Crise no PT: do Congresso Nacional às câmaras municipais, 263 petistas eleitos abandonam partido

Brigas regionais são principal motivo de baixas. Lava Jato e economia também abalam legenda

Alvaro Magalhães, do R7

Senadora Marta Suplicy deixou o PT em abril Geraldo Magela/17.12.2014/Agência Senado

Abalado por divergências locais, pelos desdobramentos da Operação Lava Jato e, mais recentemente, por decisões impopulares tomadas pelo Palácio do Planalto para realizar o ajuste fiscal, o PT perdeu 263 filiados eleitos desde os últimos pleitos regional (2012) e geral (2014), aponta levantamento feito pelo R7 com base em dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

Ao todo, 25 prefeitos, 43 vice-prefeitos e 194 vereadores deixaram o partido voluntariamente desde janeiro de 2013. Soma-se ao grupo ainda a senadora Marta Suplicy (SP), eleita em 2010, e desfiliada em 28 de abril deste ano (veja gráfico com todos os dados abaixo).

Nesses dois anos e meio, o partido conseguiu a adesão de apenas um vice-prefeito e de cinco vereadores eleitos por outras legendas.

A maior parte dos ex-petistas migraram para recém-fundados PROS e SD.

No caso do Legislativo, a mudança para novos partidos impede que a legenda original possa pedir o cargo. A Justiça eleitoral entende que os detentores de cargos Executivos podem permanecer no poder independentemente do partido que escolham.

Sangria do Sudeste ao Nordeste

A região onde houve maior sangria no partido foi o Sudeste, com 84 baixas — o Estado de São Paulo concentrou mais da metade dos casos: 47. Reduto petista desde a primeira eleição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002, o Nordeste é a segunda região mais afetada pelas baixas, com 82 abandonos.

Para chegar aos números, a reportagem levou em consideração os casos de “desfiliação” e de “cancelamento de filiação a pedido do eleitor” de militantes eleitos.

R7 ainda entrou em contato com os desfiliados que possuíam e-mail cadastrado no Repositório de Dados da Justiça Eleitoral e desconsiderou os casos inseridos de modo equivocado no banco de dados do tribunal.

Considerando o total de eleitores — e não apenas baixas voluntárias entre filiados eleitos —, o PT perdeu 14.744 integrantes nos últimos dois anos e meio. Nesse recorte, porém, o partido ainda tem saldo positivo: recebeu a adesão de 15.473 pessoas.

Esses dados, porém, são um termômetro menos eficaz para detectar a situação de uma legenda, já que eleitores filiados há anos podem deixar de militar pelo partido sem que, necessariamente, peçam a desfiliação.

Mais baixas à vista

Entre os eleitos, as baixas no PT ainda tendem a aumentar. Recentemente, o deputado federal Wellington Prado (MG) pediu autorização para deixar a legenda. O PT estuda pedir o cargo, caso a saída se concretize.

Como ainda não foi efetivada, a desfiliação de Prado não foi computada no levantamento da reportagem.

Embora não tenha levado adiante a ameaça, o senador Paulo Paim (RS) também ensaiou abandonar o PT em junho por causa da posição da presidente Dilma Rousseff frente à fórmula 85/95, que alivia o impacto do fator previdenciário na aposentadoria.

— Tudo acaba se movendo. Ou mudam as coisas ou a gente — chegou a afirmar em junho, quando o Planalto ameaçava vetar a medida aprovada pelo Congresso.

Outro que chegou a ensaiar a legenda foi Rodrigo Neves, vice-prefeito de Niterói (RJ).

Já o apresentador José Luiz da Datena comunicou sua saída ao PT de Ribeirão Preto (SP), ao qual era filiado desde 1992. Ele deve se candidatar à Prefeitura de São Paulo pelo PP.

O caso de Datena também não foi computado no levantamento do R7, pois ele não tem cargo eletivo.

Questões regionais

Boa parte dos desfiliados ouvidos pela reportagem afirmou ter decidido deixar a legenda por ter-se desapontado com decisões recentes do partido, sobretudo ligados a questões regionais.

A vereadora Luciana Miranda, de Palmares (PE), disse “insatisfeita com a conduta dos integrantes do partido municipal”, que controlavam secretarias municipais.

— Seria impossível continuar num Partido que apoia um Prefeito que comete vários crimes contra a população.

A parlamentar deixou o partido em outubro de 2013.

— Filiei-me ao SD — afirmou — Era um partido novo no qual poderia me filiar legalmente, e não sofrer danos [...] Além do mais precisava de um partido que fosse oposição.

Já Emilio Torres de Almeida, o Emílio do Raio-X, vereador de Formosa (GO), justifica sua decisão por causa de um racha local — classificado por ele como “divisão em alas do diretório do partido”. Também em outubro de 2013 ele passou para o SD.

— Um novo partido, com perspectiva diferenciada do PT.

Medida ardilosa

Em Sousa (PB), a divergência interna chegou a tal ponto que o vereador Lafayette Gadelha, cuja desfiliação em setembro de 2013 consta do banco de dados do TSE, diz ter sido alvo de uma artimanha.

— Não me desfiliei — disse — Ocorre que o atual presidente do diretório municipal, que tentou, em 2012, impedir a minha candidatura e possui sérias divergências comigo, retirou meu nome da lista que é enviada ao TRE duas vezes por ano, numa medida ardilosa, oculta e arbitrária.

O caso de Lafayette Gadelha não foi computado pelo R7.

Algumas desfiliações ocorreram de forma mais amena. Foi o caso de Valmir Alcântara de Oliveira, o Careca do Esporte, vereador de Santa Bárbara D'Oeste (SP), que se filiou ao PROS em setembro de 2013.

— Não vislumbrava espaço na legenda [...] A saída se deu de forma tranquila, sem atrito e de maneira cordial.

Militante do partido desde os anos 1980, Durval Orlato, vice-prefeito de Jundiaí (SP), cita motivos mais estruturais, como o “distanciamento dos ideais originais” pela legenda, para ter deixado o partido no dia 12 do mês passado. Assim como Careca do Esporte, Durval filiou-se ao PROS.

— Tenho contatos com lideranças estaduais desse novo partido e me parece uma nova oportunidade de continuar atuando partidariamente e com liberdade de construir objetivos comuns.

Inconsistências

Embora a maior parte dos dados do TSE checados pelo R7 tenham correspondido à realidade, alguns casos haviam sido computados de modo errado. É o caso, por exemplo, de Lenildo Morais, vice-prefeito de Patos (PB), que consta como desfiliado desde 2013.

— Nunca saí do PT — afirmou — Em 2014, fui candidato.

R7 excluiu do levantamento as inconsistências detectadas.

A reportagem também procurou, nas manhãs de quarta-feira (2) e de quinta-feira (3), o Diretório Nacional do PT. Questionado sobre os números obtidos pelo R7, o partido não se manifestou até a noite de domingo (6).

  • Espalhe por aí:

Twitter

X
Enviar por e-mail
(todos os campos marcados com * são obrigatórios)
Preencha os campos corretamente.
Mensagem enviada com sucesso!