Brasil

22/12/2012 às 14h36 (Atualizado em 22/12/2012 às 14h37)

Cavernas brasileiras são ameaçadas por projeto de mineração

Atividades humanas prejudicam o ambiente local

Floresta Nacional de Carajás, Brasil — Arqueólogos precisam escalar camadas de selva tropical incrustadas de orquídeas, onde rondam onças e sucuris, para chegar a uma das vistas mais deslumbrantes da Amazônia: uma série de cavernas e abrigos de rocha que guardam os segredos de seres humanos que viveram ali há mais de 8 mil anos.

Em praticamente qualquer outro lugar, estas cavernas seriam preservadas como uma fonte inestimável de conhecimento sobre a história da humanidade pré-histórica. Mas não neste recanto da Amazônia, onde a mineradora brasileira Vale está avançando com a expansão de um dos maiores complexos mundiais de extração de minério de ferro – um projeto que deverá destruir dezenas das cavernas veneradas por estudiosos.

As cavernas, e a espetacular riqueza mineral em seu meio, apresentaram um dilema ao Brasil. O minério de ferro de Carajás, exportado principalmente para a China (onde é usado para fabricar aço), é um dos pilares do crescimento econômico brasileiro – mas arqueólogos e outros pesquisadores sustentam que a ênfase nos ganhos financeiros de curto prazo ameaça uma janela incomparável para um passado nebuloso.

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"Este é um momento crucial para aprendermos sobre a história humana na Amazônia e, por extensão, o povoamento das Américas", afirmou Genival Crescêncio, espeleólogo e historiador do estado do Pará, que inclui Carajás. "Deveríamos preservar este local único para a ciência", disse ele, "mas estamos destruindo-o para que os chineses possam abrir mais algumas fábricas de carros".

Enquanto o Brasil tenta embarcar num esforço frenético para aumentar a mineração e aprimorar a infraestrutura, as equipes de trabalho na Amazônia e além desenterram uma descoberta após outra. No Rio de Janeiro, arqueólogos estão examinando um mercado de escravos e cemitério onde milhares de africanos foram enterrados. As descobertas vêm complicando a atualização do porto e da rede de transporte público antes das Olimpíadas de 2016.

Os tribunais brasileiros podem exigir que as empresas preservem sítios arqueológicos, ou que ao menos transfiram materiais arqueológicos a universidades ou museus onde possam ser estudados, antes de prosseguir com as obras. Em alguns casos, decisões judiciais paralisaram projetos enormes – como a mineradora Anglo American descobriu neste ano, quando promotores interromperam o trabalho num projeto no estado de Minas Gerais, por temores de que uma caverna importante pudesse ser danificada.

Estudiosos dizem que as cavernas de Carajás, que começaram a ser estudadas por arqueólogos na década de 1980, oferecem informações do que podem ser os mais antigos estágios de habitação humana na maior floresta tropical do mundo, ajudando a montar o quebra-cabeça de como as Américas foram povoadas.

Pedaços de vasos de cerâmica e ferramentas de ametista e quartzo estão entre os sinais de ocupação humana há milhares de anos. Tais artefatos, junto à abundância das próprias cavernas e abrigos de rochas, tornam Carajás um dos locais mais importantes da Amazônia para o estudo de humanos pré-históricos.

A Amazônia já era um foco de investigações arqueológicas, com pesquisadores descobrindo evidências de que muito mais pessoas podem ter vivido na região. Embora se pensasse que a Amazônia fosse incapaz de sustentar sociedades grandes e sofisticadas, hoje os pesquisadores sustentam que a região pode ter sido lar de prósperos centros urbanos antes da chegada de Colombo.

Antes dessas cidades serem entalhadas na floresta, as pessoas viviam nas cavernas da Amazônia. Em Pedra Pintada, uma caverna que (como as de Carajás) também fica no Pará, Anna C. Roosevelt, uma arqueóloga americana, mostrou que caçadores-coletores se mudaram para a região de 10.900 a 11.200 anos atrás, muitos antes do que se imaginava – na mesma época em que os povos da América do Norte estavam caçando mamutes.

Fora da Amazônia, descobertas notáveis foram anunciadas nos últimos meses em outros sítios brasileiros. Em Lapa do Santo, um abrigo rochoso perto da cidade de Belo Horizonte, arqueólogos encontraram, neste ano, o pictograma figurativo mais antigo do Novo Mundo até então. A arte rochosa, o desenho de um homem com pênis exagerado, teria sido feito de 10.500 a 12 mil anos atrás.

Para chegar às cavernas de Carajás, os pesquisadores precisam dirigir durante horas em estradas de terra cortando a selva, antes de escalar escarpas com vistas espetaculares das Montanhas Carajás – uma série de picos erguendo-se da floresta. Araras voam bem perto e morcegos mergulham pelas cavidades terrestres onde tribos caçadoras buscavam abrigo.

Algumas das cavernas, substancialmente mais frias no interior de suas aberturas do que na floresta circundante, poderiam abrigar mais de doze pessoas; outras não ofereciam espaço para mais do que duas ou três pessoas.

A Vale, na época uma empresa estatal, começou a desenvolver os depósitos de minério de ferro dali depois de sua descoberta, em 1967, por um geólogo brasileiro que procurava manganês para a United States Steel Corporation. Desde então a Vale foi privatizada, mas o governo ainda detém uma grande participação acionária.

Devido, em grande parte ao complexo de Carajás, onde milhares de operários trabalham 24 horas por dia, a Vale é responsável por 16 por cento do total de exportações do Brasil. Enquanto a empresa luta com uma acentuada queda nos lucros e com atrasos em projetos fora do Brasil, Carajás deve se tornar ainda mais importante.

A Vale declarou que pretende criar 30 mil empregos na expansão da extração de minério de ferro em Carajás, um projeto de US$ 20 bilhões chamado Serra Sul – que já está atraindo milhares de migrantes de todo o Brasil a esta movimentada parte da Amazônia.

Para cumprir com as normas sobre sítios arqueológicos, segundo executivos da Vale, a empresa contratou arqueólogos e uma equipe de espeleólogos, ou estudiosos de cavernas, para estudar a região da mina aberta de Carajás. A Vale também adaptou sua proposta de construção para preservar algumas cavernas, enquanto planeja destruir dezenas de outras. Embora a Vale reconheça que pelo menos 24 das cavernas a serem destruídas são "de alta relevância", ela declarou que preservará cavernas em outra região do Pará para compensar a perda.

"Para nós existe apenas um procedimento, que é ser transparente", declarou Gleuza Josué, diretora ambiental da Vale. Descrevendo a expansão de Carajás como um projeto de "extrema importância", ela disse que a Vale havia cumprido rigorosamente com a legislação ambiental e arqueológica para prosseguir com seus planos.

Autoridades regulatórias disseram ter obtido concessões da Vale, mas não conseguiram impedir a expansão da mina. Apesar das preocupações arqueológicas, o governo concedeu à empresa uma licença ambiental crucial em junho, autorizando o prosseguimento da expansão. A empresa ainda precisa de outra licença de instalação, que deverá ser concedida em 2013, para continuar com o Serra Sul. Arqueólogos e espeleólogos que conhecem Carajás parecem resignados com a possibilidade de que a Vale alcançará suas metas.

Frederico Drumond Martins, biólogo do governo que supervisiona a Floresta Nacional de Carajás, continuava preocupado com o fato de que as expansões da mina, nas décadas por vir, poderiam acabar destruindo todas as cavernas de Carajás.

Segundo Renato Kipnis, respeitado arqueólogo de São Paulo contratado pela Vale para pesquisar as cavernas de Carajás, a empresa o havia proibido de discutir sua importância arqueológica por um contrato de confidencialidade. Mais tarde, um porta-voz da Vale permitiu que Kipnis fosse entrevistado por e-mail, mas apenas se a empresa pudesse aprovar suas respostas.

Em respostas por escrito aprovadas pela Vale, ele se maravilhou com a importância das cavernas.

"O grande desafio", disse ele, "é encontrar um meio-termo entre a preservação e o desenvolvimento".

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