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publicado em 30/01/2011 às 12h19:

Brasil deve insistir na condenação dos torturadores, afirma mãe de desaparecido na Argentina

Líder das Madres de Plaza de Mayo espera que Dilma se comprometa com direitos humanos

José Henrique Lopes, enviado do R7 a Buenos Aires

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Enquanto no Brasil ainda se discute a possível criação de uma Comissão da Verdade para apurar crimes cometidos pela ditadura (1964-1985), a Argentina já vem julgando e punindo seus repressores, incluindo ex-governantes. Em dezembro do ano passado, o ex-presidente Jorge Rafael Videla, de 84 anos, foi condenado à prisão perpétua por crimes contra a humanidade.

Lá, onde se calcula que 30 mil pessoas foram mortas ou desapareceram nas mãos das Forças Armadas, a revogação das leis de anistia e dos indultos, em 2003, foi o que deixou o caminho livre para que os repressores fossem levados ao banco dos réus.

Ainda assim, a organização Madres de Plaza de Mayo, criada há 33 anos e formada hoje por cerca de 100 mães de desaparecidos, continua a levar para a rua sua reivindicação principal: aparição com vida de todos os que foram levados arbitrariamente pelos militares.

Todas as quintas-feiras, por volta de 15h, elas dão voltas na Praça de Maio, em frente à Casa Rosada, sede do governo, reivindicando os 30 mil desaparecidos. Na cabeça, levam o famoso pañuelo, o pano branco em que estão bordados os nomes de seus filhos. 

Para Evel Petrini, uma das líderes do movimento, que terá um encontro com a presidente Dilma Rousseff nesta segunda-feira (31) em Buenos Aires, a persistência das Madres fez com que os crimes dos militares argentinos não fossem esquecidos com os anos.

Ao falar do Brasil, em que a Lei de Anistia, de 1979, impede qualquer avanço na punição dos torturadores, ela afirma que o país deve ainda encarar a necessidade de julgar e condenar quem cometeu violações dos direitos humanos, não importa quanto tempo tenha se passado.

Sobre Dilma, que foi presa e torturada no Brasil, Evel diz que “é uma pessoa de valor”, que lutará por seu povo e se comprometerá com a causa dos direitos humanos.

- Mas deixemos ela trabalhar.

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista de Evel Petrini ao R7:

R7 - Vocês conhecem a presidente Dilma? O que esperam de seu governo?

Evel Petrini - Nossa impressão é de que [ela] é uma pessoa de valor. Sabemos que ela vem do partido de Lula e sabemos, quase por intuição, que vai continuar lutando por seu povo, mas para isso irá precisar de muita ajuda e cooperação, como Cristina [Kirchner, presidente da Argentina] precisa do nosso. Quando os presidentes trabalham para os seus povos, os poderes econômicos colocam muitos obstáculos. Então, o mais importante é que o povo tenha consciência de que devemos apoiar esses governos.

R7 - Dilma lutou contra a ditadura, foi presa e torturada. Isso traz uma expectativa especial quanto ao esclarecimento de crimes cometidos pelos militares no Brasil?

Petrini - Isso é algo que vai além do passado de luta dela, porque existem muitos que têm um passado de luta e depois mudaram de forma vergonhosa. Acreditamos que ela é uma revolucionária e temos muita expectativa pela forma que está atuando. Creio que ela vai se comprometer [com a questão dos direitos humanos], mas deixemos ela trabalhar.

R7 - Na Argentina, com a revogação das leis de anistia e dos indultos, os repressores estão sendo julgados e condenados. No Brasil, por outro lado, ainda se discute a possível criação de uma Comissão da Verdade, com poderes apenas investigativos. Por que os dois países vivem situações tão distintas?

Petrini - Depende muito do movimento popular. Aqui as coisas foram feitas porque nós não ficamos em casa. O movimento de mães de desaparecidos políticos que se iniciou no Brasil foi assumido totalmente por partidos políticos. Entregaram-se e não lutaram de forma independente. Aqui, nós chegamos ao ponto atual porque, durante 30 e poucos anos, as organizações combateram. As leis de Obediência Devida e Ponto Final (que anistiaram os militares) serviram para a impunidade por mais de 30 anos. Quando chegou [o ex-presidente Néstor] Kirchner, foi o ponto alto para nós, porque pudemos aprofundar a demanda pela condenação dos assassinos. Fica demonstrado, diante do país e do mundo, que as lutas não se perdem quando não são abandonadas. E também que, por mais tarde que possa parecer, sempre se consegue condenar um assassino. Acho que o Brasil deve começar a trabalhar nisso.

R7 - Houve, em algum momento, contato ou articulação com os movimentos que lutam pelo direito à memória e à verdade no Brasil?

Petrini
- Nós viajamos muito ao Brasil, convidadas por várias entidades, mas sempre trabalhamos de forma independente, porque tivemos posições diferentes. Lembro de uma vez que fomos ao Brasil, para um congresso, e todos, sem exceção, falavam sobre reparação. Tudo era reparação. As Madres expuseram suas demandas, explicamos por que não aceitamos a reparação, pois para nós é algo que denigre. Que uma mãe cobre pela vida de um filho é algo incrível. Essa posição nossa causou comoção. Não aceitamos a reparação porque não aceitamos a morte. Então, se não aceitamos a morte, não aceitamos todas as coisas que vêm em função disso. Nossos filhos não são uma lápide. 

R7 - Passados mais de 30 anos de sua criação, as Madres de Plaza de Mayo continuam a reivindicar a aparição com vida dos desaparecidos. Como é isso?

Petrini - Quando, no governo [do ex-presidente Raúl] Alfonsín, começaram a nos mandar ossos, porque tiveram início as exumações, faziam isso exatamente para que você aceitasse: morte, dinheiro e acabou o problema. No segundo pacote que chegou, nós o mandamos de volta. Não há mortos, não há ossos, não há exumação, nem monumentos póstumos. Se você viu o seu filho ser levado vivo, então ele está vivo para você. Se ninguém assume a responsabilidade por isso, se ninguém disser por qual motivo, como e onde ele foi morto, então eu não posso aceitar que ele está morto. Para mim, está vivo. Aquele que disse que ele está morto, ou viu ele ser morto ou o matou. Se viu matarem-no, tem que dizer quem foi. E, se o matou, deve ir preso e dar o motivo, como, o porquê e quando o matou. E isso para os 30 mil, não por um.

R7 - De que maneira as Madres avaliam o governo Lula?

Petrini - Consideramos Lula um grande estadista, que fez muitíssimo pelo Brasil e agora vai acompanhar a presidente Dilma. São personagens tremendamente necessários para a América Latina, e temos de assumir a defesa deles, pois estão lutando por um projeto popular.

R7 - Agora, tanto o Brasil quanto a Argentina têm presidentes mulheres. Qual é o significado disso para uma organização formada por mulheres?

Petrini
- Creio que não há importância no sexo, e sim na capacidade e na ideologia. Creio que essa mulher [Dilma] tem muita capacidade, por tudo o que viveu, por seus ideais, por seu compromisso. Cristina está demonstrando que não importa o sexo, ela tem uma inteligência avassaladora, é uma estadista 100%. Não se pode dizer o mesmo de muitos homens.


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