apartheid sobre rodas

antes de ir ao ponto principal, quero ressaltar que me constrangeu bastante a enxurrada de fotos e mensagens em homenagem a nelson mandela postadas por pessoas que, se na áfrica do sul vivessem, por convicção (e não só pela cor) do lado branco da moeda estariam.

e como agora todo mundo jura que sabe o que é apartheid, é sobre uma variante dele que me pus a pensar.

sim, pode ser chamado de apartheid sobre rodas o que se passa no trânsito de são paulo e das grandes cidades brasileiras. uma minoria que se move de carro acha que "a cidade parou” porque ela (e só ela) parou.

e como é essa minoria que domina a chamada opinião pública, os poderes econômicos e, por consequência, de comunicação e pressão, instala-se uma campanha desastrosa que visa pintar as faixas de ônibus como uma tragédia para são paulo.

é a famosa parte que se acha o todo. se o meu carro parou, a cidade parou. e se eu sou prejudicado, ainda que minoria, e se eu tenho força para fazer valer a minha vontade, ela terá que ser feita, ainda que em detrimento da maioria que sofre. problema deles.

me parece que não existe lógica em beneficiar o tipo de transporte que mobiliza menos gente. qualquer um que consegue olhar além do seu insulfilm possivelmente acha isso.

faixa de ônibus, sim. ônibus leva mais gente, os números mostram isso. precisa ter prioridade.

o prefeito haddad comprou uma briga corajosa. o debate, finalmente, é sobre uma iniciativa que pode ser, ainda que no futuro, a solução de um dos nossos maiores males. digo no futuro, porque ainda falta investir na qualidade e na quantidade dos veículos e das linhas.

não se resolve problema de trânsito construindo avenidas, viadutos e pontes (a única coisa que se resolve com essas obras é a vida das construtoras propineiras e dos prefeitos que depois ficam por aí sendo caçados pela interpol).

se existirem mil avenidas, haverá carros para todas elas. se existirem duas mil, idem.

antes que me acusem de petista (ser petista hoje é acusação), digo que não o sou. aliás, o pt está bem na cola do prefeito para fazê-lo pegar mais leve visando o impacto eleitoral no ano que vem.

o pt, como é público, se transformou num partido cuja sanha eleitoral passa por cima de qualquer princípio. e o responsável por isso chama-se lula (que, aliás, é também responsável por entupir as cidades de carros com a política do imposto reduzido).

nem com o próprio partido o prefeito de são paulo conta.

o que, neste caso, é um excelente sintoma de que a briga dele vale a pena.

será o mal banal?

como o costumeiro tédio burguês ganhou força na noite de domingo, resolvi enganá-lo assistindo "hannah arendt", que já deve ter saído de cartaz há algum tempo e que fiquei com preguiça monstra de ver no cinema.

tendo o tédio não se deixado enganar, acabado o filme, fui ao livro que ela escreveu sobre o episódio do julgamento de eichmann em jerusalém.

como não sou o reinaldo azevedo, não vou ficar aqui explicando do que se trata, fingindo uma ilustração que você pode obter facilmente na wikipedia. vá lá e descubra.

me chamam a atenção trechos das primeiras páginas.

"a justiça exige que o acusado seja processado, defendido e julgado, e que fiquem em suspenso todas as questões aparentemente mais importantes."

"e a justiça, embora uma abstração para quem pensa como o senhor ben-Gurion, vem a ser um amo muito mais severo até do que um primeiro-ministro com todo o seu poder. o domínio deste último, conforme o sr. hausner [o promotor] se estende em demonstrar, é permissivo. permite ao promotor dar entrevistas à imprensa e aparecer na televisão durante o julgamento, permite-lhe mesmo explosões "espontâneas" junto aos repórteres dentro do edifício do tribunal (...). permite que lance olhares para a plateia e permite a teatralidade de uma vaidade maior do que o normal."

"a justiça não admite coisas desse tipo; ela exige isolamento, admite mais a tristeza do que a raiva, e pede mais cautelosa abstinência diante de todos os prazeres de estar sob a luz dos refletores."

se eu, do alto da minha mediocridade, que, por falta de tempo e, na maioria das vezes, preguiça, leio muito menos do que eu gostaria, consigo realizar e absorver como óbvio o que disse a hannah, é tão difícil assim para um togado?

talvez alguém possa ter sido consumido pela vaidade (qual ser humano não é?). ou pela ma-fé (aí daria para segurar a onda).

se o foram pela primeira, caberá à história responder. se o foram pela segunda, as páginas dos jornais trarão a boa nova em poucos meses. seguida de um foguetório que cheira a golpe.

do viajar de busão

aí você vende o carro. e quer pagar pau de simples indo pro interior de busão. "é uma delícia", dizem. "você vai dormindo", argumentam. "você pode beber antes sem se preocupar", comemoram até. só vê vantagens em viagem de ônibus quem nunca fez. é fato.

burro eu, que já fiz muitas e, anos depois, insisto nesse erro. aqui estou no terminal do tietê. no meu imaginário doentio andar de ônibus no brasil evoluiu muito. imaginei um bom veículo com wi-fi, com tomadas para carregar o meu iphone e um pequeno frigobar para petiscos. por que não? afinal, pra que serviu o governo lula?

e aqui estou eu. no mesmo ônibus que andava quando fazia faculdade, há 15 anos. foi comovente relembrar, passo a passo, as etapas da tortura.

na porta do ônibus forma-se a fila. o motorista recolhe sua passagem: "tem que preencher com nome e telefone", ele me relembra. ah, que nostalgia!

os anos passam e as pessoas insistem em levar mais do que elas podem carregar. não, pra que pôr no bagageiro? "cabe lá em cima, não cabe?", pergunta uma doce senhora que provavelmente carrega um anão dentro de uma caixa.

entro. havia me esquecido da delícia de ficar esperando o ônibus sair. aquele quentinho gostoso antes de ligarem o ar condicionado. aquele abafadinho bom de todo mundo respirando no veículo fechado e parado. que deleite!

já comprei a passagem no corredor justamente para inibir alguém de comprar na janela bem ao lado. "todo mundo quer ir sozinho", penso. "e nesse horário... não vai ninguém. minhas chances de ficar sozinho com as duas poltronas é enorme!"

sento. ponho os fones de ouvidos e os óculos escuros. o tempo pode passar, mas eu não me esqueço do processo de intimidação. fones, óculos e cara feia. ninguém vai querer sentar ao meu lado. enfim começa aquele momento de angústia, em que você analisa o rosto de cada um que entra, e reza, reza fundo, reza forte, reza alto, se for o caso, pra todo mundo passar reto.

"esse tiozinho, não", torço. "essa vai lá no fundo". "putz, a gordinha de rosa e perfume doce". "só faltava ser essa com bebê no colo. não, bebê eu não aguento". não para de entrar gente. a cada um que passa, uma vitória. mas é claro que vem ela. a mocinha sorridente, feia que é o cão, esbanjando simpatia. desgraçadamente para com cara de pateta ao meu lado e diz "dá licença?". lívido, me levanto. com a pior cara que um ser humano pode fazer. ela entra sorrindo. se acomoda. com sua mochilinha rosa de pelúcia. com seu cheetos queijo e sua latinha de coca. eu entendo quem mata por motivos banais.

minha vontade é estabelecer o seguinte diálogo:

- escuta, você comprou esse assento mesmo?
- como?
- esse assento. você não viu que o do lado já tava ocupado? não imaginou que foi de propósito? que era pra inibir alguém de comprar aí?
- desculpe, eu...
- e o que você vai fazer em araraquara? ninguém vai pra esse fim de mundo! e são três da tarde, minha querida. hora de trabalhador estar na labuta! o que tá fazendo nesse ônibus? francamente!

mas não. nunca, jamais estabeleço diálogos. então me resigno e fica no meu silêncio sepulcral de ter que dividir essas poltronas pelas próximas horas. tento relaxar. enfim, vou dormir em minutos.

ah, mas e a senhorinha da frente? resolveu ligar pra filha, claro. mas não é só a filha que tem que ouvi-la. o ônibus inteiro precisa saber. saber que ela está saindo. que ela chega às sete. que ela vai ligar. que ela tentou passar na casa da neide pra pegar a encomenda, mas não deu. que é um absurdo aquilo que a filha está contando. que determinada pessoa não pode ser "de deus", não é possível. que vai dar tudo certo. que talvez atrase, depende do trânsito na marginal. que a passagem tá caríssima. que ela quase errou o horário de saída. tchau.

um bebê chora. um clássico. um clichê das viagens.  olho de novo para a mocinha comendo seu cheetos queijo. o barulhinho do pacote da elma chips. me ocorre ter um surto. levantar. pedir a atenção de todos. e, finalmente, soltar a pergunta que não quer calar:

- escuta, vocês são a nova classe média! vocês não deveriam estar num avião?

ativismo: vamos conversar?

não sei admirar ativistas. na verdade, tenho um misto de inveja de ser admirado como eles, pelas causas deles, e de preguiça de ser preso na rússia. tenho preguiça de tentar salvar o mundo, mas, mesmo que não tivesse, não tenho certeza se vale a pena. o aquecimento global vai acabar com o planeta. e daí? o planeta é tão legal assim? ariclê não achava. champignon também não. tá aí o walmor que não me deixa mentir (tá lá).

na verdade eu deveria gostar de ativistas, porque eles me permitem ficar em casa tomando meu bom dry martini com a certeza de que o mundo há de ser salvo. um brinde aos ativistas. não sei como pagar o quer ele estão fazendo por mim, pelos meus filhos, netos e bisnetos. mando uma lembrança? pra onde? oceano ártico sem número? vou mandar foie gras.

que delícia que é foie gras! daqui a pouco festa ilegal vai ser assim: rodinha de maconha e coquetel de alguma coisa com foie gras. ir a paris e comer foie gras vai ser como ir a amsterdã e fumar maconha. é esse o planeta que querem salvar? cadeia neles, putin.

ei, vegetariano: não se ofenda. ganso é tipo uma planta. só que ovípara, vai por mim. é, no máximo, um jogador de futebol inoperante nascido no (toc, toc, toc) pará.

e esse feriado agora, hein? no sábado. vossa senhora aparecida. e o outro, hein? e o feriado de finados, hein? no sábado. e o feriado de independência, hein? também foi no sábado. pela lógica, ano que vem vai ser tudo no domingo. mas 2015 vai bombar. já to fazendo a minha agenda. tô botando fé em 2015. conto com os ativistas para isso.

e por falar em ativista, e a marina, hein? bem disse algum insólito amigo: meio seringueira, meio itaú.

quiz urgente! responda rápido: qual o significado das seguintes expressões: rede sustentabilidade! filiação democrática! legítima defesa da esperança! governo de desruptura! tempo! tic tac tic tac tic tac. tempo esgotado! marina presidente? bem fez o walmor. preferiu a morte.

lá se foi mais um mês.

em mais uma noite de insônia, estabeleço contato com a importante editora química:

- por que a vida está fazendo isso comigo?

- o quê?

- terceira noite de insônia.

- sei como é. mas no que você fica pensando?

- sei lá. em tudo. mas principalmente na passagem de tempo. até a chegada de uma nova "piauí" me angustia. é um recado de que lá se foi mais um mês...

- e você não leu a última inteira...

- é isso.

- sei como é.

- então fico angustiado. não sei se quero que o tempo passe rápido para chegar logo o fim de semana ou se quero que ele passe devagar para eu não ficar velho.

- e ficaremos todos presos numa eterna segunda-feira.

- pior cenário.

- mas você tem que arrumar uma válvula de escape. eu, por exemplo, tô descontando tudo na central do consumidor da sulamérica.

- hahahahaha. vou ligar na net amanhã pra xingar um atendente!

- mas existe uma técnica importante.

- qual?

- você precisa exibir todo o seu vocabulário. tipo ministro do stf. eles ficam confusos.

- é mesmo?

- ontem eu chamei um atendente de "novato". foi ótimo.

- hahahahaha. vou falar assim: "exijo lhaneza de vossa parte"!

- isso!

- ou então: "estamos aqui a brincar com o regimento? a senhorita não sabe versar sobre minha conta"!

- ótimo. e termine assim: "quero saber como vocês pretendem reparar esse terrível dano".

- hahahaha.

- e, por fim: "e tanto faz que o diretor da ans tenha deixado o cargo hoje. esse sistema está acéfalo há anos".

- muito bom! pensando bem, vou ligar na net agora!

- agora também não precisa. tem outra coisa ótima para se distrair.

- qual?

- pensar no futuro da marina silva sem partido. vai te dar sono, garanto.

quero no mínimo uma sinusite!

sexta-feira. saio do trabalho e ligo para a importante socióloga.

- cara, tô gripado também.

- ih, bem vindo ao grupo.

- você também tá mal, né?

- sinusite.

- ah, é? como você sabe?

- fui ao pronto-socorro, ué.

- em qual?

- no do sírio-libanês.

- no sírio????

- é.

- que burguesa!

- por que esse ataque?

- porque você é hippie, adora favela, mas vai no sírio!

- cara, e é muito bom.

- eu nunca fui no sírio! isso é um absurdo!

- hahaha.

desligo o telefone. não deixa de ser uma afronta eu nunca ter pisado no sírio. as horas passam. começo a sentir dores pelo corpo. coriza. falta de ar. dor no peito. não resisto. vou ao termômetro: 37,5 de febre. segundo o doutor dráuzio, isso é febre. taí! um excelente motivo para ir ao sírio! que alegria!

já é noite. saio de casa. do táxi, ligo para a importante socióloga.

- tô indo no sírio.

- não acredito! que recalque!

- meu, eu não posso admitir que você tenha ido ao sírio e eu não. é muita humilhação! chega de nove de julho! chega de samaritano!

- eu não acredito!

- e eu tô mal de verdade.

- você tá inventando isso só pra ir ao sírio! você precisa aprender a perder!

- me respeita. eu tô à beira da morte!

finda a ligação, vou ao whats app. falar com o tucano médico.

- tô indo no sírio.

- o que houve?

- tô mal, tossindo muito, meio gripado...

- por que você não vai num cubano? defende tanto...

- eles ainda não estão atuando.

- isso não é nada. é viral. mas vai lá. e vai me avisando.

chego ao hospital. triagem inicial. a enfermeira quer me jogar um balde de água fria:

- a pressão tá ótima. e a temperatura tá em 36,5.

- não é possível. você pode medir de novo?

- não precisa. o senhor pode ir ali fazer o cadastro e já vai ser atendido.

vou ao cadastro. as mesmas perguntas de sempre. endereço, telefone, idade. até que:

- o senhor é pós-graduado?

- err... não.

- o senhor veio sozinho ou está acompanhado.

- err... sozinho... olha só, mais uma pergunta humilhante, e além de um pneumologista, vou precisar de um psiquiatra.

- como?

- nada, nada.

findo o cadastro, atendimento. descrevo para a médica meu calvário. a essa altura, padeço. as dores aumentaram. a tosse se reforçou. sinto calafrios e tremedeiras. já vejo a morte com sua foice ao meu lado.

- vou pedir uma chapa no pulmão e um hemograma.

- hemograma? pra que hemograma?

- é melhor, para ver se não tem inflamação.

- inflamação? onde? como assim? eu não vim aqui para achar inflamação.

- é praxe. estão aqui seus pedidos de exame.

ela sabe um segredo!

passo pelos exames. já na espera pelo resultado, me liga a importante socióloga.

- e aí?

- tô aqui, esperando os exames.

- meu, esse momento é o mais horrível.

- já pensei em todas as possibilidades. acabei de dar um google. todos os meus sintomas apontam para câncer de pulmão.

- imagina!

- sério, eu posso estar com um tumor do tamanho de uma bola de beisebol no pulmão.

- meu querido, você faz um exame por semana. do último até hoje não deu tempo de crescer uma bola de beisebol aí.

- que seja uma bola de gude! eu vou morrer!

- você nem é fumante! que exames ela pediu?

- raio x de pulmão e hemograma.

- hemograma?

- é. ela disse que ouviu barulho de secreção no pulmão direito.

- meu, será que eu também tenho isso, e o meu médico não ouviu?

- vai saber...

- cara, por que o meu médico não me pediu um hemograma? que absurdo! eu vou voltar aí e pedir um hemograma completo!

- bom, o mais importante é que eu estou aqui no sírio e me pediram uma exame a mais. estou na sua frente.

- mas eu fui diagnosticada com sinusite. e você não vai ter nada.

- claro que vou!

- claro que não.

- eu exijo no mínimo uma sinusite!

desligo, irritado. só me faltava essa! não ter nada!

aguardo algumas horas. enfim, os exames prontos, e o chamado da médica. nesse ínterim, visualizei meu velório no cemitério são bento. quem será que vai, hein? se aqueles putos de porto alegre e belo horizonte não vierem em caravana... ai, ai, ai. e a turma de brasília? tem que vir todo mundo!

frente a frente com a médica. ela começa.

- não é nada. é um pouco de secreção no pulmão.

- oi?

- secreção. no pulmão.

- catarro? catarro?

- se você prefere assim...

- não é possível. eu devo ter alguma coisa mais. eu tenho que ter!

- não tem.

- uma amiga veio aqui hoje e saiu com diagnóstico de sinusite! eu preciso ter, no mínimo, uma sinusite!

- mas não tem.

- olha só, vamos lá. eu tossi sangue.

- como?

- eu tossi sangue hoje à tarde. umas bolonas assim, ó. sangue puro, muito vermelho.

- não, não tossiu. tá tudo bem com você.

- olha, olha! olha como eu tô tremendo!

- isso não é nada. vou te dar uns remedinhos, mas tá tudo bem.

- eu tô me sentindo quente! tô fervendo! deve estar uns 39 de febre!

- olha só, está tudo bem. eu tenho outro paciente, agora, se você não se incomodar.

incrédulo, ouço as recomendações sobre os "remedinhos". me levanto e lentamente vou deixando o consultório. mas antes de abrir a porta, me viro.

- doutora, me deixe pedir só mais uma coisa?

- sim.

- posso sair por aquela porta que saiu a hebe?

juca chaves

pai e mãe na sala, feições enfezadas. dois filhos pequenos em silêncio, ainda nos uniformes da escola. a mãe começa.

- é sempre esse inferno quando tem a reunião escolar de vocês! é sempre isso! os professores reclamando da bagunça, da desordem! justo pra mim, que sou professora! não dá pra aceitar!

os meninos permanecem quietos, cabeças baixas. o pai, em silêncio. segue a mãe:

- eu não sei o que eu preciso fazer pra vocês entenderem que escola não é lugar de bagunça! e que vocês precisam respeitar os professores! nós pagamos caríssimo por este colégio! e vocês só aprontam! eu não sei mais o que fazer!

permanece o silêncio. a mãe olha para o pai com expressão de reprimenda, como quem diz "me ajude, fale algo". o pai se toca.

- é isso mesmo! eu conversei pessoalmente com aquela professora. aquela... como é o nome mesmo? aquela que parece o juca chaves.

- virgilio! - brada a mãe. (o pai tem o mesmo nome de um dos filhos).

- o que foi??

- isso não é maneira de falar da professora! principalmente na frente dos meninos!

- ué, mas ela parece mesmo o juca chaves!

- virgilio! olha os meninos!

- ah, glória, faça-me o favor! qual é o problema de parecer o juca chaves? é o menestrel do brasil!

- vocês dois parem de rir! vocês nem sabem quem é o juca chaves!

- sei sim! - responde o mais velho (e mais inteligente).

- e não parece o juca chaves? - pergunta o pai.

o menino segue rindo e balança a cabeça positivamente. o irmão também ri, mas faz cara de quem não sabe de quê. a mãe está perplexa. o pai continua.

- põe no google, aí. o gui não sabe quem é, tadinho. bota aí e mostra pra ele!

- pára com isso! - berra a mãe. - não vai por no google coisa nenhuma! e vocês dois nem pensem em repetir isso, ouviram? muito menos dentro da sala de aula!

- capaz dela ficar orgulhosa de parecer o juca chaves. como ela chama mesmo?

- dona nilza. - responde o mais velho, segurando a gargalhada.

- põe no youtube aí uma música dele. é divertido! sou fã!

- já pro quarto! os dois!

- mas e a bronca que a gente tava dando neles?

- pro quarto!

os meninos saem.

- eu não entendo você. chama os dois aqui, começa a dar a bronca e depois manda pro quarto sem terminar...

o pai ainda sorri. a mãe o olha raivosamente.

- se eu soubesse que você era fã do juca chaves, a gente não tinha se casado.

dia histórico

eis que, em meio ao expediente, recebo o e-mail abaixo de uma importante editora-química. achei bom espalhar por aí.

 

"gente, acho que hoje é um dia histórico e queria compartilhar com vcs o meu INCRÍVEL bom humor!!! sim, três exclamações!!!

- sexta-feira
- sol
- véspera do pagamento
 
mas o melhor:
 
- sarney nas últimas, com dengue, culpa dele próprio que governa o país há 40/50 anos e não fez nada para acabar com isso. gente, eu nasci sob figueiredo e, quando estava na primeira série, esse ser assumiu a presidência para nunca mais largar o osso. ele arruinou a minha juventude. se hoje eu sou perdulária, é culpa dele. passei tanta vontade que hoje só penso em recuperar o tempo perdido!
 
- manchete contra o "governo paulista", que, ao ler a linha fina, a gente descobre ser do PSDB, do "santíssimo" mario covas, tao corrupto quando qualquer outro petista. aliás, ele, o alckmin e o serra. a gente tem que trabalhar bem essas informações no fim de semana. comentar com os nossos familiares e em lugares públicos. vou hoje à sala são paulo (pam pam!) e já tenho um diálogo ensaiado na linha "viu hoje a manchete da folha? o PSDB me decepcionou muito...". 
 
o que falta para melhorar? 
 
acharem o corpo do amarildo dentro da geladeira do cabral!
 
meu bom dia a todos!!! bom fim de semana!!!" 

qualquer igrejinha vira o vaticano

em tempos papais, recupero um post da época da renúncia de bento xvi, jamais publicado. era carnaval. ilze scamparini achou por bem passar suas férias no rio de janeiro. eis que o santo padre decide que já era hora de saltar do titanic.

- alô, ilze?

(sambão ao fundo)

- oiiiiiiiiii!

- ilze?

- oiiiiiiiiii, quem é?

- oi, ilze, é o maurício, da redação da globo.

- oi maurício!!!!

- ilze, onde você tá?

- no bola preta!!!! e você????

- tô na redação, no plantão.

(gargalhada)

- bom trabalho!!!!

- ilze, o papa renunciou.

- oi? fala de novo, não ouvi direito! tá uma loucura aqui!

- o papa, ilze. o papa renunciou.

- o que????

- o papa, porra! o papa renunciou!

- eu entendi! mas pode???

- bom, pelo jeito pode.

- que coisa!

- então, a gente precisa que você feche um vt.

- oi???

- vt, ilze. uma matéria sobre a renúncia.

- mas ele tá no rio???

- ilze, é o seguinte: um carro da globo vai te encontrar aí. a gente só precisa que você grave uma passagem em frente a uma igreja.

- mas eu tô de coelhinha da playboy!!!

- a gente dá um tempo pra você se trocar. vai pra qualquer igreja.

- mas fechar vt em frente a uma igreja no rio???

- ilze, você faz isso há quarenta anos. em televisão, qualquer igrejinha barroca no fundo vira o vaticano. você consegue arrumar uma roupa?

- não sei... quer dizer, olha, tem um cara fantasiado de joaquim barbosa! posso fazer a passagem de toga?

estar de repouso

eram sete horas da manhã da última segunda-feira quando a enfermeira gordinha do hospital samaritano entrou para o hall das mulheres que já me viram pelado. o que ela não sabia, é que ela entrou também para o seleto time das que já me viram pelado e sóbrio, e isso não é pouco.

me lembro com carinho do dia em que fui diagnosticado com hérnia inguinal bilateral. foi após um check up em que o médico não identificou nada nos exames triviais, mas a dor, nas costas, no umbigo, as mãos inchadas e ardência para urinar continuavam. ele suspeitou que era frescura (o que a medicina do trabalho decidiu chamar de estresse). mas mandou que eu fizesse um exame menos convencional, a maravilhosa e inesquecível ressonância magnética.

foi uma semana incrível, agora me recordo com lágrimas nos olhos. foi justamente nela em que três pessoas morreram fazendo este mesmo exame num hospital de campinas. por causa do contraste. uma serenidade tomou conta da minha existência. que delícia, que júbilo.

é emocionante relembrar o termo que precisei assinar antes de me colocarem na máquina da morte.

- pra que é este termo?

- para o senhor estar ciente de tudo o que pode acontecer durante o exame.

- e o que pode acontecer?

- na maioria das pessoas não acontece nada. em algumas dá uma coceira, a pele fica um pouco avermelhada, e só.

- e?

- bom, em algumas pode dar alguma coisinha, uma parada cardíaca ou um edema de glote.

(pausa para vocês imaginarem a minha cara).

- e em uma pequena parcela, muito pequena, pode levar à morte. mas o senhor está em um hospital e faremos tudo para salvá-lo.

ela riu. sim, ela sorriu. que bom que vocês farão tudo para me salvar. fico muito mais aliviado. assinei o papel apoiado na científica tese de que se não estou nas minorias estatísticas para ganhar na mega-sena também não estou para morrer fazendo ressonância. e lá fui eu para a máquina. nem coceira.

as dores de fato eram frescura, ou estresse, segundo essa turma inóspita que trabalha catorze horas por dia. mas havia algo que não doía (eu sabia!): a hérnia inguinal bilateral.

- o que você tem é uma hérnia inguinal - disse o doutor fábio, a quem, agora, já sem a hérnia, devo minha vida.

- e é grave?

- nem um pouco. mas precisa operar. e quanto mais cedo melhor, aproveitando que você é jovem.

- o que causa essa hérnia?

- exercício físico. academia. musculação.

é isso mesmo. eu me preocupando em beber menos para salvar o fígado enquanto, sorrateiramente, aquela maldita academia estava me matando por dentro.

meses se passaram. ali estava eu pelado diante da enfermeira. minutos depois, deitado numa maca rolando pelos corredores do hospital. por um momento achei que o hugh laurie pudesse estar me empurrando. chego ao centro cirúrgico.

- olá, eu sou o dr. heráclito e vou fazer sua anestesia.

nada mais me lembro. quando voltei à vida, haviam explodido a maratona de boston. chupa fbi, meu álibi é perfeito, estava sedado. o médico passou no quarto. minha mãe fez todas as perguntas possíveis, menos a principal, que eu fui obrigado a externar:

- e quando eu posso voltar a beber?

meu pai fez cara de surpreso. um amigo mimético diria que isso tem nome: desfaçatez. meu pai teria feito rigorosamente a mesma pergunta. minha mãe ralhou: "ele vai achar que você é alcoólatra". ele não acha.

parti para uma semana de repouso. descobri que o cérebro não manda porra nenhuma no corpo. o cérebro é a grande rainha da inglaterra. quem manda, a thatcher do corpo humano, é a parte inferior do abdômen. ninguém falece por morte cerebral. as pessoas morrem porque a parte inferior do abdômen parou de funcionar. ela está envolvida em tudo! tossir, espirrar, rir, mijar, andar, sentar, deitar, comer.

repousar é um saco no primeiro dia. depois você se acostuma. agora já estou perfeitamente apto a não voltar à rotina. nem ao trabalho.

foram dias sendo paparicado por pai, mãe, avó; comendo bolo de fubá, comendo do melhor, lendo, dormindo. e, claro, vendo todos os episódios atrasados de mad men. agora é como se eu trabalhasse na steerling cooper. tenho a planta do escritório na minha cabeça. acho o don draper um zé mayer de quinta, a mulher dele uma louca varrida e a joan a mulher mais gata de todas as séries que já existiram. e eu queria ser o roger. o duro é ver tudo isso sem poder tomar um uisquezinho, dois uisquezinhos com eles.

ah, não posso encerrar sem mencionar as valorosas visitas. vieram a importante socióloga (que me alertou que eu estava com tempo de sobra para atualizar o blog), o mimético amigo (que disparou a contagem regressiva para a volta aos drinks), o casal mm (interessadíssimo na técnica da depilação pubiana), aquele casal vizinho que gosta de comer, a importante editora química (que se uniu à minha mãe para reclamar da minha cozinha, do meu fogão e da minha geladeira) e o arquiteto com repertório (que na verdade não passa de um bom dj). a importante ex-correspondente, entre um voto recontado para o maduro e outro para o caprilles, também fez questão de prestar sua solidariedade direto da linda e exuberante caracas.

agora é esperar. o médico me libera na segunda. na terça estou de volta para o trabalho e para o anão (deus é testemunha de que para colocar esse anão no ar pela primeira vez tive que pedir de joelhos. mais detalhes, outro dia).

na próxima sexta, o amigo formador de opinião aqui estará. tranquem as portas. será a prova de fogo da recuperação.

sentirei saudades do repouso. não vejo a hora de estourar minha apendicite.

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