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12 maio 2012

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Primavera em Nova York 2012 – Primeira parte

best man curtain call e1336740947225 Primavera em Nova York 2012   Primeira parte

Chuva leve e uma temperatura agradável. Mas sem sol o Times Square fica frio e sem graça. Costumo vir todos os anos para Nova York nesta época porque é o momento estratégico em que estão em cartaz todas as melhores peças da temporada que desejam concorrer ao Tony, ou seja, o Oscar do teatro.

É também o momento em que fecha aquilo que não deu certo e desde que estou aqui duas já anunciaram seu fechamento, uma comédia chamada Seminar, que estava com Jeff Goldblum e um musical caro chamado Leap of Faith (versão de um filme chamado Fé Demais) e Cheira Mal, que era com Steve Martin, o show e com Raul Esparza.

A crítica acabou com ele chamando-o de buraco negro e vai fechar neste fim de semana. Eu já tinha decidido não vê-lo já que tem outras opções boas em cartaz. Ah, também saiu a notícia pela TV que vai fechar o musical Como Vencer na Vida sem Fazer Força.

Mas isso já era previsível desde que largou o show o Daniel Radcliffe (Harry Potter, com quem eu vi e gostei muito). Quem está em cartaz, ao menos nesses dias ainda, é Nick Jonas, um dos Jonas Brothers da Disney (talvez o mais inexpressivo, não tem cara de nada, nem suas fãs conseguiram segurar a bilheteria).

Diante da necessidade de escolher, eu vou deixar de ver uma nova montagem de Um Bonde Chamado Desejo só com atores negros, a comédia Harvey (só estreia no dia seguinte ao que vou embora), a comédia All Black, premiada com o Pulitzer, Clybourne Park, Evita (já vi demais), o erótico Venus in Fur,  Magic/Bird sobre basquetebol (outra que está fechando), remontagens de Godspell e Jesus Christ Superstar (ambas elogiadas, mas já vi muitas versões e não dá par ficar mais tempo). Enfim, a vida é sempre uma escolha e não se pode ter tudo... Palavras que consolam.

Comecei no dia em que cheguei - porque achei que era um início com chave de ouro- assistindo Gore Vidal’s The Best Man, que ele escreveu no começo dos anos 60 e que contém referências a infidelidade do presidente Kennedy!

Há uns poucos anos teve outra remontagem que perdi, mas lembro bem do filme, que foi chamado aqui ridiculamente de Vassalos da Ambição. Dirigido por Franklin Schaffner, tinha Cliff Robertson, Henry Fonda e me lembro que era em preto e branco e tinha certo impacto porque foi dos primeiros filmes a tocar no assunto de homossexualismo (o jovem candidato a indicação para concorrer à presidência de um partido, é suspeito de ter tido no passado ligações homossexuais quando serviu o exército).

Esta montagem é notável pelo elenco que reuniu, começando por Angela Lansbury (na verdade é uma participação especial com apenas duas cenas longas e não havia mesmo porque ser indicada ao Tony), que faz uma matrona fofoqueira moralista com seu tom habitual um pouco over the top.

Mas acho sempre um privilégio ver esta lenda viva em cena, uma das poucas sobreviventes e em ação (é a terceira vez que a vejo com sua bengalinha depois de  A Little Night Music e Blithe Spirit).

Quem rouba literalmente a montagem e foi indicado ao Tony é outra figura lendária, o James Earl Jones, que é a voz da CNN e o Darth Vader, que eu já tinha encontrado, mas nunca tinha visto em cena. Embora veterano ele dá um show

Vibrante e versátil encontrando novos tons na figura de um antigo presidente americano que está morrendo de câncer e na dúvida de quem apoiar. Chegou mesmo em ser aplaudido em cena aberta com todo respeito.

Além disso, é um prazer se ouvir um texto inteligente de Gore Vidal, cheio de frases notáveis dignos de um Oscar Wilde. Claro que é coisa de teatro (hoje saiu uma reportagem no New York Times justamente comentando isso)!

Por acaso no dia era também aniversário de uma das estrelas do elenco, Candice Bergen. Que tem outras grandes frases além desta: Gosto de pensar que inteligência seja contagiosa. Infelizmente, não é !

Parece-me que é a primeira vez que Candice faz teatro. Ela se tornou uma senhora matrona e pesada, mas fez uma plástica que lhe devolveu o mesmo rosto bonito da juventude.

Ela faz a esposa separada do outro candidato que é John Larroquete, mas que voltou para apoiá-lo na campanha eleitoral.

Nem é preciso dizer que a peça foi montada porque este é o exato momento em que estão ocorrendo as convenções republicanas (a peça não diz qual é o partido, mas tudo indica ser o Democrata, até porque é uma licença poética ter tido um presidente negro nos anos 50, como seria o caso de Earl Jones. Ele só foi presidente americano num telefilme).

Toda a encenação é como se fosse a convenção e até as indicadoras de lugar usa um chapeuzinho das cores norte-americanas. Tem um locutor e as imagens ainda em preto e branco. Embora a maior parte da ação se passe nos apartamentos do hotel.

O, geralmente, humorista Larroquete faz com competência  o ex-secretário de Estado William Russell, que tem um defeito grave para político, não sabe e não gosta de mentir.

Culto e inteligente (ou seja, mais dois defeitos), ele não quer usar golpes sujos, mas é obrigado a agir quando o rival ameaça usar um arquivo médico que fala de seus problemas quando teve uma crise de nervos.

O elenco é enorme (28 pessoas) e hoje na Broadway quase não tem diferença de preço entre musical e peça normal, está tudo perto dos 150 dólares por ingresso (eu tive que pagar 200 por caixeiro viajante porque está lotando). Mas considerando o preço de shows no Brasil não há nada de se estranhar.

Deixa eu falar o, porém das decepções: O ponto fraco da montagem é a presença de Erin McCormack da série de TV Will e Grace, que é o político ambicioso. Fique mal impressionado com sua figura. Ele baixo, muito fraco, não tem porte ou presença.

É leve demais para fazer bandido e erra totalmente na escolha de como fazer o que seria o vilão, aquele que é capaz de tudo para vencer, usando todas as armas. Mas ele faz o personagem sem humanidade, já se vê que é bandido na primeira cena e vai assim até o final.

Pode ter sido a linha que lhe deu o diretor no caso Michael Wilson (nada de notável em seu currículo) porque a atriz que faz sua esposa (Kerry Butler, vinda de musicais como Xanadu, Catch Me If You Can) está caricata e ridícula.

Pode ser que o texto tenha muitas coisas datadas, mas achei ele pertinente, porque o mundo e a política como se bem sabe só piorou. Por que Gore não escreve mais para o teatro, é uma pena. Como foi um prazer confirmar minha admiração por Earl Jones e rever Ângela.

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11 maio 2012

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Festival Katharine Hepburn – 105 anos

Por coincidência, este mês três grandes astros estariam comemorando 105 anos e por isso o TCM realiza festivais com todos eles, John Wayne, Laurence Olivier e o primeiro deles com Katharine Hepburn.

O especial Katharine Hepburn vai ao ar hoje.

13h - LEVADA DA BRECA (Bringing Up Baby, 1938, classificação indicativa livre)

14h55 - NÚPCIAS DE ESCÂNDALO  (The Philadelphia Story, 1940,

17h - ADIVINHE QUEM VEM PARA JANTAR (Guess Who's Coming To Dinner, 1967,

Os filmes do Festival 

Levada da Breca/Bringing Up Baby. Preto e branco. 1938.Diretor: Howard Hawks

13 Festival Katharine Hepburn   105 anos

Elenco: Cary Grant, Katharine Hepburn, Barry Fitzgerald, Charles Ruggles, May Robson, George Irving, Fritz Feld, Ward Bond, Jack Carson. 

Sinopse: David, um paleontólogo que está para se casar conhece Susan, uma excêntrica herdeira que tem um leopardo, Baby (que o irmão trouxe do Brasil e que só fica calma quando ouve a canção I Can´t Give You Anything But Love). Susan está decidida a se casar com ele, de qualquer maneira.

Comentários: Uma das comédias mais famosas e queridas de Hollywood, originalmente da RKO (foi votada em décimo quarto lugar pelo AFI dentre as melhores de todos os tempos), considerada a obra-prima do gênero “screwball comedy” (comédia maluca) e que Bogdanovich tentou refazer com Esta Pequena é uma Parada (What´s up Doc?, 72) com Barbra Streisand e Ryan O´Neal.

A dupla nunca esteve melhor, muito bem conduzida por Hawks (seu timing de humor é um primor). Há muita energia, numa autêntica batalha dos sexos (e das estrelas), vários momentos memoráveis (inclusive com o célebre cachorro Asta, da série Thin Man). Sai numa cópia de boa qualidade (uma novidade é que coloca opção de dois tamanhos de legendas).

Não foi indicada a qualquer Oscar. O público atual não está acostumado com o gênero, com suas sutilezas e elegância, misturadas com o clima de farsa.

Núpcias de Escândalo/The Philadelphia Story. Preto e Branco. 1940. Diretor: George Cukor. Elenco: Cary Grant, Katharine Hepburn, James Stewart, Ruth Hussey, John Howard, Roland Young, John Halliday, Mary Nash, Virginia Weidler.

22 Festival Katharine Hepburn   105 anos

Sinopse: Ex-marido retorna para reconquistar Tracy, quando ela está para se casar com outro.

Comentários: Você deve conhecer melhor a refilmagem musical de 1956, chamada Alta Sociedade, com Bing Crosby, Frank Sinatra e Grace Kelly. Mas esta que é a obra prima. Uma deliciosa comédia Screwball, com um elenco excepcional, em plena forma.

De tal maneira que até James Stewart ganhou o Oscar de Melhor Ator (embora tenha sido um prêmio de consolação por ter perdido no ano anterior por A Mulher Faz o Homem). Ganhou ainda o prêmio de roteiro, e foi indicado também para Melhor Atriz (Hepburn), Coadjuvante (Ruth), Diretor e Filme.

Uma produção da Metro com que Katharine voltou a fazer sucesso (ela havia sido considerada veneno de bilheteria e para seu retorno, pediu para que o amigo Philip Barry lhe escrever especialmente esta peça, que montou com sucesso na Broadway. Depois impôs ao estúdio: só venderia os direitos com ela como estrela).

É uma lição de comédia com um timing perfeito, na história da milionária mimada que vai se casar com o homem errado. O ex-marido Grant vem com dois repórteres de uma revista de escândalo, tentando impedir as núpcias. Há ótimas piadas e coadjuvantes. 

Adivinhe QuemVem Para Jantar/Guess Who’s Coming to Dinner.108 min.Cor.1967

32 Festival Katharine Hepburn   105 anos

Diretor: Stanley Kramer. Elenco: Katharine Hepburn, Spencer Tracy, Sidney Poitier, Katharine Houghton, Cecil Kellaway, Beah Richards. Sinopse: Um velho casal liberal fica chocado quando sua única filha lhes apresenta o noivo: um negro.

Último filme de Tracy (1900-1967), que faleceu dias depois do fim das filmagens. Teve uma indicação póstuma ao Oscar, mas quem ganhou foi sua companheira, Katharine, que passa o filme todo com os olhos marejados de lágrimas.

É incrível que este filme tenha sido grande sucesso de bilheteria, em particular nos EUA, ao simplificar as situações. O negro é quase um super-homem: bonito, educado, rico, instruído etc. Além de tudo, Poitier era na época o número um de bilheteria. Sua pseudo-liberalidade envelheceu mal, mesmo como Love Story (o tema musical é uma antiga canção chamada Glory of Love).

A filha de Kate é, na vida real, sua sobrinha bonitinha na vida real, mas que não fez carreira. Também premiado com o Oscar de roteiro. Lançado como clássico.  Mesmo agora que se revela que o romance do casal era apenas fachada e farsa!

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10 maio 2012

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Uma Longa Viagem, documentário de Lúcia Murat, narrado por Caio Blat

Uma Longa Viagem <i>Uma Longa Viagem</i>, documentário de Lúcia Murat, narrado por Caio Blat

Dificilmente se vê um documentário tão criativo, original e emocionante quanto este Uma Longa Viagem, que foi premiado no Festival de Paulínia (pela crítica) e Gramado (Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Direção de Arte, Prêmio do Júri Popular e Prêmio Estudantil).

Em geral todos os trabalhos da diretora Lúcia Murat tem um padrão alto de qualidade e empenho, mas nunca como aqui, onde ela conta uma história autobiográfica, relembrando sua própria vida e a de seus dois irmãos. Nos anos 70, Lúcia foi presa pela ditadura por seu trabalho de militante enquanto seus dois irmãos tomam caminhos diferentes.

Uma Longa Viagem 2 <i>Uma Longa Viagem</i>, documentário de Lúcia Murat, narrado por Caio Blat

O mais curioso é o do caçula que foi vai para Londres em 1969, enviado pela família para não entrar na luta armada seguindo os passos da irmã. Durante os nove anos em que viaja pelo mundo, ele escreve cartas. O documentário prossegue o release mostra os anos loucos, quando drogas, misticismo e rock’n’roll andavam juntos pelas estradas mundo afora. Contrapondo-se às cartas, os comentários em off da irmã e diretora, Lúcia Murat, o irmão fica marcado pelo uso contínuo de drogas, mas não perde nem a inteligência, nem a sensibilidade. Na verdade, ele é um incrível ator, no melhor sentido, fazendo com que a gente ria com ele e não dele.

Lucia é a narradora principal, utilizando fotos e imagens antigas, mas principalmente recriando as cartas e algumas situações através de sets e cenas especialmente montadas, usando com criatividade a interpretação do sempre bom ator Caio Blat. Não é como a maioria dos filmes um suceder de talking heads, cabeças falantes que falam sobre os assuntos.

Tudo é revisto pela sensibilidade da diretora, auxiliada pela fotografia, direção de arte, trilha musical. É uma revisão pessoal, mas também emocional e coletiva de mais de uma geração, um filme sobre a memória, a vida, a morte, a passagem do tempo. Um trabalho belíssimo e fora do normal que merece ser prestigiado.

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10 maio 2012

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Estreia – Piratas Pirados! (Pirates! Band of Misfits)

pirata3 ok Estreia   <i>Piratas Pirados!</i> (<i>Pirates! Band of Misfits</i>)
Sou grande fã de Fuga das Galinhas, o longa anterior deste mesmo diretor Peter Lord, em parceria com Nick Pack, que teve mais publicidade e que levou parece que seis anos preparando este novo filme de animação dos estúdios da Aardman, os mesmos que fazem os filmes de Wallace & Gromit, que passa aqui sem o atrativo maior das vozes originais (por exemplo,  a voz do Capitão Pirada é de Hugh Grant e entre seus parceiros temos nomes famosos e grandes atores como Martin Freeman, Brendan Gleeson, Imelda Stauton- como a Rainha Vitória! - David Tennant, como Darwin, Jeremy Piven, Salma Hayek, Brian Blessed).

A dublagem nacional é competente embora tome certas liberdades discutíveis como dar sotaque nordestino a um dos piratas! Mas o filme merece todo o respeito porque, embora tenha alguma animação digital, por exemplo, o oceano e alguns detalhes como o monstro marinho e a baleia, ele é quase todo feito com a velha técnica de Clay animation, ou seja, tudo é movido quadro a quadro, lentissimamente e com imensa paciência. Também tem alguns problemas de targeting, já que seu humor é repleto de citações. A grande vilã é a Rainha Vitória do Império Britânico que se revela uma glutona que gosta de comer bichos raros!

piratas ok Estreia   <i>Piratas Pirados!</i> (<i>Pirates! Band of Misfits</i>)

 O outro é  justamente Charles Darwin, da Teoria das Espécies. E entre as figuras famosas de sua época que surgem de coadjuvantes estão a autora Jane Austen e o até o Homem Elefante! Portanto, tem muita coisa que não vai ser compreendido pelas crianças (a meu ver falta também mais música, fala-se tanto das canções dos piratas, mas elas não são mostradas). Mas apesar de tudo, assisti ao filme com crescente prazer e alegria, já que toda a tripulação de Piratas é atrapalhada e mesmo ingênua.

Ainda que tenha sentido no filme um sub-texto gay que me pareceu curioso (há, por exemplo, uma mulher que usa barba postiça e se faz passar por homem, um personagem intrigante que não é desenvolvido. Há também uma suspeita relação do capitão com seu imediato. Mas isso deve passar batido pelos menos atentos).

 O que fica é a brincadeira com o Capitão Pirata que deseja ser escolhido o Pirata do Ano, mas seus feitos são poucos e nada rendosos. Parece difícil conseguir isso até que o cientista Darwin identifica seu pássaro de estimação como o famoso Pássaro Dodô (a mais famosa ave extinta da história recente) que ele tenta levar de modo nada honesto para Londres, para concorrer a um Prêmio da Academia de Ciências. O problema, porém, é que a Vitória odeia especialmente Piratas!

piratas1 ok Estreia   <i>Piratas Pirados!</i> (<i>Pirates! Band of Misfits</i>)

Mais não é preciso dizer, o filme tem roteiro do autor original das histórias, Gideon Defoe, que escreveu The Pirates! In Adventure with Scientists e Adventure with Whaling. E tudo funciona muito, inclusive para adultos. O difícil vai ser conseguir convencê-los a assistirem ao filme, já que as crianças americanas não embarcaram (por lá não rendeu mais do que U$S 14 milhões, o que é muito pouco em especial para o gênero e 3D)!

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10 maio 2012

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Estreia – O Exótico Hotel Marigold

rubens 03 Estreia   <i>O Exótico Hotel Marigold</i>

The Best Exotic Marigold Hotel - Inglaterra, 2012 (data de lançamento original). Direção de John Madden. Roteiro de Ol Parker baseado em livro de Deborah Moggach. Com Judi Dench, Maggie Smith, Tom Wilkinson, Bill Nighy, Penelope Wilton, Dev Patel, Celia Imrie, Ronal Pickup.Fox.

Com este se filme se aprimora um novo tipo de gênero de filmes que já via começando a acontecer, principalmente na sala Reserva Cultural de São Paulo. Se não tiver exibindo o filme, será um grande erro porque é a cara de seu público.

É o mais evidente e mais bem-sucedido filme indicado para espectadores da terceira idade, ou um pouco menos. Acho perfeito que o cinema seja multifacetado e tenha produto para todos os gostos, neste caso, o mesmo público Minhas Tardes com Marguerite vai se envolver neste projeto que é baseado em livro de Deborah Moggach (Tulip Fever e o roteiro de Orgulho e Preconceito) adaptado pelo também diretor Oi Parker (deImagine Eu e Você, Now Is Good).

Quem dirige é John Madden,que fez Shakespeare Apaixonado e que desde então não acertou mais nada o que nos leva a pensar que o resultado tenha sido influenciado por demais pelo produtor da então Miramax Harvey Weinstein. Seus outros filmes foram o fraco Capitão Corelli, A Prova, e os já esquecidos Tiro Certo e No Limite da Mentira. Mesmo aqui o mérito é do excepcional elenco e nem tanto dele, que deixa o filme meio desengonçado, impessoal. A história não deixa de ser interessante.

rubens 02 Estreia   <i>O Exótico Hotel Marigold</i>

Um grupo de sete idosos de diferentes procedências, mas quase todos com problemas de dinheiro agora no fim da vida acabam se encontrando num hotel na Índia que dizia ser o lugar perfeito para eles passarem os anos cinzentos onde pouca coisa pode acontecer. Logicamente é uma fantasia porque qualquer pessoa com bom senso jamais iria para um país tremendamente quente, barulhento, onde elefantes e vacas tem mais respeito que ser humano.

Onde as facilidades médicas certamente seriam difíceis para estrangeiros, ao contrário do que o filme mostra, onde há dificuldade extrema para banho (e por isso odores terríveis, causados também pela mania de fazerem necessidades nas ruas e não tem papel higiênico). Pode ser alegre, feliz mas qualquer lugar onde ainda existem pessoas que são desprezadas apenas por sua casta social de intocável como mostra o filme esta muito longe de ser um paraíso. Neste caso é um rapaz que esta tentando salvar o decadente hotel que era de seu pai (o papel é feito com entusiasmo pelo rapaz de Quem Quer Ser um Milionário, Dev Patel) e tenta cuidar de seus convidados.

A protagonista é Judi Dench, que é também a narradora da história (porque tem um blog) que ficou viúva recentemente e tem que pagar dívidas do marido (que ignorava). Há também um casal conformado com a esposa megera e insuportável (ele Bill Nighy, ela Penelope Wilton), um juiz aposentado (Tom Wilkinson) com um segredo, um mal sucedido Don Juan sem dinheiro (Ronald Pickup) e uma mulher madura (Celia Imrie) que veio tentar conseguir marido.

Todos os atores são ótimos, mas não posso deixar de pensar como teria sido mais estrelar caso tivessem aceitado o papel os antes convidados, respectivamente Peter O´Toole e Julie Christie. O segredo do juiz é tentar reencontrar o amor de sua juventude, um indiano por quem foi apaixonado e que pensa que estragou a vida. Ele é bastante assumido como gay, mas nunca fez nada a respeito disso e esta parece ser sua última tentativa, num momento de bastante emoção.

rubens Estreia   <i>O Exótico Hotel Marigold</i>

Já que o filme afirma que é possível ainda o amor nessa fase da vida (Judi Dench é outra que tem um romance ainda que discreto, mas pelo qual a gente torce). Deixa-se de lado as coisas desagradáveis, como a comida apimentada que provoca dores de barriga, o que é resolvida numa pequena montagem de bom gosto, mas pouca verdade. Não faltam também os problemas locais, Dev tem uma namorada com quem transa, mas isso causa problemas com sua mãe conservadora que também deseja fechar o hotel.

Deixei de lado de propósito a figura mais marcante do filme que é a extraordinária Maggie Smith (duas vezes vencedora do Oscar, atual sucesso em Downtown Abbey, uma mestre da frase ferina). Ela faz uma mulher mal humorada que anda de cadeira de roda (precisa de operação no quadril), é xenófoba e racista (coisa comum na Europa) e trabalhou anos como governanta de uma casa, de onde foi dispensada sem maiores afetos. Agora é amarga e difícil.

É óbvio que sofrerá transformações, mas não tão evidente a maestria que a já veterana e nunca bela atriz tem de sua arte, que Maggie é sempre um show a parte e razão suficiente para ver o filme. Todas minhas restrições vocês perceberam, foram pelas liberdades que o cinema toma com a realidade quando justamente este é justamente o encanto maior dele. E ainda mais para uma idade que precisa de consolo e esperança. O filme que estreia esta semana também nos EUA é um veículo para esses maravilhosos atores que demonstram que talento não envelhece.

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10 maio 2012

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Estreia – Battleship – A batalha dos mares

Battleship – Batalha dos Mares (Battleship). EUA, 12. Direção de Peter Berg. 131 min. Universal. Com Taylor Kitsch, Liam Neeson, Alexander Skasgaard, Peter MacNicol, Rhianna e Brooklyn Decker.

bate 6 Estreia   <i>Battleship – A batalha dos mares</i>

Estreando no Brasil e no resto do mundo antes dos Estados Unidos, este videogame disfarçado de filme, na verdade, tem uma origem muito curiosa.

É uma adaptação de um jogo de tabuleiro muito antigo (não como eu cheguei a pensar daquele jogo Batalha Naval que eu brincava no ginásio!) que tinha a distinção de ser para valer, ou seja, a meta era realmente matar o rival não lhe roubar um terreno ou coisa que o valha.

bate 1 Estreia   <i>Battleship – A batalha dos mares</i>

Fizeram então esta variante que é basicamente um longo game, que lembra por demais Independence Day e qualquer outro filme de invasão de alienígenas, sendo que, com a variante atual, o ser humano não é só vitíma, nossos governantes são culpados porque no começo do filme se explica que encontraram um Planeta G (não de sexo) que fica a mesma distância do Sol que a Terra e que, portanto pode existir vida semelhante a nossa.

Isso não impede que eles mandem uns raios para lá, o que certamente provocou a retaliação. Agora os ETs é que estão invadindo a Terra com naves supermodernas e que vão parar no meio do Oceano, justamente estão acontecendo jogos de guerra.

bate 4 Estreia   <i>Battleship – A batalha dos mares</i>

Ou seja, a marinha americana está treinando seus homens, equipamentos, e justamente aí que entra a história central. Um sujeito chamado Alex Hopper é um cara rebelde e pretensioso, que não ouve os conselhos do amigo e irmão. Por isso está sempre se dando mal, principalmente quando tenta conquistar uma bela loira (Brooklyn), que é filha de um Almirante (Liam Neeson, que tem uma participação pequena no começo e  no final do filme).

Quem faz o papel principal é justamente aquele Taylor Kitsch que quase faliu a Disney (ao menos fez com que o chefão da empresa fosse mandando embora) com o mega fracasso de John Carter de Marte.

bate 3 Estreia   <i>Battleship – A batalha dos mares</i>

Percebendo isso ele deve ter pedido um favor para o diretor deste filme que é o Peter Berg, o mesmo que o revelou na série Friday Night Lights. E novamente não deixa uma impressão favorável, tem pretensões a ser Johnny Depp, fala tudo rouco e sussurrando porque deve achar mais sexy. Está melhor do que noutro filme, mas não se redime.

Temos que aguentar o Sr. Kitsch durante meia hora quando finalmente começa a aventura, quando ele tem a missão de tocar na nave inimiga que dali em diante irá atacar violentamente toda a frota americana.

bate 5 Estreia   <i>Battleship – A batalha dos mares</i>

Por que este é outro daqueles filmes que se deliciam em destruir o mundo, com destaque para Hong Kong. Mas politicamente ele abre para o Oriente porque há um rival oriental (ele brinca com ele a respeito do livro  Arte da Guerra), que eventualmente terá a ideia básica para enfrentar e vencer os ETs (não vão dizer que estou contando o filme já que a conclusão é óbvia).

Os efeitos são competentes como de hábito sendo que, desta vez, conseguem algumas variantes com as bombas e as naves, fora o fato de ocorrerem principalmente no Oceano. As mais interessantes parecem bolas de fogo, melhor dizendo bolas de fogos de artifício.  

bate 2 Estreia   <i>Battleship – A batalha dos mares</i>

Da cantora Rihanna não há o que dizer já que ela tem meia dúzia de frases ridículas e se esconde em um uniforme militar. Do filme também não guardei grandes lembranças a não ser a confirmação de que mais uma vez, a estética de videogame esta se tornando mais importante no gênero do que a do cinema.

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9 maio 2012

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100 anos de Paramount – Revisitando Chinatown

Chinatown 100 anos de Paramount   Revisitando <i>Chinatown</i>  

Chinatown (Idem) Blu-Ray (Brasil). Policial/Suspense. EUA, 1974. Produzido por Long Road/Paramount/Robert Evans. Direção de Roman Polanski. Roteiro de Robert Towne. Fotografia de John A. Alonzo. Música de Jerry Goldsmith. Elenco: Jack Nicholson, Faye Dunaway, John Huston, John Hillerman, Perry Lopez, Diane Ladd, Roman Polanski, Darrell Zwerling, James Hong, Bruce Glover, Burt Young, Lance Howard. Cor. 130 min Áudio e Legendas: Inglês, Francês, Português, Espanhol.

Sinopse: Em Los Angeles, em 1937, o ex-policial que era sediado em Chinatown, agora detetive particular Jake (J.J.) Gittes é contratado por uma mulher para investigar seu marido que trabalha na Cia que traz água e força para a cidade. Um caso aparentemente simples que aos poucos se complica, quando se descobre que ela não é a esposa.  

Comentários: Junto com Ladrão de Casaca, estes são os dois primeiros filmes clássicos da Paramount que estão sendo lançados aqui no Brasil em Blu-Ray para comemorar o centenário dos estúdios da Paramount. Ambos têm notável qualidade de imagem e respeito ao original e merecem um lugar na sua coleção. Eu assisti ao filme pela primeira vez numa viagem a Buenos Aires e não gostei, já era crítico e não me conformei com minha atitude. Depois fui ver de novo e percebi que havia reagido como espectador comum, que rejeita um final não-feliz tradicional, quando este era justamente uma das maiores qualidades do filme, fugir do convencional. Acabei fazendo a crítica favorável na certeza hoje comprovada que este era um dos melhores filmes da época, e provavelmente a obra prima do gênero. Difícil de classificar, meio suspense, meio policial, muito mais próximo do film noir dos anos 40, até mesmo com sua resolução trágica e pessimista.

Chinatown2 100 anos de Paramount   Revisitando <i>Chinatown</i>

Muitos diretores já sonharam em fazer um film noir moderno, ou seja, colorido, com técnica atualizada, mas respeitando o clima fatalista e em voga no cinema americano dos anos 40. Estranhamente, foi um polonês, Roman Polanski, que chegou mais perto com essa fita. Ela tem uma moral extremamente ousada, afirmando que “nas circunstâncias certas, qualquer pessoa é capaz de cometer qualquer coisa, seja crime ou pecado”. Recusando a facilidade,  é uma fita longa, complicada, com uma história cheia de meandros e reviravoltas que nem sempre o público é capaz de acompanhar. Aliás, exatamente como deve ser um autêntico film noir.

O título é um pouco enganador, o máximo que se vê do bairro chinês são alguns letreiros e um pedaço de rua (a Chinatown famosa é a de São Francisco e não a de Los Angeles onde se passa a história). É muito boa a ideia dos letreiros em preto e branco com a tela na proporção antiga e não widescreeen, para só depois passar para o colorido, ainda assim, Polanski usa somente tons pastéis e cores neutras, como se estas fossem realmente as cores da década de 30, da Depressão. A música está igualmente bem colocada. O belo tema de amor, só aparece quando o relacionamento dos personagens se torna mais sério. Aliás, se sabe hoje que o diretor recusou a trilha musical original, por sugestão de seu amigo compositor Brosnilau Kaper que a achava muito ruim. Contrataram o famoso Jerry Goldsmith, que fez a trilha em apenas nove dias, de uma incrível simplicidade, basicamente apenas um tema de pistom. Mas que marcou o filme.

Trechos da trilha original de Philip Lambro ainda podem ser ouvidos no trailer do filme. A direção de Polanski é sem truques, limpa, direta e ganha muito quando se fixa nos atores. Ele gosta de cenas longas com poucos movimentos da câmera, mas adota sempre o ponto de vista do herói, quase sempre só sabemos o que ele sabe e vê. Por isso que Jake é filmado com tanta frequência de costas.  Há algumas cenas que se tornaram antológicas: o momento de amor no banheiro, a confissão aos tapas (que foram dados de verdade, quando não dava certo de outra maneira), o tiroteio final. John Huston, que na década de 40 fez a reputação em fita do gênero como A Beira do Abismo e Relíquia Macabra, interpreta o velho Noah, como se fosse quase como uma homenagem a ele.

Chinatown3 100 anos de Paramount   Revisitando <i>Chinatown</i>

O roteiro mistura corrupção política com crimes misteriosos, capangas sanguinários e finais surpreendentes. O detetive particular Jake Gittes, está na tradição do gênero: é honesto, tem seu código de honra e uma amargura no passado. Mas também é ingênuo (embora se ache muito esperto).  É curiosa a ideia de fazê-lo usar um curativo no meio da cara em grande parte da fita. Gosto particularmente da frase final: “Esqueça, é Chinatown!” Mas as revelações finais foram na época chocantes, tornando o filme um estudo sobre as aparências. Nada é aquilo que parece ser, por trás de cada rosa, há o estrume que a faz crescer. Tal profundidade, tal fatalismo é fácil de se entender vindo de uma figura tão sofrida, tão soturna como Polanski. Este foi o filme que consagrou definitivamente Nicholson e trouxe outro belo trabalho de Faye Dunaway superando uma maquiagem ingrata e um personagem difícil (ela orientalizou seu rosto, enfeiando-o, usando um tipo de maquiagem que ela copiou de sua própria mãe). Ao ver o filme, a gente sente exatamente a emoção de se perder um amor, seja aqui ou em Chinatown.

Conta o roteirista Robert Towne (que fez depois Shampoo, Dias de Trovão, Missão Impossivel 1 e 2) num featurette nesta edição que a ideia do filme surgiu quando conheceu um policial que era sediado em Chinatown, mas tinha ordens de não intervir ou interferir em nada. Por isso que escolheu o lugar para ser pano de fundo.  Certa época ele e Jack Nicholson haviam morado juntos e trocaram muitas ideias sob o projeto que originalmente seria uma trilogia sobre a cidade de Los Angeles, começando em 1937 e terminando em 1953. A intenção é que elas fossem feitas com o intervalo certo entre elas (ou seja, os atores envelheceriam assim como os personagens). Mas cada vez que pesquisava o assunto, Towne ia descobrindo mais absurdos e escândalos, na administração de LA (que sempre foi famosa por ser muito corrupta, tanto na policia quando dentre os políticos).

Para se ter uma ideia, nesta edição há um extra de uma hora e quinze sobre o tema, dissecando o assunto e mostrando Town e visitando o aqueduto original. Basicamente, houve uma negociata. Os políticos resolveram ir buscar águas nas montanhas de Sierra Nevada/Owens Valley e trazerem a água para a cidade, tornando o lugar original um deserto e lesando os fazendeiros locais (de quem compravam as terras a preço de banana). É isso que o filme denuncia e que pode ser complicado para o leigo entender. O documentário é longo demais e tem uma trilha muito chata, mas ao menos deixa tudo muito explícito. Era nesse tipo de jogada que está envolvido no filme Noah (Huston), o pai da heroína. Dizem mesmo que o roteiro foi aprovado pelo município porque eles tinham certeza de que o filme nunca conseguiria ser feito. Considerando que Los Angeles fica entre o oceano e o deserto a água é de fundamental importância até hoje. Ou ainda mais hoje em dia.

Towne afirma que sua motivação não foi política, mas poética, pois sentia a falta dos odores, das coisas da infância que a cidade perdeu. Uma história sobre a futilidade das boas intenções. Towne na época recusou fazer o roteiro da adaptação de O Grande Gatsby, do produtor Robert Evans (Chefão) e o convenceu a fazer este projeto (ajudou que todos eram amigos próximos) trazendo de volta aos EUA o diretor Roman Polanski, que não queria voltar aos Estados Unidos porque lhe trazia lembranças da sua mulher Sharon Tate que fora assassinada quatro anos antes. Com relutância veio e aos poucos se envolvem na historia. Fechou-se durante seis semanas com Towne e assim mexeram no script. Eles não concordavam em algumas coisas. Polanski insistiu num encontro amoroso do casal para que tivessem intimidade e num final que não fosse feliz.

Chinatown4 100 anos de Paramount   Revisitando <i>Chinatown</i>

Na verdade, no original havia uma narrativa em off por parte do Detetive (que foi eliminada) e no clímax Faye matava o pai. (CUIDADO SPOILER). Foi Polanski que impôs que a cena final fosse em Chinatown (o que provocou a frase famosa) e terminasse daquela maneira (uma das coisa mais fortes do filme é a resolução da trama, coisa rara no cinema mesmo hoje  em dia, ou, principalmente hoje em dia onde tudo ficou mais careta e moralista).

Na cena final, a de transição teve que ser improvisada por Jack na última hora. Como diz Polanski, na vida real, muitas vezes o culpado sobrevive e não há justiça. Se fosse um final feliz, tudo seria esquecido no jantar depois do cinema. Desta forma, o espectador sai pensando perturbado e nunca vai esquecer o filme. Deu algo para eles pensarem.

Polanski elogia nas entrevistas todo o elenco inclusive Faye Dunaway com quem teve brigas homéricas.  Ela se comportava como Diva, mas o clímax foi quando na cena do jantar no Brown Derby havia uns fios de cabelo que ficavam espetados e atrapalhavam a fotografia. Ele acabou por arrancá-los e Faye fez um escândalo e gritaria que forçou o fim das filmagens naquele dia. Polanski lembra também que ele começou a rodar com o veterano Stanley Cortez que foi mandado embora porque era lento demais e substituído por John Alonzo. Mas que ele não se incomoda muito com iluminação, só faz questão absoluta de que fazer os enquadramentos, para ele a coisa mais importante do filme.

Voltando a Faye, ela não aprovava os métodos grosseiros do polonês e ele reclamava dela por causa dos atrasos da maquiagem e mudanças no diálogo. Ali MacGraw estava prevista para estrelar o filme, mas quando largou o marido produtor Robert Evans por Steve McQueen foi despedida da fita. Jane Fonda recusou o papel. Polanski que era ator desde os tempos de moleque na Polônia faz uma ponta marcante e eficiente como o gângster, todo vestido de branco e é chamado de anão e corta o nariz do herói (no making of explica como foi feita a cena).

Nicholson, conseguiu fazer em uma única tomada, a famosa cena em que ele é levado pela água do reservatório. Robert Towne ganhou o único do filme, o  de roteiro. A fita foi também indicada como Melhor Filme, Direção, Fotografia, Música, direção de arte, figurino, montagem, trilha musical, Som Ator e Atriz. Ganhou Bafta de ator, direção e roteiro, Globo de Ouro de filme, ator, direção e roteiro. Este foi o último filme de Polanski nos EUA,  antes que pudesse completar outro, teve que fugir do país para não ser preso pela sedução de uma menor (e até hoje nunca mais pisou lá, morando desde então em Paris). Chinatown todos concordam não conseguiria ser feita hoje em dia. Os produtores obrigariam a ter um final feliz e uma conclusão mais amena.  O próprio Jack Nicholson estrelaria e dirigiria a continuação tardia em 1990, A Chave do Enigma (The Two Jakes) que foi um grande fracasso.

A Chave do Enigma 100 anos de Paramount   Revisitando <i>Chinatown</i>

Eis o que eu pensei do filme: A Chave do Enigma (The Two Jakes, 1990).137 min.Cor.Paramount.Diretor: Jack Nicholson

Elenco: Jack Nicholson, Meg Tilly, Madeleine Stowe, Harvey Keitel, Frederic Forrest, Ruben Blades, David Keith, Eli Wallach, Richard Farnsworth ,Perry Lopez ,Tom Waits.

Sinopse: Depois da Segunda Guerra, o investigador particular Jake Gittes enriqueceu, ficou mais respeitado e ainda honesto. Encontra um cliente chamado também Jake (daí o título original, Os dois Jakes) que deseja dar um flagrante na esposa infiel. Mas há surpresas.

Comentários: Decepcionante continuação do clássico Chinatown (1974), de Polanski, que durante anos foi planejada e finalmente realizada pelo astro Nicholson (em seu terceiro e último filme como diretor). Mas errou a mão. O roteiro de Robert Towne, o mesmo do original, é por demais confuso e enrolado, quase impossível de acompanhar na mistura de nomes e fatos.

Quem não viu o primeiro terá dificuldade de entender bem as reviravoltas da trama. Parece que Jake Gittes nunca esqueceu o amor de Evelyn (Faye Dunaway que morreu no fim da outra fita). O outro Jake mata o amante da esposa (que também era seu sócio) e começa a suspeita de armação, com a polícia pedindo para entregar uma gravação e a suspeita de que o caso envolva também a filha de Evelyn. Não é difícil descobrir sua identidade (a cena final é dispensável, mas o filme teve várias sequências refeitas, talvez impostas pelo estúdio). Mesmo o elenco está irregular numa fita decepcionante, difícil de seguir e que foi fracasso. Destaque para a bela fotografia e direção de arte, que conseguem passar um clima de época.

Curiosidades:

Roman Polanski recusou o tom avermelhado e escuro no estilo Chefão que o produtor Evans quis impor. A frase “Esquece  Jake, é Chinatown” foi votada como a 74ª frase mais famosa do cinema pelo American Film Institute.

Na lista dos melhores de todos os tempos ficou em vigésimo primeiro e no gênero mistério ficou em segundo lugar.

Alguns elementos do roteiro original foram incorporados ao filme Roger Rabitt, que deu uma visão de fantasia do mesmo material.

Só duas cenas fotografadas por cortes estão no filme (a luta no laranjal e a volta de carro para Los Angeles no pôr-do-sol).

O título enigmático já foi explicado como querer dizer “fracasso, má sorte, ou uma coisa que você não consegue entender direito”.

O roteiro hoje em dia é considerado um dos mais perfeitos e usados em escolas e seminários.

Na época da filmagem Jack Nicholson estava de caso com a filha dele, Anjelica Houston. Numa cena, Noah (Huston) pergunta para Jack “o senhor dorme com minha filha?”.

Polanski não queria cortar seu cabelo longo para sua cena no filme.

Voltando à edição, ela tem muitos extras além dos mencionados: Chinatown : Começo e o Fim, Filmando Chinatown, O Legado de Chinatown. Mais comentário do roteirista com o diretor David Fincher, trailer de cinema e uma avaliação. 

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8 maio 2012

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O melhor dos Sherlocks

Sherlock O melhor dos Sherlocks  

No fim de semana, me preparando para viajar consegui adiantar alguns filmes que estavam em casa para assistir. E finalmente me lembrar de comentar com vocês sobre a minha série de tevê atual preferida. Estou falando do Sherlock Holmes britânico, que é estrelado pelo Benedict Cumberbatch que é sem dúvida o astro do momento na Inglaterra. Também vi ontem a entrega do Prêmio Olivier, o Tony britânico onde ele ganhou como Melhor Ator – empatado com o ex-marido de Angelina Jolie, Jonny Lee Miller, ambos fazendo o médico e o monstro de uma montagem de Frankenstein.

Já falei deste Benedict, que é um sujeito alto (aparenta mais do que os confessados 1m 84), filho de casal de atores, ruivo e que parece ter sido finalmente descoberto. Tem já trinta e tantos anos (nasceu em 1976) e neste momento esta terminando a segundo parte de The Hobbit, There and Again, parece que usam apenas sua voz e rodando o novo Star Trek onde irá fazer o papel do Kahn! Tem uma carreira muito longa que inclui Cavalo de Guerra, O Espião que Sabia Demais, A Informante, Criação, A Outra, Desejo e Reparação, Jornada pela Liberdade, filmes inéditos aqui (Wreckers (2011), Third Star (2010), Four Lions (2010) e muitos telefilmes (onde já viveu Van Gogh e até Stephen Hawking).

Sherlock3 O melhor dos Sherlocks

Não é um galã, mas por isso mesmo tem se dado bem em papeis característicos. Mas eu gostei mesmo foi da série Sherlock (2010-12), que ele tem rodado a moda inglesa (apenas três longas por temporada, junto com o piloto. Existem disponíveis para download um total de sete). Não se parece nem tem muito a ver com os longas com Robert Downey Jr e Jude Law. Ao contrário, é uma versão atualizada, passada no momento presente, em que Sherlock é mais perturbado e difícil ainda do que costume.

Sempre partem de uma historia já conhecida escrita por Conan Doyle. Um Escândalo na Belgrávia, Os Cães de Baskerville, Um Estudo em Vermelho e até mesmo The Reinchenbach Fall, aquele onde ele enfrenta o arquiinimigo Jim Moriarty, feito por Andrew Scott, com quem pula para a morte. O episódio conclui com Holmes vivo, mas sem dar mais explicações.

Sherlock2 O melhor dos Sherlocks

Quem faz o Dr. Watson é Martin Freeman (seu Paul saiu agora em Home Video), que é justamente o que estrela The Hobbit como Bilbo Baggins, e para mim se revelou com Todo Mundo Quase Morto, o clássico de zombie. A linguagem é moderna, o roteiro engenhoso, a direção divertida. Eu recomendo com entusiasmo que vocês descubram a série e os atores. Mesmo desculpando minha impressão de que o que vem da tevê inglesa é sempre mais original e interessante do que o similar americano. Confiram.

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7 maio 2012

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Revisitando Ladrão de Casaca (100 anos de Paramount)

100 anos de Paramount. Revisitando Ladrão de Casaca. Lançamento Brasil em Blu-ray: Ladrão de Casaca (To Catch a Thief). Áudio: Inglês, espanhol, português, francês. Leg: Port, espanhol, inglês, francês. Suspense. Widescreen 1.85:1. 106 min. Cor. 1955. EUA.

Paramount. 14 anos. Direção: Alfred Hitchcock

11 Revisitando <i>Ladrão de Casaca</i> (100 anos de Paramount)

Elenco: Grace Kelly, Cary Grant, Jessie Royce Landis, Brigitte Auer, Charles

Vanel, John Williams, Georgette Anys, Jean Martinelli, Roland Lesaffre.  

Sinopse: John Robie, o Gato, é um ladrão de joias aposentado que vive na Riviera Francesa. Torna-se suspeito quando começam a acontecer assaltos usando seu estilo e  é obrigado a voltar à ativa para provar sua inocência.

Comentários: Este foi o primeiro filme de Hitchcock (1899-1980) que realmente me marcou quando ainda era bem criança. Já tinha assistido outros filmes dele , em particular Janela Indiscreta, imediatamente anterior e que hoje considero sua obra-prima. 

Mas este era mais aventura, mais suspense, rodado em locações autenticas na Riviera francesa e tinha perseguições e fazia jus ao apelido dele de mestre do suspense. Incluindo um final inesperado (hoje, claro, que nem tanto) e a presença deslumbrante de uma Grace Kelly (1929-82), no auge da beleza, charme e elegância.

21 Revisitando <i>Ladrão de Casaca</i> (100 anos de Paramount)

O filme foi dos primeiros rodado pelo processo de Widescreen (o inicial foi Natal Branco, mas este aqui foi feito com muito exterior na Europa!), o Vistavision (que era a resposta do estúdio ao Cinemascope da Fox).

O segredo dele era fazer a película correr horizontalmente (e não na vertical) e assim aumentava o campo fotografado (dava até para dois fotogramas por vez).

O resultado era que o foco não ficava apenas naquilo que era fotografado num primeiro plano, mas também todo o background. E justamente por causa disso que ele resulta tão bem agora em Blu-ray.

A imagem está nítida, clara, e só senti um pequeno problema numa ceninha (quando Cary Grant está no telhado já no fim do filme). Mas, em geral, até as cenas de back-projection (projeção de fundo) estão funcionando e não parecem falsas (talvez seja bom explicar que, na época, para cenas de diálogos, os diretores preferissem rodar esses momentos mais íntimos, que exigem melhor qualidade de som no conforto de um estúdio, com uma tela projetando as imagens que dão a impressão de movimento). Em filmes posteriores de Hitchcock como Marnie, ele ficou descuidado.

Mas aqui  metade do filme foi feito em externas e outra metade na própria Paramount.

31 Revisitando <i>Ladrão de Casaca</i> (100 anos de Paramount)

Um dos extras mais interessantes desta edição mostra um “travelogue”, com um mapinha da região (que vai de Nice a Cannes, enquanto Mônaco só é mostrado de longe). E localiza os lugares onde foi feito o filme dando também alguns detalhes turísticos.

Como eu fui muitos anos ao Festival de Cannes, em geral, eu chegava um pouco mais cedo e aproveitava para viajar naquela redondeza  e conheci justamente tudo que o filme mostra. Nice, a maior cidade da região (e que me lembrava a Santos de minha infância!), a estrada muito estreita e perigosa que eles chamam de La Grand Corniche, a ponte de Eze (caminho já para a Itália), toda a região montanhosa do rio Loup (Lobo) onde se plantam flores para fazer perfumes, a cidade de Cagnes Sur Mer (onde foi feita a cena do cemitério). E principalmente Cannes.

Este é um dos filmes onde melhor mostra o hoje lendário e centenário Hotel Carlton, onde são usados também os salões e saguão de entrada.

Cheguei mesmo a me hospedar no Carlton e durante esses anos estive com frequência lá acompanhando palestras e entrevistas, às vezes também na faixa de areia (que não mudou muito do que mostra o filme, aliás, numa cena com Grace e Cary Grant dá pra se ver atrás o antigo Palácio do Festival, que foi derrubado absurdamente). Ou seja, me provoca saudade e até certa melancolia.

4 Revisitando <i>Ladrão de Casaca</i> (100 anos de Paramount)

Hitchcock escolheu justamente aquela região porque ele desde quando ainda morava na Inglaterra habitualmente passava férias por lá.

A rodagem seriam quase férias pagas pelo estúdio, quando aproveitava a qualidade da comida mediterrânea local (Hitchcock era um gourmet e se pode confirmar isso, por alguns detalhes: as frequentes conversas em seus filmes sobre comida e seu ódio por ovos (fritos em particular) que ele detestava e que aqui surgem duas vezes (numa delas, Jessie apaga um cigarro neles).

A maior falha desta edição (que usa extras também das anteriores de 2009 e 2002), é nem sequer mencionar o fato histórico e celebre de que foi por causa deste filme que Grace visitou a região e acabou conhecendo o Príncipe Rainer e se tornaria mulher dele e Princesa de Mônaco (na verdade, foi por causa de uma reportagem para a revista Paris Match e bolada por Pierre Galante, marido da estrela Olivia de Havilland).

Enfim, os dois se conheceram e Rainer queria uma figura famosa para casar e que ajudaria na divulgação do pequeno principado que vive do jogo no famoso Cassino de Monte Carlo (nome que também designa o lugar).

5 Revisitando <i>Ladrão de Casaca</i> (100 anos de Paramount)

O resto é histórico, Grace largou o cinema depois de O Cisne Alta Sociedade (56) e nunca mais voltaria (Hitchcock nunca se conformou com isso e o resto da vida passou tentando convencer Grace a retornar, quase conseguiu isso com Marnie.

Mas teve que voltar atrás quando os cidadãos de Mônaco foram contra. Então procurou uma nova Grace Kelly na figura de Tippi Hendren, que nunca chegou a seus pés.

Grace havia substituído Ingrid Bergman no coração de Hitchcock e fez com ele três filmes (Janela, este e o anterior Disque M para Matar). Era uma atriz delicada e ganhou um Oscar discutível por Amar é Sofrer (dizem que Judy Garland que deve ter levado o prêmio).

Outra coisa que a edição não mostra é que a morte de Grace Kelly, num acidente de carro ocorreu justamente ao lado do lugar onde ela faz o piquenique com Grant e louva a beleza da vista (também estive lá e  na verdade fica num perigoso barranco e foi milagre o carro não despencar).

A versão oficial da tragédia diz que Grace teve um AVC que provocou o acidente do carro e a morte. Não parece ser verdade a versão de que a filha princesa Stephane estivesse dirigindo sem habilitação. Enfim, sua morte prematura confirmou a lenda da única estrela/princesa americana.

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Por tudo isso que este filme tem a fama de ser o trabalho que Hitch menos gostava simplesmente porque lhe fez perder a sua estrela preferida, por quem estaria até secretamente apaixonado. Foi chamado de “Champanhe Hitchcock”, uma fita de romance e suspense, rodada num estilo que lembrava fitas de ladrões galantes como Arséne Lupin e que depois seria imitado em filmes como Charada e Arabesque, ambos de Stanley Donen.

Cary Grant aos 50 anos já pensava em se aposentar mas o sucesso do filme deu novo vigor a sua carreira (na época o estúdio tinha medo de ter um romance entre ele e uma garota com metade da idade, o que nem passa  pela cabeça do espectador, até porque é sempre ela que dá em cima dele).

Grant faz o herói com seu charme habitual, um americano que era de circo e se tornou famoso ladrão, depois membro da resistência anti-nazista, passou tempo na prisão e se reformou.Vive isolado numa casa na montanha e se aborrecer quando alguém comete crimes usando seus métodos.

Quem faz o dono de restaurante que era velho amigo dele é o muito veterano ator francês Charles Vanel (1892-1989), famoso por O Salário do Medo. Ele dizia os diálogos foneticamente e teve que depois ser dublado por outro.

Também tem papel importante a francesa Brigitte Auber (1928), que nada a ver com a Bardot, que não fez a carreira que pretendia mas chegou a aparecer em O Homem da Máscara de Ferro, com Di Caprio em 98).

É curioso que, na cena do mar, Grace insiste que Brigitte é muito mais nova que ela. Quando na verdade, a francesa tinha um ano e meio a mais e aparentava isso! Quem rouba o filme é a atriz de teatro que faz a mãe de Grace, a divertida Jessie Royce Landis (1896-1972), que mais tarde seria a mãe de Grant em Intriga Internacional, também de Hitchcock. Uma mulher muito engraçada que deveria ter tido melhor chance em outros filmes.

 8 Revisitando <i>Ladrão de Casaca</i> (100 anos de Paramount)

O filme é valorizado por um roteiro sofisticado de John Michael Hayes (1919-2008) que fez também fez Janela Indiscreta, O Homem que Sabia Demais, A Caldeira do Diabo, Infâmia, Disque Butterfield 8. Seu forte eram os diálogos e Hitchcock brigou muito com a censura para conservar várias frases e momentos de duplo sentido.

Um deles em que Grace pergunta se prefere coxa ou peito foi improvisado pelo casal. Mas não outros que hoje dão ao filme um tom de screwball comedy (comédia maluca) dos anos 30. Tem vários desses momentos marcantes: quando Grace da um beijo inesperado na porta do seu quarto, quando provoca Grant mostrando apenas suas joias, quando os dois se beijam e os fogos explodem como se fossem orgasmos (desde sua estreia era muito clara a metáfora superimitada posteriormente).

O título original confesso que nunca tinha me dado conta  é inspirado no velho Axioma: "É preciso ser ladrão para prender um ladrão”, que por sinal é bem ilustrado pelo filme.

Outro ponto alto do filme é a fotografia em technicolor de Robert Burks (1909- 68), que por este filme ganhou um Oscar da Academia e que consegue criar clima e emoção, principalmente nas famosas cenas de perseguição pelos telhados e logo no começo com imagens subliminares do verdadeiro gato. Burks foi também dos primeiros a usar imagens fotografadas por helicóptero (que funcionam lindamente no filme).

Basta dizer que este foi o quinto filme dele com Hitchcock e que também iluminou Janela Indiscreta, Um Corpo que Cai, Pacto Sinistro, Intriga Internacional, Os Pássaros e o filme com o diretor Marnie. Ou seja, um gênio.

9 Revisitando <i>Ladrão de Casaca</i> (100 anos de Paramount)

A minha surpresa foi constatar como é boa a trilha musical do filme embora tenha sido feita por um compositor quase desconhecido chamado Lyn Murray (1909-89) – que nunca fez nada de extraordinário, nem com As Pontes de Toko Ri, tendo trabalhado mais para a teve (como em Dragnet).

Ele foi também a pessoa que apresentou Hitchcock para aquele que viria a ser seu compositor mais marcante, Bernard Hermann (logo a seguir). Uma curiosidade: na sequência do mercado das flores havia no roteiro uma perseguição ainda com uma espécie de desfile de Carnaval e Cary se escondendo dentre de um carro alegórico com a cabeça de Netuno.

 Mas iria custar muito caro e foi cancelada. A ponta tradicional do diretor desta vez é dentro de um ônibus de interior onde entra Cary, senta-se na última fileira do lado de uma gaiola com passarinhos, a câmera corrige para a direita e lá está Hitchcock.

Falando de pássaros, a neta dele conta que os periquitos que aparecem no filme The Birds, Hitch deu de presente para ela. Mas os dois se odiavam e acabaram se matando, voando pena para tudo que é lado!!

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A edição traz ainda um featurette sobre Edith Head, a brilhante figurinista e recordista de Oscars (ganhou oito e aqui foi apenas indicada embora algumas das roupas de Grace tenham se tornado ícones). Edith usava sempre óculos escuros com a desculpa de que com eles podia ver em tom azul o que ajudava em filmes em preto e branco.

Outro bem interessante Uma Noite com Hitchcock, mostra uma entrevista com a filha única de Hitchcock e sua neta na Universidade de Southern Califórnia com o professor Drew Casper.

Entre outras coisas, elas dizem que o filme favorito dele era A Sombra de uma Dúvida, que este admirava Cecil B. De Mille e Steven Spielberg, que o adorava contar piadas sujas, que realmente preparava tudo antes, que era um péssimo motorista, que não lia críticas que só se importava com que o público pensava e que era um excelente pai e homem de família. E que imaginem só ele quase que fez Confidências a Meia Noite, com Doris Day!

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Houve ainda uma terceira indicação ao Oscar para direção de arte, feita pela equipe do estúdio.

 Traz ainda como extras: A Censura em Hollywood (sobre como funcionava o sistema de auto censura na industria do cinema), Cary Grant e Grace Kelly (sobre a carreira dos astros),  Alfred Hitchcock – Uma Avaliação/ Writing and casting of To Catch a Thief (escrevendo e escolhendo o elenco do filme), Making-of featurette Alfred Hitchcock e Ladrão de Casaca (todos com depoimento da filha e neta dele, estudiosos), trailers, galerias de foto, o featurette uma Apreciação e o comentário em áudio do professor Casper. 

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6 maio 2012

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Marlene Dietrich

Quando se trata de nome de estrelas do cinema clássico, sempre prefiro abrasileirar o nome, como se fala tradicionalmente, ou seja, Marlene Dietrich. Nos Estados Unidos o nome dela é falado de outra forma, “Marlena Dietrik”, mas não há a menor dúvida de que é graças a ela, que o nome Marlene se tornou popular, na verdade, uma contração de Maria Madaglene.

marlene 12 Marlene Dietrich

O que não há dúvida que Marlene ou Marlena foi uma das maiores lendas do século vinte, famosa primeiro como O Anjo Azul, a grande rival de Greta Garbo, depois como uma das mulheres mais glamurosas do mundo, dona de uma das pernas mais perfeitas do cinema até finalmente ser promovida como a avó mais charmosa (e com as mais belas pernas!).

Foi uma longa carreira, cheia de mistérios e romances, ao menos 35 anos de estrelato absoluto. Até porque Marlene sempre contribuiu para o mito, inventando histórias e mascarando a verdade. Hoje já se sabe da data real de seu nascimento, foi realmente em Berlim, em 1901, isso quer dizer que quando foi para os Estados Unidos,  já estava com vinte e nove anos, bastante para iniciar uma nova carreira.

marlene 13 Marlene Dietrich

E não era uma novata como afirmava, quando foi descoberta por Josef von Sternberg, ao contrário, era veterana de uma longa carreira no teatro e até mesmo no cinema onde participou de ao menos 12 filmes antes de virar estrela internacional.

 Hoje, domingo, relembramos os vinte anos de sua morte e  sua ilustre carreira (faleceu em 1992, em maio, quando estava acontecendo já o Festival de Cannes onde seu rosto por coincidência estava no pôster do Festival).

 Hoje não há mais dúvida, após o livro de sua única filha Maria Riva que conta tudo. Marlene Dietrich era realmente bissexual, seu charme, encanto e sensualidade não era limitado aos homens, de quem ela gostava e muito. Mas também  distribuía seu carinho e atenção democraticamente entre as mulheres.

marlene 1 Marlene Dietrich

O interessante é que é difícil encontrar alguém falando mal de Marlene. Maternal, ótima cozinheira, amiga de confiança, ela foi mais do que uma estrela, durante a Segunda Guerra Mundial, praticamente largou a carreira para se dedicar inteiramente à luta contra o nazismo.

Isso, apesar de Hitler, seu admirador ter lhe oferecido a honra de ser a grande estrela de seus domínios. Não era judia, mas não apenas recusou como passou a correr riscos cantando para soldados em campos de batalha aliados arriscando a vida. Em sua vida particular, porém, nada era certo. Marlene, muito antes de Madonna, era capaz de se reinventar, se auto-fabricar com facilidade.

marlene 2 Marlene Dietrich

Ela já tinha quase trinta anos quando foi descoberta por Josef Von Sternberg para estrelar O Anjo Azul e convenientemente esqueceu de que tinha um marido, uma filha e uma longa carreira.

Levada para os estúdios da Paramount, Marlene perdeu peso e em mais seis filmes com seu mentor, aprendeu tudo sobre iluminação e figurino. Criou um mito meio andrógino. Por exemplo, em Marrocos, seu primeiro filme americano, ela beijou uma mulher na boca e ninguém se chocou muito.

marlene 3 Marlene Dietrich

Foi também a primeira mulher a vestir calças compridas em público, o que nos anos trinta era um absoluto escândalo. Quando os filmes com Sternberg acabaram ficando sofisticados demais, mais forma do que conteúdo, ela  resolveu o problema tentando outros diretores.

O amigo Lubitsch a dirigiu em Anjo, mas o resultado foi ainda mais pretensioso e mal em bilheteria. Foi preciso Marlene mudar de gênero, fazer comédia ao lado de James Stewart, no faroeste Atire a Primeira Pedra, onde criou outra nova canção memorável, See What The Boys  in The Back Room Will Have.

Aliás, se você prestar atenção, Marlene não tinha grande voz, mas sabia usar seus poucos recursos, quase dizendo as palavras, mas também seguindo uma velha tradição do cabaret alemão.

marlene 4 Marlene Dietrich

Houve outros filmes memoráveis como Desejo, produzido por Lubitsch, mas dirigido por Frank Borzage, conhecido pelos melodramas com Janet Gaynor. Foi em 1936, uma comédia romântica, sobre uma glamorosa ladra de joias que durante uma viagem se apaixona por um americano negociante de carros, um outro grande astro, Gary Cooper, e os dois acabam se perseguindo através de toda a Europa, obviamente toda construída nos estúdios da Paramount como era costume na época.

Foi esse o filme que demonstrou o inesperado, Marlene tinha senso de amor. Não era apenas uma deusa do sexo, sabia também brincar com isso. É umas qualidades que a torna um mito intocável do cinema.

marlene 5 Marlene Dietrich

Voltando a seu filme chave, O Anjo Azul,  o longa que criou a lenda. Na verdade, a fita  foi feita como veículo para o ator alemão Emil Jannings, que já havia ganhado um Oscar.

É a história de um austero professor que tem sua vida arruinada quando se apaixona por uma cantora de cabaré chamada Lola Lola. Quem dirigiu foi o mentor de Marlene, o austríaco Josef Von Sternberg, que a descobriu numa peça teatral e a lançou no cinema.

marlene 6 Marlene Dietrich

Era o princípio do cinema falado e foi rodado em duas versões, em inglês e em alemão, e com várias inovações técnicas que liberavam a câmera da ditadura do microfone. A Marlene do filme é um pouco mais gordinha do que nos filmes posteriores.

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