12 fevereiro 2012 às 06:00
Dois bons filmes em cartaz
Felizmente tem dado para assistir alguns bons filmes de arte que continuam em cartaz e merecem destaque. Eis dois deles:
Tomboy (França, idem) 2011,84 min. Direção de Céline Sciamma. Com Zoé Heran, Mannon Levana, Jeanne Disson, Mathieu Demy, Sophie Cattani.
Já cult no circuito da Mostra e Mix, este filme é uma pequena joia, original e sensível, discreto e sincero, com um enorme acerto que justifica todo o projeto, a escolha da atriz principal, uma menina.
Zoé tem o visual andrógino que justifica todo o projeto. Sempre sem perder o humor, não caindo em melodramas ou discussões banais ou moralistas, o filme narra com delicadeza a história muito simples - mas super valorizada pelo ótimo elenco infantil - de uma menina de 10 anos, que tem aparência andrógina (na verdade é uma criança muito bonita, loira, de olhos claros, muito magra, um verdadeiro achado).
Essa garota moleque (esse seria o significado do título original, uma menina que brinca como menino, embora sua sensualidade ainda não tenha sido descoberta). Ao se mudarem para outra cidade, outro emprego e novo prédio a menina faz novos amigos e deixa passar um erro, fazendo– se passar por Mikael e se saindo na sua até ingênua farsa (beijando a menina do vizinho que acha que está até namorando, batendo no moleque que empurrou sua irmã menor). Aliás, é uma delícia também essa menina que fica super feliz de finalmente ter um irmão mais velho para cuidar dela.
O filme bem curto mostra a farsa da menina desde quando surge o mal entendido até sua resolução, quando os pais descobrem, a mãe está grávida e tem um novo bebê. Sem grandes dramas de forma bem civilizada, o que vai fazer a gente sair do cinema com um sorriso.
Claro que na vida há casos parecidos que são bem mais difíceis de resolver. O fato é que a diretora, que antes realizou outro filme do mesmo tema (Lírios D’Agua), escapou de ficar no ghetto e fez um belo trabalho, que eu recomendo.
A Fonte das Mulheres – La Source des Femmes. Direção de Radu Mihaileanu. 135 min.
Este é o novo filme do melhor diretor da Romênia, que conhecemos de outros bons trabalhos, O Trem da Vida, O Concerto, O Herói de Nosso Tempo, e que embarca aqui num projeto ainda mais difícil e polêmico.
Vai mexer no vespeiro dos direitos das mulheres nos países árabes, relatando o que no fundo é uma fábula exemplar. Na vida não é e não será tão fácil assim (ainda que em termos). Mas vale tentar e começar de alguma maneira.
Contando com a ajuda de atrizes de origem árabe, mas radicadas na França, como Leila Bekthi (O Profeta, Inimigo Público Número 1), Hafzia Herzi (de Apollonide e premiado por O Segredo do Grão), a palestina Hiam Abbass (A Noiva Síria, Munique, the Lemmon Tree, O Visitante) desta vez como a sogra vilã.
A história - conta um narrador - não se passa num lugar determinado, apenas uma aldeia no meio de uma terra árida, onde não chove há muito tempo e num lugar onde todos são obediantes ao pé da letra ao que diz o Alcorão. O problema é que os homens se acostumaram a não faz nada, já que não há trabalho e as mulheres cuidam de tudo, inclusive ir buscar água numa fonte no alto da montanha (mesmo que por ser perigosa elas com frequência escorregam e perder seus bebês, já que ficar grávida e fazer amor é a única diversão garantida). O filme também coloca de forma divertida as telenovelas mexicanas.
Aliás, o bom humor ainda que constante poderia ser mais frequente e assumido (o outro defeito é que o filme resulta longa demais, um boa redução ajudaria muito). Enfim, liderado por uma jovem esposa do professor (e por isso a única que sabe ler e escrever) as mulheres resolvem seguir os gregos e fazem uma greve do sexo, ou do amor.
Enquanto os maridos não tomarem jeito, elas mesmo apanhando (porque no Alcorão diz o filme o marido pode bater na mulher, não machucando, mas de leve, como um professor pode e deve bater no aluno!) - tentarão resistir e se negam ao sexo.
Há algumas tramas paralelas ilustrando a importância do amor (é curioso também que o filme tem estrutura de musical, com canções e danças folclóricas comentando a ação e até as ações dos personagens.
Também o perigo dos islamistas fanáticos sempre prontos a se aproveitar da preguiça masculina e a determinaçao de deter o progresso.
Fico surpreso do filme sair sem prêmios de Cannes e não ter ainda maior repercussão, porque consegue tocar em várias feridas, abrir várias áreas de discussao e reflexão, sempre sem perder a atenção e interesse da plateia. Outro que merece sua atenção.
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