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9 fevereiro 2012

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Jules Verne

  200px Jules Verne 450 Jules Verne

O Pai da Ficção Científica Texto de Adilson de Carvalho Santos.
 
Em “De Volta Para o Futuro III”, o abilolado cientista Dr. Emmet Brown (Christopher Lloyd) viaja ao velho oeste e se apaixona pela distraída professora Clara Clayton (Mary Steenburgen). Ambos se apaixonam à primeira vista e descobrem afinidade não apenas pelo amor à ciência como também admiração pelo grande autor Francês Jules Verne, considerado até hoje – de acordo com a UNESCO – o mais traduzido da história. Mas, quem foi Verne, tão celebrado por suas obras literárias, e sempre revisitado pelo cinema (sendo a mais recente “Viagem 2: A Ilha Misteriosa” e que por sinal já anuncia como próximo capítulo outra adaptação, Da Terra a Lua, também homenageado por tabela em A Invenção de Hugo Cabret de Scorsese já que o filme mais famoso de Geogre Meliés é justamente esse Da Terra a Lua). Verne se ainda estivesse vivo teria completado 184 anos nesta última Quarta Feira (08).

Jules Gabriel Vernes nasceu na cidade portuária de Nantes, na França, em 8 de Fevereiro de 1828. A Localização de sua cidade, tão próxima do cais, estimularia sua imaginação no que poderia existir no além-mar e isso – somado ao furor da Revolução Industrial – seria o combustível que levaria Verne a criar tantas histórias sobre viagens a terras novas, tantas aventuras que usariam da ciência como motor propulsor das realizações humanas.

Não à toa, Jules Verne – filho de advogado que queria ver seu filho seguir a mesma carreira – combinou todos esses elementos de forma a se tornar o mais prolífico escritor Francês na segunda metade do século XIX. Contra a vontade do pai, Verne se dedicou cada vez menos ao direito e cada vez mais à sua habilidade de criar histórias. Depois de conhecer o fotógrafo Félix Nader – que nutria grande interesse pelo balonismo – Verne iniciou uma pesquisa não apenas pela aviação como também pelo continente Africano – que para o mundo representava na época uma terra ainda cercada de muitos mistérios. A pesquisa minuciosa aliada à habilidade com as palavras fez “Cinco Semanas em Um Balão” (1862) um sucesso entre os leitores, e isso sem que Verne tivesse sequer visitado a África. Com esse sucesso imediato, Verne iniciou amizade e parceria com o editor Pierre-Jules Hetzel, que continuaria por cerca de 40 anos.

Hetzel estimulou a capacidade imaginativa de Verne e publicou suas histórias no periódico “Voyages Extraordinaries” (Viagens Extraordinárias). Foi o início de uma carreira prolífica com Verne nutrindo seus leitores com contos e novelas onde o fantástico convivia com um visionarismo espantoso. Em suas histórias apareceram pela primeira vez um submarino, uma televisão, um míssel teleguiado e outras invenções cuja natureza profética é inegável.

Em seguida vieram “Viagem ao Centro da Terra” (1864) narrando uma viagem a um mundo perdido no interior do planeta e habitado por criaturas incríveis, “Da Terra à Lua” (1865) em que Verne antecipa em um século a viagem do homem ao nosso satélite natural, “Vinte Mil Léguas Submarinas” (1870) trata com olhos críticos o imperialismo das grandes nações, seu domínio sobre as viagens marítimas ao mesmo tempo em que tece um maravilhoso painel das belezas submersas, “A Ilha Misteriosa” (1873) em que um grupo de yankees (abolicionistas do norte dos Estados Unidos) chega a uma ilha cercada de mistérios e perigos e “A Volta ao Mundo em 80 Dias” (1873) que mostra o audacioso Phileas Fogg – um nobre inglês – cruzando o mundo em um balão em uma jornada por novos povos e culturas entre outras. Nessa época, Verne já havia enriquecido muito seus textos com as várias viagens que fizera a bordo de seu iate, uma de suas paixões, e que o levara ao norte da África, outras partes da Europa e em especial em Portugal, onde até hoje o nome de Verne batiza nome de ruas e praças.

Curiosamente, Verne acabou se desfazendo de seu iate por volta de 1886, mesma época em que ficou coxo depois de ser baleado na perna por um sobrinho com problemas mentais. A última obra de Verne publicada um ano antes de sua morte em 1905 foi “O Senhor do Mundo”. Alguns contos inacabados foram terminados por seu filho Michel Vernes (com quem Jules teve uma relação conflituosa ao longo de sua vida). Mais recentemente em 1989, o bisneto do grande escritor publicou “Paris no século XX” que Verne escrevera em 1863, mas que não havia sido publicado na época. Vernes faleceu em Aimens em 24 de Março de 1905.

Verne no Cinema

A ligação de Verne com o cinema começa já no início do século XX quando o visionário Georges Meliés adaptou em 1902 o texto de “Da Terra à Lua”, tornando-se um clássico dos primórdios da sétima arte.
Imagens como o lançamento do projétil cônico que perfura a lua tornaram-se um marco histórico dentro da história do cinema. Em 1905, a primeira adaptação de “20000 Léguas Submarinas” no cinema americano (De acordo com o site IMDB) foi um curta de 18 minutos mudo dirigido por Wallace McCutcheon. Dois Anos depois, George Meliés voltou a Verne em “20000 lieues sous les mers” Ainda em 1929, a história de “A Ilha Misteriosa” ganhou as telas em uma adaptação. Contudo, foi preciso uma maior evolução das técnicas de filmagem e dos efeitos visuais para que Jules Vernes tivesse sua obra transposta para o cinema com melhor resultado.

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Em 1954, Richard Fleischer fez de “20000 Léguas Submarinas”.
(“20000 Leagues Under The Sea”) o primeiro filme live-action da Disney e o resultado foi o Oscar de efeitos especiais. A batalha do arrogante Capitão Nemo (James Mason) com a lula gigante foi de um realismo impressionante para uma era não digital. Nemo representava o gênio indomável inconformado com os rumos da civilização e fazendo dos mares seu território a bordo do fabuloso Náutilus, o primeiro submarino criado pela imaginação humana. O Capitão Nemo voltaria ao cinema vivido por Robert Ryan em “Capitão Nemo & A Cidade Flutuante” (Captain Nemo & The Underwater City - 1969) e na Tv vivido por Jose Ferrer em “O Fantástico Capitão Nemo” (The Amazing Captain Nemo - 1978). O texto original de Verne ainda seria readaptado como minissérie televisiva em 1997 com Michael Caine vivendo Nemo.

Trocando os mares pelos ares, Jules Verne levou todos a uma viagem fascinante em um balão acompanhados de Phileas Fogg, papel que coube a David Niven na adaptação produzida por Mike Todd em 1956 de “A Volta ao Mundo em 80 Dias”, vencedor do Oscar de melhor filme. Nele ainda aparece o comediante mexicano Cantinflas como Passe-partout – o criado de Phileas Fogg e Shirley MacLaine, aos 22 anos, como a princesa Aouda. Foi após a realização dele que Mike Todd, então marido da diva Elizabeth Taylor morreu de desastre de avião. Em 1989, a Tv revisitou a obra de Verne em uma minissérie tendo Pierce Brosnan (antes de 007) no papel de Phileas Fogg. Ainda houve uma versão mais recente em 2004, dirigida por Frank Corci com Steve Coogan no papel de Fogg e Jackie Chan no papel de Passe-partout. Retrocendo ainda mais no tempo, não poderia deixar de se mencionar a versão feita na Alemanha “Die Reise um die Erde in 80 Tagen” que trouxe Conrad Veidt (Alguém se lembra do Major Strasser de Casablanca?) no papel de Phileas Fogg. A força do texto de Verne não conhecia fronteiras geográficas ou línguas.

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O fascínio de Verne pelo balonismo ainda aparece em “Cinco Semanas em um Balão” adaptado em 1962 pelo famoso Irwin Allen e estrelado por Red Skelton e Barbara Eden (a Jeannie do seriado de TV). Viagens por terra inexploradas era uma característica de vários trabalhos de Jules Verne como “A Ilha Misteriosa” (Mysterious Island), feito em 1961, com Michael Craig e Joan Greenwood e que teve os efeitos especiais do genial Ray Harryhausen. Curioso à aparição aqui do personagem do Capitão Nemo, vivo depois dos eventos narrados em “20000 Léguas Submarinas”, vivido por Herbert Lom (mais conhecido como o Inspetor Dreyfuss dos antigos filmes de “A Pantera Cor-de-Rosa” com Peter Sellers). A Viagem mais audaciosa ainda foi a empreendida pelo Professor Oliver Linderbrook (James Mason) seguindo o rastro deixado pelo explorador Arnem Saknussen na clássica história “Viagem ao Centro da Terra” (Journey to the Center of the Earth) realizada em 1959 com direção de Henry Levin. O filme ainda trazia no elenco o ator e cantor Pat Boone e Diane Baker. Esta história serviu como base para a versão de 2008 feita em 3D e que não se trata bem de uma adaptação, mas uma aventura com metalinguagem já que Fraser faz um viajante que descobre que o relato de Verne é real. Chegamos assim a essa “Viagem 2: A Ilha Misteriosa” que costura várias narrativas de Jules Verne, sobrando até referências a “Viagens de Gulliver” de Jonathan Swift. Nada mal para um autor que morreu há 107 anos.

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9 fevereiro 2012

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Estreias – O Artista

O Artista (L´Artiste) França/Bélgica, 2011.

Direção e roteiro de Michael Hazanavicious. Paris Filmes. Preto e branco. Mudo. 100 min.

Elenco: Jean Dujardin,  Berenice Bejo, John Goodman, James Cronwell, Penélope Ann Miller, Ed  Lauter, Malcolm McDowell, Missi Pyler, Nina Siemasko.

artista Estreias – <i>O Artista</i>

Não há dúvidas que neste momento este é o filme favorito para o Oscar, apesar dos pesares. Acho muito difícil a Academia xenófoba dar pela primeira o Oscar de Melhor Filme para uma produção estrangeira, ainda mais francesa (coisa que nunca sucedeu, já que eles fazem a festa para se autolouvarem, para promover a indústria americana não a estrangeira!).

Ainda mais um filme mudo (ainda que com momentos sonoros e uma intensa trilha musical também indicada ao Oscar e vencedora do Globo de Ouro que homenageia diversos compositores e sons) e ainda por cima em preto e branco! (como americano não gosta de ler legendas e despreza o preto e branco, ele ainda por cima vai mal de bilheteria não passando dos 17 milhões, ou seja, atingiu apenas o publico de arte).

Mesmo assim desde que passou em Cannes (onde levou apenas Melhor Ator), foi comprado pelos Weinstein para o mercado internacional e ganhou os sintomáticos Sindicatos dos Produtores e Diretores. Sinal de que foi aprovado pela indústria!

artista1 Estreias – <i>O Artista</i>

Sem dúvida é um filme simpático, divertido, que se assiste com prazer, embora seja preciso perdoar um detalhe: ele lembra muito, às vezes demasiado, Cantando na Chuva, que abordava o mesmo assunto e época. E melhor! Só que sem esse gimmick (truque) de ser mudo (só se ouve som sincronizado numa sequência de sonho do protagonista!).

Eu gostei do filme, mas não sou um entusiasta. A sequência que mais gostava, quando a moça se abraça a um casaco que ganha vida com uma mão que a acaricia, depois um crítico mexicano amigo me contou que esse é um velho número de vaudeville argentino, e como a heroína Berenice Bejo é argentina!!!!. Acho estranho o filme situar a ação em 1927 quando já estava acontecendo o sucesso de O Cantor de Jazz e sendo um cara tão perceptivo e mesmo dançarino não se dar conta da mudança ao contrário, esperar mais dois anos para só em 1929 quando tudo era já fato consumado para insistir no mudo.

Isso tudo aconteceu e realmente são inúmeros os casos de carreiras destruídas pela chegada do cinema sonoro, já que os atores não precisavam decorar textos, não tinham formação teatral e muitos eram estrangeiros com forte sotaque. Para complicar o sistema de captação era muito precário e a qualidade da gravação da voz deixava muito a desejar. Há também boatos de sabotagem, como no caso de John Gilbert, quando o estúdio teria aproveitado para assim se livrar de um astro temperamental e que ganhava muito.

artista2 Estreias – <i>O Artista</i>

Outra coisa que me parece errada é a cena do incêndio/ suicídio, já que as cópias de película da época eram feitas com nitrato de prata e altamente inflamáveis (na verdade não precisam nem de fogo, tinham combustão espontânea e provocaram muitas tragédias como aliás se pode ver em Cinema Paradiso! Isso só seria modificado para o safety filme nos anos 40!). Então não daria para ser salvo do incêndio na casa do herói porque naquela altura já teria explodido todo o quarteirão.

Ok, entendo, são licenças de cinema, mas quando vai se falar e louvar uma arte morta acho que se deveria ao menos mostrar tudo com fidelidade. Foi uma opção interessante dos produtores (que é filho do famoso e falecido Claude Berri) rodar realmente nos estúdios de Hollywood, chamando atores americanos conhecidos como coadjuvantes (assim usaram a cama que foi de Mary Pickford, assim por diante, tudo tinha cheiro de autenticidade, contam eles!).

artista3 Estreias – <i>O Artista</i>

Tenho minhas dúvidas quanto à versatilidade do ator Dujardin que vejam no agradecimento do SAG parece composto e a qualquer momento disposto a cair na caricatura (que é sua especialidade, ele veio de humor de sketchs).De qualquer forma, ele segura o filme com a ajuda da brejeirice de Bejo numa história bem tradicional, a la Nasce uma Estrela, a estrela que sobe que tenta ajudar o astro decadente. Uma fábula naturalmente que dizem ser uma homenagem ao cinema mudo, embora eu não veja grandes vestígios nem dos humoristas geniais (o único que merece uma citação é um dos grandes Harold Lloyd, o Homem Mosca!) e muito menos de grandes diretores e obras (como os filmes de Murnau, Von Sternberg, King Vidor).

Será que O Artista vai ganhar? Para mim ele não se compara com o muito superior A Invenção de Hugo Cabret, de Scorsese (previsto para estrear semana que vem), esse sim tecnicamente deslumbrante e uma verdadeira homenagem aos criadores do cinema. Por outro lado Cabret é um filme infantil e homenageia em particular Georges Meliés que ninguém mais sabe quem foi!

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9 fevereiro 2012

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Estreias – Um Método Perigoso

Um Método Perigoso (A Dangerous Method), 2011. Diretor: David Cronenberg. 99 min.

Elenco: Michael Fassbender, Keira Knightley, Viggo Mortensen, Vincent Cassel, Sarah Gadon.

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São muitos os chamados, mas poucos os escolhidos. Podia-se dizer o mesmo sobre a corrida do Oscar. Muitos filmes de qualidade se apresentam, mas por alguma razão ficam para trás e não chegam nem mesmo a serem finalistas. É o caso desta produção bonita e elegante, que concorreu em Cannes (onde também passou em branco), deu uma imerecida indicação de ator a Mortensen para o Globo de Ouro, mas que apesar de tudo merece sua atenção.

peri5 Estreias – <i>Um Método Perigoso</i>

Faz tempo que o canadense deixou de ser apenas um diretor de filmes de ficção cientifica ou terror (e por vezes brilhante como em A Mosca) para ampliar seu espaço com os competentes thrillers policiais recentes Marcas da Violência e Senhores do Crime. Por sinal, ambos com Viggo Mortensen, razão porquê o utilizou de novo aqui no papel chave de Sigmund Freud apesar do ator não ter a dimensão nem técnica para segurar um personagem tão cerebral e complexo. Essa falha pode explicar o fracasso do filme que apesar disso é sempre interessante, muito bem produzido (paisagens de vilas suntuosas na Suíça) e tem um grande interesse para os ligados em psicanálise. Um detalhe Cronenberg antes tentou contratar Christoph Walts (que recusou para fazer Água para os Elefantes) e Christian Bale.

peri2 Estreias – <i>Um Método Perigoso</i>

Sua qualidade nasce do roteiro do britânico Christopher Hampton que primeiro transformou em teatro The Talking Cure, o livro de John Kerr (não o ator). É bom lembrar que Hampton fez um trabalho parecido com Ligações Perigosas e fez outros roteiros notáveis como Desejo e Reparação, Chéri, Carrington, O Americano Tranquilo.

De certa forma, o filme relata o nascimento justamente da psicanálise através da correspondência e eventuais encontros entre dois médicos que pesquisam uma pratica semelhante. O Dr. Freud (Viggo) em Viena, trabalhando com discrição e Jung, na Suíça, vivendo em luxo porque era casado com uma mulher rica (foi rodado na Bavária, Viena e Vestfália). As teorias tomam forma quando aparece uma paciente, Sabina Spielrein que parece ter alguma forma de demência, dominada por alguma forma de histeria, gritando, fazendo caras e caretas, por vezes agressiva. Keira Knightley sai-se dignamente de um personagem muito difícil, mas que tem um arco interessante, começa como louca varrida e eventualmente estudará e se tornará uma colega deles e a responsável pela introdução da psicanálise na União Soviética.

peri3 Estreias – <i>Um Método Perigoso</i>

O método perigoso não é cuidar da moça, mas a fraqueza de Jung, que era um sujeito atraente e metido a conquistador muito bem vivido pelo ator do momento, Michael Fassbender, agora famoso por ser despir em Shame. Assim aos poucos se aproxima de Sabina e atravessa as fronteiras do permissivo, tendo um romance com a moça. O que é contra a ética e pior do que isso pode ser muito prejudicial ao tratamento. Freud não aprova e os dois entram em conflito.

Como se vê mesmo o público comum o filme tem seus atrativos de escândalo (médico seduzindo paciente, brigando com seu melhor amigo, traindo a esposa!).

peri4 Estreias – <i>Um Método Perigoso</i>

Gostei bastante do filme que tomara que não se perca em meio a tantos lançamentos mais comerciais ou mais premiados.

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8 fevereiro 2012

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As estreias americanas que eu assisti (parte 4) – Red Tails

Vocês já devem ter ouvido falar que Star Wars Episódio I esta para voltar em 3D muito em breve e que George Lucas não é mais o mesmo. Apaixonou-se novamente e por uma bela negra, Melody Hobson, que tanto o entusiasmou que resolveu produziu com seu próprio dinheiro, sem ajuda de qualquer estúdio ou outra fonte, um filme em homenagem a ela!

Um filme de ação Red Tails, com Cuba Gooding Jr., Terrence Howard e uma certa Daniela Ruah (descendente de portugueses que faz uma italiana, único interesse romântico do filme)  sobre uma história pouco conhecida da Segunda Guerra: a ação dos pilotos negros na base de Tuskegee que mesmo sendo vitimas de racismo e discriminação agiram com coragem e heroísmo. (Houve em 1995 um telefilme da HBO que foi o primeiro a tocar no assunto Prova de Fogo/The Tuskegee Airmen, de Robert Markowitz, com Laurence Fishburne, John Lithgow e o mesmo Cuba Gooding).

red As estreias americanas que eu assisti (parte 4) – <i>Red Tails</i>

Originalmente Lucas iria dirigir, mas como o projeto está em desenvolvimento desde 1988, resolveu passar a realização para um diretor negro vindo de séries de tevê, Anthony Hemingway (nada a ver com o escritor). E como para Lucas dinheiro não tem importância, ele gastou 58 milhões de dólares na produção e mais 38 milhões no marketing!

Uma palavrinha sobre Melody, ela não é atriz, mas executiva. Nascida em Chicago, formada pela Universidade de Princeton em 1991, se tornou presidente da produtora Ariel e depois participou do Board de várias organizações culturais de sua terra natal, também do Instituto Sundance, da Starbucks, Esthée Lauder e outras. Incluindo a Dreamworks Animation! Ou seja, de boba não tem nada.

Aos 68 anos (que vai completar em maio), Lucas anunciou também que estava se aposentando (será que isso significa que a série Indiana Jones e o possível quinto episódio foram arquivados? Porque Steven Spielberg sempre afirma que tudo depende de seu amigo Lucas!). Na verdade, parece improvável agora que Star Wars Capitulo I esta de volta aos cinemas em Terceira Dimensão. É bom explicar bem: Não se trata da trilogia clássica que hoje virou Capítulos de IV a VI (feitos entre 1977 e 83), mas seu prequel (prólogo, mal traduzindo), que começa com este Capitulo I – A Ameaça Fantasma (1999) prossegue com Episódio II (O Ataque dos Clones, 2002) e conclui com A Vingança dos Sith (2005).

Tudo é facilitado porque Lucas desde aquela época já insistia em trabalhar com HD Alta Definição, ou o Sistema Digital que lhe facilitava muito os efeitos digitais. Aliás, de tal forma que muitas vezes a trilogia parecia um showroom dos efeitos mais do que uma boa história. Tem outra coisa: Lucas nunca teve problemas em mexer em seus trabalhos, atualizando os efeitos ou cortando coisas que envelheceram (ao contrario de Spielberg, que voltou atrás e jura que sua versão de ET em Blu-Ray será igual a dos cinemas, ele se arrependeu de cortar armas de fogo. Finalmente percebeu que um filme é o retrato de sua época e não deve ser censurado). Embora seja mais ligado em tecnologia (vide o sucesso de sua firma de efeitos especiais Industrial Light & Magic, e seus lançamentos em videogame) do que em roteiro ou mesmo produção de filmes. É preciso lembrar que seu curriculum como produtor tem algumas manchas tristes (como os megafracassos Howard, o Super Herói (aquele do pato que veio do Espaço), Willow na Terrra da Magia, Assassinatos na Radio WBN) e mesmo a discutível série de tevê Star Wars: A Guerra dos Clones.

red1 As estreias americanas que eu assisti (parte 4) – <i>Red Tails</i>

A verdade é que apesar disso Lucas tem grande prestígio e reputação como produtor e não tanto como realizador. Seu melhor filme seria ainda American Graffiti, que fez antes de Star Wars. E todos concordam que dos seis filmes de Star Wars, o melhor é o dirigido por um professor dele, O Império contra Ataca, de Irvin Kershner.

Não tenho qualquer ansiedade de rever mesmo em 3D, este Capitulo I – A Ameaça Fantasma. Com certeza não é um Titanic – que retornara também em 3D em setembro, não vai tirar sua mãe de casa com as vizinhas para correr ao cinema. Nem provocou frissons nas teenagers. Na verdade, ele parece ter sido feito basicamente para vender bonecos e videogames, uma máquina de fazer dinheiro, de merchandising. Como cinema, cometeram-se vários erros. O primeiro é o produtor George Lucas deixar o próprio Lucas como diretor. O resultado foi um filme frio, sem emoção, com personagens mal delineados. Sem qualquer criação por parte do diretor.

Mas ao fazer um prólogo, ele armou para si próprio uma armadilha da qual vai ser difícil escapar. Não pode fugir de certos detalhes que já sabemos que irá acontecer, assim o menino herói central do filme será necessariamente o Darth Vader, que passará para o lado negro da força e que enfrentará o filho Luke Skywalker (mais estranho ainda é que Darth irá namorar e se casar com a rainha do filme, que é obviamente muito mais velha do que ele, uma diferença de idade considerável e perturbadora). Portanto, tudo tem que explicar e justificar a outra trilogia, provocando limitações de todo tipo (inclusive tecnológica, fica esquisito o passado ter mais tecnologia do que o futuro ainda distante mostrado nos filmes anteriores).

red2 As estreias americanas que eu assisti (parte 4) – <i>Red Tails</i>

Pode ser um jogo curioso para os fanáticos da série, mas inútil para o espectador despreparado. E deixa o filme com uma trama fraca, difícil até de descrever e seguir. E ainda por cima ele vai errar na escolha do jovem Darth Vader, como esquisito Hayden Christensen, que acabou não fazendo grande carreira. A trilogia não chegou a ajudar nem os já famosos Ewan MacGregor e Liam Neeson.

Há excesso de bichinhos fofinhos, de figuras exóticas, de multidões de exércitos, nenhum deles memorável e por vezes até irritantes. As crianças menores podem se divertir (mais que nunca o filme tem apelo infantil), mas o verdadeiro fã da série, aquele que hoje em dia tem por volta de 40 anos vai se decepcionar. Porque afinal Lucas tem os pés de barro, nem sempre o Toque de Midas. Não no caso deste Red Tails, em que ele já saiba que não iria lucrar. Por amor, afinal, vale tudo!

Voltando a este Red Tails, eu assisti o filme com uma platéia formada basicamente por negros que me pareceram terem vindo em excursão de escola ou grupos. Nenhum reagiu especialmente entusiasmado, embora a bilheteria não chegue a ser um desastre (chegando aos 35 milhões de dólares).

O fato é que a historia ainda merecia um filme melhor. Não apenas o elenco é muito irregular, mas principalmente os protagonistas, Terrence Howard tem uma voz fraca e uma presença titubeante. Mas menos desastrosa do que a de Cuba Gooding Jr que nada mais faz do que ficar fazendo pose e pitando o seu cachimbo.

red3 As estreias americanas que eu assisti (parte 4) – <i>Red Tails</i>

Embora a história tenha tudo para ser comovente e eletrizante, o filme resulta morno. É uma historia de superação, luta contra o racismo, puro heroísmo. Mas parece que o filme tem medo de ser mais franco e direto, optando por evitar críticas frontais aos preconceitos das Forças Armadas de então que tratavam os negros como cidadãos de segunda classe, que serviam para proteger os aviões comandados por brancos, mas assim mesmo com relutância. Isso poderia dar mais pano para manga, mas o roteiro prefere louvar o patriotismo geral e os feitos aliados.

Há dois pilotos problemáticos, o que os torna ate mais humanos, um oficial que bebe um pouco demais e um piloto rebelde que namora uma jovem italiana com quem deseja se casar mas que nem por isso, deixa de realizar ataques arriscados procurando acertar pilotos/aviões nazistas.

Bryan Cranston é um dos poucos que faz um oficial assumidamente racista. O forte do filme são os efeitos especiais que recriam com bastante qualidade os aviões e as batalhas aéreas nos céus da Itália. Parece realmente um esforço de produção reunir aviões tão antigos nesta altura (quase 60 anos depois dos fatos) e relatar as façanhas dos Red Tails (Rabos Vermelhos). Uma história importante e que merece ser relatada, num filme apenas médio. Ao menos não é um final triste para a despedida de Lucas do cinema.

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7 fevereiro 2012

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As estreias americanas que eu assisti (Parte 3) – A Toda Prova

a toda prova As estreias americanas que eu assisti (Parte 3) – <i>A Toda Prova</i>

Haywire/ A toda Prova (lançamento previsto para 30 de março pela Imagem)

Este é aquele famoso filme do diretor Steven Sodebergh que descobriu uma lutadora autêntica da MMA (Mixed Martial Arts) Gina Carano e resolveu transformá-la em estrela escrevendo uma história especialmente para ela, além de reunir o maior número possível de astros famosos: Michael Fassbender, Ewan MacGregor, Michael Angarano, Channing Tatum, Michael Douglas e Antonio Banderas. O resultado teve até boas criticas, mas foi totalmente rejeitado pelo público que o transformou em total fracasso (não passou dos 16 milhões de dólares de renda!).

Vocês já sabem o que eu acho de Soderbergh e sua mania de desperdiçar tempo em projetos abaixo de seu talento, como se fosse uma corrida contra o relógio. Ele fala em aposentadoria enquanto acumula filmezinhos menores que estão estragando cada vez mais sua reputação. Estranhamente a imprensa ainda não sacou qual a dele e continua lhe dando força!

a toda prova 2 As estreias americanas que eu assisti (Parte 3) – <i>A Toda Prova</i>

Aqui, não foi obrigado por nenhum mafioso ou coronel amante da Gina (pelo menos até onde se sabe). Parece que um dia ele a viu na televisão lutando e achou que seria interessante fazer um filme sobre uma mulher que sabe lutar de verdade! Mas em vez de fazer um filme poderoso como Guerreiro (em DVD, procure ver) apenas mostrou cenas dela pulando de telhado em telhado e de vez em quando dando tiros. As lutas são sempre com os atores famosos, ou seja, são coreografadas e nada demais. Diria mesmo que medíocres, sem malabarismos (será que ele não contratou um diretor de luta errado? Não teria sido o caso de chamar algum chinês mestre no assunto!).

Gina é uma mulher relativamente bonita e uma atriz ausente. Nem chega a ser ruim. Seu rosto me lembrou um pouco aquele atriz do Cidade dos Sonhos, não a Naomi Watts que virou estrela, mas a outra que não foi adiante, Laura Harring (e um pouco também a brasileira Nadir Fernandes).

Também o roteiro não é muito caprichado, apenas uma variante na velha história das traições dentro do mundo da espionagem e serviço secreto. O vestuto Michael Douglas faz o chefão dos americanos, mas o roteiro de Lem Dobbs (The Limey/O Estranho, Cartada Final, Dark City) começa com a heroína, Mallory Kane que trabalha para uma grande organização que presta serviço aos americanos como operadora, ou seja, agente de campo. Ela esta no Canadá, sendo perseguida, quando entra numa lanchonete, onde é atacada por um jovem colega, o super canastrão Channing Tatum. Mas é ajudada por um rapaz que está presente no local (Aragano) e para quem ela vai contar sua história, enquanto procuram fugir da polícia. Mostra então a missão que ela teve que fazer em Barcelona, onde o chefão local era Banderas. Seu trabalho era resgatar um prisioneiro, o que acaba não acontecendo como se esperava. O passo seguinte é Dublin, Irlanda, quando descobre que foi traída e é preciso usar todos os recursos e artimanhas para conseguir escapar. Ewan faz o chefe direto dela, Fassbender é um colega que pode ser também um inimigo e tudo será resolvido numa casa no Novo Mexico.

a toda prova 3 As estreias americanas que eu assisti (Parte 3) – <i>A Toda Prova</i>

Ruim? Nem tanto, apenas banal, sem brilho, fraco justamente naquilo que seria seu ponto de venda: as lutas. Esse público que gosta do gênero sabe o que quer e não faz concessões. Se não aprovou, é porque Soderbergh errou mesmo.

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6 fevereiro 2012

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Smash, o musical de Spielberg que estreia hoje na TV americana!

smash e1328522162612 <i>Smash</i>, o musical de Spielberg que estreia hoje na TV americana!

O pessoal da NBC americana teve uma tática de marketing ousada: não se preocuparam tanto com a audiência da estreia, mas com a repercussão. Já faz mais de mês que colocaram a disposição de qualquer um o filme piloto da série Smash, na certeza de que ele vai criar um boca a boca positivo! Na esperança de que ele seria o herdeiro de Glee e irá agradar a todo fã de musical da Broadway, um número crescente, principalmente no Brasil, graças aos bem-sucedidos shows que tem sido montados por aqui.

smash2 e1328522202208 <i>Smash</i>, o musical de Spielberg que estreia hoje na TV americana!

Smash (o título se refere ao adjetivo/gíria que denomina um sucesso arrasador, em geral é usado como um Smash Hit!) é fruto de uma ideia justamente de Steven Spielberg (que cá entre nós não está numa fase muito boa de criação e tem errado bastante principalmente na TV). Este chamado “Glee para adultos”, não tem o mesmo humor daquela série, nem sua proposta educativa e aglutinadora e por isso parece uma projeto mais difícil. Vai atingir direto aqueles que são fãs dos shows da Broadway e que irão se envolver na história de uma dupla de compositores  que está escrevendo um show musical sobre Marilyn Monroe (já houve um, foi fracasso, todos repetem mas este parece mais oportuno).Eles são a encantadora Debra Messing (de Will e Grace, num tom mais romântico, com marido ciumento, interpretado pelo também diretor e escritor Michael Cristofer, filho adolescente e a idéia de adotar outro). Seu parceiro é gay (Christian Borle) e odeia o diretor que vai assumir o projeto, que diz ser mau caráter ainda que talentoso (Jack Davenport).

O episódio inicial dirigido por Michael Mayer (que ganhou Tony por Spring Awakening) abre com cena de sonho com Over the Rainbow, as musicais originais são de Marc Shaiman e Scott Wittman (a dupla de Hairspray). Mas a história é focada em cima de duas jovens aspirantes ao sucesso, ambas muito ambiciosas, uma loira corista que procura sua chance (Megan Hilty, que estrelou no palco o musical Nine to Five e faz o tipo Marilyn) e uma moça de Iowa, que tem namorado indiano que lhe apoia, Katharine McPhee (morena, magra, antiga concorrente do American Idol, que é mais bonitinha, promissora e menos óbvia que a rival). Também é importante a produtora que está se divorciando do marido e por isso com todos os bens em litígio (Anjelica Huston), o que coloca o show em perigo.

smash3 e1328522320361 <i>Smash</i>, o musical de Spielberg que estreia hoje na TV americana!

Cheio de referências locais que os entendidos irão compreender, mostra no piloto os primeiros testes, e dois números quase completos, que primeiro são apresentados num estúdio em ensaio e depois já em seu formato profissional. Será que as pessoas irão se interessar por uma competição entre estas duas? Será que o publico quer saber se vai ter um show sobre Marilyn (claro que se der certo, a ideia é que ele seja montado mesmo! A verdadeira Marilyn aparece aqui em cenas (por sinal, geniais), de Quanto mais Quente Melhor). Tomara que exista esse publico e a série pegue. De qualquer forma, o fã do gênero musical não pode perder (segundo o IMDB a série tem previsto 15 capítulos).

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6 fevereiro 2012

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François Truffaut: 80 anos esta noite

truffuat François Truffaut: 80 anos esta noite

Ele morreu muito cedo, deixou uma grande ausência no cinema francês e mundial. François Truffaut (1932-1984) estaria completando hoje 80 anos e é uma boa ocasião para celebrá-lo através deste artigo que escrevi já há algum relembrando sua importância e a de seu primeiro filme longo, Os Incompreendidos/Les 400 Coups (1959).

Já em sua condição de clássico absoluto, o filme dispensa recomendações mas comporta uma série de informações, fornecidas pela biografia deTruffaut escrita por Antoine De Baecque e Serge Toubiana, que ajudam a melhor apreciá-lo.

Truffaut, conhecido como “o poeta da Nouvelle Vague”, foi o caso mais notável de um crítico que passou com sucesso para a direção. Já neste seu longa de estreia, ganhou o prêmio de direção no Festival de Cannes (no mesmo ano em Orfeu do Carnaval levou a Palma de Ouro e Hiroshima, mon Amour, de Alain Resnais, não ganhou nada!) e depois foi votado como Melhor Filme Estrangeiro pela Associação dos Críticos de Nova York. Foi o início de uma carreira brilhante, que também incluiria um Oscar de Filme Estrangeiro (por A Noite Americana, 1973), uma participação como ator em Contatos Imediatos do Terceiro Grau, de Spielberg, em 1977 (que sai agora em DVD) e uma morte prematura de câncer.

Truffaut François Truffaut: 80 anos esta noite

Capa do DVD de Os Incompreendidos

Historicamente Os Incompreendidos é considerado o ponto de lança do movimento da chamada Nouvelle Vague (Nova Onda, literalmente), uma expressão que surgiu inicialmente em 3 de outubro de 1957, na revista L´Express, num artigo de Françoise Giroud sobre a juventude, mostrando a necessidade de mudança na sociedade francesa. Quem aplica a expressão ao novo cinema francês é Pierre Billard, em fevereiro de 1958, que é retomada em Cannes na estreia da nova safra de filmes, e logo espalhada pelo resto do país e do mundo. Passa a englobar a primeira safra de filmes de sucesso feito por jovens, que incluem além de Hiroshima e Os Incompreendidos, Os Primos, de Claude Chabrol e Ascensor para o Cadafalso, de Malle.

Era o Novo Cinema Francês que se opunha frontalmente ao “Cinema Antigo”, ou “Cinema de Papai”, como era apelidado o chamado “cinema de qualidade” produzido na época na França, pelos cineastas consagrados daquele momento (Claude Autant-Lara, René Clement, Denys de La Patteliére, Henri Verneuill, René Clair, Jean Dellanoy, etc). A oposição a eles já tinha surgido nas páginas da revista   “Cahiers du Cinema”, de onde saiu Truffaut e um novo grupo de críticos –cineastas, que incluiria a seguir Jean Luc Godard (foi Truffaut quem ajudou a produzir e escreveu o roteiro de seu Acossado/A Bout de Souffle, 1959, outro filme seminal do movimento), Jacques Rivette, Eric Rohmer, Claude de Givray, Jacques Doniol Volcroze e mais tarde Bertrand Tavernier.

Foi não apenas no “Cahiers” mas também em outros órgãos de imprensa de prestígio, “Arts” “La Parisienne”, “Le Temps de Paris”, que Truffaut foi o mais combativo e influente crítico de uma nova tendência que valorizava o cinema de autor. Numa época onde a crítica era em grande parte comunista e avaliava os filmes de acordo com os ditames do Partido (seu expoente era o historiador Georges Sadoul), eles criaram a chamada “política dos autores”, que valorizava todo cineasta que imprimisse sua marca pessoal em sua obra, fosse como estilo ou temática. Sendo que o conceito de “autor” incluía também os próprios produtores, não apenas os realizadores. Foram eles os responsáveis pela reavaliação de todo o cinema norte-americano, coisa que nem mesmo nos EUA estava se fazendo. Tudo isso devido à um fato histórico. Por causa de Segunda Guerra Mundial e a ocupação nazista da França, eles só puderam assistir aos filmes norte-americanos a partir da Liberação de 1946 em diante e assim mesmo com os filmes lançados fora de ordem cronológica (só então puderam ver, por exemplo, E o vento Levou, que era de 1939).

Truffaut5 François Truffaut: 80 anos esta noite

Truffaut ao lado de Grace Kelly

Embora aos poucos fosse se posicionando junto à esquerda, contra a Guerra da Argélia e a política do General De Gaulle, Truffaut nunca foi engajado. O brilhantismo de sua carreira e a qualidade de sua obra, não interfere porém com outro aspecto, seu discutível caráter. Até os amigos admitiam que ele era um arrivista (uma palavra fora de moda para definir “oportunista”), que com frequência polemizava  a favor dos amigos (ou daqueles que deseja ficar amigos) ou em troca de alguma vantagem. E não há  como negar que era uma pessoa ao menos prática. Homem de muitos amores  e amantes, quando se casou escolheu justamente uma garota judia, Madeleine Morgenstern, única  filha de um grande distribuidor francês, Ignace Morgenstern, diretor da Cocinor (Comptoir Cinématographique du Nord), que conheceu durante um Festival de Veneza. Adivinhem quem lhe produziu Os Incompreendidos? Obviamente seu sogro, que por sinal logo iria falecer deixando para Truffaut a organização que viria a se tornar a produtora dele, “Les Films de la Carrosse”. Comprovando assim a teoria de que a Nouvelle Vague foi basicamente fruto da alta burguesia, a qual pertencia por exemplo Malle (vindo de família de diplomatas). E Claude Chabrol produziu seu primeiro filme, Nas Garras do Vício, graças à uma herança que lhe deixou o pai.

Truffaut também era formidável como auto-promoção, mantendo uma rede de “amigos” e correspondentes, entre jornalistas e diretores de festivais pelo mundo todo, que lhe garantiam a exibição e aprovação internacional de suas fitas. Além de também fazer aquilo que os americanos chamam de “networking”, se aproximando e ficando amigos dos diretores que admirava e a quem utilizava quando necessário (de Jean  Cocteau a Roberto Rossellini, dois de seus mais achegados amigos). Para ser justo, também foi fiel à quase todos os amigos e colegas, a quem ajudou a realizar os filmes, muitas vezes sem crédito e ou lucro.

Não se pode negar que Truffaut é o santo patrono de todos os cinéfilos. Mesmo porque ele deve ter sido o maior de todos eles, se não o inventor do conceito. É muito ilustrativo, o fato de que uma das razões porque ele foi preso como marginal, estava o fato de ter roubado para poder sustentar um cine-clube de bairro (que dava prejuízo constante) e parte das dívidas foram cobertas com a venda de fotos de cena que ele e um amigo haviam roubado das portas das salas de cinema. Até hoje existem arquivadas as fichas e filmografias que ele mantinha sobre os cineastas (é importante notar que isso não era um hábito na imprensa mundial, nem mesmo na francesa. Só depois dele se tornou corriqueiro).

Truffaut4 François Truffaut: 80 anos esta noite

Parece também evidente que Truffaut usou sua função de crítico para realizar o sonho de dirigir filmes, manipulando influências e contatos. Provocador, insolente, chegou a ter sua credencial de imprensa negada no Festival de Cannes de 1958, justamente aquele que o premiaria no ano seguinte. Antes de passar para o longa, fez dois curtas, Les Mistons (Os Pivetes) e uma comédia chamada L´Historie de L´Eau, que nem chegou a ser lançada.

O primeiro projeto era meio indefinido sobre a infância para ser estrelado por Yves Montand como diretor de uma escola. Depois passou a ser a adaptação de um romance de Jacques Cousseau, Temps Chaud, que acabou não sendo realizado porque a atriz prevista Bernadette Laffont sofreu um acidente grave. Mas finalmente acabou sendo Os Incompreendidos, uma fita de orçamento baixo (quarenta milhões de francos antigos, muito abaixo da média da época) que reaproveitava e estendia uma idéia que ele iria utilizar num dos episódios da fita sobre a infância, La Fugue d´Antoine. Era um fato real de sua adolescência, quando ao bolar aula e se esquecer de fazer um trabalho de casa, para fugir ao castigo deu a desculpa de que “minha mãe morreu!”. E por isso levou monumental bofetada!

A partir daí Truffaut utilizou outras recordações de sua infância conturbada, suas fugas ao lado do amigo Lachenay, o conflito com os pais ausentes, o flagrante de ver sua mãe com o amante na Praça Clichy e assim por diante. O filme é extremamente autobiográfico (algumas vezes Truffaut desmentiu o fato apenas para não piorar a relação com os pais que ficaram ofendidos com o que ele mostrou na fita, deixaram de se falar mesmo por alguns anos) embora ele tenha incorporado ao personagem central também elementos da vida do amigo de aventuras Lachenay e também do ator que foi escolhido para protagonista Jean-Pierre Léaud. Outra mudança importante. Condensou cinco anos de sua vida para um período menor de tempo e transpôs a ação da Ocupação e imediato pós-Guerra para o presente, nos anos cinquenta.

Truffaut2 François Truffaut: 80 anos esta noite

Em destaque o protagonista Jean-Pierre Léaud

Mas quase tudo que Os Incompreendidos mostra tem seu paralelo na vida real de Truffaut. Mas nem tudo ele contou. Nascido em 6 de fevereiro de 1932, como François Roland, filho natural de Janine de Monferrand, uma mãe solteira de família católica e conservadora. Era portanto um “filho do pecado” e por causa disso para sempre desprezado pela mãe. Foi criado primeiro pela avó e só com a morte dela que foi viver com os pais em Paris, num pequeno apartamento.

Diante de tanta indiferença e muita leitura, passou a desconfiar de havia algo errado, acabando por descobrir que era filho adotivo do Sr. Truffaut (ele achava esse pai adotivo um fraco,mas o preferia à mãe, a quem nunca perdoou). Somente muitos anos mais tarde, já famoso, é que surgiria a verdade; seu pai verdadeiro era judeu.

A rebeldia em casa e na escola era justificada pela incompreensão familiar (tudo isso retratado no filme), só minorada pela paixão pelo cinema e a literatura, o que acaba provocando pequenos furtos, que culminam com sua internação feita pelo próprio pai num reformatório (a lei francesa permitia isso). O filme deixa de mostrar que o cinema seria sua própria salvação, quando ficou amigo do crítico mais influente da época, André Bazin, que se tornou seu padrinho e o orientou na carreira (Bazin morreria de leucemia com apenas 40 anos em 11 de novembro de 1958, no dia seguinte ao do início das filmagens de Os Incompreendidos).

Mas fundamentalmente tudo que Truffaut mostra é real (a paixão do pai pelo alpinismo virou paixão pelos automóveis, o nome Antoine Doinel foi adotado em homenagem ao amigo diretor Jean Renoir, sua assistente tinha esse sobrenome). Para o roteiro de 94 páginas Truffaut contou com a ajuda de Marcel Moussy, autor de uma série popular na tevê da época (Si c´était vous). Decidido a rodar em formato Cinemascope e preto e branco, quis utilizar um dos melhores diretores de fotografia do momento, Henri Decae (que havia trabalhado com Jean-Pierre Melville, Louis Malle e Chabrol), conhecido também por sua rapidez e preferência pela iluminação natural (foi ele que recebeu o mais alto salário da equipe, maior do que o próprio diretor).

Truffaut3 François Truffaut: 80 anos esta noite

Frame de Os Incompreendidos

Na escolha do elenco, seleciona um grupo de coadjuvantes pouco conhecidos e coloca anúncio nos jornais para encontrar seus dois protagonistas. Foi porém um colega de Cahiers, Jean Domarchi, que recomendou-lhe Jean- Pierre Leáud, filho de um assistente de roteiro e da atriz Jaqueline Pierreux. Um garoto de 14 anos, que já fizeram um papel pequeno em Tour, prends Garde, de Georges Lampin, ao lado de Jean Marais. Se identifica tanto com ele, com sua rebeldia, que concluídas as filmagens, praticamente o adota, não apenas se tornando seu alter ego numa série de filmes como chega a alugar um quarto perto da casa onde vivia com a mulher e duas filhas, para que o rapaz não se meta mais em apuros.

As filmagens foram sem complicações. A longa corrida em direção ao mar, que encerra o filme, foi rodada na praia perto de Villers- sur- Mer, com a câmera instalada num carro (que lhe permite um travelling). Uma sequência que culmina com Antoine Doinel olhando diretamente para a câmera, como se perguntasse , “com quem direito está me julgando?”.

O próprio Truffaut admitiu que aproveitou a ideia de um filme de Ingmar Bergman, Mônica e o Desejo embora o que tenha ficado mais famoso tenha sido outro recurso, o da imagem congelada (freeze-frame), o que era muito raro ou mesmo inédito no cinema.

Enquanto a Nouvelle Vague como movimento teve um importante sabor de renovação em todo o cinema francês, abrindo caminho para uma nova geração, revolucionando a linguagem, liberando a câmera para as filmagens nas ruas, com luz natural, atores mais jovens, novos ídolos, como teoria a “Política dos Autores” acabou tendo enorme influência em todo o mundo.

A carreira de Truffaut continuaria a ser intensamente autobiográfica, com o personagem de Doinel retornando mais tarde em outras fitas (Amor Aos Vinte Anos/ L´Amour à 20 ans, Episódio, 62; Beijos Proibidos/Baisers Volés, 68; Domícilio Conjugal/ Domicile Conjugal,70 e Amor em Fuga /L´Amour en Fuite, 78). Também faria outros grandes filmes,  Jules et Jim/Uma mulher para Dois, (1962), sendo o mais famoso deles, enquanto O Ultimo Metrô /Le Dernier Metro (1980) foi o mais premiado (ao menos na França). Nenhum, porém, tão sincero, renovador, humano e autobiográfico quanto Os Incompreendidos.

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5 fevereiro 2012

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O registro de outra morte

john rich O registro de outra morte

Só agora consegui registrar o falecimento do diretor John Rich (1925-2012) que morreu dia 29 de janeiro, em Los Angeles, aos 86 anos. Sua maior importância é que foi um dos mestres do sitcom, dirigindo alguns dos mais famosos da história da televisão americana.

Começou em 1951 com Big Town, seguida por Our Miss Brooks, com Eve Arden, Mr. Ed, A Ilha dos Birutas, O Dick Van Dyke Show, The Brady Bunch, That Girl, All in the Family, Murphy Brown, Benson e o ultimo Payne (1999).  Mas dirigiu outros gêneros como faroestes (Bat Masterson, Gunsmoke, O Homem do Rifle, Bonanza) e realizou também alguns longas de cinema: Esposas e Amantes (Wives and Lovers) (1963), com Janet Leigh e Van Johnson, Torvelinho de Paixões (The New Interns) (1964), com Barbara Eden, Dean Jones, Barbara Eden, Stefanie Powers; O Carrossel de Emoções (Roustabout) (1964), com Elvis Presley e Barbara Stanwyck; Boeing Boeing (Idem) (1965), com Jerry Lewis e Tony Curtis; Meu Tesouro é Você (Easy Come, Easy Go) (1967), com Elvis Presley, Doddie Marshall.

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5 fevereiro 2012

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Mais prêmios importantes para o Oscar

rango blog Mais prêmios importantes para o Oscar
Divulgação

Foram anunciados dois prêmios que servem para prever o que vai suceder no Oscar, o Annie para filmes de animação e os de Direção de Arte.

No Annie, o grande vencedor foi conforme o esperado Rango. Deverá repetir a dose no Oscar. Já o Sindicato dos Diretores de Arte usa critérios diferentes, dividindo os prêmios para filmes de época, ganhou logicamente A Invenção de Hugo Cabret, o meu predileto do genial Dante Ferretti; tema contemporâneo, foi Millenium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres, até pela falta de concorrência; e Fantasia, que foi para o último Harry Potter, que também ganhou um prêmio especial por Cinematic Imagery. Gary Oldman foi o apresentador do prêmio.

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5 fevereiro 2012

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As estreias americanas que eu Assisti (parte 2) – A Perseguição

TheGrey As estreias americanas que eu Assisti (parte 2)   <i>A Perseguição</i>

Este foi o filme de maior bilheteria nos EUA na semana passada, que os analistas estão creditando ao prestígio de Liam Neeson, nesta sua fase de filmes de ação. Acontece que desde que ele perdeu a esposa Nastasha Richardson num acidente horrível de esqui no gelo resolveu esquecer se dedicando ao trabalho.

Isso ao mesmo tempo em que fazia sucesso com um filme de ação europeu (Taken/ Busca Implacável (2008), do qual, aliás, acabou de fazer uma continuação). Apesar de já maduro (nasceu em 1952!) ele continua convincente e parece estar em tudo que é novo filme (incluindo a continuação de Fúria de Titãs, onde é Zeus, a superprodução Battleship A batalha dos Mares, Batman o Cavaleiro das Trevas Ressurge).

Neste aqui que deve estrear pela Imagem em março/abril, ele volta a ser dirigido por Joe Carnahan, que apesar de ter errado com ele no Esquadrão Classe A, antes tinha feito os promissores Narc e A Última Cartada.

É engraçado como a gente sente a mão de um diretor num filme, mesmo quando não tem um estilo em particular. Mas é um capitão comandando um navio, dando uma unidade, uma linha, mostrando o que esta pretendendo enfatizar ou destacar. Esta é basicamente uma historia de sobrevivência passada numa região gelada, aparentemente do Alaska.

TheGrey 2 As estreias americanas que eu Assisti (parte 2)   <i>A Perseguição</i>

Não traz muita novidade a não ser talvez o fato de voltarmos a enfrentar um dos mais velhos inimigos do homem ao menos no cinema, que é a alcateia de lobos famintos. Nada de ETs ou inimigos mais esquisitos. É uma luta entre homem e besta, lutando pela vida cada um por si (o lobo também tem que sobreviver naquela região nevada).

E não se trata de lobisomem, é lobo normal mesmo. Inclusive não foram feitos com efeitos digitais, mas pelo sistema de “animatronics” (mais ou menos o usado pelos Muppets), ou seja mecânico.

Neeson faz um sujeito em crise (não se explica direito do que a mulher bela e jovem morreu mas ele tem sonhos recorrentes dela na cama, até se confundindo realidade e fantasia). Trabalha numa refinaria de petróleo e ele tem a missão justamente de matar os lobos e evitar que ataquem os empregados.

Quando estão vários deles viajando de avião (também se não diz direito de onde para onde, ou por quê), sofrem uma pena e caem em pleno deserto gelado (a cena do acidente é muito bem feita sem ser explicita demais). Escapam com vida apenas alguns deles, se não me engano sete. Que iniciam então uma viagem para tentar chegar em algum lugar, onde haja menos tempestade de neves, menos frio.

Só que logo percebem que o pior inimigo são os lobos (e armados de archotes de fogo eles veem apenas os olhos dos  bichos brilhando no escuro) que são implacáveis adversários. O pequeno grupo somente de homens vai enfrentando perigos (montanhas, desfiladeiros, muita neve, árvores) num filme enxuto, sem conversa fiada e sem concessões, até mesmo no final.

A princípio a conclusão me pareceu abrupta, naquele estilo atual de simplesmente deixar tudo no ar. Mas aqui parece que não havia saída melhor. No final das contas e numa safra fraca, como filme B chega a funcionar.

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