
Governo quer o caça frances, mas a Aeronáutica prefere a opção sueca
27 de Maio de 2012
Professor Gunter Rudzit diz que a França dificilmente vai transferir tecnologia ao Brasil
- O custo de desenvolvimento do Rafale é de 39 bilhões de euros. O Brasil vai comprar os aviões por cerca de 1 bilhão e receber toda a tecnologia de graça? Economicamente não faz sentido.
Ele disse ainda que o governo deveria fazer como a Índia, que está diversificando os fornecedores de tecnologia militar para melhorar a diplomacia e evitar que o Brasil fique militarmente dependente de um único país.
Leia, abaixo, a entrevista completa:
R7 - Por que o presidente Lula defende a compra de caças franceses?
Gunter Rudzit - Isso é resultado de uma visão ideologizada do PT de se colocar contra os Estados Unidos e da necessidade de buscar um fornecedor de material militar para atualizar rapidamente as Forças Armadas. Como só existem três grandes fornecedores (Estados Unidos, França e Rússia) e há sérias reservas em relação à logística do equipamento russo, seria natural essa aproximação com a França. A outra é a necessidade de se construir um mundo mais equilibrado e multipolar, e a França defende uma cadeira permanente para o Brasil no Conselho de Segurança da ONU (Organizações das Nações Unidas).
R7 - O presidente Lula está apostando em que tipo de parceria com a França?
Rudzit - Uma parceria estratégica é como a parceria entre Estados Unidos e Reino Unido, ou entre Estados Unidos e Japão, que não é só militar, vai além. Mesmo com a aproximação militar entre Brasil e França, como fica o restante? Na OMC (Organização Mundial do Comércio), eles defendem subsídios agrícolas. A França é um dos países que mais pressiona o Irã, enquanto Lula se aproxima de Ahmadinejad (presidente do Irã). A expressão “parceria estratégica” está sendo usada com certa leviandade.
R7 - O senhor concorda com o relatório da Aeronáutica, que recomenda a opção sueca e coloca em último os caças franceses?
Rudzit - Não é que tenha sido realmente o caça sueco em primeiro lugar. Uma série de pontuações foi feita. Qual desses elementos vai ser colocado como mais importante? Mantido o discurso do ministro [da Defesa], [Nelson] Jobim, de transferência de tecnologia como fundamental, e ouvindo o Sarkozy, certamente seria o francês.
R7 - O senhor também acha que a transferência de tecnologia é crucial para a escolha?
Rudzit - O que é estranho: no início do projeto FX-2, eram seis concorrentes. O ministro Jobim dizia desde o começo que a transferência de tecnologia seria o primeiro fator, então acho estranha a escolha desses três finalistas.
R7 - Por quê?
Rudzit - Os americanos não transferem tecnologia rapidamente como diz o ministro. Colocar o avião americano como finalista tendo essa premissa é estranho. Mais estranho é saber que o caça da Saab (sueco) também têm muitos componentes americanos, o que obrigaria os suecos a pedir licença ao Congresso americano.
R7 - Então o senhor acredita que a escolha dos Rafale são favas contadas?
Rudzit - Sim. Eu diria até que parece uma “licitação dirigida”, como se diz em Brasília, para um ganhador. Eu acompanhei o final desse processo quando o presidente Fernando Henrique Cardoso deixou a decisão para o próximo presidente. Lula cancelou essa compra, depois comprou um Airbus para suas viagens (Aerolula) e, quando retomaram o projeto, eu passei a acompanhar e achei muito estranho ter esses três finalistas porque é sabido por qualquer analista do mundo que os Estados Unidos não transferem tecnologia facilmente.
R7 - E a francesa Dassault?
Rudzit - A Dassault tem ações na bolsa de valores. É uma empresa mista que vai ter um prejuízo muito grande ao transferir tecnologia. Para se ter uma ideia, o custo de desenvolvimento do Rafale é de 39 bilhões de euros. O Brasil vai comprar os aviões por cerca de 1 bilhão e receber toda a tecnologia de graça? Economicamente não faz sentido. A empresa gastou tanto em um produto e vai transferir tanta tecnologia para um comprador que se tornará concorrente. Mesmo que o Sarkozy tenha escrito à mão que a tecnologia será transferida, essa certeza é um tanto vaga.
R7 - Então Lula prefere os caças franceses só para conseguir uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU?
Rudzit - Para conseguir uma cadeira na ONU, a gente teria de se aproximar dos Estados Unidos e da China, que não querem aumentar o Conselho. Não deve ser essa a razão, não encaixa: tem algum outro interesse por trás que ainda não veio a público.
R7 - O ministro Nelson Jobim (Defesa) vai entregar um relatório próprio ao presidente. O que esperar desse relatório? Ele vai recomendar o Rafale?
Rudzit - Com certeza ele vai recomendar. Eu não tenho dúvida alguma.
R7 - Qual empresa o senhor escolheria para o Brasil comprar os caças?
Rudzit - Depende do que se quer. Uma coisa que eu aprendi é que colocar todos os ovos em uma única cesta é um pouco arriscado. O Brasil se tornará militarmente dependente da França. Deveria haver uma diversificação, como a Índia vem fazendo. Seria bom diplomaticamente e estrategicamente também. Eu concordo que o submarino nuclear poderia ser francês, mas, tomada essa decisão, vamos buscar outros fornecedores e não colocar todos os ovos em uma cesta só. O Rafale não ganhou nenhuma concorrência internacional até hoje. Qual foi a última guerra que a França ganhou sozinha? Foi com Napoleão.
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