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20 janeiro 2012 às 17:22

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A safra de filmes estrangeiros para o Oscar

Não se pode dizer que a notícia fosse inesperada. O indicado brasileiro Tropa de Elite 2 ficou fora da lista dos finalistas do Oscar da categoria e isso já deixou os brasileiros irritados/aborrecidos.

Apesar de ele ter sido o único possível candidato nosso dentre a lista de inscritos brasileiros, nunca achei que Tropa 2 fosse um candidato ideal. O primeiro foi rejeitado no mundo todo (menos no Festival de Berlim) porque as pessoas não entenderam sua mensagem, o acharam fascista e a favor da polícia.

As sutilezas que o tornaram importante e atuais para nós escaparam aos estrangeiros (praticamente todo filme policial, toda série de TV hoje em dia se fixa na corrupção da força policial).

tropa2 A safra de filmes estrangeiros para o Oscar

O segundo é mais acessível e isso lhe rendeu críticas positivas (a do New York Times foi legal, do Entertainment Weekly muito positiva e ontem li a da revista Empire inglesa (a mais importante de cinema no mundo atual) que é totalmente favorável). Ou seja, o filme caiu mesmo no labirinto misterioso da categoria mais confusa e difícil do Oscar, que tem regras próprias e por sinal muito discutíveis.

Eles mesmos falam mal do sistema que faz com que cada país indique apenas um filme como representante oficial (por algum orgão do governo local) e essa escolha já é sempre duvidosa. Por exemplo, a França indicou este ano A Guerra Está Declarada, que foi desclassificado em vez do óbvio que é O Artista (que seria vencedor com certeza até porque periga levar o de melhor filme genérico).

A Espanha preferiu um filme de Fernando Trueba, El Baile de la Victoria, com Ricardo Darin (sairá aqui pela Paris) em vez do Almodóvar polêmico em A Pele que eu Habito. E assim por diante. Por outro lado, esse sistema torna tudo mais democrático permitindo cinematografias pequenas competirem em pé de igualdade com as mais ricas e famosas.

El baile de la victoria A safra de filmes estrangeiros para o Oscar

Para concorrer precisa também ter estreado numa determinada data (até outubro do ano anterior), ser principalmente falado em língua não inglesa (assim, se for filme britânico teria que ser falado em galês, ou escocês assim por diante) e ter uma equipe basicamente local. Esses selecionados serão visto por uma comissão de voluntários sócios da Academia que terão que ver os inscritos.

Como são muitos (este ano foram 63, já que alguns não enviaram representantes outros foram recusados por questões técnicas) terão que ser assistidos por grupos que darão notas de sete a dez que no fim serão computadas e escolhidos os mais votados.

Isso tudo em sessões especiais e não em casa, como no caso dos filmes normais. Só que essas comissões têm cometido tantos erros que a Academia criou há três anos uma supra comissão de poucos membros, formados por gente famosa e em geral estrangeira, que tem o poder de acrescentar ao menos três nomes importantes que tenham sido esquecidos!!! Ou seja, é uma vergonha para a pré seleção que fica desacreditada com esse super júri (uma das razões porque ele foi criado é justamente o nosso Cidade de Deus que havia sido ignorado pela comissão original).

Mesmo assim eles têm errado bastante e me parece que este ano de novo,não apenas por Tropa 2 (assisti grande parte dos inscritos e garanto que a safra era ruim e o nosso devia estar entre os nove selecionados ao menos).

É que existe aquela coisa indefinida que é o filme para o Oscar, não o melhor do ano, mas o que agradaria aqueles senhores aposentados que têm tempo para ver tanto filme em tão pouco tempo que podem ser experientes, mas aprovam  filmes mais polêmicos (este ano o representante da África da Sul Skoonheid, de Oliver Hermanus, falava de um casamento gay entre os afrikaneers, fato real que era mal conhecido).
dasdsa A safra de filmes estrangeiros para o Oscar

Normalmente eles têm rejeitado documentários e o primeiro caso de um selecionado é este ano com o famoso Pina, de Wim Wenders, da Alemanha, que foi rodado em 3D em homenagem a coreografa Pina Bausch (ela morreu quando o filme começou a ser rodado e sua participação ficou reduzida a alguns testemunhos mais antigos. Não tem historia encenando e reproduzindo em imagens fortes e marcantes, em geral em exterior, algumas das coreografias mais famosas dela).

Um filme que lembra um pouco Tropa 2 é o mexicano Miss Bala (que também estreia esta semanas nas salas americanas) que é uma história violenta sobre jovens que entram em desfiles de beleza e acabam na prostituição (com cara de brasileiro é outro que foi rejeitado).

Na chamada short list dos pré selecionados, dos quais nesta quarta serão escolhidos apenas cinco, temos além de Pina, na Dinamarca, o filme Superclásico, de Ole Christian Madsen (Flame and Citroen). Este não estava disponível, mas segundo o iMDB é uma comédia sobre divórcio (o pôster já mostra nudez) e que tem a ver com a Argentina porque lá que ocorre esse super clássico de futebol.

Voces conhecem o ator central, Anders W. Berthelsen que é de italiano para principiantes, que viaja de Copenhagen ao Bueno Aires com o filho Oscar para tentar reconquistar a esposa Anna (Paprika Steen, de Celebração) que fugiu com um famoso jogador de futebol Juan Diaz (Sebastian Estevanez). Jamie Morton faz o filho que le Kierkegard. Dizem que é divertido, que Buenos Aires está muito bem fotografada, mas é uma comédia, gênero que a  categoria geralmente rejeita.
SuperClasico A safra de filmes estrangeiros para o Oscar

De A Separação, do Irã, de Asghar Farhadi, já comentamos e está em cartaz atualmente em nossos cinemas. Como já tinha comentado no Globo de Ouro, essa premiação pode prejudicar o filme e o cineasta. Segundo notícia da Reuters, o governo iraniano advertiu que filmes favorecidos pelos críticos mostram uma versão distorcida da República Islâmica: "É preciso sempre olhar esses festivais com discernimento", disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Ramin Mehmanparast.

"Algumas vezes vemos que os que organizam esses festivais dão prêmios valiosos a filmes cujo tema central é a pobreza e as dificuldades de um povo. Isso não deveria fazer nossos artistas ignorarem os pontos positivos e as evidentes características de nossa nação a fim de ilustrar o tipo de coisa bem recebida pelos organizadores de tais festivais". Eu prefiro dizer algo sobre meu povo. Acho que eles são verdadeiros amantes da paz", disse Farhadi no Globo de Ouro, em um discurso que não teve nenhuma mensagem abertamente política.

Israel - Footnote (seria Nota de Rodapé) - Joseph Cedar (o diretor teve já concorrendo ao Oscar com o drama de guerra Beaufort, em 2007). É um tema regional e um pouco intelectual demais para grande público. Mas eu gostei deste drama sobre pai e filhos intelectuais, ambos estudiosos do Torá. Só que o filho é mais consagrado do que o pai, que não teve sorte. Eles têm o mesmo nome e o conflito é quando se enganam e dão prêmio ao pai pensando que é o filho. Como desfazer o mal entendido? Bem humano e também bem israelense. Traz também cena de Um Violinista no Telhado que eles vão assistir no teatro (a peça irá estrear em São Paulo em março).

ajajjjaa A safra de filmes estrangeiros para o Oscar

Marrocos - Omar Killed Me/Omar ma Tué - Roschdy Zem. Na verdade é um filme francês, em co-produção com o Marrocos, um dos poucos países árabes relativamente liberais. Reune os dois atores mais conhecidos de origem árabe, o diretor Roschdy tem 75 créditos como ator e faz o segundo trabalho como diretor. Você deve conhecê-lo de filmes como Fora da Lei, Para Todos,  London River, A Garota de Monaco, Um Herói do Nosso Tempo. Aqui ele não está como ator, mas em seu lugar veio outro conhecido, Sami Bouajila (Nova York Sitiada, Dias de Glória, Uma doce mentira, Fora da Lei, London River, Pacto de Sangue).

Inspirado em fatos reais, mostra Omar Raddad quando ele é mandado para a prisão (era jardineiro) acusada da morte do patrão. Mas há um advogado (Denis Podalydès) que fará tudo para provar sua inocência. O roteiro mostra de forma paralela as atividades de Omar antes das investigações e depois na prisão. Mas o que eu li fazia restrições ao filme, achando-o previsível e sem conseguir manter o interesse.

Polônia - In Darkness - Agnieszka Holland - A mais famosa diretora desse país (que realizou filmes famosos como Europa Europa/Filhos da Guerra, O Jardim Secreto, A Herdeira, Olivier Olivier) e que, segundo a imprensa, perdeu seus pais no ghetto de Varsóvia. Por isso quis tanto fazer este drama baseado em fatos reais, acontecidos na cidade de Lvov. É uma história bem contada do Ho

locausto, no caso a trajetória de um grupo de judeus que tentou sobreviver morando nos esgotos da cidade. Bem realizado e com bom elenco (entre eles, a conhecida Maria Schrader), este deve ficar entre os cinco finalistas.
dark A safra de filmes estrangeiros para o Oscar

Taiwan - Warriors of the Rainbow - Seediq Bale - Foi o famoso diretor de filmes de ação John Woo quem produziu esta fita de grande orçamento, que relata um fato real da história de Taiwan, ou Formosa. Durante a guerra com o Japão, as tropas imperiais invadiram o país de forma selvagem, mas encontraram resistência por parte dos nativos locais, as tribos que viviam no interior, os  Seediq. Que resistiram heroicamente até a morte e quase extermínio.

O assunto lembra Flowers of Evil, de Zhang Yimou (que representou a China e que trazia Christian Bale no papel central) que foi rejeitado. Na verdade, a trama deste filme é fraca mas o diretor é brilhante como sempre). Aqui o diretor é Te Sheng Wei (que não conheço, que era assistente de Edward Yang, roteirista e esta em seu terceiro trabalho). É um épico de 276 minutos que eu assisti com interesse (grandes cenas de batalhas, ação de primeira linha). Tem aspirações ao mercado internacional.

Bélgica -  Rundskop -Michael R. Roskam- Um filme bem esquisito e difícil de seguir. É sobre um fazendeiro de gado que se associa a veterinário sem escrúpulos no que será um caso policial de tráfico da máfia de hormônios! Sem dúvida, original feito por diretor flamenco estreante. Bem fotografado, mas com trama obscura e um ator que se consagrou aqui: Matthias Schoenaerts. Inspirado em fatos reais dos anos 90.

Canadá - Monsieur Lazhar - de Phillipe Falardeau - Comédia dramática falada em francês de Quebec, sobre um emigrante da Argélia - o papel título - que vem trabalhar como diretor substituto numa escola elementar quando eles têm dificuldade de encontrar candidatos, porque a professora anterior se suicidou. Aos poucos, mesmo sempre preparo ele vai revelando se bom professor, conquistando os alunos. Não é drama sobre delinquência juvenil (embora mostre alguma coisa disso), mas sobre a dificuldade de sobrevivência dos emigrantes em ambiente de cultura diferente. Interessante, mas nada fora do comum.

mon A safra de filmes estrangeiros para o Oscar

Outros que ficaram fora e mereciam melhor sorte e que eu conheço:

Chile - Violeta - Andrés Wood - A vida da cantora Violeta Parra contada com garra mas certo amadorismo.

Egito - Lust - Khaled El Hagar - Ousado filme para pais árabe, mostrando a luta das mulheres egípcias para conseguirem aprovar lei que impede que elas sofram abuso e desrespeito em público.

Espanha - Pa Negre - Agusti Villaronga - Não vi, mas o diretor é dos mais interessantes.

Finlândia - O Porto (Le Havre) - Aki Kaurismaki - Muito badalado na Europa esta para estrear no Brasil.

Geórgia- Chantrapas - Otar Iosseliani - Outro bom diretor.

Holanda - Sonny Boy - Maria Peters - Drama romântico sobre negro vindo das Guianas que é perseguido durante a Guerra por se casar e ter filhos com mulher branca.

1 A safra de filmes estrangeiros para o Oscar

Irlanda - As If I Am Not There - Juanita Wilson - Uma história que faz lembrar o filme Land of Blood and Honey, de Angelina Jolie, só que muito mais bem realizada e melhor realizada. Uma jovem de Serajevo que veio ao interior para dar aula mal tem chance de se instalar e já é mandada para o interior, onde fica vítima dos sérvios que a estupram. Depois é usada como amante do chefe do grupo).

Itália - Terraferma - Eamnuele Crialese - Outro tema e filme que deveria ter entrado na lista. Ex-pescadores acabam se envolvendo nos casos frequentes de negros que tentam emigrar para a Itália e morrem ao caírem de barcos).

Japão- Post Card - Kaneto Shindo - O ilustre e maravilhoso diretor continua a trabalhar aos 100 anos de idade.

Líbano - Et Maintenant, On Va Ou? - Nadine Labaki  - A mesma diretora de Caramelo acerta de novo numa divertida sátira passada em aldeia onde esposas e namoradas tentam impedir que os maridos e filhos briguem, por serem de lados opostos do conflito! Inteligente e faz bom uso de números musicais. Ficar de fora é um escândalo e erro total.

bi A safra de filmes estrangeiros para o Oscar

Portugal - José e Pilar -  Miguel Gonçalves Mendes - Uma co-produção da O2 de Fernando Meirelles, que fez sucesso aqui no Brasil. Belo documentário sobre o escritor Saramago e sua esposa.

Rússia - Burnt by the Sun: The Citadel - Nikita Mikhalkov (o diretor é muito famoso e fez aqui a continuação de um trabalho que já havia sido vencedor da categoria, O Sol Enganador, de 94.

Suécia - Beyond - Pernilla August – A diretora é casada com Bille August, atriz de Ingmar Bergman e estrela de Star Wars!).

Turquia - Era uma Vez na Anatólia - Nuri Bilge Ceylan  - Premiado em Cannes pelo diretor mais famoso da Turquia e que tem seu estilo especial. Lento mas bonito, humano e diferente. É sobre investigação criminal onde se procura o corpo de vítima. Mas o assassinato esqueceu do lugar.

Ou seja, não estamos sós. Houve outras injustiças.

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