9 fevereiro 2012
Jules Verne
O Pai da Ficção Científica Texto de Adilson de Carvalho Santos.
Em “De Volta Para o Futuro III”, o abilolado cientista Dr. Emmet Brown (Christopher Lloyd) viaja ao velho oeste e se apaixona pela distraída professora Clara Clayton (Mary Steenburgen). Ambos se apaixonam à primeira vista e descobrem afinidade não apenas pelo amor à ciência como também admiração pelo grande autor Francês Jules Verne, considerado até hoje – de acordo com a UNESCO – o mais traduzido da história. Mas, quem foi Verne, tão celebrado por suas obras literárias, e sempre revisitado pelo cinema (sendo a mais recente “Viagem 2: A Ilha Misteriosa” e que por sinal já anuncia como próximo capítulo outra adaptação, Da Terra a Lua, também homenageado por tabela em A Invenção de Hugo Cabret de Scorsese já que o filme mais famoso de Geogre Meliés é justamente esse Da Terra a Lua). Verne se ainda estivesse vivo teria completado 184 anos nesta última Quarta Feira (08).
Jules Gabriel Vernes nasceu na cidade portuária de Nantes, na França, em 8 de Fevereiro de 1828. A Localização de sua cidade, tão próxima do cais, estimularia sua imaginação no que poderia existir no além-mar e isso – somado ao furor da Revolução Industrial – seria o combustível que levaria Verne a criar tantas histórias sobre viagens a terras novas, tantas aventuras que usariam da ciência como motor propulsor das realizações humanas.
Não à toa, Jules Verne – filho de advogado que queria ver seu filho seguir a mesma carreira – combinou todos esses elementos de forma a se tornar o mais prolífico escritor Francês na segunda metade do século XIX. Contra a vontade do pai, Verne se dedicou cada vez menos ao direito e cada vez mais à sua habilidade de criar histórias. Depois de conhecer o fotógrafo Félix Nader – que nutria grande interesse pelo balonismo – Verne iniciou uma pesquisa não apenas pela aviação como também pelo continente Africano – que para o mundo representava na época uma terra ainda cercada de muitos mistérios. A pesquisa minuciosa aliada à habilidade com as palavras fez “Cinco Semanas em Um Balão” (1862) um sucesso entre os leitores, e isso sem que Verne tivesse sequer visitado a África. Com esse sucesso imediato, Verne iniciou amizade e parceria com o editor Pierre-Jules Hetzel, que continuaria por cerca de 40 anos.
Hetzel estimulou a capacidade imaginativa de Verne e publicou suas histórias no periódico “Voyages Extraordinaries” (Viagens Extraordinárias). Foi o início de uma carreira prolífica com Verne nutrindo seus leitores com contos e novelas onde o fantástico convivia com um visionarismo espantoso. Em suas histórias apareceram pela primeira vez um submarino, uma televisão, um míssel teleguiado e outras invenções cuja natureza profética é inegável.
Em seguida vieram “Viagem ao Centro da Terra” (1864) narrando uma viagem a um mundo perdido no interior do planeta e habitado por criaturas incríveis, “Da Terra à Lua” (1865) em que Verne antecipa em um século a viagem do homem ao nosso satélite natural, “Vinte Mil Léguas Submarinas” (1870) trata com olhos críticos o imperialismo das grandes nações, seu domínio sobre as viagens marítimas ao mesmo tempo em que tece um maravilhoso painel das belezas submersas, “A Ilha Misteriosa” (1873) em que um grupo de yankees (abolicionistas do norte dos Estados Unidos) chega a uma ilha cercada de mistérios e perigos e “A Volta ao Mundo em 80 Dias” (1873) que mostra o audacioso Phileas Fogg – um nobre inglês – cruzando o mundo em um balão em uma jornada por novos povos e culturas entre outras. Nessa época, Verne já havia enriquecido muito seus textos com as várias viagens que fizera a bordo de seu iate, uma de suas paixões, e que o levara ao norte da África, outras partes da Europa e em especial em Portugal, onde até hoje o nome de Verne batiza nome de ruas e praças.
Curiosamente, Verne acabou se desfazendo de seu iate por volta de 1886, mesma época em que ficou coxo depois de ser baleado na perna por um sobrinho com problemas mentais. A última obra de Verne publicada um ano antes de sua morte em 1905 foi “O Senhor do Mundo”. Alguns contos inacabados foram terminados por seu filho Michel Vernes (com quem Jules teve uma relação conflituosa ao longo de sua vida). Mais recentemente em 1989, o bisneto do grande escritor publicou “Paris no século XX” que Verne escrevera em 1863, mas que não havia sido publicado na época. Vernes faleceu em Aimens em 24 de Março de 1905.
Verne no Cinema
A ligação de Verne com o cinema começa já no início do século XX quando o visionário Georges Meliés adaptou em 1902 o texto de “Da Terra à Lua”, tornando-se um clássico dos primórdios da sétima arte.
Imagens como o lançamento do projétil cônico que perfura a lua tornaram-se um marco histórico dentro da história do cinema. Em 1905, a primeira adaptação de “20000 Léguas Submarinas” no cinema americano (De acordo com o site IMDB) foi um curta de 18 minutos mudo dirigido por Wallace McCutcheon. Dois Anos depois, George Meliés voltou a Verne em “20000 lieues sous les mers” Ainda em 1929, a história de “A Ilha Misteriosa” ganhou as telas em uma adaptação. Contudo, foi preciso uma maior evolução das técnicas de filmagem e dos efeitos visuais para que Jules Vernes tivesse sua obra transposta para o cinema com melhor resultado.
Em 1954, Richard Fleischer fez de “20000 Léguas Submarinas”.
(“20000 Leagues Under The Sea”) o primeiro filme live-action da Disney e o resultado foi o Oscar de efeitos especiais. A batalha do arrogante Capitão Nemo (James Mason) com a lula gigante foi de um realismo impressionante para uma era não digital. Nemo representava o gênio indomável inconformado com os rumos da civilização e fazendo dos mares seu território a bordo do fabuloso Náutilus, o primeiro submarino criado pela imaginação humana. O Capitão Nemo voltaria ao cinema vivido por Robert Ryan em “Capitão Nemo & A Cidade Flutuante” (Captain Nemo & The Underwater City - 1969) e na Tv vivido por Jose Ferrer em “O Fantástico Capitão Nemo” (The Amazing Captain Nemo - 1978). O texto original de Verne ainda seria readaptado como minissérie televisiva em 1997 com Michael Caine vivendo Nemo.
Trocando os mares pelos ares, Jules Verne levou todos a uma viagem fascinante em um balão acompanhados de Phileas Fogg, papel que coube a David Niven na adaptação produzida por Mike Todd em 1956 de “A Volta ao Mundo em 80 Dias”, vencedor do Oscar de melhor filme. Nele ainda aparece o comediante mexicano Cantinflas como Passe-partout – o criado de Phileas Fogg e Shirley MacLaine, aos 22 anos, como a princesa Aouda. Foi após a realização dele que Mike Todd, então marido da diva Elizabeth Taylor morreu de desastre de avião. Em 1989, a Tv revisitou a obra de Verne em uma minissérie tendo Pierce Brosnan (antes de 007) no papel de Phileas Fogg. Ainda houve uma versão mais recente em 2004, dirigida por Frank Corci com Steve Coogan no papel de Fogg e Jackie Chan no papel de Passe-partout. Retrocendo ainda mais no tempo, não poderia deixar de se mencionar a versão feita na Alemanha “Die Reise um die Erde in 80 Tagen” que trouxe Conrad Veidt (Alguém se lembra do Major Strasser de Casablanca?) no papel de Phileas Fogg. A força do texto de Verne não conhecia fronteiras geográficas ou línguas.
O fascínio de Verne pelo balonismo ainda aparece em “Cinco Semanas em um Balão” adaptado em 1962 pelo famoso Irwin Allen e estrelado por Red Skelton e Barbara Eden (a Jeannie do seriado de TV). Viagens por terra inexploradas era uma característica de vários trabalhos de Jules Verne como “A Ilha Misteriosa” (Mysterious Island), feito em 1961, com Michael Craig e Joan Greenwood e que teve os efeitos especiais do genial Ray Harryhausen. Curioso à aparição aqui do personagem do Capitão Nemo, vivo depois dos eventos narrados em “20000 Léguas Submarinas”, vivido por Herbert Lom (mais conhecido como o Inspetor Dreyfuss dos antigos filmes de “A Pantera Cor-de-Rosa” com Peter Sellers). A Viagem mais audaciosa ainda foi a empreendida pelo Professor Oliver Linderbrook (James Mason) seguindo o rastro deixado pelo explorador Arnem Saknussen na clássica história “Viagem ao Centro da Terra” (Journey to the Center of the Earth) realizada em 1959 com direção de Henry Levin. O filme ainda trazia no elenco o ator e cantor Pat Boone e Diane Baker. Esta história serviu como base para a versão de 2008 feita em 3D e que não se trata bem de uma adaptação, mas uma aventura com metalinguagem já que Fraser faz um viajante que descobre que o relato de Verne é real. Chegamos assim a essa “Viagem 2: A Ilha Misteriosa” que costura várias narrativas de Jules Verne, sobrando até referências a “Viagens de Gulliver” de Jonathan Swift. Nada mal para um autor que morreu há 107 anos.










































