Publicado em 20/04/2013 às 15h13
estar de repouso
eram sete horas da manhã da última segunda-feira quando a enfermeira gordinha do hospital samaritano entrou para o hall das mulheres que já me viram pelado. o que ela não sabia, é que ela entrou também para o seleto time das que já me viram pelado e sóbrio, e isso não é pouco.
me lembro com carinho do dia em que fui diagnosticado com hérnia inguinal bilateral. foi após um check up em que o médico não identificou nada nos exames triviais, mas a dor, nas costas, no umbigo, as mãos inchadas e ardência para urinar continuavam. ele suspeitou que era frescura (o que a medicina do trabalho decidiu chamar de estresse). mas mandou que eu fizesse um exame menos convencional, a maravilhosa e inesquecível ressonância magnética.
foi uma semana incrível, agora me recordo com lágrimas nos olhos. foi justamente nela em que três pessoas morreram fazendo este mesmo exame num hospital de campinas. por causa do contraste. uma serenidade tomou conta da minha existência. que delícia, que júbilo.
é emocionante relembrar o termo que precisei assinar antes de me colocarem na máquina da morte.
- pra que é este termo?
- para o senhor estar ciente de tudo o que pode acontecer durante o exame.
- e o que pode acontecer?
- na maioria das pessoas não acontece nada. em algumas dá uma coceira, a pele fica um pouco avermelhada, e só.
- e?
- bom, em algumas pode dar alguma coisinha, uma parada cardíaca ou um edema de glote.
(pausa para vocês imaginarem a minha cara).
- e em uma pequena parcela, muito pequena, pode levar à morte. mas o senhor está em um hospital e faremos tudo para salvá-lo.
ela riu. sim, ela sorriu. que bom que vocês farão tudo para me salvar. fico muito mais aliviado. assinei o papel apoiado na científica tese de que se não estou nas minorias estatísticas para ganhar na mega-sena também não estou para morrer fazendo ressonância. e lá fui eu para a máquina. nem coceira.
as dores de fato eram frescura, ou estresse, segundo essa turma inóspita que trabalha catorze horas por dia. mas havia algo que não doía (eu sabia!): a hérnia inguinal bilateral.
- o que você tem é uma hérnia inguinal - disse o doutor fábio, a quem, agora, já sem a hérnia, devo minha vida.
- e é grave?
- nem um pouco. mas precisa operar. e quanto mais cedo melhor, aproveitando que você é jovem.
- o que causa essa hérnia?
- exercício físico. academia. musculação.
é isso mesmo. eu me preocupando em beber menos para salvar o fígado enquanto, sorrateiramente, aquela maldita academia estava me matando por dentro.
meses se passaram. ali estava eu pelado diante da enfermeira. minutos depois, deitado numa maca rolando pelos corredores do hospital. por um momento achei que o hugh laurie pudesse estar me empurrando. chego ao centro cirúrgico.
- olá, eu sou o dr. heráclito e vou fazer sua anestesia.
nada mais me lembro. quando voltei à vida, haviam explodido a maratona de boston. chupa fbi, meu álibi é perfeito, estava sedado. o médico passou no quarto. minha mãe fez todas as perguntas possíveis, menos a principal, que eu fui obrigado a externar:
- e quando eu posso voltar a beber?
meu pai fez cara de surpreso. um amigo mimético diria que isso tem nome: desfaçatez. meu pai teria feito rigorosamente a mesma pergunta. minha mãe ralhou: "ele vai achar que você é alcoólatra". ele não acha.
parti para uma semana de repouso. descobri que o cérebro não manda porra nenhuma no corpo. o cérebro é a grande rainha da inglaterra. quem manda, a thatcher do corpo humano, é a parte inferior do abdômen. ninguém falece por morte cerebral. as pessoas morrem porque a parte inferior do abdômen parou de funcionar. ela está envolvida em tudo! tossir, espirrar, rir, mijar, andar, sentar, deitar, comer.
repousar é um saco no primeiro dia. depois você se acostuma. agora já estou perfeitamente apto a não voltar à rotina. nem ao trabalho.
foram dias sendo paparicado por pai, mãe, avó; comendo bolo de fubá, comendo do melhor, lendo, dormindo. e, claro, vendo todos os episódios atrasados de mad men. agora é como se eu trabalhasse na steerling cooper. tenho a planta do escritório na minha cabeça. acho o don draper um zé mayer de quinta, a mulher dele uma louca varrida e a joan a mulher mais gata de todas as séries que já existiram. e eu queria ser o roger. o duro é ver tudo isso sem poder tomar um uisquezinho, dois uisquezinhos com eles.
ah, não posso encerrar sem mencionar as valorosas visitas. vieram a importante socióloga (que me alertou que eu estava com tempo de sobra para atualizar o blog), o mimético amigo (que disparou a contagem regressiva para a volta aos drinks), o casal mm (interessadíssimo na técnica da depilação pubiana), aquele casal vizinho que gosta de comer, a importante editora química (que se uniu à minha mãe para reclamar da minha cozinha, do meu fogão e da minha geladeira) e o arquiteto com repertório (que na verdade não passa de um bom dj). a importante ex-correspondente, entre um voto recontado para o maduro e outro para o caprilles, também fez questão de prestar sua solidariedade direto da linda e exuberante caracas.
agora é esperar. o médico me libera na segunda. na terça estou de volta para o trabalho e para o anão (deus é testemunha de que para colocar esse anão no ar pela primeira vez tive que pedir de joelhos. mais detalhes, outro dia).
na próxima sexta, o amigo formador de opinião aqui estará. tranquem as portas. será a prova de fogo da recuperação.
sentirei saudades do repouso. não vejo a hora de estourar minha apendicite.
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