Lançamento de dois clássicos: Sturges e Losey
Contrastes Humanos ****
Sullivan´s Travels
Áudio: Inglês. Legendas: Português. Comédia. Standard . 90min. PB. 1941. EUA. Classicline. 12 anos.
Diretor: Preston Sturges. Elenco: Joel McCrea, Veronica Lake, Robert Warwick, William Demarest, Franklin Pangborn, Porter Hall, Eric Blore e Sturges (como o diretor do estúdio).

Sinopse: John L. Sullivan (McCrea, mais conhecido como astro de faroestes) é um mimado e bem-sucedido diretor de filmes comerciais que deseja fazer um sobre os problemas das pessoas comuns, os pobres. Apesar da oposição dos seus produtores, ele resolve se disfarçar de vagabundo (era a época da depressão econômica) e sem um tostão no bolso vai em busca de experiências para usar nos seus filmes. Mas a realidade é bem pior do que ele esperava.
Comentários: Uma das mais famosas sátiras do cinema, pouco conhecida no Brasil, mas cultuada na França e mesmo Estados Unidos. Também está esquecido por aqui a figura do diretor Preston Sturges que é muito importante.
Sturges, Preston (1898-1959)

Um início brilhante, um final melancólico. Ele era daqueles que antigamente se chamavam de um renascentista, por ter uma enorme e erudita cultura. Tão brilhante que o fez ser um dos melhores roteiristas de sua geração e depois um grande diretor para a Paramount, com fitas engraçadas, satíricas e mesmo ousadas.
De repente, tudo acabou. Tentou teatro, ser dono de restaurante, trabalhar no exterior, mas a chama que brilhou tão intensamente também se apagou com a mesma rapidez. Ficou ao menos o legado de seus filmes, típicos produtos de sua época, os anos 40.

Nascido em 28 de agosto em Chicago, estudou na França, Alemanha, Suíça, trabalhando para a firma de cosméticos da mãe. Na verdade, sua história é mais complicada. Criado de forma pouco ortodoxa por excêntricos e ricos, foi chamado aos 16 anos para dirigir a firma de cosméticos da mãe e foi assim que virou um inventor, criando o batom à prova de beijo (e outros que parecem coisas saídas de suas futuras comédias).
A partir dos anos 20, ele concentrou seus talentos em escrever e, com inteligência, conseguiu convencer a Paramount a deixá-lo também ser o diretor de The Great McGinty. Só ganhando dez dólares de salário. Acabou ganhando um Oscar de Roteiro e o estúdio não teve outra forma de liberar seus maiores astros para suas outras fitas, sempre comédias que não se sabia como passavam pela censura.

Papai por Acaso, por exemplo, conta a história de uma garota chamada Trudy que numa mesma noite, encontra, se casa e fica grávida de um pracinha, cujo nome ela se lembra apenas vagamente (Eddiie Bracken que faz o mocinho do filme acabaria sendo seu ator predileto).
Outro clássico da comédia é As três Noites de Eva em que o virginal Henry Fonda é a vítima da predadora Barbara Stanwyck. Foi autor de quatro peças de teatro. Escreveu 15 roteiros para Hollywood, a maior parte deles para a Paramount.
A partir de 1940, passou a dirigir, mas em poucos anos gastava sua verve, caindo em desgraça até o fim da vida. Como tinha temperamento violento e volátil, depois de brigar com a Paramount tentou a sorte numa comédia com Betty Grable na Fox. Mas tristemente havia perdido a graça. Morreu em 6 de agosto de enfarto em Nova York.

Dir.: 1940 – O Homem que se Vendeu (The Great McGinty. Brian Donlevy, Akim Tamiroff). Natal em Julho (Christmas in July. Dick Powell, Ellen Drew). 1941 – As Três Noites de Eva (Lady Eve. Barbara Stanwyck, Henry Fonda).
1942 – Contrastes Humanos (Sullivan’s Travels. Joel McCrea, Veronica Lake). Mulher de Verdade (The Palm Beach Story. Claudette Colbert, Fred MacMurray).
1944 – Papai por Acaso (The Miracle of Morgan’s Creek. Betty Hutton, Eddie Bracken). Herói de Mentira (Hail the Conquering Hero. Eddie Bracken, Ella Raines). Triunfo Sobre a Dor (The Great Moment. Joel McCrea, Betty Field).
1946 – Trapalhadas do Haroldo (Mad Wednesday. Harold Lloyd, Rudy Vallee).
1948 – Odeio-te Meu Amor (UnfaithfullyYours. Rex Harrison, Linda Darnell).
1949 – Esta Loura É um Demônio (The Beautiful Blonde from Bashful Bend. Betty Grable, Cesar Romero).
1955 – As Memórias do Major Thompson (Les Carnets du Major Thompson. Jack Buchanan, Martine Carol).
Este filme é do auge de sua carreira, quando os críticos o idolatravam e o público correspondia. Ele escreveu um roteiro muito hábil onde consegue mostrar os problemas sociais da realidade americana da época, enquanto ao mesmo tempo satiriza a indústria de Hollywood e a própria ingenuidade dos diretores (ou dos americanos).
O alto e simpaticão McCrea (1905-90) era uma espécie de Gary Cooper ainda mais cool, que representava o mínimo possível, mas tinha cara de bom moço americano. E Sturges usa isso (pensem, no filme até o herói é bobinho e pensa que é cheio das verdades, só para no transcorrer dos problemas cair em si. Tudo isso em tom de comédia).
Como a namorada do diretor também faz bom uso de uma baixinha, que, na époc,a era estrela por causa de um gimmick, um truque, ela usava o cabelo caído num dos lados, que se tornou sua marca registrada. Foi assim que Veronica Lake (1922-73) foi algo mais do que simplesmente a parceira de Alan Ladd numa série de policiais (se davam bem porque ambos eram pequenos e frios).
Num determinado momento ela também se disfarça de homeless e funciona bem no filme. Mas ele é cheio de referências. Por exemplo, Sullivan planeja fazer um filme chamado O Brother, Where Art Thou ?, um título que depois foi emprestado pelos Irmãos Coen no filme de 2000, E aí Irmão, Cadê Você? (com George Clooney, justamente sobre a depressão e trens).

O autor do livro mencionado é Sinclair Beckstein, um amalgama de Upton Sinclair, Sinclair Lewis e John Steinbeck, autores americanos famosos. Não apenas Veronica está grávida durante a filmagem, mas também adiantada, entre seis e oito meses (a filha nasceu um mês depois do fim das filmagens).
Mas só sabiam disso a figurinista Edith Head e a mulher de Sturges, que guardaram segredo e desenharam as roupas adequadas para esconder a condição. Sturges teve a ideia do filme quando leu reportagem sobre o ator John Garfield, que teria sido “hobo” (nome para sem teto na época) viajando em trens de carga pelo país.
Sturges tinha grande admiração por Chaplin e queria ter usado um trecho de um filme dele na cena da igreja, mas este não deu permissão. Ainda assim McCrea faz uma imitação de Carlitos. Foi usado eventualmente um desenho animado da Disney com o cachorro Pluto para deixar a mensagem final: a vida já é dura demais, as pessoas são infelizes e já faz um trabalho importante quem vive para divertir os outros, para tornar a vida mais suportável.
E a melhor maneira seria fazendo os outros rirem. Por isso, Sturges chegou a escrever no roteiro uma fala que Sullivan diria: "Esta é a história de um homem que queria lavar um elefante. O maldito elefante quase o arruinou”.
Ainda assim ficou a dedicatória do começo que diz “Em lembrança de todos aqueles que nos fizeram rir, os palhaços, os comediantes de todas as épocas e lugares, cujos esforços diminuíram nossa carga um pouco. A eles este filme é afetuosamente dedicado”.
Na época o filme foi elogiado pela associações de negro pela maneira digna e decente dos negros. O seu pôster muito artístico é considerado um dos melhores de todos os tempos. E o filme ficou em 61º lugar dentre os melhores de todos os tempos do American Film Institute.
O Mensageiro ***
The Go-Between
Áudio: Inglês. Legendas: Português. Romance. Wide . 118 in. Cor. 1970. EUA.Lume. 14 anos.
Diretor: Joseph Losey. Elenco: Michael Redgrave, Alan Bates, Margaret Leighton, Michael Gough, Dominic Guard, Julie Christie, Edward Fox, Richard Gibson.
Sinopse: Um homem de meia idade retorna a um lugar que o faz recordar o verão de 1900, quando ele tinha 13 anos e é convidado de um colega de escola. Fica amigo da irmã de vinte e poucos anos dele, Marian, que esta noiva de um visconde, mas pede para ele entregar mensagens para um vizinho Ted Burgess, que escondia um amor proibido.
Comentários: Não confundir com outros filmes homônimos, tem aquele horrível com Kevin Costner (que deveria ser O Carteiro), tem um policial de 2009 com Woody Harrelson. Mas este é O Mensageiro mais famoso e mais raro, porque é uma produção inglesa independente e que na época ganhou a Palma de Ouro de Cannes e outros prêmios, o Bafta de roteiro(do grande dramaturgo Harold Pinter), revelação (o garoto Dominic Guard, que não foi adiante), coadjuvantes (Edward Fox e Margaret Leighton).
Foi indicado ao Globo de Ouro de filme estrangeiro, Oscar de coadjuvante (Margaret Leighton), Baftas de atriz (Julie), direção de arte, fotografia, figurino, direção, filme, som e ator coadj (Michael Gough).
O diretor Joseph Losey é outro dos grandes que esta esquecido no momento e que merece também um flashback:
Losey, Joseph (1909-1984)
O mais ilustre diretor que foi vítima da Lista Negra de Hollywood, provocada pelo McCarthismo e que melhor deu a volta por cima, criando para si um estilo barroco e rebuscado, bem ao gosto dos europeus. Seu melhor trabalho, porém, foi quando obrigado a se refugiar na Inglaterra realizou filmes pequenos (em geral com o ator Stanley Baker, depois Dirk Bogarde), quase sempre pessimistas.
A obra-prima é O Criado, com roteiro do dramaturgo Harold Pinter (sempre obscuro e elíptico, mas que não conseguiu esconder as entrelinhas homossexuais e a flagrante disputa pelo poder). Mas foi com o lírico O Mensageiro que ele ganhou a Palma de Ouro em Cannes e finalmente uma carta de reabilitação (entretanto, ele nunca retornou profissionalmente à sua terra natal).
Sua obra parece estar sempre preocupada no confronto entre o bem e o mal, e embora Losey afirmasse estar do lado do bem, com frequência era o mal que se saia vitorioso. Ex-estudante de medicina e literatura em Harvard, começou a escrever para o teatro em 1930, envolvendo-se na montagem de peças esquerdistas e trabalhando até em Moscou. Teria estudado cinema inclusive com o grande Eisenstein, antes de voltar para a América para dirigir teatro e filmes educacionais para a Rockefeller Foundation (assim fez dezenas de fitas industriais).

Seu primeiro curta comercial foi uma fita com marionetes mas seu quarto, A Gun in his Hand (feito para a série da MGM, O Crime não Compensa) lhe deu um Oscar na categoria. Isso lhe deu fôlego para estrear no longa com um trabalho polêmico contra a guerra e os preconceitos raciais (O Menino dos Cabelos Verdes).
Foi a partir de 1951, colocado na lista negra e proibido de trabalhar na América. Mudou-se para a Inglaterra, onde trabalhou sob pseudônimo, sobrevivendo com comerciais de TV, até que o ator mais popular da Inglaterra, Dirk Bogarde, acreditou nele e aceitou trabalhar em suas fitas. Apoiado pela crítica francesa, seu retorno com força total na década de 60 culminou com a Palma de Ouro em Cannes para O Mensageiro.
Seu estilo barroco e rebuscado é o reflexo de um autor sério e consciente, mas menos político do que se julga. Este estilo lhe causou problemas com os produtores de Cerimônia Secreta. Quando exibido na TV americana, ele foi remontado e um ridículo prólogo e epílogo foram rodados às pressas, para tornar o filme menos difícil para o público.
Trabalhou com roteiristas de primeira, como Harold Pinter (aqui mas também em O Criado e Estranho Acidente) e Tennessee Williams (num interessante fracasso, O Homem que Veio de Longe).
Filmografia:
1939 – Pete Roleum and His Cousins (CM com marionetes)
1941 – A Child Went Forth (CM). Youth Gets a Break (CM)
1945 – A Gun in His Hand (CM)
1948 – O Menino dos Cabelos Verdes (The Boy with Green Hair. Dean Stockwell, Robert Ryan)
1949 – O Fugitivo de Santa Maria (The Lawless. MacDonald Carey, Gail Russell)
1950 – O Cúmplice das Sombras (The Prowler. Van Heflin, Evelyn Keyes). O Maldito (M. David Wayne, Luther Adler)
1951 – Noite Inovidável (The Big Night (John Barrymore Jr., Preston Foster). O Homem que o Mundo Esqueceu (Stranger on the Prowl/Imbarco a Mezzanotte. Paul Muni, Joan Lorring. Sob pseudônimo de Andréa Forzano)
1954 – O Monstro de Londres (The Sleeping Tiger. Assinado por um testa-de-ferro, Victor Hanbury. Dirk Bogarde, Alexis Smith)
1955 – A Man on the Beach (Donald Wolfit, Michael Medwin. CM). Um Homem em Desespero (The Intimate Stranger ou Finger of Guilt. Richard Basehart, Mary Murphy. Com pseudônimo de Joseph Walton)
1956 – A Sombra da Forca (Time Without Pity. Michael Redgrave, Ann Todd)
1957 – Por Amor Também se Mata (The Gypsy and the Gentleman. Melina Mercouri, Patrick MacGoohan)
1959 – Entrevista com a Morte (Blind Date. Stanley Baker, Hardy Krüger)
1960 – Armadilha a Sangue Frio (The Criminal. Stanley Baker, Sam Wanamaker)
1961 – O Mundo os Condenou (The Dammed. MacDonald Carey, Viveca Lindfors)
1962 – Eva (Idem. Jeanne Moreau, Stanley Baker)
1963 – O Criado (The Servant. Dirk Bogarde, James Fox)
1964 – O Rei, o Cidadão (King and Country. Dirk Bogarde, Tom Courtenay)
1966 – Modesty Blaise (Idem. Monica Vitti, Terence Stamp)

1967 – Estranho Acidente (Accident. Dirk Bogarde, Stanley Baker)
1968 – O Homem que Veio de Longe (Boom! Elizabeth Taylor, Richard Burton)
1969 – Cerimônia Secreta (Secret Cerimony. Elizabeth Taylor, Mia Farrow)
1970 – No Limiar da Liberdade (Figures in a Landscape. Robert Shaw, Malcolm McDowell)
1971 – O Mensageiro (The Go-Between. Julie Christie, Alan Bates)
1972 – O Assassinato de Trotsky (The Assassination of Trotsky. Alain Delon, Richard Burton)
1973 – Casa de Bonecas (A Doll’s House. Jane Fonda, Delphine Seyrig)
1974 – Galileo (Idem. Topol, John Gielgud). A Inglesa Romântica (The Romantic Englishwoman. Glenda Jackson, Helmut Berger)

1976 – Cidadão Klein (Monsieur Klein. Alain Delon, Jeanne Moreau)
1978 – Les Routes du Sud (Yves Montand, Miou-Miou)
1979 – Don Giovanni (Idem. Ruggero Raimondi, Kiri Te Kanawa)
1982 – La Truite (Isabelle Hupert, Jean-Pierre Cassel)
1984 – A Sauna (Steaming. Vanessa Redgrave, Sarah Miles).
Mas este não é um típico filme de Losey, que geralmente era menos romântico e menos bem comportado. É sempre a história de um velho (Michael Redgrave) que recorda 50 anos depois quando era jovem de 13 anos e acabou servindo de intermediário, leva e traz literalmente entre um casal que se amava mas que não podia ficar junto por causa das diferenças de classe.
É uma adaptação do livro semiautobiográfico de 1953 de LP Hartley (1895-1972), tambem autor de O Assalariado.
Muito ajudado pelo roteiro de Pinter, depois vencedor ate do Prêmio Nobel, no que resultou no filme (ainda que com visual bem da época), num filme sobre memória, rito de passagem (de adolescente para adulto), bastante elegante e cheio de clima.
Mas é principalmente (mais outra) ao sistema de castas e classes da sociedade inglesa observada por um certo Leo Colston (Dominic Guard), filha de uma viúva empobrecida que vai passar as férias de verão como convidado de uma família aristocrática (Gough e Leighton) em sua mansão em Norfork Brandon Hall. Lá ele fica amigo de Lady Marian Trimingham (Julie Christie) que ama outro, mas que não pode ficar com ele por causa de seu pobre e considerado vulgar (Alan Bates).
Leo entregava as mensagens e agora ficará sabendo de um segredo de família. No fim, o filme acaba fazendo perguntas ingênuas: "Pode um caso desses permanecer secreto? E quando acaba a inocência?"
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