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1 fevereiro 2012 às 06:00

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Revisitando My Fair Lady em Blu-ray

Revisitando My Fair Lady/Minha Bela Dama – Edição Blu-ray. Áudio: Inglês, francês, italiano, espanhol, alemão. Legendas: Port, francês, italiano, espanhol e outros. Romance/Musical. Widescreen 2.35. 172 min. Cor. 1964. EUA. Originalmente Warner, agora CBS Paramount. Livre.

Diretor: George Cukor. Elenco: Audrey Hepburn, Rex Harrison, Stanley Holloway, Wilfrid Hyde-White, Gladys Cooper, Theodore Bikel, Jeremy Brett, Mona Washbourne, Henry Daniel, Isobel Elsom.

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Sinopse: Em Londres, um professor de línguas defende a teoria de que as pessoas são julgadas pelo modo em que falam. Para provar sua tese, aposta que é capaz de pegar uma florista de rua, que trabalha diante do Teatro  Convent Garden, no mercado central, e transformá-la numa verdadeira Dama.

Comentários: O grande escritor britânico, vencedor do Prêmio Nobel, George Bernard  Shaw (1856-1950) escreveu uma peça teatral de sucesso chamada Pigmalion inspirada na lenda grega de Pigmalião e Galatéia. Sua peça teve várias versões (Shaw adorava reescrever seu texto e o final atual é de uma dessas versões novas). Ele conheceu o produtor Gabriel Pascal, que o convenceu a liberar seus textos para o cinema, desde que se mexesse o mínimo possível, ou praticamente nada.

Assim, em 1938, foi rodado o filme Pigmalião, com Leslie Howard e Wendy Hiller, que chegou a lhe dar um Oscar de melhor roteiro! (que a príncipio ele tomou com um insulto!). O que ninguém podia imaginar era que esse texto serviria para um dos maiores sucessos da história do teatro musical, na Broadway, no West End e até no Brasil, onde foi encenado originalmente por Bibi Ferreira, Paulo Autran e Jaime Costa. Os primeiros a tentar a adaptação foram os célebres Richard Rodgers e Oscar Hammerstein (Oklahoma, Rei e Eu) que logo desistiram achando que era impossível.

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Os próximos a tentar foram Alan Jay Lerner (1918-86) também famoso roteirista de filmes musicais como Sinfonia de Paris e Núpcias Reais) e que junto com o compositor Frederick Loewe (1901-88) fizeram sucesso com musicais como Paint Your Wagon e Brigadoon. No making of desta edição a viúva de Lerner, a atriz Nancy Olson (Crepúsculo dos Deuses) conta como ele resolveu o problema: conservou praticamente o texto integral de Shaw, mas com uma mudança: as canções teriam que ser interpretadas por um ator e não por um cantor, mas por um ator que soubesse interpretá-las no tom certo.

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Foi a produtora de discos e rede de TV CBS quem financiou a produção (e os direitos devem ter revertido para ela, já que o filme que foi produzido para o cinema pela Warner Bros, na verdade foi das ultimas produções pessoais de Jack Warner, hoje sai pela CBS Paramount, que pagou uma fortuna pelos direitos ainda mais na época:  US$5 milhões e meio). Eles também encontraram o ator ideal para fazer o protagonista, o professor de Línguas e Fonética Dr. Henry Higgins, na figura de Rex Harrison (1908-90), no que seria o maior papel de toda sua carreira (ele fez sucesso também no cinema nos anos 40, foi casado com as  estrelas Lilli Palmer, Kay Kendall e Rachel Roberts, num total de seis casamentos). O segredo era falar o texto  no tom certo, usar as notas com as palavras, mas sem nunca transformá-las em melodiosa canção (um método depois muito utilizado por outros atores de voz bonita, mas que não conseguiam o alcance de cantores profissionais).

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A trilha foi escrita especialmente para Rex, que tinha a “persona” ideal para o personagem egocêntrico e não respeitava ou apreciava as mulheres. Um detalhe muito curioso: Rex dizia que nunca interpretava a canção da mesma forma em cena. Por isso não quis gravar antes para o filme os números musicais (normalmente é isso que faz , grava-se e na hora o ator finge estar cantando até para evitar deformações no pescoço ou caretas. No caso dele, porém, foi usado - coisa muito rara - um microfone escondido na roupa e tudo foi registrado ao vivo (live)!

My Fair Lady estreou em 15 de março de 1956 e viria a se tornar um tremendo sucesso de crítica e público, famoso por vender ingressos com meses e até ano de antecedência. Teve o mérito de lançar ainda uma muito jovem estrela que se chamava Julie Andrews. Apesar de ser adorada pela crítica e ter se tornado relativamente famosa pelo show, quando chegou a hora de transpor o espetáculo para o cinema, a Warner achou que precisavam de uma atriz  mais conhecida e preferiram chamar Audrey Hepburn (1919-93), que era de família nobre e já naquela época considerada o símbolo de classe e elegância.

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Caso ela recusasse as escolhas seriam Elizabeth Taylor e Shirley Jones, mas não Julie. Só que sucedeu um imprevisto: Walt Disney viu Julie no palco (logo depois da carreira do show ela teve outro êxito, Camelot, com Richard Burton) e a convidou para testar para um projeto dele, que seria Mary Poppins. Assim nesse personagem ela estreou no cinema e num gesto famoso, a Academia lhe deu o Oscar de melhor atriz enquanto Audrey no mesmo ano nem chegou a  ser indicada (dando a entender que se opunham a mudança de atriz, embora essa fosse a prática tradicional, raramente uma criadora de papel na Broadway fazia o mesmo personagem no cinema). Audrey, que era realmente uma lady na vida real, não deu o braço a torcer e foi a cerimônia entregar prêmios e ficou amiga de Julie.

Todo mundo concorda que parte do problema foi que havia sido vazada a notícia de que Audrey não cantava no filme como sua própria voz (essa também era outra prática ainda mais do que comum, atores eram dublados por anônimos, que não tinham sua identidade revelada). Reza a lenda que a culpada por isso foi justamente a dubladora do personagem de Eliza, Marni Nixon (embora esta negue isso até hoje). Marni havia se saído muito bem dublando Deborah Kerr em O Rei e Eu e depois Natalie Wood em West Side Story (e como recompensa até faria uma das freiras de A Noviça Rebelde).

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Tudo isso revela alguns problemas do filme.

1) O fato é que Audrey é uma dama em qualquer circunstância e por mais que se esforce nunca chega a convencer como pobre florista que fala com horrível sotaque cokney (londrino popular) horrível.
2) O filme foi todo rodado com Audrey na impressão de que seria utilizada sua própria voz, pequena e afinada (que mostrou cantando Moon River em Bonequinha de Luxo e também em Cinderela em Paris/Funny Face). Só depois de ter gravado todos os números é que Marni a substituiu se adequando aos movimentos labiais de Audrey. A meu ver isso foi um erro (Marni poderia ter ajudado apenas nas vozes mais altas) o que se comprova com dois números que nesta edição são apresentados com a conhecida voz de Audrey, Show Me e Wouldn’t it Be Lovely?. E sua interpretação faz a diferença e foi justamente o que prejudicou a no filme. Aquela velha coisa de cantor atingir as notas certas, mas nem sempre saber passar as emoções ou sentimentos da cena!

Aliás, quem apresenta o making of aqui é o inglês Jeremy Brett (1933-95), que faz o rapaz rico apaixonado por Elisa (e interpreta On the Street Where You Live) e que também foi dublado na canção só que isso não foi revelado na época (foi pelo americano Bill Shirley). Brett era fraco como galã e ator, mas melhorou muito mais velho quando fez o papel de Sherlock Holmes em série de TV britânica.

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Outro problema do filme é que a direção foi confiada a George Cukor (1899-1993), de quem falamos há pouco por causa de Nasce uma Estrela (na verdade Vincente Minnelli foi considerado antes, mas pediu alto demais). Seu estilo era excessivamente teatral e, embora tivesse gosto esmerado, errou em não dar ao filme mais cenas de dança (tem uma pequena no casamento do pai de Eliza e a valsa no palácio. O resto são pequenos movimentos como florista e quando ganham a aposta). Tem certa mão pesada que não chega a atrapalhar porque continuaram a utilizar os incríveis figurinos e direção de arte de Cecil Beaton (1903-80). Entre suas criações mais marcantes, além dos vestido de Audrey, está toda a sequência da corrida de cavalo (como tudo recriado em estúdio) onde todos estão vestidos de preto e branco (só Audrey usa um leve toque de vermelho).

O filme foi rodado em 70 milímetros, SuperPanavision, o que garante a qualidade da imagem deste Super Ray (que surge a partir da restauração feita desde os negativos originais). Entre depoimentos interessantes tem o do filho de Sterling Holloway, de Marni, Gene Allen (homem de confiança de Cukor), trecho do raro primeiro filme de Audrey (Monte Carlo Baby) e onde se comenta sobre o convite que fizeram a James Cagney para viver o pai de Elisa e depois para Cary Grant ser o professor (este respondeu que não apenas não aceitava como se tirassem Harrison ele nem iria assistir o filme!).

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Os extras são ainda comentários em áudio auxiliar, explicativo e claro do diretor de arte Gene Allen, da cantora Marni e dos que fizeram o trabalho de restauração da fita. Infelizmente sem legendas. Mais um  featurette da época chamado “Dirigindo a Baronesa Bina Rothschild”, imagens da estreia em Los Angeles, discurso de agradecimento de Rex no Globo de Ouro e no Oscar, comentário de Martin Scorsese e Andrew Lloyd Webber, as versões alternativas com a voz de Audrey.

Foi grande sucesso de bilheteria e ganhou oito Oscars: Melhor Filme, Direção, Ator, Fotografia, Figurinos, Trilha Musical Adaptada, Direção de Arte e Som. Foi ainda indicado como coadjuvante (Holloway), montagem, roteiro e atriz coadjuvante (Gladys Cooper). Melhor ator e diretor dos críticos de Nova York, três Globos de Ouro e Bafta de melhor filme.

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O veterano ator característico que faz o Embaixador morreu apenas alguns horas depois de ter rodado sua cena no baile. O fotógrafo deste filme, Harry Stradling, foi também quem fez a versão antiga de Pigmalião.

A overture do show aqui é mostrada em cima de imagens de flores que depois servem também para os créditos. Não se faz referência ao título em todo o filme, mas parece que ele é derivado da expressão “Mayfair Lady” dito em acento cokney (Mayfair é bairro chique londrino).

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Conclusão: como obra musical e dramático, é das melhores. O texto de Shaw é inteligente, satírico,  excepcional. Assim como as músicas (com especial destaque para a final I´Ve Grown Accostumed to Your Face, que Lerner dizia ter sido a mais difícil de compor).

O filme, apesar de um bonito registro do show, não chega, porém, a adquirir vida própria nem com a divina Audrey nem o perfeito Rex (aliás, tive a sorte de assistí-lo ainda fazendo o papel no palco, naturalmente inesquecível).

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