29 janeiro 2012 às 06:00
Revisitando Quo Vadis em Blu-ray
Quo Vadis (Quo Vadis). EUA, 1951. Warner. Áudio: Inglês, francês, espanhol, alemão, italiano. Legendas: Inglês, francês, espanhol, chinês, dinamarquês, holandês, flamenco, alemão, italiano, coreano, norueguês, português, sueco. Épico religioso. Standard. 174 minutos. 1951. Cor. Estados Unidos.
Diretor: Mervyn LeRoy. Elenco: Robert Taylor, Deborah Kerr, Peter Ustinov, Leo Genn, Finlay Currie, Marina Berti, Patricia Laffan, Abraham Sofaer, Buddy Baer, Felix Aylmer e Walter Pidgeon (como o narrador off).
Sinopse: Durante o império de Nero em Roma, 64, depois de Cristo (Anno Domini), o tribuno romano Marcus Vinicius se apaixona por uma princesa cristã, Ligia. Quando o imperador incendeia Roma e culpa os cristãos, o tribuno tenta salvá-la da morte na arena comidos pelos leões.
Comentário: Nunca tinha revisto desde a infância este que foi o primeiro épico religioso do cinema moderno. Foi um grande esforço de produção da MGM realizar ainda pouco tempo depois do fim da Segunda Guerra, rodando inteiramente em locações na Itália, no famoso estúdio de Cinecittá, esta aventura que se tornou padrão para todo o gênero (já que foi desde então muito imitado). Poucos se lembram que na época ele foi lançado com um novo sistema apelidado aqui de tela panorâmica, que na verdade era apenas uma forma de projetar que dava a impressão de aumentar o tamanho da tela, eliminando as margens (isso servia também para aumentar os preços dos ingressos). Foi um imenso sucesso de público no Brasil (nos EUA foi muito bem, mas principalmente de crítica que o louvou sem pudor).
É baseado num famoso romance do polonês Henryk Sienkiewicz (1845-1916), de quem a Metro detinha os direitos desde os anos 30 e que por sinal ganhou um dos primeiros Prêmios Nobel, em 1905. Uma história já filmada antes em 1901, 1913, 1925 e mais tarde como minissérie de TV por Franco Rossi, em 1985, com Klaus Maria Brandauer como Nero, Francisco Quinn como Vinicius e novamente em 2001, pelo polonês Jerry Kawalerowicz.
O filme teve indicações ao Oscar de atores coadjuvantes: os ingleses Leon Genn (1904-78), que faz o escritor Petrônio, autor de Satyricon ,e Peter Ustinov (1921-2004), que interpreta a figura mais marcante do filme, o Imperador Nero. É importante falar um pouco mais dele, porque de origem russa, mas nascido na Inglaterra, ele era o que chama de um "homem da Renascença” de múltiplos talentos. Poeta, romancista, ator, diretor, ele talvez seja mais lembrado como o Inspetor Poirot de uma série de longas, mas ganhou dois Oscars de coadjuvante (por Spartacus e depois Topkapi, mas principalmente o primeiro parece que foi prêmio de consolação por ter perdido para Karl Malden por Uma Rua Chamada Pecado).
Foi o que transformou Ustinov em astro num personagem difícil, um imperador louco e tarado (que matou sua mulher e esposa, o que o filme não mostra, e se casou com uma ex-prostituta, Pompéia, interpretada pela inglesa Patrica Laffan (que é um dos poucos erros de escalação, já que ela cai na caricatura e gozação). O que em momento nenhum faz Ustinov, passando um personagem meio patético, digno de pena, mesmo quando manda queimar Roma ou resolve cantar (pessimamente) para a Corte ou desafiar o povo e mandar matar (polegar para baixo, como na sua relativamente recente encarnação em Gladiador). É incrível como depois ele seria imitado por Jay Silverheels como outro imperador romano louco, o Calígula, nos filmes feitos logo a seguir no mesmo estilo, O Manto Sagrado, o primeiro filme em Cinemascope (53) e sua continuação Demétrio e os Gladiadores (54).
Voltando ao Oscar, Quo Vadis não ganharia nenhum, mas foi ainda indicado a melhor filme, trilha musical (Miklos Rosza, que se especializaria no gênero, em particular com Ben Hur), montagem, figurino, fotografia, direção de arte.
Um detalhe muito importante: para esta transferência em HD Blu-ray foi utilizada uma cópia restaurada há pouco tempo de excelente qualidade. Então fica deslumbrante o resultado que conserva também o formato original, ou seja, deixa margens escuras ao lado.
É curioso que o público tenha mesmo absorvido seu título original em latim, que significa Para Onde Vai?, palavras de Deus para São Pedro de partida de Roma, mas que não explicadas no filme.
O roteiro é de John Le Mahin (Marujo Intrépido, Scarface), S.N. Behrman (Ponte de Waterloo, Rainha Cristina) e Sonya Levien (Oklahoma, State Fair). E se fixa mais na figura do centurião Marcus Vinicius (Robert Taylor, 1911-69) que retorna a Roma depois de grande vitória (é legal que as cenas foram rodadas de fato na via Appia antiga, usada pelas legiões romanas) e tem problemas ao encontrar Nero já enlouquecido e ao se interessar por uma refém do Império, Ligia (Deborah Kerr 1921-2007).
Robert Taylor, durante toda sua carreira, lutou contra a pecha de ser bonito (pretty) demais para ser aceito como galã machão. Mesmo assim nesta altura o público já o aceitou e ele se deu bem no gênero (em filmes como Ivanhoé, Cavaleiros da Tavola Redonda) apesar de parecer para os padrões de hoje pouco musculoso e bombado (na verdade, o filme ia ser feito pelo diretor John Huston, que pretendia utilizar Gregory Peck, Elizabeth Taylor e seu próprio pai Walter Huston como São Pedro).
Mas a ideia não deu certo e o projeto passou para Mervyn LeRoy, de quem já comentamos aqui por Tara Maldita (1900-87), que apesar de ser genro do chefe da Metro, Louis B. Mayer era um realizador talentoso de mais de 78 filmes, entre eles o ótimo a Ponte de Waterloo, Alma no Lodo, Trinta Segundos sobre Tóquio, a Estrada Proibida, O Mágico de Oz (foi o produtor). Algumas curiosidades importantes:
1) Quando o filme foi feito Mayer estava à beira de perder o cargo de chefe de produção, sendo substituído por Dore Schary que optaria por filmes mais baratos e mais políticos. Este foi gerado por Mayer, mas estreado por Schary, que inclusive o apresenta num dos bônus, fazendo seus louvores).
2) Mervyn chegou a pensar em Audrey Hepburn para o papel principal do filme, isso bem antes dela ser descoberta para Gigi.
3) LeRoy fez um excelente filme de gangster chamado Little Caesar/Alma no Lodo, no começo dos anos 30 que tinha uma cena final clássica com Edward G. Robinson se perguntando: Este é o final de Rocco? Pois resolveram aproveitar a mesma frase aqui, com o dialogo: Este será o fim de Nero?
Este tipo de épico era marca registrada de Cecil B. De Mille que sempre dizia que o tornava sucesso era mistura de religião (ou seja espiritualidade) com sexo e violência.No caso, eles sempre preferem utilizar atores britânicos por causa do sotaque shakespeariano (e realmente Taylor com seu americanês destoa um pouco). E filmar na Itália porque havia excelentes artesões e técnicos mas também incentivos fiscais que tornava tudo mais barato. E com a economia destroçada pela recém-guerra era mais fácil contratar figurantes (o filme tem 30 mil extras, o que significa 30 filmes vestimentas!). Aliás, é visível que o filme prenuncia Ben Hur (tem até uma minicorrida de bigas – aliás, a única cena que fica ruim na copia, com uma projeção de fundo inconvincente).
É importante notar que Quo Vadis é muito um produto de seu tempo. Tem um forte lado religioso e anti comunista, já que começava a Guerra Fria. Isso fica muito claro na conclusão, quando conversam os centuriões se perguntando: É preciso que tenhamos um mundo estável e com fé, porque é impossível uma coisa sem a outra! (já alertando contra o perigo vermelho). De qualquer forma são poucos os filmes que mostram os apóstolos São Pedro (com milagre e tudo ao final) e Paulo (de Tarso), embora não pareça muito convincente o romance entre o centurião e a escrava (Deborah Kerr, já estrela depois de As Minas do Rei Salomão, muito ruiva e sempre uma dama tem um papel ingrato). E os primeiros cristãos (e o símbolo do peixe!).
É sem dúvida, a primeira superprodução da Metro depois das restrições do tempo da Guerra e cujo ponto alto é a sequência do incêndio de Roma (que foi parcialmente dirigida pelo especialista em ação Anthony Mann). Eu tentei, mas atá hoje ainda não consegui identificar os futuros famosos ou amigos que fazem pontas no filme: Sophia Loren (seria uma escrava de Ligia), sua mãe, Bud Spencer (na guarda imperial), Elizabeth Taylor (em visita a filmagem e que faria uma prisioneira cristã na arena). Quem deixa impressão é uma jovem e bela italiana chamada Marina Berti (1924-2002) como Eunice, apaixonada por Petronio, que estaria em filmes como Cleopatra, Favorita dos Borgias, La Califfa, Ben Hur, foi casada com o ator Claudio Gora e tem uma descendência de atores atuais. Outro que marca é o que faz o escravo cristão Ursus feito por Buddy Baer, irmão do campeão mundial de boxe Max Baer.
Achei esquisito algumas frases de duplo sentido (um rapaz fala da “espada grande” do herói (?) e brincadeira com o slogan do estúdio - a arte pela arte - e saber que com o filme foi usado merchandising para vender cuecas Quo Vadis, penteados, papel de parede, seguros de vida!
Importante: esta versão traz Overture e Exit (saída) Music, com cerca de três minutos cada, usadas no lançamento original nos cinemas, trailers de cinema, um novo making of chamado In the Beginning: A Genesis do gênero Épico bíblico. Comentários em áudio do crítico e historiador F. X.Feeney.
Mas no geral o filme é muito digno e sério, dos melhores do gênero, com um fascinante retrato da corte de Nero e do ódio das massas contra os cristãos. Foi enorme sucesso de bilheteria e continuou popular. Robert Taylor e em especial Deborah Kerr dão credibilidade ao casal central e Peter Ustinov está perfeito como o enlouquecido Nero (foi indicado para o Oscar pelo papel).
A excelente música de Miklós Rósza é outro ponto a destacar. Teve indicações também aos Oscars de fotografia, direção de arte, ator coadjuvante (para Leo Genn, que faz Petrônio, o falso bajulador de Nero, na verdade crítico e sarcástico), figurino, montagem e filme. Junto com Ben Hur (com quem tem várias semelhanças), se tornou um dos filmes religiosos favoritos, de apelo imortal Sophia Loren, Bud Spencer e Elizabeth Taylor aparecem em figuração. Edição paupérrima, sem extras. 15 capítulos.
Veja mais:
+ R7 BANDA LARGA: provedor grátis!
+ Curta o R7 no Facebook
+ Siga o R7 no Twitter
+ Veja os destaques do dia
+ Todos os blogs do R7



















