de forma tão perfeita que os outros cavalos e a própria diligência passa por ela sem machucá-lo! (aliás, há um extra especial sobre Canutt e seu trabalho incluindo a cena em que a diligência atravessa um rio ajudado por toras de madeira e também uma cena onde se nota a sombra da câmera).

Opa, estava esquecendo de mencionar o que se tornaria o maior clichê de todos: a chegada da cavalaria com sua fanfarra para salvar os passageiros! Quando perguntaram a Ford porque os apaches não mataram os cavalos da diligência o que resolveria tudo. Ele respondeu: Porque assim acabaria com o filme.

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Dali em diante até o final, o filme vai continuar a ter poucos diálogos. Tem várias marcas do diretor: Wayne usando rifles e não pistola, todo mundo usando chapéu, o caminhar peculiar de Wayne, o corte na hora do tiroteio fazendo suspense (e também evitando mais violência), o uso extensivo de canções folclóricas do Oeste de que Ford gostava (principalmente Jennie with a Light Brown Hair), alguma alegoria (o vilão Luke tira no carteado o chamado “dead man´s hand” prenunciando seu destino).

Tem mesmo frase famosa (Wayne diz: "Há coisas de que um homem não pode fugir", embora as pessoas citem erradamente outra frase, que seria: "Um Homem tem que fazer o que tem que fazer"). Até um final satisfatório.

Não é a toa que o filme seria lembrado pelos Oscars mesmo num ano tão concorrido. Foi indicado como direção de arte, fotografia, diretor, montagem e filme.  Ganhou o de coadjuvante e de trilha musical. Ford também ganhou melhor diretor pelos críticos de Nova York.

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Embora esteja em oitavo lugar na lista do AFI dos melhores faroestes de todos os tempos. Este deve ser sem dúvida o mais importante, o que teve mais influência. Ele tem como maior mérito uma coisa que o tempo não lhe rouba: uma estrutura perfeita, uma narrativa orgânica, equilibrada entre todos os personagens que conseguem marcar sua presença (e ate humanizá-los).

Não é só ação e tiroteio, mas faz critica social, mitifica a experiência do sonho de transformação do Oeste sem ser militarista ou populista (como, aliás, Ford era na vida real). Sem dúvida, uma obra-prima.

Uma palavra sobre os extras que faltam mencionar: Livreto de 34 páginas, com artigo sobre o filme de  David Cairns. Comentário em áudio do especialista em faroestes Jim Caitses, o longa metragem mudo restaurado de 1927 de John Ford, Bucking Broadway, com Harry Carey, com nova trilha musical.

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Nova entrevista com o diretor Peter Bognadovich, amigo de Ford. Nova entrevista com o neto de Ford, Dan Ford, que apresenta seus filmes caseiros (na intimidade em seu barco, com amigos e a mulher Mary Ford).

Buzz Bissinger apresenta vídeo sobre Monument Valley. Ensaio em vídeo do escritor  Tag Gallagher sobre o estilo visual do diretor. Gravação em rádio do filme dramatizado com Wayne e Trevor e trailer original.

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