31 janeiro 2012 às 06:00
Blu-ray EUA: Revisitando Nasce uma Estrela (54)
A Star is Born. Áudio e Legendas: Inglês, francês e espanhol. Musical. Widescreen 2.55:1. 176 min. Cor. 1954. Estados Unidos. Warner Bros.
Diretor: George Cukor. Elenco: Judy Garland, James Mason, Jack Carson, Charles Bickford, Lucy Marlowe, Tom Noonan, Irving Bacon, James Brown, o violonista brasileiro Laurindo Almeida, Humphrey Bogart (voz de bêbado que pede para ela cantar Melancholy Baby), pontas de John Saxon e Strother Martin.
Sinopse: Um astro de cinema decadente e alcoólatra descobre e se casa com uma cantora que ele ajuda a transformar em estrela.
Comentários: Esta nova edição em formato de livro conserva a versão restaurada deste musical clássico que é o ponto mais alto da carreira da lendária Judy Garland (1922-69), hoje mais lembrada como mãe de Liza Minnelli (que se parece bastante com ela).
Sua vida foi montada recentemente no Rio de Janeiro por Claudio Botelho e Charles Moeller, no musical Judy Garland, O Fim do Arco-Íris, e continua em cartaz. Tenho especial carinho pelo filme porque eu estava em Nova York justamente no dia em que foi apresentada esta versão restaurada com uma grande festa no Rádio City Music Hall, isto em 1983. Estava viajando.
Na época trabalhava para a Rede Globo que não cobriu o evento, fui por conta própria e tive a sorte de conseguir um lugar ótimo, quase ao lado de James Mason, o astro do filme, atrás da lendária estrela do cinema mudo Lillian Gish. Todos os sobreviventes estavam lá, ou seja, a família Minnelli, o produtor Sid Luft, que produziu o filme, os irmãos dela, inclusive Lorna Luft. Mas não o diretor George Cukor (1899-83), que tinha morrido meses antes e de quem voltaremos a falar em breve por causa de My Fair Lady.
Acontece que o estúdio, depois da estreia no sistema chamado de Road Show (ou seja, apenas em um cinema em cada cidade grande, a preços especiais), resolveu cortar 47 minutos do filme para sua distribuição nacional (curiosamente ele havia sido sucesso antes e fracassou com os cortes). Liderado pelo já falecido historiador Ronald Haver, começaram uma pesquisa pelos arquivos da Warner e miraculosamente conseguiram encontrar praticamente tudo na parte de som e várias tomadas de imagem, inclusive, números musicais que haviam sido podados.
Esta edição que já havia sido lançada em DVD, apresenta a versão completa como na estreia, mas quando não foi possível encontrar a imagem, mantiveram os diálogos ilustrados por fotos daquela cena. Ou seja, é uma coisa meio fora do normal e especial para os fãs de cinema e do filme. Esta edição, também restaurada digitalmente, consta de dois discos, um blu-ray com o filme em DTS HD e áudio 5.1. e outra só com extras.
O fato é que Hollywood adora falar de si mesmo, está sempre fazendo filmes que mostram as alegrias e dores do estrelato, os bastidores da arte de fazer filmes numa constante auto flagelação, ou auto-louvação dependendo do ponto de vista. Um dos filmes mais famosos é justamente este Nasce uma Estrela, uma situação utilizada em pelo menos quatro longas. E, atualmente, Clint Eastwood estava planejando uma nova versão no mundo da música negra com a Beyoncé!
O primeiro de todos e não oficial foi também de Cukor: com Hollywood/What Price Hollywood? em 1932. Fala de carreira no cinema de uma garçonete (Constance Bennett, irmã de Joan Bennett e por uns tempos estrela famosa por ser chique) que é descoberta por um produtor alcoólatra (Lowell Sherman). Chegou a ser indicado ao Oscar de argumento, mas acabou esquecido. Até quando o produtor David O. Selznick resolveu fazer uma história parecida, desta vez, no antigo sistema Techcnicolor de duas cores básicas como veículo para sua nova contratada: Janet Gaynor (não por acaso aquela que ganhou o primeiro Oscar e morou anos no Brasil).
O filme, de 1937, foi dirigido e escrito pelo grande William Wellman (aliás, que serviu de base para esta refilmagem, creditando também a co-roteirista muito famosa Dorothy Patrick). Os nomes também foram mantidos. Esther Blodgett (Gaynor) vem do interior para tentar a sorte em Hollywood. Trabalhando como garçonete, conhece o astro Norman Maine (Fredric March).
Os dois se casam, mas enquanto a carreira dela cresce a dele declina. Ganhou Oscar Especial pela Fotografia a Cores e novamente outro de argumento original. Foi indicado como Atriz (Janet), Ator (March), Diretor Assistente (categoria que não existe mais), Direção, Filme, Roteiro. Certamente este de todos o mais humano e mais resolvido (talvez por ser o único não musical, no máximo tem uma retumbante trilha musical de Max Steiner).
O grande achado é a aparição da avó (a venerável May Robson, personagem que não existe nas outras versões), que dá a mensagem do filme: “é melhor ser infeliz por conta própria, fazendo o que gosta. Na vida sempre se paga um preço e em geral muito alto, também para o sucesso”). É um impecável retrato de uma época lendária de Hollywood. A versão americana dele em blu-ray está saindo agora dia 7 fevereiro.
É quando Judy enfrenta uma crise pessoal muito grave. Com problemas com drogas prescritas por médicos para emagrecer e engordar, ela tentou o suicídio e começou a faltar em filmagens, sendo finalmente despedida pela Metro. Aos 28 anos, em 1950, do estúdio onde trabalhava desde criança (ao mesmo tempo acabava o casamento com o diretor Vincente Minnelli).
Foi o novo empresário e marido Sid Luft, que começou a reconstruir sua carreira com shows em teatros, primeiro em Londres no Palladium, e quem teve a ideia de refazer Nasce uma Estrela como veículo para Judy. Era a tentativa maior de provar que sua mulher era além de uma grande estrela, uma ótima atriz.
Foi para marcar esse renascer das cinzas, que seria uma constante em sua carreira, que reinventaram este musical. O papel de Norman Maine (que, aliás, era inspirado em ator pouco conhecido que se matou afogando-se) foi rejeitado por vários astros como Humphrey Bogart, Gary Cooper, Marlon Brando, Montgomery Clift e Cary Grant antes de ser aceito finalmente pelo grande ator britânico então radicado em Hollywood, James Mason (1909-84).
Sempre fui grande admirador dele, de sua beleza, voz, classe e compostura. Chegou a ser indicado ao Oscar três vezes por O Veredito, Georgy - A Feiticeira, e por este filme. Mas nunca se fez justiça a outros grandes trabalhos em 20 mil léguas submarinas, Intriga Internacional, O Céu Pode Esperar, Lolita de Kubrick, Delírio de Loucura, Viagem ao Centro da Terra... Aqui, ele está notável, fazendo um bêbado sem cair no exagero, sem sair do personagem (ele também era muito bom para personagens cínicos e vilões). Mas também convence como um homem sedutor que é irresistível para as mulheres e Judy.
Este foi o trigésimo sétimo filme de Cukor, seu primeiro musical e sua primeira produção em cor. Homossexual assumido, coisa rara na época e em Hollywood, tinha também a fama de ser um diretor de mulheres, que tinha paciência de cuidar delas, que sempre ficavam bem em seus trabalhos. Por outro lado, tinha a tendência de evitar a ação, trabalhar sempre em sets teatrais.
Ele fez testes usando o sistema WarnerScope e a WarnerColor. Mas ambos foram considerados insatisfatórios e o filme foi rodado em CinemaScope (licenciado da Fox) e o velho e bom Technicolor. Um detalhe importante: os produtores achavam que faltava um grande momento para encerrar a primeira parte (e entrar o Intermission/ intervalo como sucede aqui).
Inventaram então um número de 15 minutos chamado Born in a Trunk, que é praticamente uma autobiografia de Judy, que como relata, praticamente nasceu num palco, como filha de artistas de Vaudeville. Isso serve para um grande “Production Number” entremeado de canções famosas (Swanee), que foi todo montado por Roger Edens (que era o homem que cuidava musicalmente de Judy na Metro, mas que por causa de contrato não pode assinar o trabalho, Cukor nada teve a ver com ele).
O filme foi realmente feito para promover o comeback de Judy e nesse ponto foi bem sucedido. Ela chegou a ser indicada ao Oscar e era considerada favorita, mas quem acabou ganhando foi Grace Kelly por Amar é Sofrer. No que é considerado até hoje um dos grandes erros e escândalos do Oscar (nem Grace estava especialmente bem como a mulher de outro bêbado!).
Judy não chegou ir a entrega de prêmios porque acabara de ter seu filho e estava no hospital. Groucho Marx chegou a comentar que "o maior roubo desde o da Brink's". A famosa colunista Hedda Hopper chegou a publicar que a diferença entre elas foi mínima, 6 votos, quase deu empate (mas pode ter inventado isso). De qualquer forma, foi um golpe de que ela nunca se recuperou.
Chegaram a lhe colocar microfone já que esperavam que ganhasse. Depois saíram de fininho! De qualquer forma, Judy tem um Oscar em miniatura por O Mágico de Oz como consolação. Mas seu trabalho é excepcional e muito mais completo do que da rival (que ainda não era princesa).
Preciso ser honesto em relação a Judy e aos que não a conhecem bem. Ela não é especialmente bonita. Tem a tendência de engordar demais (isso fica claro no filme, onde o peso flutua) e o rosto ficha inchado. Não é sempre que fotografa bem. Mas como cantora, nenhuma outra antes e talvez depois tinha igual dramaticidade, era tão versátil e no auge tinha uma voz tão pura e límpida.
Dramaticamente suas possibilidades eram inexploradas e seu domínio em cena no palco é legendário (que alguém ouça seus discos ao vivo). Este filme captura alguns desses instantes, em particular, sua performance da música mais famosa que é The Man that Got Away.
Há um bônus que apresenta três versões diferentes dela, com figurino e encenação, marcações distintas. Um efeito até compara e mostra como cada vez ela fez de forma original e sempre brilhante (alguns interpretam, congelam performances, fazem sempre da mesma forma, não era o caso dela, porque tudo era muito real, vinha do coração, do sentimento. Isso pode explicar porque ficava tão exausta e porque sofreu tanto na vida).
Essa mesma história depois seria transposta para o mundo da música pop na versão de Nasce uma Estrela com Barbra Streisand e Kris Kristofferson de 1976 e que foi um grande sucesso de público, especialmente no Brasil (não sei por que não existe disponível em DVD aqui, a Amazon tem a versão em DVD bem baratinha e também para baixar).
O filme também teve muitos problemas, além dos atrasos e doenças habituais de Judy ficando em produção durante 10 meses e depois ainda voltando para fazer o número Born in a Trunk. Mas sua fascinação é justamente essa, acaba revelando muito mais do que supunha não só sobre a vida em Hollywood (por exemplo, foi rodado em lugares reais do estúdio da Warner, em Burbank, e também no famoso night club, hoje demolido, o Cocoanut Grove, que ficava no Ambassador Hotel, no Wilshire Boulevard, pré-estreia no Chinese Theatre que, aliás, abre o filme, o Shrine Auditorium, o jóquei clube de Santa Anita). Mas principalmente sobre a personalidade desta estrela fascinante e inesquecível que foi Judy Garland.
Nos bônus, como de costume, o disco 2 que traz os extras é em DVD: outakes (gravações alternativas não utilizadas) em áudio, como uma raridade, aos 20 anos, Judy Garland faz fazia o papel de Vicki Lester (Esther Blodgett) no "Lux Radio Theatre" em 28 de Dezcembro de 1942, sem canções e a Walter Pidgeon como Norman Maine.
Traz os outakes (tomadas alternativas) de Judy Garland cantando The Man That Got Away e When My Sugar Walks Down The Streets, uma longa reportagem de 30 minutos – a primeira estreia mostrada ao vivo pela TV em preto e branco na estreia do filme em Los Angeles com muitas celebridades e depois cenas da festa da estreia no Cocoanut Grove, material promocional da época, trailers de cinema das três versões do filme, filmografias.
Ainda o promo em que Jack Warner anuncia o filme, featurette mostrando efeitos especiais usados no longa, o desenho animado com Pernalonga (A Star is bored/Uma Estrela Está Entediada, de Fritz Feleng), montagem com cinejornais, e uma introdução genérica que usa vários pedaços de tomadas inéditas. Uma curiosidade: é neste filme que usa uma frase muito famosa: "O Mundo não deve acabar com um bang (estrondo), mas com um Whimper (um ganido, lamúria)".
Nasce uma Estrela (54) foi indicado para 6 Oscars: de Ator e Atriz (pela primeira vez na história, por dois personagens que já haviam sido indicados antes, Janet Gaynor e Fredric March na versão anterior). E mais direção de arte, figurino, trilha musical e canção (The Man That Got Away). Não ganhou nenhum. Mas agora, revendo o filme, fica-se espantado também com a qualidade da narrativa, o uso das cores, a sobriedade do resultado, deixando a impressão de que Cukor era melhor do que imaginava. Confiram.
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