17 fevereiro 2012 às 13:00
Em cartaz – As Praias de Agnès
As praias de Agnès (Les Plages de Agnès) França, 2008. Direção de Agnès Varda. Documentário. 110 min.
Há muitos anos atrás Agnès Varda (1928) teve um sucesso enorme no Brasil com seu filme As Duas Faces da Felicidade (Le Bonheur, 65) premiado com o Urso de Prata, hoje injustamente esquecido, era de uma beleza estonteante e um verdadeiro poema polêmico sobre as incertezas do amor. Dali em diante, ela que foi precursora da Nouvelle Vague, se sustentou com a ajuda do marido Jacques Demy (1931-90), que fez sucesso e ganhou a Palma de Cannes com Os Guarda Chuvas do Amor (Agnès levou o Leão de Ouro por Sem Teto nem Lei (1985), que foi exibido aqui como os Renegados e saiu agora em DVD no Brasill com esta outra tradução, mais literal). Aliás, o filme é bem interessante, sem concessões sobre uma jovem rebelde Sandrine Bonnaire que vira andarilha e viaja pelo interior, sem infeliz.
Quando Demy morreu de Aids, nunca se falou como e porque isso sucedeu (aliás, neste filme aqui ela conta que nunca tocaram no assunto, ele se fechou e ninguém quis perguntar). Mas ela continuou apaixonado por ele, de tal forma que fez uma filmebiografia dele (Jacquot de Nantes, 1991) e passou a realizar diversos documentários, com pequena câmera digital que foram muito bem aceitos pela crítica e deram nova vida a sua carreira. Ao mesmo continuou a ser fotografa e fazer instalações e isso explica porque este seu filme, já meio antigo é tão bonito, tão tocante. Acontece simplesmente que ela é uma autora, tem um olhar próprio, gosto pela composição, saber encenar momentos, é criativa e original. E sensível. É incrível que aqui no filme ela pareça tão doce, tão querida. Na vida real nem tanto.
Uma coisa curiosa é que no livro biográfico da juventude de Glauber Rocha escrito por Nelson Motta, pela primeira vez eu vi publicado e escrito (já que a imprensa francesa tem que respeitar a lei de privacidade e não pode falar da vida nem mesmo dos famosos) a história de que o na verdade Demy seria gay e Agnès lésbica (parece que Glauber sempre dizia isso dela). Seria um casamento de conveniência. Ouvi também várias vezes esta história em Paris e parece que não há dúvida sobre a vida dupla de Demy. Mas não é a imagem que Agnès vende neste filme, além de juras de amor eterno, do valor da família e louvor dos filhos e netos (Mathieu Demy é ator e agora também diretor e esta em Tomboy, em cartaz ainda) se apresenta, como já disse, encantadora e quando jovem até bonitinha (entre outras coisas que ela inventa para o filme está o fato de andar para trás... Como disse, é muito original).
Eu conheci o casal ainda num Festival do Rio bem no comecinho de carreira e conversei com eles que me pareceram agradáveis e confesso que não fiz nenhum julgamento. Há poucos anos atrás eu estive justamente em Paris no escritório de Agnès (fiquei emocionado de reconhecê-lo no filme não sabia que havia sido palco de tantos momentos marcantes de sua vida!). Conversamos longamente para as câmeras e ela sempre foi muito profissional, mas não especialmente simpática. Guardava seu melhor momento para seus documentários.
De qualquer forma eu fiquei encantado com este filme que está em sessões alternativas no Cine Sesc (e foi visto por uma plateia bastante boa para o horário, perto de 30 pessoas). E o recomendo vivamente para quem gosta e trabalha com documentário e para os admiradores da diretora! A diretora sempre encontra uma forma nova e interessante (mexendo com fotos antigas, espelhos que fotografam praias – para ela a paisagem favorita – de rebuscar o passado que analisa sempre com carinho e saudade, se derramando geralmente em elogios).
E sem a gente perceber faz com ela uma viagem por sua obra, descobrindo-se raridades como um curta-metragem em que aparece um muito jovem e magro Gérard Depardieu como ladrão de livros, várias imagens da jovem e belíssima Catherine Deneuve em filmes diversos, um Harrison Ford muito jovem (quando ela e Demy trabalharam nos Estados Unidos, ela queria fazer um filme para a Columbia estrelado por Ford, mas o estúdio disse que ele não tinha talento e que nunca daria certo!!! Para se ver como se enganam!) e o recém-falecido diretor Zalman King com sua mulher de muitos anos mostrado como um casal ideal na praia de Venice, California.
A viagem começa na Bélgica, sua terra natal (onde se revela que o pai de Agnès era grego!), a vida com as irmãs. Depois a ida para Paris ainda na Segunda Guerra Mundial e a Ocupação (trecho também de filme que ela fez condenando a ação dos policiais franceses prendendo judeus). E bem longamente no lugar chamado La Pointe Courte (que seria o nome de seu primeiro longa-metragem, onde lançaria também o estreante Philippe Noiret, se referindo a um pequeno porto de mar).
Filme esse que ainda hoje é considerado o começo da nouvelle vague (que ela resume com um amigo indicando outro para fazer filmes depois que Godard conseguiu sucesso de bilheteria com Acossado). Há também várias cenas com Jane Birkin (com quem ela fez dois semidocumentários), o segundo longa que deu certo Cleo de Cinco a Sete, um terceiro que fracasso As Criaturas, com Piccoli e Deneuve, trecho raro do filme americano com os parceiros de Hair e Viva, chamado Lions Love, seu envolvimento em luta feminista, a favor do aborto e o seu filme infeliz que com elenco all star comemorava os 100 anos do cinema (As Cento e uma Noites, que foi um desastre).
Enfim, é toda uma vida e uma obra revivida diante de nossos olhos comovidos e encantados.
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