estar de repouso

eram sete horas da manhã da última segunda-feira quando a enfermeira gordinha do hospital samaritano entrou para o hall das mulheres que já me viram pelado. o que ela não sabia, é que ela entrou também para o seleto time das que já me viram pelado e sóbrio, e isso não é pouco.

me lembro com carinho do dia em que fui diagnosticado com hérnia inguinal bilateral. foi após um check up em que o médico não identificou nada nos exames triviais, mas a dor, nas costas, no umbigo, as mãos inchadas e ardência para urinar continuavam. ele suspeitou que era frescura (o que a medicina do trabalho decidiu chamar de estresse). mas mandou que eu fizesse um exame menos convencional, a maravilhosa e inesquecível ressonância magnética.

foi uma semana incrível, agora me recordo com lágrimas nos olhos. foi justamente nela em que três pessoas morreram fazendo este mesmo exame num hospital de campinas. por causa do contraste. uma serenidade tomou conta da minha existência. que delícia, que júbilo.

é emocionante relembrar o termo que precisei assinar antes de me colocarem na máquina da morte.

- pra que é este termo?

- para o senhor estar ciente de tudo o que pode acontecer durante o exame.

- e o que pode acontecer?

- na maioria das pessoas não acontece nada. em algumas dá uma coceira, a pele fica um pouco avermelhada, e só.

- e?

- bom, em algumas pode dar alguma coisinha, uma parada cardíaca ou um edema de glote.

(pausa para vocês imaginarem a minha cara).

- e em uma pequena parcela, muito pequena, pode levar à morte. mas o senhor está em um hospital e faremos tudo para salvá-lo.

ela riu. sim, ela sorriu. que bom que vocês farão tudo para me salvar. fico muito mais aliviado. assinei o papel apoiado na científica tese de que se não estou nas minorias estatísticas para ganhar na mega-sena também não estou para morrer fazendo ressonância. e lá fui eu para a máquina. nem coceira.

as dores de fato eram frescura, ou estresse, segundo essa turma inóspita que trabalha catorze horas por dia. mas havia algo que não doía (eu sabia!): a hérnia inguinal bilateral.

- o que você tem é uma hérnia inguinal - disse o doutor fábio, a quem, agora, já sem a hérnia, devo minha vida.

- e é grave?

- nem um pouco. mas precisa operar. e quanto mais cedo melhor, aproveitando que você é jovem.

- o que causa essa hérnia?

- exercício físico. academia. musculação.

é isso mesmo. eu me preocupando em beber menos para salvar o fígado enquanto, sorrateiramente, aquela maldita academia estava me matando por dentro.

meses se passaram. ali estava eu pelado diante da enfermeira. minutos depois, deitado numa maca rolando pelos corredores do hospital. por um momento achei que o hugh laurie pudesse estar me empurrando. chego ao centro cirúrgico.

- olá, eu sou o dr. heráclito e vou fazer sua anestesia.

nada mais me lembro. quando voltei à vida, haviam explodido a maratona de boston. chupa fbi, meu álibi é perfeito, estava sedado. o médico passou no quarto. minha mãe fez todas as perguntas possíveis, menos a principal, que eu fui obrigado a externar:

- e quando eu posso voltar a beber?

meu pai fez cara de surpreso. um amigo mimético diria que isso tem nome: desfaçatez. meu pai teria feito rigorosamente a mesma pergunta. minha mãe ralhou: "ele vai achar que você é alcoólatra". ele não acha.

parti para uma semana de repouso. descobri que o cérebro não manda porra nenhuma no corpo. o cérebro é a grande rainha da inglaterra. quem manda, a thatcher do corpo humano, é a parte inferior do abdômen. ninguém falece por morte cerebral. as pessoas morrem porque a parte inferior do abdômen parou de funcionar. ela está envolvida em tudo! tossir, espirrar, rir, mijar, andar, sentar, deitar, comer.

repousar é um saco no primeiro dia. depois você se acostuma. agora já estou perfeitamente apto a não voltar à rotina. nem ao trabalho.

foram dias sendo paparicado por pai, mãe, avó; comendo bolo de fubá, comendo do melhor, lendo, dormindo. e, claro, vendo todos os episódios atrasados de mad men. agora é como se eu trabalhasse na steerling cooper. tenho a planta do escritório na minha cabeça. acho o don draper um zé mayer de quinta, a mulher dele uma louca varrida e a joan a mulher mais gata de todas as séries que já existiram. e eu queria ser o roger. o duro é ver tudo isso sem poder tomar um uisquezinho, dois uisquezinhos com eles.

ah, não posso encerrar sem mencionar as valorosas visitas. vieram a importante socióloga (que me alertou que eu estava com tempo de sobra para atualizar o blog), o mimético amigo (que disparou a contagem regressiva para a volta aos drinks), o casal mm (interessadíssimo na técnica da depilação pubiana), aquele casal vizinho que gosta de comer, a importante editora química (que se uniu à minha mãe para reclamar da minha cozinha, do meu fogão e da minha geladeira) e o arquiteto com repertório (que na verdade não passa de um bom dj). a importante ex-correspondente, entre um voto recontado para o maduro e outro para o caprilles, também fez questão de prestar sua solidariedade direto da linda e exuberante caracas.

agora é esperar. o médico me libera na segunda. na terça estou de volta para o trabalho e para o anão (deus é testemunha de que para colocar esse anão no ar pela primeira vez tive que pedir de joelhos. mais detalhes, outro dia).

na próxima sexta, o amigo formador de opinião aqui estará. tranquem as portas. será a prova de fogo da recuperação.

sentirei saudades do repouso. não vejo a hora de estourar minha apendicite.

você olhou no weather channel?

- bom dia. o bom dia brasil está no ar. bom dia, mirian.

- bom? não tem nada de bom. vai ter apagão.

- vai ter apagão? onde?

- no brasil, ué.

- apagão de energia?

- é. apagão. mas antes vai ter racionamento.

- sério?

- seríssimo. vai faltar energia. o país não vai crescer. capaz até de acabar.

- mas, miriam...

- vai por mim. fim do mundo. vai ter racionamento, apagão e holocausto.

- holocausto?

- fim do mundo. vai faltar energia.

- miriam, você pode dar um pulinho ali na sala ao lado?

- por quê?

- é que ali fica a moça do tempo do jornal nacional.

- e?

- e até ela, que só tá lá porque é gostosa, sabe que vai chover muito daqui pra frente. nã0 vai ter racionamento. e você, que tá aqui, apesar de não ser gostosa, deveria saber disso. você olhou no weather channel?

- onde?

- weather channel. você olhou no weather channel? pra ver se vai chover?

- prefiro falar do mensalão.

arquivo confidencial

 

apresentador no palco, ao lado do artista. o galã do momento:

- o lôco, meu! tá aqui do meu lado o super léo, um dos maiores caráteres da tv brasileira. tanto no pessoal quanto no profissional, esse cara é um monstro sagrado! e se prepare porque você está no arquiiiivooo confidencial! 

- o quê? 

- ô lôco meu, arquivo confidencial! 

- não, não, não. é sério, não vou participar dessa merda. 

- que é isso, meu? 

- não, é serio. eu achava que essa porcaria era combinada. essa porra nunca foi combinada? pra mim, isso aqui era tudo teatro. 

que isso, meu? o lôco! aqui nada é combinado! é mais emoção na sua televisão. 

- não, não, não. tô fora. Não tem nada meu pra mostrar, ninguém me falou nada, não vou participar! me chamaram aqui pra fazer outra coisa. 

- que coisa? 

- sei lá, o que vocês falar pros caras que vão participar desse troço pra eles não desconfiarem? qualquer coisa, nem lembro. eu só sei que eu não vou participar. 

- o lôco, meu! mas o super pessoal gravou depoimento! um monte de gente falou! 

- que gente? Que gente? quem falou? nem tem ninguém pra falar, não tenho amigo, não tenho ninguém. 

- sua super mãe falou! 

- minha mãe falou? 

- falou! não, falou, produção? falou! 

- mas minha mãe é muda! 

- mas falou. Olha aí a super mãe do super léo! 

Entra um vídeo com uma muda fazendo gestos e ruídos para a câmera. termina com um coração feito com a união das duas mãos. 

- o lôco, o auditório aplaude de pé o depoimento da super dona norma, a mãe desse pentelho, o super léo. um exemplo de superação essa sua mãe, hein, bicho?

- mas que merda é essa? vocês botaram minha mãe pra fazer gesto pra câmera? isso é o fim do mundo! e ela não me contou! 

- não contou porque ela não fala, o lôco, meu! 

- nessa hora até agradeço a deus por não ter pai. que merda isso!

- você não tem pai? 

- não, morreu. 

- não tem pai, mas tem padrasto! roda aí! 

entra o vídeo do padrasto: 

- eu conheci o Léo pequenininho. comecei a comer a mãe dele muito cedo, ela até falava na época. o moleque era meio esquisito, não falava com ninguém, ficava pelos cantos. sei lá, dizem que é estranho que nem o pai. depois ele veio com essa história de fazer artes cênicas, de ser ator. eu até falei pra mãe dele: sei não, acho que esse moleque é viado... Enfim, ele insistiu e acabou dando certo, né léo? quer dizer, dando não, né campeão? virou ganharão, pega geral as gostosas na novela, né não? léo, a gente torce muito por você. sua mãe não fala nada, mas queremos que você saiba o quanto a gente te ama, garoto.

- o lôco, meu. super Léo emocionado aqui no palco! 

- emocionado o cacete, eu to puto! que merda é essa? eu vou embora dessa bosta! léo vai saindo do palco. 

- ficou bravo, o super léo. Bem que a vó dessa fera avisou, hein?

léo volta, em pânico: 

- vó? que vó? 

- a sua super vó, dona noêmia, também gravou! 

- não! minha vó, não! minha vó é esclerosada, porra! 

entra o video.

- o léo é uma bichinha complicada. desde criança é assim. tudo tem que ser do jeito dele. senão dá showzinho, bate o pezinho, fica todo todo nervosinho. gosta de dar que é uma coisa. mas dá, viu? mas dá. vinha passar férias aqui em casa e dava pros meninos todos da vizinhança. mas o preferido dele era o janjão. lembra do janjão, leozinho? (entra uma foto antiga do léo abraçado com o janjão). hoje o janjão é o empresário do léo. como durou esse amor. leozinho, apesar de tudo, a vovó te ama e torce muito por você. um beijo. 

volta para o estúdio. léo, produção e platéia estarrecidos, em silencio. apresentador: 

- ô lôco, quem sabe faz ao vivo! 

feedback de natal

chefe trabalhando na sala. funcionário bate na porta.

- dá licença?

- sim, pode entrar.

- então, desculpa interromper, sei que você deve estar muito ocupado...

- não, tudo bem, pode falar.

- é que, bom, fim do ano, né? e eu queria saber o que você está achando do meu trabalho.

- tá tudo bem.

- mas eu queria, assim, um feedback, sabe? se estou correspondendo, se tem alguma coisa que eu possa melhorar...

- tá tudo bem.

- assim, sabe? alguma coisa que tenha feito errado, né? que eu possa melhorar... pode falar, viu? se tiver alguma coisa, pode falar.

- você ainda trabalha aqui?

- sim (risinhos).

- então tá tudo bem.

- e o feedback?

- vou te falar uma coisa: eu nunca vi um funcionário entrar aqui e pedir um feedback esperando ouvir um de verdade. todo mundo que entra aqui está carente de elogios. quer ouvir justamente isso. que está tudo bem. é estatístico. cem por cento das pessoas que entram aqui querem ouvir: "você é ótimo, está tudo ótimo, parabéns". ninguém quer ouvir: "você é uma decepção, está tudo horrível, estou prestes a te mandar embora".

- mas... tipo assim, é... eu sou uma decepção?

(impaciência) - olha bem para mim. presta atenção. se você fosse uma decepção, você acha mesmo que eu iria esperar até o natal para te contar?

- não, mas...

- você acha que na primeira bobagem que você fizesse, eu não iria comer seu toco em tempo real?

- sim...

- v0cê acha? acha que eu iria passar doze meses vendo você fazer burrice e guardar tudinho pra te contar entre o natal e o ano novo? no dia do amig0-secreto da empresa?

- não...

- feedback não é presente de papai noel. aliás, feedback não é coisa que se peça. nem para papai noel nem pra ninguém. feedback a gente espera. sentado. trabalhando. se o outro lado quiser dar, ele dá. senão a gente toca a nossa vida. e toca pra frente, viu? tocar para o lado, pedindo feedback positivo não resolve nada.

(silêncio).

- por que as pessoas pedem retorno do chefe? por quê? vai adiantar? vai? não muda nada! a criatura vai sentar ali e fazer exatamente as mesmas coisas que fez o ano inteiro! e vai fazer para o resto da vida!

(silêncio).

- atenção: o ser humano não muda com feedback. não existe feedback no mundo que faça o ser humano mudar. vai por mim. ser humano só sente no bolso.

(silêncio).

- é isso.  multa. dá um desconto no contracheque do sujeito e você vai ver se melhora ou se não melhora. (silêncio). mais alguma coisa?

- ãh, não.

- legal. feliz natal!

um palhaço mais de esquerda

da capital federal, liga o importante repórter politico-econômico:

- e aí? tudo bem?

- tudo, e você?

- tô di boa.

- estamos.

- e o carnaval?

- recife, né?

- já comprei passagem. vamos de fantasia?

- claro. qual?

- de palhaço.

- palhaço?

- é, mano. fantasia de palhaço. pensa aí em dois palhaços e vamos de fantasia.

- patati e patatá?

- não, velho. patati e patatá é muito comercial. eu quero um palhaço mais de esquerda.

deixa eu aproveitar esse colágeno antes que acabe

toca o telefone.

- oi.

- oi. tudo bem?

- você já fez cultura de urina?

- já.

- acabou de sair o resultado da minha. deu negativo.

- que ótimo!

- então o que eu tenho?

- nada, ué!

- como nada?! alguma coisa eu tenho!

- cala a boca. você tá mijando sangue?

- imagina! tá louca! a pior coisa que poderia acontecer comigo seria mijar sangue! eu não admitiria mijar sangue!

(risada).

- é verdade! imagina você vai mijar e sai sangue! é o pior sinal que um ser humano pode receber de que tá tudo errado lá dentro!

- eu já mijei sangue e tô viva até hoje.

- vai saber até quando... tô desenganado. a festa de daqui a pouco vai ser minha despedida.

- cala a boca! (risada).

- sério, o fim do mundo tá chegando só pra mim.

- esse negócio de urina não tá com nada. a minha preocupação é outra.

- qual?

- colágeno.

- oi?

- colágeno, meu querido!

- como assim?

- você sabia que o ser humano só produz colágeno até os trinta anos?

- é?

- sim. e é o colágeno que sustentava a gente com aquela pele lisinha, tudo durinho, tudo em cima.

- e por que para?

- sei lá. só sei que isso é conhecido como começo do fim.

- o niemeyer ficou 75 anos sem produzir colágeno?

- exato.

- de que adianta saber fazer curva se não tem colágeno?

- é isso.

- e quem eu pago para mudar isso? e por que eu não soube disso até hoje? eu passei trinta anos produzindo colágeno e não aproveitei um dia sequer?

- como assim?

- não aproveitei, ué! não aproveitei! não teve um único dia da minha vida em que eu acordei e falei "que maravilha produzir colágeno" ou "que bom que estou produzindo colágeno" ou "deixa eu aproveitar esse colágeno antes que acabe".

- alguma vez na sua vida você já acordou e pensou algo parecido sobre qualquer coisa?

- não.

- relembrando: qual é a primeira expressão que você diz quando acorda?

- "que merda!"

- então pronto. pega o táxi, passa aqui e vamos à festa.

- o correto é "pegue" o táxi e "passe" aqui.

- no tempo verbal que você quiser, faça o que eu estou mandando. você já bebeu?

- sim.

- o que?

- uma dose de uísque.

- uísque?

- querida, um exame de cultura de urina negativo merece um bom uísque.

dor no umbigo

- oi, onde você tá?
- no aeroporto. no balcão do check in.
- já chegou? que bom.
- vou dar seu nome e seu telefone para emergências.
- de novo?
- eles sempre pedem.
- sim, mas eles não pedem o meu nome. por que eu de novo?
- por que não você de novo?
- por milhares de motivos. porque eu fico tensa o voo inteiro achando que vão me ligar dizendo que você morreu. eu não consigo nem acessar a internet com medo de ver que um avião caiu, desapareceu, sei lá. além de tudo, eu não sei dar notícia ruim pras pessoas. como eu vou avisar seus pais que você morreu?
- bom, pelo que você tá dizendo, eles já vão ter visto na internet antes de você.
- é diferente! é diferente! eu vou ter que ligar! eu vou estar sob pressão! pronto, olha aí, já to nervosa! dá o número de outra pessoa, vai?
- não, vou dar o seu. tem dado sorte. e você já pensou tanto nisso que já tá preparada pro pior.
- que absurdo! eu não agüento isso! todo mundo que viaja de avião dá meu nome pra companhia. eu tenho cadastro em todas! eles vão achar que eu sou uma loser idiota que não viaja e que fica sentada em casa fazendo tricô e esperando uma tragédia acontecer pra portar as más notícias! cansei disso. já avisa aí que eu vou maltratar quem me ligar!
- besteira.
- quer saber, não vou atender nenhuma ligação de número desconhecido nas próximas doze horas!
- posso falar? esse voo não vai cair. tá com cara que coisa muito pior vai acontecer.
- oi?
- tô com uma dor aqui perto do umbigo. acho que vou ter uma crise de apendicite em plena viagem.
- para com isso, que bobagem.
- é verdade. acabei de entrar no site do doutor drauzio. dor no umbigo é apendicite. será que se precisar o piloto desce no meio do caminho?
- pra quê?
- pra um atendimento de emergência, oras. (silêncio). preciso descobrir rapidamente se tem algum médico no meu vôo. um clínico geral seria suficiente. pelo menos para me dar os primeiros socorros até o avião descer.
- no suriname? na guatemala?
- sei lá. eles vão me atender lá?
- acredito que sim. mas acho que o piloto não desce, não.
- tem que descer!
- eu conheço uma menina que teve que ser atendida por um veterinário.
- oi?!
- é, ela teve uma crise aguda de sei lá o que. acho que era asma. e foi dentro do avião. o mais próximo de um médico que acharam foi um veterinário.
- nem brinca com uma coisa dessas!
- pois é. e o pior é que era um veterinário especializado em aves. nada a ver. nem com mamífero ele lidava.
- para! você tá me sacaneando!
- não tô!
- não autorizo que um veterinário me examine! vou voltar no balcão e assinar um termo! veterinário em mim não rela!
- você tá gritando assim no meio do saguão?
- absurdo! veterinário? o meu apêndice supurado e eu sendo atendido por um veterinário???
- é a solução. se não tiver médico e o piloto não descer...
- eu vou morrer com apêndice inflamado em pleno vôo?!
- provável. pior. isso não vai sair na internet. e eu vou ter que ligar para o seu pai. melhor que esse avião caia de uma vez.
- também acho!

rir batendo palmas

casal em casa. ele sentado no sofá. ela preparando a mesa para o jantar. e reclamando:

- eu não entendo a sua insistência em convidar esses dois pra jantar aqui! eu já disse que não queria!

- eu é que não entendo essa sua implicância. qual é o problema? eles sempre convidam a gente.

- e a gente nunca foi. eles poderiam fazer o mesmo. a gente convida, eles não vêm.

- que bobagem. vai ser divertido.

- divertido? você acha mesmo que vai ser divertido?

- sério, qual é o seu problema com eles? não é possível! eu não vejo nada demais. é um simples jantar.

- eu me irrito! eu simplesmente me irrito!

- mas com quê, meu deus?! era só isso o que eu queria entender!

ela para de colocar os talheres na mesa e encara o marido. sóbria. serena. séria.

- ele ri batendo palmas.

(silêncio seguido de:) - oi?

- é isso. ele ri batendo palmas. e isso me irrita.

(cara de absoluta incompreensão) - como assim? ri batendo palmas?

- ri batendo palmas, ué. ele bate palmas enquanto dá risada. nunca reparou?

- nunca.

- pois repare. você fala qualquer coisa engraçada, ele joga cabeça pra trás, dá uma gargalhada e bate palmas enquanto ri. eu detesto quem bate palmas enquanto ri.

(risos)

- é isso mesmo! - ela continua - não acho graça. me dá agonia. sem contar que ele gargalha em silêncio.

(mais risos)

- como me irrita! como me irrita! a boca abre, mexe, mas não sai nada. é uma gargalhada em silêncio e só o barulho das palmas. eu não consigo não me irritar. é como... é como... é como se ele falasse e só aparecessem os dentes de baixo.

(ele para de rir)

- entendeu, né? assim como você se irrita quando alguém fala e só aparecem os dentes de baixo, eu me irrito com quem ri e bate palmas.

(sério) - não é a mesma coisa.

- é, sim, senhor! olha aí o seu mau humor. foi só pensar.

- o meu caso é diferente. eu já fui clinicamente diagnosticado. fui medicado. é doença. não brinca com isso.

- que mané doença, o quê. isso é frescura. onde já se viu alguém ficar nervosinho porque não gosta de conversar com gente que só os dentes de baixo aparecem!

- é doença! o doutor falou!

- imagina, mudar de canal quando aparece o carlos nascimento...

- não fala carlos nascimento que eu não gosto!

- eu gosto do nascimento. tenho certeza que ele não ri batendo palmas.

- pára! ou você pára com isso ou eu vou escrever com uma caneta de ponta porosa na sua frente!

(desdém) - aqui em casa não tem caneta de ponta porosa.

- você é que pensa. sempre guardo uma pra emergências como esta! (levanta, abre uma gaveta e puxa uma caneta e um papel. e começa a rabiscar. ela grita).

- pára! pára! não risca com a ponta porosa! me dá agonia!

- foi você quem começou!

ela corre na cozinha. volta com um pacote de palitos de picolé. coloca o primeiro na boca. ele reage:

- não! isso não!

ela morte o palito.

- não! eu detesto isso! (mãos nos ouvidos).

ela, entre uma mastigada e outra, range os dentes:

- escreve com a ponta porosa! escreve! que eu vou morder uma floresta de eucaliptos inteira na sua frente!

toca a campainha. paralisados. ele, irritado, vai até a porta e abre com fúria. o casal convidado espera sorridente no hall. ele vocifera:

- você com essa sua maldita mania de rir batendo palmas quase acaba com o meu casamento! - e bate a porta com violência.

do lado de fora, o homem está perplexo. a mulher o encara:

- não falei que todo mundo repara?

 

alcachofra: emagreça seis quilos em seis semanas

acabo de ver o começo de um programa sobre alimentação. os alimentos que curam. que porcaria, né? tome café da manhã e coma um pistache. pistache tem a vitamina x. previne o câncer de mitocôndria. coma meia uva por dia. tem vitamina j. ajuda a evitar a queda de pálpebras. você não gosta de quiabo? pois saiba que ele é rico em ácido z, que preserva a pele das nádegas.

quero que todas as vitaminas vão diabo que as carregue. qualquer desgraça que a gente coma tem alguma vitamina do alfabeto. menos melão. melão é o quarto estágio da água. sólido, líquido, gasoso e melão.

não, eu não sou mal humorado. mas eu já li que ovo faz mal. que ovo faz bem. que ovo mata. que ovo engorda. que ovo é alucinógeno. que ovo é vida. que saco isso. "pesquisadores australianos comprovam: café dá ataque cardíaco". mas os japoneses, não: "café ajuda a evitar o envelhecimento".

pra que serve a ciência? que cacete fez o iluminismo nesse mundo? eu quero a idade média de volta! quero a opinião de deus. mata ou mata? ovo mata ou não mata? porque essa história de ciência é demais pra mim. me direis uma palavra e serei salvo.

sério: um pistache por dia? UM? ajuda mesmo? bolsa-pistache pro brasil! é ridículo. eu pago pra ver alguém comendo UM pistache por dia. que vitamina tem a pizza? eu quero saber que vitamina tem a pizza! só isso me interessa.

essa angústia doentia de ter saúde é aterradora. saúde é traiçoeira. você tem até hoje. amanhã sabe lá deus como você vai acordar. que você coma uma tonelada de pistache. conheço gente que come fruta há trinta anos e é atropelada por ônibus. por caminhão. que cai andaime na cabeça. que é picotada pela esposa.

fala sério! não falo sobre vitaminas. nem sobre planetas. não quero fortalecer minha córnea. não quero me alimentar como se estivesse estudando biologia. fico imaginando deus criando as frutas. "essa aqui vai ter muita K. muito potássio nessa banana, querubim". "não, não. aí você põe mais B. põe mais B pra fortalecer os ossos. tô criando uma gente com osso muito fraco, vão precisar de B". "enriquece essa alcachofra com D. põe D com vontade nessa alcachofra. ela vai ajudar a emagracer seis quilos em seis semanas!"

o problema do ser humano é que nós queremos nos salvar. não tem salvação, minha gente. acreditem. não tem salvação.

sem exceção

quando a vida não faz sentido é porque ela é normal. porque você sente que é assim. porque você pergunta. porque junto mesmo. porque afirmativo. muita gente usa porque separado equivocadamente. porque não teve oportunidade. porque só teve uma professora medíocre que dizia que por que separado era na pergunta e porque junto era na resposta. a mesma idiota que sempre explicou que vírgula você usa quando respira. como, se, um, asmático, falasse, assim. vida besta. não que eu seja um ás na vírgula. mas  não tente simplificar minha vida com regras ridículas. a vida é complexa demais para regras. nenhuma resiste a sequer uma exceção. fique aí com seus dilemas. e seus prazos. contando a regressiva. não me ensine que o bozo é o amigo da garotada e inimigo dos trapalhões. nunca precisei de tabela periódica. que ridículo me fazer decorar isso. que ridículo. como podem submeter um jovem a isso? gente chata e inconveniente. querendo ensinar o que ninguém, ninguém, ninguém precisa aprender. e não falar o básico: que a vida que vem pela frente tem fim. e não tem lógica. nem sentido. é finita. sem exceção.

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